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Bolívia

Bolívia: A direção da COB negocia, trai o movimento e o governo declara estado de exceção

Rodrigo Paz e Mario Argollo

Lena Souza

junho 20, 2026

Após 49 dias de uma das maiores mobilizações dos últimos anos, a direção da Central Operária Boliviana (COB) participou de um diálogo com o governo de Rodrigo Paz (18/06) e abandonou a exigência de sua renúncia, que havia sido aprovada em assembleias nacionais anteriores. Apresentaram-se como representantes de todos os setores mobilizados e condicionaram a continuidade das negociações à libertação dos detidos. No entanto, apenas um dia depois (19/06), assinaram um acordo com o governo que sequer garante a libertação dos detidos.

Essa decisão não conta com mandato e aprovação das bases que sustentavam a luta. De fato, a própria base operária e mineira da COB já havia reduzido significativamente sua participação nas mobilizações, enquanto organizações camponesas e indígenas continuavam a manter a maioria dos bloqueios de estradas e a pressionar o governo. Nem a Federação Tupac Katari nem a Confederação Unificada dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) participaram do processo de negociação. Ambas as organizações denunciaram a falta de consulta e mantiveram suas táticas de pressão. A decisão de negociar foi tomada pela direção da COB (Central Operária Boliviana), desconsiderando os sacrifícios de milhares de mobilizados e arrogando para si uma representação que já não exercia na prática. Essa mudança política desarmou a luta justamente no momento em que o governo vivenciava sua maior crise, favoreceu a divisão dentro do movimento e abriu caminho para uma nova ofensiva repressiva contra o movimento popular.

Acordos preliminares com os mineiros

A direção da COB e os dirigentes do setor mineiro estatal chegaram a acordos com o governo antes que as organizações camponesas e indígenas pudessem discutir coletivamente os rumos da mobilização. Os mineiros de Colquiri e Huanuni, que constituem o setor mais importante e influente da Central Operária Boliviana (COB) em seus órgãos decisórios, chegaram a acordos com o Poder Executivo nos dias 17 e 18 de junho, antes de a COB assinar o acordo geral e convocar oficialmente o fim dos bloqueios. Em outras palavras, fica nítido que a direção da COB criou as condições para impedir qualquer questionamento por parte de sua principal base.

Durante semanas, trabalhadores, setores populares, camponeses e indígenas mantiveram bloqueios de estradas e manifestações, enfrentando repressão, escassez e enormes dificuldades econômicas. A força demonstrada pela base encurralou o governo. Contudo, embora os setores camponeses e indígenas continuassem a manter a maioria dos bloqueios e exigissem discussões coletivas sobre os próximos passos, a direção da COB não convocou uma ampliación do movimento, não fez nenhuma tentativa de manter os setores fabril, mineiro e educacional unidos ao movimento popular, indígena e camponês, e optou, em vez disso, por canalizar a força dos bloqueios para a negociação e a desmobilização, priorizando os acordos alcançados por sua principal base operária e agindo sem o mandato de todos os setores mobilizados.

O acordo da COB com o governo não garante a libertação dos presos, nenhuma demanda imediata e concede ao governo um prazo de 90 dias

O conteúdo do acordo revela a verdadeira natureza da negociação. A profundidade da capitulação da direção da COB ficou evidente em seu tratamento aos detidos. Apenas dois dias antes da assinatura, a própria direção da central havia declarado que a libertação dos presos era uma condição fundamental para o avanço do diálogo e que, sem esse “primeiro passo” do governo, qualquer acordo seria visto como uma traição pelas bases. No entanto, o documento final não garante a libertação de nenhum dos detidos, não estabelece prazos, nem prevê a retirada das acusações ou o encerramento dos processos judiciais. O acordo limita-se à criação de uma comissão composta pelo governo, pela COB e pelo Ministério Público para “gerir a libertação” e analisar os casos individualmente.

Nenhuma das principais reivindicações da mobilização tem uma resposta imediata. O governo obteve um prazo de 90 dias para estudar as reivindicações e elaborar propostas, sem se comprometer a resolver a crise econômica ou a atender às reivindicações por salários, abastecimento, emprego e condições de vida.

Na prática, a direção da COB deu ao governo o tempo necessário para se reorganizar politicamente e retomar a iniciativa.

Comunidades camponesas e indígenas rejeitam o acordo.

O acordo foi recebido com rechaço por diversos setores camponeses e indígenas, que denunciaram a falta de consulta e questionaram a decisão da direção. A direção da COB foi rotulada de traidora do movimento. Organizações de base afirmam que o fim das medidas de pressão ignora o sacrifício de milhares de manifestantes mobilizados e rompe com o acordo de unidade construído durante quase sete semanas de luta.

As organizações camponesas e indígenas foram as principais forças motrizes da mobilização nacional. Sua participação nos bloqueios, marchas e confrontos com as forças repressivas foi crucial para sustentar o movimento. Portanto, a exclusão desses setores das decisões estratégicas reflete uma profunda crise de representatividade dentro da própria direção da COB.

A resistência da base demonstra que a luta não foi derrotada. O que está em jogo é a orientação de uma direção que decidiu negociar de cima para baixo e sem o mandato daqueles que mantiveram a mobilização nas ruas e estradas.

O governo aproveita-se da divisão causada pela direção da COB e declara estado de emergência

A decisão da direção da COB de desmobilizar e dividir o movimento foi imediatamente explorada pelo governo. Mal recuperou espaço para manobras políticas, o Poder Executivo decretou estado de emergência, ampliando os poderes repressivos do Estado e permitindo maiores restrições às liberdades democráticas.

O governo pretende usar o estado de exceção para restaurar a autoridade estatal, conter novos protestos e disciplinar os setores que permanecem mobilizados. A ofensiva do governo confirma que as negociações da COB não levaram a um resultado favorável para os trabalhadores e as comunidades rurais. Pelo contrário, a desmobilização enfraqueceu a capacidade de resistência e facilitou a iniciativa repressiva do Poder Executivo.

Neste momento, mesmo antes de o estado de exceção ser submetido à Assembleia Nacional para aprovação, notícias indicam o envio de forças militares para diversas regiões do país em pontos de bloqueios de estradas, bem como a perseguição e as tentativas de captura de dirigentes do movimento.

A solidariedade internacional torna-se cada vez mais necessária

A declaração de estado de exceção pelo governo Rodrigo Paz marca uma nova escalada na ofensiva repressiva contra o movimento popular. Com essa medida, o Poder Executivo busca conceder a si mesmo maiores poderes para desmantelar mobilizações, criminalizar protestos e garantir a intervenção de forças repressivas contra camponeses e povos indígenas que continuam lutando e mantendo os bloqueios. Ao mesmo tempo, a traição da direção da COB, ao abandonar a exigência de renúncia do governo, sentar-se para negociar e pedir o fim das medidas de pressão, enfraquece a resistência e deixa os setores mobilizados mais expostos aos ataques do Estado. Nessas condições, a solidariedade internacional torna-se essencial. Organizações operárias, populares, camponesas, indígenas, estudantis e de direitos humanos em toda a América Latina e no mundo devem se manifestar contra o estado de exceção, denunciar qualquer tentativa de repressão e apoiar ativamente a luta do povo boliviano. Diante do isolamento que o governo e as direções conciliatórias buscam impor, é necessário fortalecer uma ampla campanha internacional de solidariedade com aqueles que continuam a enfrentar as políticas de austeridade e fome.

É necessário construir uma direção alternativa

A luta destes últimos 49 dias demonstraram um enorme espírito combativo entre trabalhadores, camponeses e povos indígenas. Também expôs as limitações de uma direção que, quando o governo estava mais fragilizado, optou por salvá-lo por meio de negociações e concessões.

A experiência oferece uma lição fundamental: nenhuma saída favorável para as maiorias exploradas e oprimidas pode depender de direções que subordinam a luta a acordos com os governos no poder. Contudo, a própria Central Operária Boliviana (COB), devido à sua composição histórica e social, permanece potencialmente um espaço onde a força organizada da classe trabalhadora, do campesinato e dos movimentos populares do país se expressa, podendo, portanto, constituir uma base para um poder alternativo das maiorias oprimidas. Mas esse potencial só pode ser realizado em condições de democracia operária e controle efetivo da base sobre a sua direção. Enquanto a direção da COB agir de forma desvinculada das decisões coletivas e sem controle efetivo daqueles que sustentam as mobilizações, seu papel continuará sendo o de mediar e conter a luta, mesmo em momentos decisivos.

Portanto, não se trata simplesmente de trocar nomes na direção mas de construir uma nova direção verdadeiramente democrática, revolucionária e socialista, independente dos setores governamental e empresarial, que responda exclusivamente às decisões soberanas da base mobilizada.

A tarefa imediata é reorganizar a resistência e fortalecer a coordenação entre os trabalhadores, camponeses e povos indígenas e preparar novas instâncias de deliberação. A força demonstrada pela mobilização nacional permanece. O que se faz necessário é uma direção consequente, disposta a levar a luta até o fim e a construir um caminho para os trabalhadores e povos da Bolívia.

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