Bolívia | Derrota eleitoral do MAS

Por: Alicia Sagra e Julián Ledezma
A revolução que é freada, inevitavelmente traz de volta a direita
O resultado das eleições bolivianas, com a derrota do MAS, teve grande impacto na imprensa internacional, que celebra o fim de 20 anos de um chamado socialismo: As manchetes na Bolívia e no mundo anunciam em voz alta: 20 anos de socialismo do século 21 acabaram! Bolívia muda de rumo! Os bolivianos optam por partidos de direita!
Mas há duas grandes falsidades nessa narrativa
A primeira falsidade. Tem a ver com o fato de que nunca houve socialismo na Bolívia. O governo de Evo só foi possível por causa das revoluções operárias e populares de 2003-2005. Foi um subproduto da revolução, mas nunca foi um governo revolucionário. Como já dissemos em outros artigos, esse governo foi aceito pela burguesia e pelo imperialismo com o objetivo de desviar o poderoso processo revolucionário que questionava o poder. E isso foi alcançado, a revolução foi freada. A maior prova disso é que em todos os anos do governo do MAS, Evo Morales e Luis Arce, nunca houve uma economia socialista, na verdade esses anos foram de grande bonança para os bancos nacionais e internacionais, para as transnacionais mineiras e petrolíferas e especialmente para a oligarquia latifundiária de Santa Cruz e do Oriente.
É verdade que o grande processo revolucionário de 2003 e 2005 obrigou Evo a promover uma maior participação das maiorias indígenas na administração do Estado e em espaços antes fechados às elites brancas, bem como medidas culturais, o que significou conquistas para um povo oprimido por centenas de anos. Além disso, o vento favorável da economia mundial em relação ao preço favorável das matérias-primas aumentou a renda dos hidrocarbonetos, especialmente pelas exportações de gás, o que permitiu uma melhoria relativa na renda das famílias por meio de uma moderada política de bônus e algumas melhorias cosméticas na educação e saúde públicas.
Essas medidas progressistas e de democratização ocorreram especialmente durante os dois primeiros governos de Evo Morales, devido ao impulso e à força das organizações sociais que tinham fresca a experiência das revoluções de 2003 e 2005, juntamente com a bonança econômica devido às exportações de gás.
Esses avanços sociais começaram a se deter nos últimos dez anos e os interesses do agronegócio, das empresas transnacionais de petróleo e mineração foram protegidos mais abertamente acima do direito ao território dos povos indígenas e à preservação ambiental. Como resultado disso, houve o conflito dos povos do Tipnis, a repressão aos indígenas que se opunham à megaestrada; a subjugação de terras comunais e camponesas em favor da exploração mineira; repressão em 2013 à mobilização de trabalhadores que pediam 100% de aposentadoria e o fim da lei previdenciária neoliberal, atualmente os aposentados têm que viver com rendas miseráveis. Além de tudo isso, a cooptação e instrumentalização das organizações sindicais acabou gerando um sentimento de decepção em setores importantes de trabalhadores, camponeses e setores empobrecidos. Tudo isso foi gerando uma perda progressiva de prestígio para Evo e seus governos.
Por sua vez, a burguesia boliviana começou a ver que a redução das exportações de gás estava se aprofundando, que o bolo das receitas do Estado estava encolhendo, sentiu que o MAS era um obstáculo e, para se livrar dele, aproveitou o crescente descrédito de Evo para promover o golpe militar de 2019, a fim de assumir diretamente a administração e atacar a reduzida renda do Estado.
No entanto, as massas podiam estar desencantadas com o governo do MAS, mas não aceitavam um retorno ao autoritarismo militar tão conhecido na história boliviana, e iniciaram uma forte resistência que impediu a estabilização do governo golpista e em 2020 o MAS venceu as eleições novamente impondo a presidência de Luis Arce, indicado por Evo.
Um governo que não só não deu uma resposta positiva à crise econômica, mas também a descarregou nas costas dos trabalhadores, camponeses e pobres e aprofundou a entrega de recursos naturais iniciada por Evo. E depois veio o vergonhoso enfrentamento entre eles que dividiu e confrontou as organizações sociais e que terminou na divisão em três frente às eleições.
A segunda falsidade é a afirmação de que a grande maioria dos trabalhadores, camponeses, povos indígenas e setores oprimidos foi para a direita e foi votar massivamente nas opções neoliberais. A mídia e as manchetes minimizam e até ocultam que um setor majoritário da votação foi nulo em grande parte respondendo ao apelo de Evo Morales. O voto nulo alcançou o terceiro lugar em nível nacional com um milhão e trezentos mil votos e se somassem os votos dos outros dois setores do MAS que foram às eleições chegariam a um milhão e novecentos mil votos, bem acima do voto que Rodrigo Paz e Lara tiveram os atuais vencedores, que devem ir para o segundo turno contra Tuto Quiroga.
Isso deixa evidente que o atual triunfo da direita é responsabilidade total de EVO e do MAS por colocar suas lutas de interesses mesquinhos acima do interesse das maiorias. Esta eleição não expressa ilusão na direita como em 1985, como resultado da desilusão com o governo da Frente Popular da UDP. De fato, os candidatos surpresa Rodrigo Paz e Capitão Lara que ganharam (que fizeram campanha nas redes sociais contra a corrupção) funcionaram como um refúgio para os eleitores que antes apoiavam Evo e o MAS para fechar o caminho para a direita mais reacionária representada por Tuto Quiroga e Doria Medina.
A derrota do MAS, Evo, Andrónico, representa uma mudança qualitativa na Bolívia?
Não, não haverá uma mudança radical na política económica. Continuará sendo uma política econômica a serviço dos empresários e do imperialismo. Haverá ajustes duros, mas mesmo um governo do MAS ou de Evo, em um hipotético outro resultado eleitoral, teriam que aplicar. As diferenças entre um governo de Evo, Andrónico, Tuto Quiroga ou Rodrigo Paz, seriam apenas de tom. Nem os candidatos do MAS, nem Andrónico, nem Evo, se propuseram a enfrentar o imperialismo minimamente, por isso as diferenças dos ajustes que viriam de um ou de outro seriam de ritmo, mas sempre contra os trabalhadores e a favor dos grandes empresários, nacionais ou estrangeiros.
Diante do novo governo que surge do segundo turno, será necessário continuar e aprofundar as lutas que vêm ocorrendo contra o governo do MAS. É provável que com o novo governo o espaço social conquistado pelas maiorias indígenas retroceda e que os aspectos de discriminação característicos dos setores mais reacionários da direita recomecem. O que deve ser levado em conta é que existe uma lei universal: quando a revolução é freada, pelas ações de governos de aliança de classes, abre-se o caminho para a direita. Por isso a grande tarefa continua sendo a luta para impor um governo de operários e camponeses que rompa com a burguesia e o capitalismo.
Tradução: Lílian Enck