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Especial Palestina

Libertação de Thiago Ávila e Saif Abukeshek, da cumplicidade com Israel à força da mobilização pela Palestina

Soraya Misleh

maio 14, 2026

Após dez dias sequestrados e submetidos a torturas e maus tratos nas mãos do estado genocida de Israel, os coordenadores da Global Sumud Flotilha (GSF), Thiago Ávila e Saif Abukeshek, finalmente foram libertados nesta semana e puderam retornar ao Brasil e à Espanha respectivamente. A recepção expressou a força da mobilização internacional e o alívio perante, nas palavras de Thiago à sua chegada, a “correção de uma violação”.

Ele fez questão de afirmar que isso não diz respeito a um indivíduo e que não é preciso mais exemplos a demonstrar que Israel é um estado terrorista – é mais do que suficiente um olhar para a contínua Nakba, catástrofe cuja pedra fundamental é a consolidação desse projeto colonial e racista em 1948, mediante limpeza étnica e genocídio que seguem e se aprofundam.

Como de praxe, Thiago jogou os holofotes não a sua individualidade e agressões que sofreu, destacando que não é sobre si, mas sobre os palestinos, dos quais mais de 9 mil seguem nas masmorras sionistas, inclusive 400 crianças, submetidos a torturas inomináveis – muito, mas muito além do que a grave violação contra os dois coordenadores da GSF e contra o conjunto dos 181 ativistas sequestrados violentamente em águas internacionais, mais um crime na extensa ficha corrida do estado sionista.

No cárcere, Thiago relatou que ouvia os gritos de palestinos, um custo político que Israel, também como observou, está disposto a pagar, diante da desumanização desse povo que existe porque resiste. O custo político de manter nas masmorras por 100 anos Thiago e Saif, como o estado genocida os ameaçava, seria alto demais, reconheceu o ativista brasileiro ainda no aeroporto, logo após sua chegada.

Mas o que tudo isso expõe? Em primeiro lugar, o tamanho da impunidade percebida por Israel, diante de cumplicidade internacional histórica. Israel se sentiu avalizado para buscar a “solução final” na contínua Nakba.

O aceno veio de governos de todo o mundo – para além dos partícipes desse crime, o imperialismo estadunidense e as potências europeias. A maioria não cogita romper relações com Israel e segue a sustentar com acordos, tratados e tapinhas nas costas essa indústria da morte. Caso lamentavelmente do Brasil de Thiago Ávila.

A cara da impunidade

O lema da Global Sumud Flotilha descarta maiores explicações: “Quando os governos falham, nós navegamos.” Não fosse tamanha impunidade, Israel não se sentiria confortável para continuar com o genocídio e expandir suas garras, sequestrando cidadãos de dezenas de nacionalidades em águas internacionais e ainda mandando 34 para o hospital. Além de Thiago, outros três brasileiros estavam entre os sequestrados: Mandi Coelho, Leandro Lanfredi e Thaiane, soltos juntamente com os demais dois dias depois, à exceção dos líderes.

A estes, estaria reservado servirem de exemplo para que ninguém mais ousasse romper o bloqueio criminoso que já dura mais de 17 anos e tentar levar ajuda humanitária a Gaza diante da imposição da fome, sede, falta de tratamento médico e total falta de condições de vida como parte do genocídio.

A flotilha expõe o crime contra a humanidade e incomoda. Expõe a cumplicidade internacional, evidenciada ainda com a colaboração da Grécia no sequestro em águas próximas a esse país, em área de resgate de embarcações. Os ativistas, ao serem interceptados, recorreram ao SOS nos rádios – a Grécia não respondeu; a GSF denunciou sua colaboração.

É de conhecimento geral que a flotilha tem o poder de levantar ondas de solidariedade em todo o mundo. Continua a navegar, com outros quatro brasileiros, num momento em que se normaliza o genocídio e a limpeza étnica.

Tristemente, não bastassem os horrores das cenas do genocídio, mesmo aberrações como a aprovação por Israel da lei de execução por enforcamento de presos políticos palestinos ao final de março último não lotaram as ruas.

O refluxo nas mobilizações pela Palestina é alimentado pelo silenciamento e omissão da mídia em mãos de grandes capitalistas – a mesma que não cansa de repercutir a propaganda sionista que desumaniza o povo palestino e criminaliza sua resistência, bem como pessoas solidárias, como Thiago Ávila e Saif Abukeshek, cuja campanha de difamação precedeu o sequestro e continua.

A condenação do presidente nacional do PSTU, Zé Maria, é parte do mesmo processo de criminalização e perseguição na busca de silenciar as vozes que se levantam pela Palestina. Mas quanto mais tentam calar, mais alto essas vozes se fazem ouvir – como o povo palestino ensina: quando um de nós cai, dez outros se levantam.

Lamentavelmente o custo político de matar e torturar palestinos é algo que Israel está disposto a pagar, porque vale o preço de exportar suas tecnologias da morte para a repressão e genocídios, como do povo pobre e negro no Brasil. O crime compensa.

Os governos de todo o mundo avalizam e isso precisa cessar. A flotilha é forte denúncia nesse sentido. Faz 20 anos que o povo palestino clama por boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel para isolar internacionalmente o estado racista e colonial de Israel. Sanções, como afirma a relatora de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Francesca Albanese, não são caridade, não são favor, são o mínimo: obrigação legal. A história vai cobrar.

Chamado às ruas

Se por um lado o estado genocida não quis pagar o custo político de manter por 100 anos Thiago e Saif no cárcere, como era sua vontade, isso se deu em função da pressão e mobilização internacional que evidenciava um novo ascenso. Portuários na Itália já alertavam sobre novas greves; estudantes na Europa voltavam a falar em novos acampamentos; as vozes pela Palestina se elevavam nas ondas movidas pela flotilha, sobretudo pela demora em libertar seus líderes e denúncia de maus tratos e tortura.

A lição é que não se deve sair das ruas pela Palestina; a mobilização e pressão a governos segue fundamental. Oprimidos e explorados precisam se organizar. Afinal, para além da enorme injustiça, a causa palestina é síntese de suas lutas em todo o mundo. Por ocasião dos 78 anos da Nakba, é urgente ampliar e se somar às mobilizações, de São Paulo e Brasil à Europa e Estados Unidos.

Thiago Ávila fortaleceu esse chamado a sua volta, no aeroporto: “Não tenham medo deles, eles que têm que ter medo do povo. Donald Trump e Benjamin Netanyahu vão pagar por seus crimes. Eles vão ser colocados na lata de lixo onde merecem estar, as suas ideologias racistas e supremacistas como o sionismo e essa ideologia destrutiva, como o imperialismo estadunidense, vão ser derrotadas. Vamos conseguir construir um mundo livre das opressões, da exploração e da destruição da natureza. Mas pra isso a gente vai precisar lutar muito, vai precisar se mobilizar muito.” Saif expressou: “Não somos heróis, queremos que se fale sobre a Palestina.”

O que mais se escuta quando se visita a Palestina ocupada é: “contem ao mundo o que viram, porque a comunidade internacional nos abandonou”.

Quando pessoas de diversas partes do mundo se unem à flotilha, quando alguém como Thiago Ávila, um brasileiro, empresta sua imagem, espaço, tempo e voz para expor e denunciar os crimes contra a humanidade do sionismo – e disposto a pagar um preço por isso, continua a voltar em novas flotilhas, ainda faz corajosamente o “V” (símbolo palestino que significa “resistência até a vitória” diante dos algozes sionistas) –, o povo palestino sente que não está tão só.

Isso está expresso em mural em sua homenagem pintado em Gaza, na vigília pela sua libertação e de Saif nas praias da estreita faixa tão maltratada, nas expressões de gratidão. O povo palestino resiste e inspira a solidariedade.

Para Thiago, Saif e todos os que se recusam a silenciar e aceitar o genocídio, os versos do poeta palestino Mahmud Darwsish:

“Nós sofremos de um mal incurável que se chama esperança. Esperança de libertação e de independência. Esperança de uma vida normal, na qual não seremos nem heróis nem vítimas. Esperança de ver nossas crianças irem à escola sem riscos. Para uma mulher grávida, esperança de dar à luz um bebê vivo, num hospital, e não uma criança morta diante um posto de controle militar. Esperança de que nossos poetas verão a beleza da cor vermelha nas rosas e não no sangue. Esperança de que esta terra reencontrará seu nome original: terra de amor e de paz. Obrigado por carregar conosco o fardo dessa esperança.”

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