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quinta-feira, abril 25, 2024

Para que Milei foi a Israel?

O presidente argentino Javier Milei está realizando um tour internacional por vários países. O primeiro destino oficial foi Israel, onde se reuniu com o primeiro ministro Benjamín Netanyahu. O significado deste tour pode ser analisado em dois níveis: o primeiro é o contexto da crise política, econômica e social que a Argentina vive; o segundo é a localização política e ideológica internacional do governo de Milei, especialmente no contexto do ataque genocida do governo israelense ao povo palestino na Faixa de Gaza.

Por Alejandro Iturbe

Na Argentina, o governo de Milei vem de uma derrota política. Diversas instâncias da Justiça “pararam” partes do DNU (Decreto de Necessidade e Urgência) no qual havia juntado centenas de medidas de ajuste orçamentário, privatizações das empresas estatais remanescentes, ataques ao salário, as aposentadorias e as condições de trabalho, e benefícios para as grandes empresas e bancos. O governo enviou ao Congresso uma Lei Ônibus que inclui a aprovação do DNU e outros pontos. Até agora, esta Lei não foi aprovada, por isso também está paralisada.

Esta derrota do governo foi resultado da combinação de dois fatores. Essencialmente, das primeiras respostas de setores importantes da classe trabalhadora e das massas às medidas do governo e à situação objetiva de altíssima inflação e deterioração do salário, cuja expressão máxima foi a paralisação e a gigantesca mobilização nacional de 24 de janeiro passado, convocada pela CGT e outras organizações sindicais, sociais e políticas[1].

O segundo fator é que há uma profunda crise política na burguesia e em suas organizações com representação parlamentar e institucional (governadores e prefeitos), com uma tendência a rupturas e fragmentação em todas elas e, ao mesmo tempo, novos reagrupamentos. O conjunto da burguesia argentina está a favor da essência da política de Milei: a necessidade de um brutal ajuste às massas e ao Estado, e a subordinação ao FMI e ao imperialismo. Mas está dividida tanto sobre como enfrentar o choque com as massas como sobre quem receberá os benefícios deste ajuste e sobre quais custos cada setor burguês pagará [2].

Dissemos que o governo sofreu uma derrota. A crise política, econômica e social se acentua (a inflação é galopante), e cresce a raiva popular. Milei responde irritando-se publicamente com os considerados seus e alheios. Por exemplo, fez um ataque às províncias, reteve os fundos que o Estado nacional devia enviar-lhes (colocando os governadores de todos os partidos em situação de não pagamento de salários) e retirou os subsídios para o transporte público de passageiros (o preço das passagens será triplicado). Ou seja, “queimou as pontes” com aqueles com os quais devia negociar para que os deputados das províncias votassem a Lei Ônibus no Congresso. Entretanto, sua imagem se desgasta cada vez mais, a menos de dois meses de ter assumido com um elevado apoio eleitoral[3].

Nesse contexto, a viagem internacional de Milei “pegou mal” no país. Em primeiro lugar nas massas, já que a mídia publicou fotos suas e de sua irmã Karina (alta funcionária do governo) fazendo turismo por Roma e Israel. Mas também na própria burguesia, que o vê priorizando objetivos políticos de alinhamento internacional ao invés de ficar no país e “comandar” a resolução da crise.

O jornal espanhol El País comenta com assombro que Milei tenha priorizado essa viagem quando seu principal projeto legislativo (de fato, o destino de seu governo) está em “jogo” no Congresso argentino[4]. Inclusive o jornal argentino Clarín (que apoia com entusiasmo o governo e sua política) publicou um artigo ironicamente crítico sobre esta viagem.

Vamos nos unir pela direita

A viagem de Milei a Israel e sua reunião com Netanyahu tiveram um nítido conteúdo político, em meio à sangrenta ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza. Milei não só apoiou firmemente a “luta” do Estado sionista contra o “terrorismo palestino”, mas, tal como Donald Trump havia feito em sua época, anunciou que transferiria a embaixada argentina em Israel para Jerusalém, reconhecendo-a como capital desse país, tal como reivindicam Netanyahu e o sionismo.

Milei localiza-se assim, e busca alinhar-se com a “ala dura” da direita internacional que reivindica Israel como um bastião e um posto avançado da luta contra alguns dos “perigos” que ameaçam a “liberdade” do Ocidente. Não por acaso, Trump, hoje pré-candidato presidencial republicano, tenha dedicado grandes elogios ao seu governo[5]. A grande maioria dos governos latino-americanos também apoiam Israel e o sionismo contra os palestinos (como o de Lula no Brasil ou o anterior governo peronista argentino), mas o fazem de forma vergonhosa, com chamados hipócritas “à paz” [6].

Milei busca uma aliança explícita e sólida entre seu governo e o de Netanyahu. A chanceler argentina, Diana Mondino, reuniu-se com seu par israelense e ambos destacaram que o vínculo entre as nações “tomou um novo impulso” com o governo de Javier Milei e destacaram a importância de fortalecer “a relação nos âmbitos político, econômico, científico e cultural”.

Mondino acrescentou que “o governo argentino quer empreender um trabalho conjunto mais profundo, para atrair maiores investimentos israelenses”[7]. Inclusive já foi realizado o primeiro acordo neste sentido: a empresa tecnológica israelense XtraLit, investirá 108 milhões de dólares na Argentina para extração de lítio[8]. É muito possível que também haja acordos para que Israel forneça tecnologia repressiva ao governo argentino, tal como faz com o Brasil.

Para Netanyahu e o sionismo, no marco do crescente repúdio internacional à sua agressão genocida, de seu também crescente isolamento político internacional, e inclusive da crise política de seu governo no interior de Israel, o forte apoio de um governo latino-americano e a aliança com Milei representam uma “lufada de ar”.

Milei e o sionismo

As profundas relações de Milei com o sionismo vêm de alguns anos, desde o momento em que iniciava sua carreira política. Um fato chave foi sua aproximação à representação argentina do movimento Chabad Lubavitch, com sede nos EUA. Este movimento é uma espécie de Opus Dei judaica que, sob uma capa religiosa, busca ganhar peso nos meios políticos e empresariais. Por exemplo, é uma das influências de Donald Trump, cuja filha Ivanka e seu genro pertencem a ele.

Este contato, além da influência religiosa e ideológica, fez com que Milei estabelecesse fortes relações com burgueses argentinos de origem judaica, alguns dos quais fazem parte do núcleo empresarial mais forte do país. É o caso do multimilionário Eduardo Elsztain, proprietário da empresa IRSA, a principal incorporadora de imóveis comerciais do país e a única empresa argentina deste setor que tem ações negociadas na Bolsa de Nova York (NYSE). E do Banco Hipotecário desde sua privatização na década de 1990, sob governo de Carlos Menem.

Também é o dono da CRESUD (empresa agropecuária), que possui 800.000 hectares em 24 campos próprios na Argentina, e também no Paraguai e Bolívia. No Brasil, é o principal acionista da BrasilAgro, que repete o modelo de seu desenvolvimento empresarial na Argentina. Finalmente, é o principal investidor da Austral Gold, dedicada à atividade de mineração do ouro e prata na Argentina e no Chile, associado com capitais estadunidenses. Como dado complementar, Elsztain aparece envolvido nos Panamá Papers e nas “empresas fantasmas” com sede nesse país, um dos mecanismos preferidos pela burguesia argentina para a fuga de capitais e evasão de impostos.

Neste contexto, Elsztain foi um dos principais apoios da grande burguesia argentina à campanha eleitoral de Milei, com fortes contribuições financeiras. Inclusive, uma vez que Milei já havia sido eleito e antes de assumir, se “refugiou” por algumas semanas no Hotel Libertador, propriedade do empresário.

Não por acaso que, uma vez no governo, Milei quisesse devolver-lhe os favores e incluísse em seu DNU um artigo “sob medida” para Esztain, como a autorização da queima e derrubada de florestas nativas para a exploração agrária dessas terras. Com esse artigo, Elsztain poderia desmontar legalmente 150.000 hectares de sua propriedade em sua fazenda Los Pozos (Salta), hoje protegidas pela lei Florestal. O DNU foi paralisado na Justiça argentina e a Lei Ônibus está travada no Congresso, mas essa “devolução de favores” está em ambos os textos.

Os trabalhadores e o povo argentino lutam contra os ataques do governo de Milei com paralisações, mobilizações e panelaços. Em condições duríssimas, o povo palestino resiste heroicamente à agressão sionista.

Milei e Netanyahu se aliam para apoiarem-se mutuamente. Os trabalhadores argentinos e o povo palestino devem se unir nessa luta, apoiarem-se e defenderem-se como irmãos. Lutamos contra o mesmo inimigo.


[1] Argentina | Lo que dejó el paro del 24 – Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)

[2] Cayó la ley: Plan de lucha por el salario y contra la política de Milei, Macri y el FMI – Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)

[3] laarena.com.ar/el-pais/encuesta-cae-la-imagen-de-milei-en-todas-las-provincias-20242613520  

[4] Milei viaja a Israel mientras se juega su ley de desguace en el Congreso argentino | EL PAÍS Argentina (elpais.com)

[5] https://cnnespanol.cnn.com/2024/01/19/donald-trump-javier-milei-haciendo-a-la-argentina-grande-otra-vez-orix/#:~:text=Estoy%20muy%20orgulloso%20de%20ti,a%20s%C3%AD%20mismo%20el%20argentino.

[6] La izquierda no puede votar al sionismo – PSTU

[7] En Israel: Diana Mondino se reunió con el canciller Yisrael Katz con la intención de “fortalecer la relación” entre ambos países (lavoz.com.ar)

[8] Javier Milei se trajo del viaje la primera inversión de Israel en litio (clarin.com)

Tradução: Lílian Enck

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