search
Correio Internacional

A dominação imperialista norte-americana sobre a Colômbia

A luta antiimperialista na Colômbia: resistência popular frente à dominação estadunidense e suas consequências.

Francisco Cuartas / PST - Colômbia

fevereiro 5, 2026
Assim paga o diabo a quem bem lhe serve

A agressão militar de Trump contra a Venezuela atingiu seu ponto mais alto com o sequestro de Nicolás Maduro e a exigência ao chavismo de converter o país em seu colaborador para impor um regime colonial, como modelo para a dominação imperialista da América Latina. Com essa lógica, tem acontecido a dominação imperialista estadunidense sobre a Colômbia, historicamente um “aliado” incondicional e estratégico na região para os Estados Unidos, e  a ameaça direta de Trump contra Petro e a soberania da Colômbia. 

Um aliado incondicional contra os ascensos do pós-guerra

Ao longo do século XX, a burguesia colombiana, tanto liberal quanto conservadora, se preocupou em manter uma relação de subordinação com o imperialismo norte-americano. As precárias instituições colombianas, a economia e as forças armadas foram se moldando de acordo com os modelos estadunidenses, e se tornaram um apoio incondicional aos interesses norte-americanos, especialmente após o triunfo da revolução bolchevique e da ameaça de que a mesma se espalhasse pelo mundo. 

Após a Segunda Guerra Mundial, houve um grande ascenso de massas em diversas partes do mundo; a América Latina não foi a exceção. Quando o mundo foi repartido por meio dos tratados de Yalta e Potsdam, processos revolucionários ameaçaram romper a estabilidade alcançada. Em 1949, triunfou a Revolução chinesa, processo que se estendeu à Coreia. De fato, a Colômbia colaborou com os Estados Unidos enviando tropas para a guerra de 1950.

Na América Latina, o ascenso do pós-guerra foi enfrentado pelo imperialismo norte-americano, que patrocinou diretamente golpes de Estado, junto com a chamada Aliança para o Progresso, política assistencialista impulsionada por Kennedy para conter a crescente influência da Revolução cubana no continente. Utilizava o discurso da democracia e dos direitos humanos, enquanto organizava, através da CIA, golpes de Estado, grupos contrarrevolucionários, como na América Central, e doutrinava as forças armadas do continente em técnicas de tortura e guerra suja. 

O narcotráfico, pretexto para a intervenção imperialista 

Durante as décadas de 60, a produção de narcóticos encontrou terreno fértil para prosperar graças à vocação das frações burguesas na Colômbia, acostumadas a enriquecer-se com as bonanças. 

O crescimento do fenômeno das drogas não demorou a entrar na órbita dos problemas de “segurança nacional” e novo pretexto para a política imperialista. Foi Nixon quem, em 1968, cunhou a frase “guerra contra as drogas”, manifestando assim o caráter bélico e de “segurança nacional” que se concretizaria, sob Reagan e Bush, no final dos anos 80, no tratamento militar do problema das drogas.

Assim, enquanto os lucros do tráfico gozaram de impunidade nos Estados Unidos, na Colômbia a intervenção militar  aumentou, combinando a contra insurgência com a perseguição ao narcotráfico. Os agentes da DEA tiveram via livre para atuar na Colômbia, com plena imunidade às leis locais e internacionais. A guerra contra as drogas não tem sido mais do que um pretexto para a intervenção imperialista.

Em dezembro de 1989, Bush invadiu o Panamá, derrubando seu presidente, Manuel Antonio Noriega, sob o pretexto de sua vinculação com o narcotráfico. 

O negócio do narcotráfico injetou milhões de dólares na economia colombiana, e, também, alimentou os aparelhos armados das guerrilhas e dos paramilitares, ao mesmo tempo que permeou e corrompeu praticamente todas as instituições do regime político colombiano. A incidência do narcotráfico na política chegou a um importante ponto de crise com as denúncias de financiamento do cartel de Cali à campanha presidencial do liberal Ernesto Samper, graças à filtragem de gravações feitas pela DEA, o que, junto  ao fortalecimento militar das FARC, levou a uma importante desestabilização do regime em 1996, que terminou preparando o terreno aos governos conservadores de Andrés Pastrana e depois Álvaro Uribe Vélez. 

No ano 2000, sob a presidência de Bill Clinton, os EUA lançaram o Plano Colômbia para enfrentar essa crise e modernizaram novamente o aparato militar e as instituições do regime político colombiano sob o modelo e as necessidades norte-americanas. 

Mas seu objetivo ia além das fronteiras da Colômbia. Também significou um plano preventivo de contenção diante da grande instabilidade política na região. Naqueles anos, ocorreu uma onda de insurreições que derrubou vários governos na América Latina, ao mesmo tempo em que governos “progressistas” ameaçavam a estabilidade da dominação imperialista no continente. Contar com um país incondicionalmente subordinado, como a Colômbia, servia aos Estados Unidos como contenção e prevenção diante de uma situação altamente instável, enquanto, com o Tratado de Área de Livre Comércio das Américas (Alca, que, diante de seu fracasso, foi substituído por TLC bilaterais), buscou-se uma nova ofensiva de submissão econômica a serviço dos Estados Unidos. Nesse contexto, a Colômbia recebeu o desonroso apelido de “Israel (o Caim) da América Latina”, o que ilustra o papel que historicamente tem desempenhado a burguesia deste país. De fato, o montante de ajuda militar à Colômbia entre 2001 e 2016 superou os 10 bilhões de dólares, o que a colocou como o terceiro país a receber ajuda militar dos Estados Unidos, depois de Israel e Egito.

O primeiro governo de Trump 

Com o triunfo de Donald Trump em 2016, e sua política de América Primeiro, a política externa foi redirecionada para a América Latina. Na Colômbia, a relação com Trump permaneceu estreita e harmônica, dado o caráter abertamente proimperialista dos governos de Juan Manuel Santos e Iván Duque, apesar do maior desinteresse e desprezo de Trump pela região, que, além disso, colocou no mesmo plano do terrorismo e do narcotráfico os crescentes fenômenos migratórios, como problemas de segurança nacional, o que levou a políticas mais agressivas, especialmente em relação à América Central.

Petro e Estados Unidos

Entre 2019 e 2021, na Colômbia, houve um importante ascenso das lutas, parte de uma onda que convulsionou principalmente o Equador e o Chile, na qual as massas se mobilizaram contra os governos e suas políticas insuportáveis para as massas. Fruto desse ascenso, novamente triunfaram governos “progressistas”, e no caso da Colômbia, com a chegada de Gustavo Petro ao governo em 2022, ocorreu pela primeira vez no país um governo de frente popular, rompendo dois séculos de hegemonia da burguesia liberal conservadora.

Em relação aos Estados Unidos, Petro contou no início com um terreno favorável para seu projeto de “capitalismo humano”, além disso, contava com o beneplácito de Joe Biden, na medida em que não questionava de fundo os pilares da dominação imperialista dos Estados Unidos sobre a Colômbia. Pelo contrário, renovou o papel da Colômbia como sócio privilegiado dos Estados Unidos na região, desempenhando um papel importante na estratégia de negociar uma transição na Venezuela. Suas intenções de renegociar o TLC, buscar mudança de dívida por cuidar da Amazônia e apaziguar a luta de classes exaltada no continente receberam elogios por parte de Biden. Inclusive, Petro propôs a Biden reativar a Aliança para o Progresso de Kennedy. No entanto, por parte dos Estados Unidos não houve mudanças significativas em sua política antidrogas, no intercâmbio comercial nem em sua ingerência nos processos políticos no continente. Ao contrário dos desejos de Petro, Biden continuou com a redução da ajuda americana e a repressão à imigração.

O retorno de Trump ao governo, assim como o recrudescimento do genocídio de Israel contra Gaza, colocaram fricções importantes na relação com os Estados Unidos, alimentadas pelo lobby da direita colombiana, que contou com interlocutores importantes entre os republicanos, especialmente com Marco Rubio. Esse lobby se concentrou em buscar o apoio da direita na Colômbia e em enfraquecer politicamente o governo de Petro, pressionando-o pela questão do narcotráfico.

Por sua parte, Petro manifestou diferenças abertas com Trump no terreno da crise climática, a mudança da matriz energética, a imigração e o narcotráfico, mas sobretudo com sua postura contra o genocídio em Gaza e a ruptura de relações com Israel.

A crítica à agressiva deportação de imigrantes colombianos foi respondida por Trump com ameaças de impor maiores tarifas sobre os produtos colombianos. Petro denunciou Trump por seu caráter negacionista diante da ciência e da mudança climática. No entanto, essas contradições não minaram os pilares da dominação imperialista norte-americana sobre a Colômbia. 

O que realmente tem sido qualitativo provém do próprio Trump e sua mudança na política externa condensada na nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, com a qual retoma abertamente a doutrina Monroe, propondo inclusive seu “Corolário Trump”, com a qual retoma uma política de maior presença militar na América Latina, a expulsão de potências que disputam sua hegemonia, uma relação abertamente transacional com os estados e governos (obter vantagens e ganhos evidentes para os Estados Unidos).

Com essa nova estratégia, há meses, o discurso se endureceu em relação aos governos de Maduro e de Petro, usando a retórica do narcotráfico como pretexto para avançar a ofensiva militar no Caribe, especificamente direcionada contra a Venezuela e a Colômbia.

Como demonstrou a incursão militar de 3 de janeiro sobre Caracas e o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, a atual campanha militar naval de Trump no mar do Caribe e no Pacífico colombiano, em que bombardearam pequenas embarcações e sequestraram barcos petroleiros, obedecia principalmente ao plano de Trump de derrubar Maduro e apropriar-se do Petróleo venezuelano, e para amarga surpresa da oposição burguesa de direita, liderada por Corina Machado, o controle de Trump sobre a Venezuela será executado pelo próprio chavismo.

O sequestro de Maduro também tem sido, abertamente, um aviso para Petro. Diz Trump que, se não seguir seus ditados  à risca, terá a mesma sorte.

As horas e os dias posteriores à ação contra Maduro foram de apreensão e angústia para Petro, pois Trump insinuou várias vezes que ele seria o próximo. Assim como a direita em todo o continente, a maioria da burguesia oposicionista colombiana de direita não apenas aplaudiu a intervenção norte-americana, mas também pediu a Trump que continuasse com Petro.

Sem negar nem minimizar a gravidade da ameaça atual de intervenção, a situação na Colômbia não é a mesma que na Venezuela, pois enquanto Maduro personaliza a decadência do projeto nacionalista burguês do chavismo, com o qual já romperam na sua maioria as massas venezuelanas, Petro ainda conta com um importante apoio de massas que, diante de um eventual ataque contra a Colômbia, pode desencadear novamente um ascenso de lutas, desta vez com um componente anti-imperialista que pode desestabilizar ainda mais a região. A aposta de Trump por uma transição controlada pelo autoritarismo chavista na Venezuela mostra que lhe importa minimizar custos, por isso uma possível intervenção na Colômbia deverá levar em conta muito mais o fator da luta de classes.

Em meio a essas circunstâncias, Petro recorreu ao discurso anti-imperialista, não apenas para denunciar o sequestro de Maduro, mas também a ameaça contra seu governo e contra a Colômbia, apontando a grave violação à soberania da Venezuela e o precedente que significava para qualquer país. Convocou uma mobilização anti-imperialista para o dia 7 de janeiro, chamando inclusive a enfrentar, se necessário, com as armas uma possível intervenção na Colômbia. No entanto, a diplomacia colombiana buscou intensamente aproximações com o Departamento de Estado para estabelecer um diálogo direto com Trump. Este se concretizou com uma chamada telefônica que, antes da mobilização, conseguiu distensionar a situação, ao que parece, estabelecendo compromissos por parte do governo colombiano frente ao narcotráfico.

Após esta chamada e de mútuos elogios, o discurso anti-imperialista de Petro diminuiu. Mas, no fundo, é evidente que a ameaça de Trump sobre a Colômbia é real. Se vai se concretizar em uma ação militar direta contra Petro, ou se vai permanecer como uma ameaça dissuasória, dependerá em grande medida da resposta de Petro diante das crescentes exigências de Trump e da resposta das massas nas ruas diante de uma agressão imperialista. 

Sem uma nitidez do curso dessa crise, já é evidente que a atual ofensiva imperialista sobre a Colômbia é a mais grave desde a separação do Panamá, o que coloca a relação histórica de dominação sobre a Colômbia no plano de uma nova ofensiva de aprofundamento da semicolonização sobre o país e o continente.

Leia também