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Ucrânia

O que os emissários de Trump trataram com Putin?

A luta pela paz e liberdade no contexto da guerra: uma crítica ao imperialismo e suas consequências sociais.

Tarás Shevchuk

setembro 17, 2026

Entre o final de agosto e o início de setembro, visitaram Moscou o diretor da CIA e os negociadores da família Trump. A visita da CIA foi surpreendente e sobre seus objetivos e possíveis resultados trouxe mais especulações do que as poucas horas que durou. Em contrapartida, a visita dos dois representantes sionistas da Casa Branca, Steve Witkoff e Jared Kushner, já quase faz parte de uma tradição: Witkoff é a sétima vez que chega a Moscou e Kushner é a segunda. Seu objetivo oficial amplamente divulgado: “retomar as negociações de paz”. No entanto, foram recebidos por Putin nos fastuosos salões do Kremlin e seu grupo seleto com a prioridade dos negócios entre ambos os clãs, sabendo que ali não resolveriam esta guerra. A breve parte aberta da reunião – que se prolongou por mais de quatro horas – começou com uma série de mútuos elogios e mensagens de agradecimento e apreço de Putin a Trump. No dia seguinte, Witkoff e Kushner viajaram pela primeira vez a Kiev para se reunir com Zelenski. Tentamos neste artigo “decifrar” os motivos e as possíveis consequências dessas visitas.

By Tarás Shevchuk

Putin e Trump: com fracassos em suas guerras, sérias dificuldades domésticas e calendários eleitorais

No próximo 20 de setembro há “eleições” parlamentares na Federação Russa. A prolongação de quase cinco anos da guerra –que oficialmente só é mencionada como “Operação Militar Especial”– e o fato de que as tropas russas estão empantanadas em vários fronts com grandes baixas, produzem a incerteza e o desgaste de um setor das massas cada vez mais amplo.

A economia está concentrada na indústria de guerra e sua máquina militar se financia com as exportações de gás e petróleo, que continuam fluindo para a China e outros mercados, evitando as famosas “sanções” de alguns imperialismos. Apesar dos ganhos pelo aumento dos preços do barril em consequência da guerra no Golfo Pérsico e que Trump levantou nessa conjuntura as barreiras às suas exportações, os golpes desferidos pelos drones ucranianos em suas refinarias e depósitos – nas profundezas do território russo – lhe causaram perdas significativas (entre 30 e 40%) na produção, armazenamento e transporte de hidrocarbonetos. Além disso, ocorreu um enorme desabastecimento de gasolina para o consumo interno da Rússia, com as consequências de massivo descontentamento social por essa guerra, que antes parecia distante e “agora voltou ao lugar de onde partiu”.

Por outro lado, o atual recrutamento forçado é realizado de forma velada em várias regiões sob a forma de contratos. Apesar de que o recrutamento massivo foi negado veementemente pelo próprio Putin, toda a população sabe que existe a ameaça de declará-lo após as eleições. Com essa certeza centenas de milhares em idade militar tentam fugir do país o quanto antes. Como expressão disso, crescem as colunas de veículos em vários cruzamentos fronteiriços da Rússia com os países vizinhos que não os deportem de volta.   

A massiva atividade dos drones ucranianos também atingiu vários alvos militares importantes, como fábricas de armamentos e componentes eletrônicos e químicos. Mas a indústria química e eletrônica da China continua sendo a fornecedora fundamental desses insumos, embora oficialmente o negue.

Por outro lado, mantém-se a permanente atividade da resistência ucraniana dentro do território russo e nas regiões ocupadas da Ucrânia. Esta atividade é denominada “punir os verdugos”. Ou seja, localizar e executar militares de alto escalão, que cometeram crimes de guerra. A execução desses criminosos produziu pânico entre as elites do regime de Putin e, em especial, entre a alta cúpula das FFAA. E também provocou um constrangedor alerta no serviço secreto FSB, por não ter conseguido evitar essas execuções sumárias de generais e marechais que planejaram e bombardearam hospitais, escolas e jardins de infância. Em meio a essa generalizada paranoia, destaca-se Putin, popularmente chamado de “o avô do bunker”, que nos últimos anos aumentou a níveis históricos sua Guarda presidencial para 812 efetivos.

Votações sem possibilidade de eleição real

Nas últimas semanas, Putin foi obrigado a sair do bunker para percorrer as regiões do Extremo Oriente, tentando ressuscitar um pouco o partido oficial que ele fundou, Rússia Unida, que continua “afundado” nas pesquisas, apesar do temor dominante. Na verdade, como acontece em toda ditadura, não podemos cifrar expectativas no resultado das votações para a Duma Estatal no domingo, dia 20. Tudo está rigidamente controlado pelo aparato repressivo. Mas uma expressão da fragilidade do regime de Putin é a exclusão do partido “Yábloko”.

Para melhor informação, publicamos fragmentos de um artigo do blog @Ruinas_Kremlin “Ruínas do Kremlin”: “O Tribunal Supremo da Rússia excluiu o Yábloko das próximas eleições à Duma Estatal, a câmara baixa do Parlamento russo. O partido era a única formação política registrada no país que havia pedido publicamente o fim da guerra”.(…)Os principais dirigentes opositores foram excluídos da vida política, encarcerados ou forçados ao exílio, enquanto as candidaturas e as atividades dos partidos estão submetidas a um estrito controle estatal. Por isso, a exclusão do Yábloko não significa que o partido tivesse possibilidades reais de chegar ao poder e pôr fim à guerra por meio de uma vitória eleitoral. Sua participação representava, no entanto, uma das poucas vias legais para expressar uma posição abertamente contrária à guerra dentro do sistema político russo. (…) Durante a audiência judicial, vários centenas de simpatizantes do Yábloko se concentraram em frente ao Tribunal Supremo, na sua maioria jovens. Cantaram o nome do partido e mostraram seu apoio à formação. Segundo informações publicadas em meios russos, as forças de segurança revisaram os telefones de algumas das pessoas presentes. Dois jovens que levavam folhetos do Yábloko foram levados por agentes “para manter uma conversa”, enquanto o motorista de um carro que passou perto do tribunal com uma música do Yábloko tocando foi multado. (…) O Yábloko era a única formação registrada que concorria às eleições e que havia pedido publicamente o fim dos combates. (…) O partido tinha a intenção de concorrer às eleições sob o lema “Pela paz e pela liberdade”.

No que diz respeito a Trump, não é objeto desta nota detalhar a situação nos EUA. Mas seu fracasso na guerra contra o Irã tem reflexos internos e internacionais. No dia 3 de novembro são as eleições intermediárias nos EUA. E à medida que a data se aproxima, Trump aumenta sua impaciência por tentar se recuperar do mais baixo nível de aceitação desde o início de seu segundo mandato.

Neste contexto, no dia 24 de setembro Trump espera a visita de Xi Jinping em Washington. Trump tenta preparar uma recepção que possa emular a impressionante demonstração recebida do máximo líder do imperialismo chinês. E não é muito difícil deduzir que –ante a evidência do enfraquecimento relativo dos EUA a nível global–  as visitas de seus emissários a Moscou tiveram o objetivo de mostrar que ainda tem “cartas” para influenciar o ditador do Kremlin. Inclusive, porta-vozes do Kremlin incentivam a possibilidade de um encontro tripartite de Putin com Trump e Xi Jinping nos dias 18-19 de novembro, no âmbito da cúpula da APEC 2026, Comércio na Ásia-Pacífico, em Shenzen, China.

A escala final dos emissários de Trump foi Kiev

Witkoff e Kushner foram recebidos pela primeira vez na capital da Ucrânia, que assim como a cidade de Moscou no dia anterior, esteve sujeita a um cessar-fogo pactuado enquanto permanecessem os emissários da Casa Branca. Segundo disseram os enviados, trouxeram de Moscou novas ideias” para encontrar “caminhos para alcançar a paz”.

Mas rapidamente ficou evidente que essas “novas” ideias reproduzem as velhas aspirações imperialistas da Rússia, às custas da integridade e soberania da Ucrânia e que Putin chama de “eliminar as causas originais do conflito”. Ou seja, eliminar a nação ucraniana como estado independente. E que “os caminhos para a paz” são na verdade labirintos sem saída, para dar tempo a Putin e Trump para simular que “buscam a paz” diante de seus respectivos frontes internos. Mas essas visitas dos mercadores sionistas são uma grosseira paródia midiática que não consegue enganar nem as massas ucranianas nem as russas.

Quais são as perspectivas para o restante do ano?

O povo martirizado ucraniano sabe que Putin não quer cessar a guerra. Tendo fracassado estrategicamente, precisa se apoderar de algum “botim” tático que justifique sua longa guerra de invasão. Mas não conseguiu conquistar a região de Donetsk – que ele mesmo se apressou a incorporar à constituição da FR – e se tornou sua obsessão maníaca. Cresce a convicção de que o fim da guerra está relacionado estreitamente com a queda do regime de Putin.  

O ministro das relações exteriores, Serguey Lavrov, se posiciona claramente como um dos falcões do regime. Com uma retórica desajeitada, fala de uma guerra “contra o Ocidente coletivo” e de acabar com a “metástase nazista” que devorou a Ucrânia e personifica o “regime de Kiev”. Mas, contraditoriamente, saúda com entusiasmo o triunfo eleitoral do partido AfD Alternativa para a Alemanha na região da Saxônia-Anhalt, de extrema-direita e liderado por notórios personagens fascistas (ver nota: https://litci.org/es/la-extrema-derecha-gana-las-elecciones-regionales-alemanas-el-movimiento-obrero-tiene-que-dar-una-respuesta/?utm_source=copylink&utm_medium=browser). E é conhecido seu apoio com todos os seus recursos a outros partidos de viés xenófobo e racista no restante da Europa.

Apenas cruzou a fronteira o trem em que os emissários sionistas retornaram à Polônia, os ataques de mísseis balísticos sobre Kiev e outras cidades recomeçaram com maior virulência. A destruição e as mortes continuaram com brutal intensidade e não se vê um final próximo para a guerra da Rússia contra a Ucrânia.

Por nossa parte continuaremos apoiando a resistência do povo trabalhador ucraniano e sua juventude, que na linha de frente e na retaguarda tomou consciência de suas próprias forças, engenho e capacidade de autoorganização. Fomos, somos e seremos uma parte ativa e decidida da unidade de ação e dos comboios da classe trabalhadora, que levem o indispensável apoio material à heroica resistência ucraniana. Um povo que se prepara para suportar o inverno próximo, em condições ainda mais extremas devido aos danos à infraestrutura. E também para superar assim os obstáculos do próprio regime político de Kiev e das potências europeias que declaram seu apoio, que por seu caráter de classe não estão nem estarão a serviço da liberação nacional e social. 

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