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Lit-QI e Partidos

Camarada Jan Talpe! Até o Socialismo Sempre!

A luta de classes e a solidariedade proletária como legado de Jan Talpe.

Liga internacional de los trabajadores

abril 24, 2026

A todos os camaradas da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional

Informamos a todos os nossos militantes e simpatizantes de nossa organização o falecimento do companheiro Jan Talpe, membro da LCT da Bélgica e da Comissão de Moral Internacional. É uma perda muito dolorosa que nos comove profundamente. Não porque tenha sido inesperada nem surpreendente. Mas ao contrário, porque foi uma decisão consciente e seu desfecho foi uma angustiante espera para todos aqueles que durante muitos anos apreciamos esse ser humano e camarada excepcional e desfrutamos de sua generosidade sem limites, de sua capacidade e lucidez, de seu humor fraternal e sua humildade.

Sem dúvida, ele foi nosso militante decano. Continuou com seus 92 anos ativo, orgânico e disciplinado até suas últimas horas de vida. Nunca pretendia ser dirigente. Mas em sua extensa e intensa trajetória de vida e militante formou e construiu quadros revolucionários em vários países e fez importantes contribuições teóricas, que foram publicadas por nossa organização internacional.

Seu périplo ideológico, político e geográfico é impactante. Nascido em 1933 na Bélgica em meio ao auge do nazismo no seio de uma família católica, educado na “caridade”, decidiu em sua juventude precoce consagrar sua vida ao sacerdócio. Em sua formação, além de se formar em teologia, estudou e se doutorou em Física.

Como missionário no Brasil, na época da ditadura de Castelo Branco, se comoveu com as penúrias das massas exploradas e oprimidas. Ali bebeu pela primeira vez no marxismo. Se radicalizou e atuou na luta dos oprimidos de forma decidida e orgânica. E em consonância com suas convicções, se estruturou em um bairro operário. O estado dos exploradores o perseguiu e encarcerou durante 6 meses. Uma forte campanha na Bélgica e internacional conseguiu sua libertação e ele foi deportado.

No capitulou nem se quebrou. Rompeu com a Igreja e iniciou uma nova busca. Nessa longa marcha, retornou à América Latina, visitou o Chile depois de conhecer na França Loly – a companheira de sua vida e mãe de seus filhos – que participava de atividades contra a ditadura de Pinochet. E se radicou na Argentina. Foi lá, na região metropolitana de Buenos Aires, e no contexto da guerra das Malvinas, que se relacionou com a LIT-CI e se integrou à fundação do MAS da Argentina desde seus inícios.

Passada uma década, quando as rebeliões na Europa Oriental e na URSS contra os efeitos da restauração capitalista representavam uma oportunidade e um desafio para a LIT-CI, Jan e Loly estiveram na linha de frente e, junto com seus dois filhos, se radicaram na Alemanha Oriental. Lá, dedicaram enormes esforços junto ao “Equipe do Leste” que agrupava a região: da Bélgica e Alemanha à Polônia, Ucrânia e Rússia incluídas. O domínio fluente de vários idiomas de Jan e Loly os fez um pilar fundamental para numerosas traduções de textos e interpretações em eventos de toda a Europa e outros países.

Nossa querida companheira Loly faleceu em 2014 e todos nós sempre a lembramos como um emblema para a LIT-CI. Poderíamos continuar relatando extensivamente a trajetória exemplar e motivadora de Jan até hoje. Somente em janeiro de 2026, o estado do Brasil concedeu a anistia a Jan. Mas nossa maior homenagem a Jan hoje é compartilhar sua mensagem de despedida:

“Dear comrades in struggle,

Minhas condições de saúde se deterioram dia após dia, ao ponto de se tornar cada vez mais difícil de ficar vivo. Decidi ir embora. E me despeço de vocês com um sorriso.

Um sorriso por ter podido viver. Viver, como um dos 300 milhões de mamíferos dotados de capacidade cognitiva, em um planeta em que essa espécie está ameaçada de desaparecer –como desapareceram os dinossauros há algumas dezenas de milhões de anos– se não se inverter a calamidade de ter como objetivo concentrar o conforto dos bens de uso em uma ínfima minoria que dispõe a seu gosto dos meios para produzi-los, em vez de fomentar o desenvolvimento dos últimos para proporcionar cada vez mais e melhores bens de uso para o conjunto dos humanos do planeta. Um sorriso por ter podido participar da luta para enfrentar essa calamidade.

Com minha mãe, aprendi a fazer o bem ao próximo, mas sem entender quem faz o mal. E sem entender por que há próximos «bons» e próximos «maus», de acordo com o lugar onde nasceram, ou de acordo com os pais que tiveram. Os «maus» eram os que roubam o emprego do «bom».

Em essas nove décadas de anos –ou pelo menos desde a idade em que ao meu redor disseram «já pode se vestir só» até que começaram a dizer «ainda pode se vestir só»– aprendi que os «maus» o eram porque maltratavam os «bons», e que havia uma luta entre maus e bons. Aprendi a escolher lado nessa luta. Juntei-me aos «bons», para enfrentar os «maus». E nessas lutas, tive a oportunidade de encontrar pessoas que puderam me explicar melhor o que é esse «maltratar».

Aprendi que «luta de classes» não é uma má palavra. Aprendi que «há burgueses e proletários». E que há luta entre eles.

Eu escolhi um lado. Estudei o que isso implicava, a partir do que um tal Karl e seu amigo Friedrich, e depois Vladimir Ilich e Lev Davídovich explicaram, e o que eles fizeram ao participar ativamente dessa luta. E hoje, na véspera de ter que pôr um termo a esta vida de luta, estou orgulhoso de ter me comportado durante dezenas de anos essencialmente coerente com isso, consciente das minhas fraquezas.

Um sorriso porque, durante meio século, pude ser acompanhado por Loli, a mãe dos meus filhos, com sua abnegada e consequente luta, junto com esses proletários, contra esses burgueses.

Camaradas de luta, hoje, 20 de abril de 2026, lhes solto a mão, com um grande sorriso.

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