Afeganistão, 5 anos após a ocupação
No dia 15 de agosto de 2021, as tropas de ocupação estadunidenses se retiraram do Afeganistão, pondo fim a uma criminosa ocupação que durou 20 anos — durante a qual o imperialismo estadunidense investiu cerca de 300 milhões de dólares por dia para sustentar um corrupto governo títere, bem como uma força militar que praticou todo tipo de violação de direitos humanos contra a população afegã.
“Além disso, a situação da mulher afegã não mudou de qualidade durante os 20 anos de ocupação. Apenas 25% das mulheres são alfabetizadas. Metade delas se casa antes dos 18 anos de idade. O pagamento de dote para a família da noiva e a imposição do uso da burca são generalizados particularmente nas áreas rurais onde mora 75% da população afegã. O regime de ocupação nunca se preocupou em aplicar de fato a lei contra a violência doméstica. Outra lei, a que garante a inclusão do nome da mãe nos documentos de identidade dos filhos só foi votada no final de 2020. Na verdade, o imperialismo não ocupou o Afeganistão para “salvar” as mulheres da opressão. Ao contrário, ele essencialmente se acomodou às práticas sociais machistas vigentes com algumas mudanças cosméticas (algum recurso para ONGs, a presença de mulheres no parlamento do regime títere entre outras).”(1)
Essa ocupação criminosa foi antecedida por outra ocupação: a da União Soviética, iniciada em 1979 e concluída com a expulsão das tropas soviéticas 10 anos depois. Esta ocupação colocou fim a duas conquistas importantes da Revolução de Abril de 1978 (chamada de Revolução de Saur): a reforma agrária e o fim do dote matrimonial no país (uma forma de mercantilização da mulher), e mergulhou o Afeganistão em uma guerra que ceifou a vida de um milhão de pessoas.
Nestes cinco anos o novo regime liderado pelo Talibã impôs o monopólio da violência nas mãos do Estado, e conquistou o reconhecimento diplomático de direito (de jure) por parte da Rússia e de facto por parte de todos os seus vizinhos, além das potências internacionais. Esse reconhecimento foi obtido devido ao interesse desses países em acomodar o Afeganistão aos seus próprios objetivos. Por exemplo, a União Europeia promoveu uma reunião com representantes do Estado afegão em junho cujo objetivo era facilitar a deportação de refugiados afegãos residentes na União Europeia — uma clara violação dos direitos humanos desses refugiados.
Os países vizinhos têm interesses relacionados à segurança na região: ou seja, interessa-lhes que o regime do Talibã coíba a organização de movimentos dissidentes em seu território. O melhor exemplo é a China, que ocupa violentamente a região de Xinjiang — onde vive uma maioria de uigures sob um violento estado de ocupação. A China tem interesse em que o regime afegão coíba as atividades dos grupos que lutam pelos direitos dos uigures, o que o regime afegão faz com prontidão. Neste momento o regime paquistanês acusa o regime afegão de facilitar a ação do TTP (o Talibã que atua no Paquistão e que, apesar da afinidade ideológica, não constitui a mesma organização), e por isso expulsou centenas de milhares de refugiados afegãos, faz bombardeios esporádicos em áreas fronteiriças e bloqueios nos postos fronteiriços
A vida não melhorou
No entanto, apesar da vitória da população afegã ao expulsar o invasor em 2021, a vida não melhorou, e o PIB reduziu em 20%. Os primeiros responsáveis são os países imperialistas, que mantêm bloqueados cerca de 10 bilhões de dólares em fundos do Afeganistão (70% deles bloqueados nos Estados Unidos) — recursos que seriam fundamentais para a melhoria das condições de vida da população. A exclusão do país do sistema internacional de pagamentos (SWIFT) encareceu a importação de alimentos, medicamentos e combustíveis dos quais o país é dependente. Além disso, as potências imperialistas reduziram drasticamente a ajuda humanitária. Hoje, dois terços da população afegã vive abaixo da linha da pobreza.
O segundo responsável é o próprio regime do Talibã. Suas políticas econômicas e sociais impostas de forma ditatorial não trouxeram melhorias nas condições de vida no país.
Sua política de atrair mineradoras transnacionais para explorar riquezas minerais estimadas em 1 trilhão de dólares (incluindo reservas de lítio e terras raras) ainda não frutificou. Há também acordos com países da Ásia Central, como o Uzbequistão e o Cazaquistão, que querem construir uma rota ferroviária para os portos do Paquistão através do Afeganistão — negociações que ainda estão em curso.
A agricultura continua sendo a principal atividade econômica do país. A exportação de frutas, açafrão, carvão e tapetes artesanais, e as remessas de refugiados para suas famílias são as principais fontes de moeda forte. Já a tributação das atividades agropastoris, e do comércio nacional e internacional, provê os recursos para a manutenção do estado, que retirou os recursos da educação e saúde públicas e focou no pagamento das forças militares e policiais, e em algum investimento em rodovias.
Na agricultura, o regime do Talibã coibiu a plantação de papoula, reduzindo a produção anual de cerca de 6 mil toneladas para cerca de 300 toneladas de ópio. Essa política levou a protestos de camponeses que reivindicavam uma política de substituição dessa produção por outra produção agrícola sustentável. Por outro lado, o tráfico de ópio foi substituído parcialmente pelo tráfico de drogas sintéticas. Nenhuma política de reforma agrária foi implementada; ao contrário, há uma acomodação do regime Talibã aos grandes proprietários e à vergonhosa política racista contra a população xiita Hazara, que periodicamente é expulsa de suas terras no centro do país.
A política mais perniciosa do regime afegão, no entanto, é em relação às mulheres. O Afeganistão é o único país do mundo que proíbe o acesso à educação para meninas e mulheres acima dos 12 anos de idade, e que torna compulsório o uso do chador (uma vestimenta que oculta e desumaniza as mulheres) e as obriga a sair à rua acompanhadas por um homem da família (mahram). Isso faz com que cerca de metade das mulheres só saia de casa uma ou duas vezes por mês, transformando seus lares em verdadeiras prisões. Essa política misógina tem um enorme impacto econômico, já que as mulheres constituem cerca de metade da força de trabalho e estão excluídas, na prática, do mercado de trabalho, das escolas e universidades e de qualquer desenvolvimento humano, o que além de desumano, levará, por exemplo, ã falta de professoras, enfermeiras, médicas e cientistas num futuro próximo.
Uma política socialista para o Afeganistão se inicia pela exigência de desbloqueio de todos os fundos afegãos congelados nos países imperialistas, pela ampliação da ajuda humanitária e pelo reconhecimento diplomático do país por todos os Estados, restituindo seu direito a um assento na Organização das Nações Unidas.
Além disso, é fundamental integrar as campanhas em defesa dos direitos dos refugiados afegãos contra as deportações, sejam dos Estados Unidos, União Européia ou países vizinhos como o Paquistão e o Irã.
Por fim, é decisivo o apoio aos protestos operários e populares e à auto-organização dos trabalhadores, das mulheres e demais setores oprimidos — como o protesto ocorrido no dia 9 de junho na cidade de Herat, onde cerca de 100 pessoas protestavam contra a ação da polícia de costumes contra as mulheres gritando “Educação, trabalho e liberdade”, manifestação que foi duramente reprimida a tiros pelas forças de repressão, com mortos e feridos.
Quanto à auto-organização, é necessário apoiar as organizações populares tais como a RAWA (Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão), a mais antiga do país, que defende uma república laica, se opõe a qualquer intervenção estrangeira, defende os direitos da minoria Hazara e trabalha clandestinamente na educação de meninas e em redes de solidariedade. Outra organização é a LRA (Esquerda Revolucionária Afegã), que fez um chamado por solidariedade internacional para defender os direitos das mulheres, uma verdadeira independência nacional do Afeganistão, a utilização das riquezas naturais do país para o desenvolvimento socioeconômico e bem-estar da população, e a defesa de uma educação pública e gratuita para todos os homens e mulheres.
Notas:




