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Correio Internacional

Equador, imperialismo e soberania: a ofensiva geopolítica dos Estados Unidos no contexto da segurança hemisférica

A secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, cumprimenta o presidente equatoriano Daniel Noboa durante uma visita à Base Aérea Eloy Alfaro em 5 de novembro de 2025, em Manta, Equador. Foto: Getty Images

Lena Souza / PSTU - Brasil

fevereiro 5, 2026
Militarização, extração de recursos e controle geopolítico

A política externa dos Estados Unidos na América Latina entrou numa fase aberta de agressividade militar e de submissão política forçada. Sob o pretexto da “luta contra o narcotráfico”, Trump aprofunda a militarização do continente e busca reinstalar uma lógica colonial de controle territorial, econômico e político em diversos países. Sob a presidência de Daniel Noboa, um fantoche de Trump, o Equador se converteu em uma das plataformas desse projeto.

O governo Noboa justifica sua entrega com a narrativa do combate ao crime e ao narcotráfico, que, nos últimos anos, transformou o Equador no país com a maior taxa de homicídios da América Latina. Essa narrativa coaduna com a retórica estadunidense de que o país se tornou um importante ponto de trânsito de drogas e de que a cooperação militar e a presença de bases estrangeiras seriam “essenciais” para desmantelar redes criminosas de alcance regional. 

Nenhuma iniciativa do governo estadunidense é “coincidência” nem “cooperação desinteressada”. A segurança dos povos latino-americanos não é prioridade: a prioridade é garantir rotas militares, influência política e controle dos recursos naturais com a ajuda dos governos dóceis e entreguistas.

Submissão ao imperialismo

Desde o início de seu mandato, Daniel Noboa passou a governar com uma agenda centrada na retórica da “segurança”, na militarização do país e no alinhamento explícito com os Estados Unidos, tratando a Constituição de 2008 como um obstáculo a esse objetivo. Ainda nos primeiros meses de governo, o Executivo intensificou o uso de decretos de estado de exceção e o envio de projetos de lei que ampliavam o papel das Forças Armadas e restringiam direitos fundamentais, de forma tão explícita que a Corte Constitucional foi obrigada a questionar, gerando um conflito com o governo.

Esse conflito institucional se aprofundou ao longo de 2025, quando Noboa passou a atacar publicamente a Corte, acusando-a de “favorecer o crime” e de agir contra a “vontade popular”. Paralelamente, o governo começou a defender abertamente mudanças constitucionais estruturais, incluindo a flexibilização da proibição de bases militares estrangeiras, abrindo um confronto direto com os movimentos sociais organizados, que se posicionaram contra uma nova constituição, já que o objetivo de retirada da soberania do país e de direitos conquistados na Constituição de 2008 estava abertamente por detrás da intenção do governo

Em junho de 2025, a Assembleia Nacional, com maioria alinhada ao governo, chegou a aprovar uma proposta de reforma constitucional que permitiria a instalação de bases militares estrangeiras no país com o argumento de que o narcotráfico teria se intensificado após o fechamento da base militar dos Estados Unidos em Manta, em 2009. 

O alinhamento com Washington ganhou um marco simbólico em 4 de setembro de 2025, quando o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visitou Quito e declarou publicamente que, caso o Equador “necessitasse”, os EUA “avaliariam” o retorno de bases militares ao país. O objetivo explícito era avançar em acordos de segurança que permitissem operações conjuntas por ar, mar e terra, inclusive com garantias de imunidade jurídica para militares norte-americanos, aprofundando a submissão estratégica do país.

Diante das resistências institucionais impostas pela Corte Constitucional e da pressão crescente do movimento social, que se mobilizou contra qualquer mudança na Constituição de 2008 e fincou bandeira na defesa da soberania nacional, o governo optou por levar o conflito ao terreno do plebiscito, convocando um referendo nacional.

O povo disse NÃO ao protetorado militar

A tentativa de consolidar a submissão ocorreu no referendo de 16 de novembro de 2025, quando o governo Noboa incluiu uma pergunta central sobre a revogação do artigo 5º da Constituição do Equador, que, desde 2008, proíbe expressamente a instalação de bases militares estrangeiras no território nacional. A resposta popular foi contundente: mais de 60% do eleitorado votou NÃO.

No mesmo plebiscito, a população também rejeitou outras propostas do Executivo. O resultado representou uma derrota política significativa para o governo e uma vitória histórica da soberania popular.

Esse “não” foi mais do que um resultado eleitoral: foi uma afirmação de memória, dignidade e resistência anti-imperialista. Foi a recusa do povo equatoriano ao projeto de transformar o país em uma plataforma militar dos Estados Unidos e à tentativa de impor, por meio de força institucional e repressiva, um modelo de submissão que já havia sido rejeitado em suas lutas recentes.

Manta: a volta disfarçada da presença militar

Mesmo derrotado no papel, o plano não recuou. Em dezembro de 2025, foi anunciada uma operação conjunta na Base Aérea de Manta, com presença direta de tropas dos EUA. Essa mesma base foi utilizada entre 1999 e 2009 por Washington e hoje volta à cena com outro nome e outra narrativa, mas com o mesmo objetivo: garantir a posição estratégica dos Estados Unidos no Pacífico Sul.

O contexto geopolítico é central para compreender essa ofensiva. A tentativa de reintrodução de bases militares no Equador insere-se na estratégia de controle hemisférico dos Estados Unidos, marcada pela disputa com a China, pelo interesse em rotas estratégicas do Pacífico Sul e pela consolidação de pontos de apoio militar na América Latina.

Noboa abre as portas para o imperialismo saquear os recursos naturais 

No mesmo caminho do alinhamento aos interesses do imperialismo, o governo de Daniel Noboa manteve uma postura de silêncio e inação diante da arbitragem internacional favorável à Chevron, que voltou a beneficiar a petroleira norte-americana no histórico conflito judicial contra o Estado equatoriano e as comunidades amazônicas. A decisão arbitral, emitida em instâncias internacionais de proteção ao capital transnacional, reafirmou a anulação da condenação ambiental imposta à empresa no Equador, ignorando décadas de contaminação, violações de direitos humanos e danos irreversíveis causados nos territórios indígenas. Ao não reagir, nem sequer questionar, politicamente, diplomaticamente ou juridicamente, a essa decisão, Noboa se submete aos mecanismos internacionais que blindam as corporações e enfraquecem a soberania nacional, abandonando as vítimas da devastação ambiental e reforçando a lógica de que os interesses das multinacionais estão acima da justiça social e ambiental.

Depósito de imigrantes

Para completar a submissão de Noboa, houve, em setembro de 2025, uma negociação com Washington, confirmada pelo Ministério de Relações Exteriores equatoriano, para um plano de receber pessoas deportadas de terceiros países, como parte de um acordo discutido durante a visita do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao Equador. A disposição do governo de Daniel Noboa em negociar com os Estados Unidos a aceitação de imigrantes deportados ou solicitantes de asilo revela mais uma face da submissão do Equador à agenda imperial. Ao transformar o país em peça auxiliar da política migratória estadunidense, Noboa aceita a lógica de externalização de fronteiras, na qual as nações dependentes assumem os custos humanos, sociais e econômicos de uma crise criada pelo próprio imperialismo. Em um contexto de profunda crise social, desemprego e precarização, essa possibilidade não atende a nenhuma necessidade do povo equatoriano, mas atende aos interesses de Washington, convertendo o Equador em depósito humano e reforçando sua posição subalterna na hierarquia geopolítica regional.

Enquanto se submete ao imperialismo, Noboa utiliza da força, repressão e assassinatos contra a resistência do movimento social

A submissão do governo de Daniel Noboa aos interesses estratégicos dos Estados Unidos caminha lado a lado com o endurecimento autoritário no plano interno. A intensificação da cooperação securitária com Washington — expressa em acordos militares, presença de assessorias estrangeiras, treinamento de forças de segurança e adoção da doutrina do “narcoterrorismo” — criou o marco político e ideológico que legitimou a repressão contra o movimento social. Embora não existam provas públicas de participação operacional direta de agentes estadunidenses na repressão aos protestos, meios comunitários, organizações indígenas e coletivos de direitos humanos denunciam que esse alinhamento forneceu respaldo político, discursivo e estratégico à militarização no país.

Durante a Paralisação Nacional de 2025, essa lógica tornou-se explícita. O governo respondeu às mobilizações populares com o deslocamento do Exército, operações militares em territórios indígenas e urbanos, estados de exceção encobertos e o uso sistemático da força policial. Protestos massivos e majoritariamente pacíficos foram enquadrados como ameaças à “segurança nacional”, enquanto dirigentes indígenas, sindicais e estudantis passaram a ser acusados de terrorismo, em evidente tentativa de associar a luta social ao narcotráfico e às organizações criminosas. Essa estratégia de criminalização, amplamente denunciada por meios comunitários e organizações internacionais, violou garantias constitucionais e direitos humanos.

A repressão não se limitou à judicialização e à estigmatização, houve prisões arbitrárias, perseguição judicial, congelamento de contas bancárias de lideranças, ataques à imprensa comunitária e assassinatos de lutadores sociais, revelando um padrão de violência política que busca desarticular a resistência popular pelo medo e pela força. 

Essa escalada repressiva não é um desvio, mas parte estrutural do projeto de governo. Enquanto Noboa aprofunda a entrega da soberania nacional — seja na abertura ao capital transnacional, na aceitação da arbitragem internacional favorável às corporações ou na disposição de transformar o Equador em plataforma militar e migratória dos Estados Unidos — ele reforça internamente um Estado repressor com submissão externa ao imperialismo e em guerra contra os setores populares, indígenas, juventude e trabalhadores/as que resistem à espoliação, à militarização e à perda de direitos.

Unir a América Latina contra o imperialismo: soberania, unidade e resistência popular

A ofensiva imperialista em curso no Equador não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estratégia regional que busca transformar a América Latina em território subordinado, militarizado e funcional aos interesses do capital transnacional e dos Estados Unidos. A experiência equatoriana — marcada pela resistência popular ao protetorado militar, pela rejeição nas urnas à entrega da soberania e pela mobilização permanente de povos indígenas, trabalhadores/as e juventudes — demonstra que os povos não estão derrotados. Mesmo sob repressão, criminalização e violência estatal, os movimentos sociais seguem sendo a principal trincheira de defesa da autodeterminação, dos bens comuns e da dignidade coletiva.

No entanto, a correlação de forças imposta pelo imperialismo exige mais do que resistências nacionais isoladas. Diante de governos fantoches que administram a dependência e governam contra seus próprios povos, torna-se urgente construir unidade latino-americana desde baixo, articulando lutas, organizações e projetos políticos capazes de enfrentar o imperialismo em todas as suas dimensões — militar, econômica, jurídica e ideológica. Defender o Equador hoje é defender a América Latina inteira: é afirmar que nossos povos têm o direito de decidir seus destinos sem tutela externa, sem bases militares estrangeiras, sem tribunais do capital e sem Estados que apontem suas armas contra a própria população. A história do continente mostra que somente a organização, a solidariedade internacionalista e a luta coletiva poderão romper o ciclo de submissão e abrir caminho para uma América Latina soberana, socialista e livre do imperialismo.

Referências:

• Reuters — Ecuador legislature backs reform allowing foreign military bases (sobre a aprovação da reforma que permitiria a instalação de bases estrangeiras no Equador). UOL Notícias

• Reuters — Ecuador to vote in November on whether to allow foreign military bases (referendo programado para novembro de 2025). Reuters
• Agence France-Presse / UOL — Equador negocia para receber refugiados dos EUA (negociações migratórias com os EUA). UOL Notícias
• Reuters / AP — Measure to allow foreign military bases in Ecuador fails in vote (resultado do referendo que rejeitou permitir bases estrangeiras). Reuters
• Euronews / Reuters — Eleitores equatorianos rejeitam propostas de bases militares estrangeiras (resultados detalhados do referendo). euronews

• Amnesty International — Ecuador: Alert over repression of protests (relatório sobre uso excessivo da força, detenções arbitrárias e acusação de terrorismo contra líderes sociais). Amnesty International
• Human Rights Watch — Abusive Response to Protests in Ecuador (documentação de restrições a direitos de reunião e uso excessivo de força, congelamento de contas e ataques a mídias comunitárias). Human Rights Watch
• ESCR-Net — Urgent call from the international community for an immediate end to repression… (dados sobre feridos, mortos, desaparecidos e criminalização de organizações sociais). ESCR-Net

• CIMI — Organizações latino-americanas repudiam perseguição a Guardas Indígenas no Equador (repúdio à criminalização de Guardas Indígenas e acusações de terrorismo). Conselho Indigenista Missionário

• Agência de notícias AFP / UOL — Presidente do Equador viaja aos EUA para discutir segurança e migração (visita de Noboa aos EUA para tratar de segurança e migração). UOL Notícias
• AFP / UOL — Equador negocia para receber 300 refugiados por ano dos EUA (acordo migratório em negociação entre Quito e Washington). UOL Notícias

• Wambra Medio Comunitario — Militarización, criminalización y protesta social en el gobierno de Noboa (coberturas e análises sobre repressão, estado de exceção e criminalização dos movimentos sociais).
https://wambra.ec

• Radio Pichincha — Gobierno de Noboa, seguridad y militarización: impactos en derechos humanos (análises críticas sobre política de segurança e repressão).
https://www.pichinchacomunicaciones.com.ec

• Primicias (seção análise crítica) — Referéndum, bases militares y soberanía nacional (contexto político do referendo e debates sobre soberania).
https://www.primicias.ec

• CONAIE – Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador — Pronunciamientos y denuncias sobre el Paro Nacional y la represión estatal (comunicados oficiais).
https://conaie.org

• Revista Crisis (Argentina) — Ecuador: seguridad, militarización y disciplinamiento social (editoriais e análises regionais sobre o Equador no contexto imperial).
https://www.revistacrisis.com

• Página/12 — Noboa, militarización y alineamiento con Estados Unidos (cobertura crítica de la política externa y la repressión).
https://www.pagina12.com.ar

• CLACSO — Militarización, extractivismo y criminalización de la protesta en América Latina (artigos analíticos e dossiês regionais).
https://www.clacso.org

• ALAI – América Latina en Movimiento — Equador: entre el autoritarismo y la resistencia popular (análises políticas e sociais).
https://www.alainet.org

• Amnistía Internacional – América Latina — Ecuador: represión, uso excesivo de la fuerza y criminalización de la protesta (relatorios e alertas).
https://www.amnesty.org/es

• CIDH/OEA — Comunicados sobre protestas sociales y uso de la fuerza en Ecuador (observaciones regionales).
https://www.oas.org/es/cidh

• RSF – Reporteros Sin Fronteras (Español) — Agresiones contra periodistas durante protestas en Ecuador.
https://rsf.org/es

• CELAG – Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica — Estados Unidos, la seguridad hemisférica y el control político en Ecuador.
https://www.celag.org

• Observatorio Latinoamericano de Geopolítica — Bases militares, cooperación securitaria y dependencia.
https://geopolitica.iiec.unam.mx

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