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quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Palestina resiste em meio à nova fase da Nakba

Já são quase 50 dias de genocídio em Gaza e de salto na limpeza étnica na Cisjordânia, territórios palestinos ocupados militarmente por Israel em 1967.

Por: Soraya Misleh

Enquanto ocorrem tratativas para uma “trégua humanitária” na matança, não um cessar fogo total, o sangue continua a ser derramado e desnuda a cumplicidade internacional histórica, que dá aval para a tentativa de “solução final” sionista – a nova fase da contínua Nakba (catástrofe, cuja pedra fundamental é a formação do Estado racista de Israel, há mais de 75 anos).

Apesar da dor, a Palestina resiste e não se curva, ao mesmo tempo que a solidariedade internacional cresce e aprofunda a derrota política sionista.

Gaza: um gueto vitimado pela “solução final” sionista

No gueto de Gaza, onde, há 15 anos, 2,4 milhões de palestinos vivem sob um criminoso cerco israelense, já são mais de 13 mil mortos, dentre os quais a maioria é de crianças e mulheres. Os bombardeios aéreos indiscriminados se combinam com os disparos vindos de tanques e soldados em terra.

Armas químicas e de última geração, garantidas por bilhões de dólares do imperialismo dos Estados Unidos, seguem sendo lançadas sobre os corpos palestinos. Dos 2,4 milhões de habitantes palestinos, 1,5 milhão foram expulsos, do Norte para o Sul de Gaza – muitos dos quais assassinados por Israel no percurso. O cerco se aprofundou, com corte total de água, energia elétrica, combustível e comunicações.

Os palestinos estão entre morrer de fome, de sede, sem atendimento médico (já que hospitais foram destruídos e não têm condições de funcionar) e, agora, também de frio, com o inverno se avizinhando, ou serem os próximos estilhaçados pelas bombas assassinas israelenses.

Massacre televisionado

Cenas da barbárie sionista são capturadas pelos jornalistas palestinos, enquanto perdem famílias, amigos, animais, casa, tudo. Às lágrimas, eles iniciam a cobertura: “ainda estou vivo”, “ainda estou viva” – mais de 60 deles já tombaram, juntamente com centenas de médicos, artistas etc. Não há proteção ou lugar seguro em meio a um genocídio.

Suas câmeras e palavras, repletas de indignação e sentimento de abandono pelo mundo, são, ao mesmo tempo, um grito de socorro e resistência. “Para não esquecer: Palestina livre!”, diz um deles. Eles revelam, ainda, que a busca dos palestinos por viverem com dignidade em meio a um genocídio em Gaza, também é um ato de resistência.

Palestinos cortam os cabelos, fazem pão, inventam e reinventam modos de sobreviver; crianças brincam com seus gatos (e os salvam), enquanto a morte segue à espreita. Enquanto isso, a resistência armada se enfrenta heroicamente contra Israel, quarta potência bélica do mundo e enclave militar do imperialismo.

Violência genocida e intensificação do apartheid

Na Cisjordânia, já são cerca de 300 palestinos mortos somente nestes quase 50 dias, dentre os quais também dezenas de crianças. Nas últimas semanas, os campos de refugiados de Balatah, em Nablus, e de Jenin foram bombardeados, acrescentando à trágica lista dezenas de martirizados pelas forças de ocupação sionistas.

Os ataques e pogroms (perseguições violentas e deliberadas de um grupo étnico ou religioso), realizados por colonos sionistas aumentam. Os presos políticos palestinos se ampliam assustadoramente. Há informações de que, agora, somam de oito a 10 mil – até o começo de outubro, eram 5.200. Israel também tem ampliado as bárbaras torturas e sumido com prisioneiros. Caso do cidadão brasileiro-palestino Islam Hamed, desaparecido há cerca de 40 dias.

Por outro lado, os 1,9 milhão de palestinos que vivem nas áreas ocupadas em 1948 – os chamados cidadãos árabes-israelenses – estão submetidos à ditadura plena, além das 65 leis racistas que são parte de sua realidade.

Se tentam realizar um protesto contra o genocídio, ou mesmo fazer uma postagem nas redes, um soldado israelense imediatamente bate à sua porta e os detém. Ataques sionistas contra eles têm se elevado, ao ritmo do avanço na discriminação alimentada pela propaganda para o genocídio e limpeza étnica.

São 13 milhões de palestinos no mundo, metade no refúgio/diáspora, metade sob colonização e apartheid. Por todos, Gaza sangra, mas resiste. Por eles, a comunidade na diáspora segue nas ruas, denunciando e exigindo o fim da cumplicidade internacional.

Somos todos palestinos

Solidariedade internacional

O grito nas ruas, de norte a sul do Brasil, ecoa manifestações gigantescas em todo o mundo, que clamam pelo fim do genocídio, do apartheid, da colonização e da cumplicidade internacional.

Embora na América Latina os protestos sejam inferiores aos que se observam em muitas outras partes do mundo, São Paulo conseguiu colocar 12 mil nas ruas, no último dia 4, e prepara outro ato público massivo para o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, em 29 de novembro.

Segundo o Projeto Acled, que analisa informações sobre conflitos armados, até 7 de novembro houve 3.700 protestos ao redor do mundo contra o genocídio em Gaza e o salto na limpeza étnica em toda a Palestina ocupada. A solidariedade internacional supera, de forma definitiva, as manifestações pró-Israel, que somaram 520.

Fora do Oriente Médio e do Norte da África, destacam-se, na solidariedade internacional ao povo palestino, as marchas nos Estados Unidos, que incluem milhares de judeus antissionistas. No coração do imperialismo, também conforme o Projeto Acled, durante o primeiro mês da matança promovida por Israel, ocorreram 600 protestos.

Na Europa, além das manifestações gigantescas em Londres, que chegaram a reunir um milhão de pessoas, chama atenção a realização de 170 protestos pró-Palestina na Alemanha, onde a criminalização é bastante acentuada.

Romper relações com Israel

Em meio aos crimes israelenses contra a humanidade, governos têm chamado seus embaixadores de volta ou rompido relações com Israel, a exemplo de Irlanda, Bolívia, Belize, África do Sul, Turquia, Chade, Colômbia, Chile e Jordânia.

Aqui, no Brasil, a exigência é que Lula também dê esse passo e rompa imediatamente relações econômicas, militares e diplomáticas com o Estado genocida de Israel.

O país, lamentavelmente, não é exceção à regra: a cumplicidade brasileira com a colonização sionista é histórica. Vem desde o voto favorável à recomendação de partilha da Palestina, na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 29 de novembro de 1947, presidida pelo diplomata brasileiro Osvaldo Aranha – um sinal verde para as milícias sionistas executarem seus planos de limpeza étnica, que culminaram na Nakba de 1948.

Acordos com sionistas patrocinam genocídio do povo pobre, negro e indígena

O Brasil é o quinto maior importador de tecnologia militar sionista, posto alcançado a partir dos primeiros governos Lula, quando o país teve papel determinante para que se firmasse o Tratado de Livre Comércio Mercosul-Israel.

O genocida Bolsonaro e sua intolerável propaganda ideológica sionista foram a cereja do bolo azedo. Em meio ao genocídio em Gaza, três Projetos de Decreto Legislativo (PDLs), assinados por Bolsonaro com Israel, foram vergonhosamente aprovados na Câmara dos Deputados. Urge barrar que avancem no Senado e, também, fortalecer o chamado por Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel – aos moldes da campanha de solidariedade internacional que ajudou a pôr fim ao apartheid na África do Sul, nos anos 1990.

Nessa mesma direção, também é preciso denunciar que os governos estaduais seguem armando suas polícias para promover o genocídio pobre e negro, assim como o extermínio indígena, com as mesmas armas que matam palestinos. Igualmente, é preciso denunciar e cessar toda forma de cumplicidade entre instituições, empresas e universidades.

Criminalização, propaganda falsa e racismo

Para tanto, ainda, é necessária uma forte ofensiva para trazer informações e denunciar as mentiras do sionismo, reproduzidas na propaganda de guerra contra o povo palestino pelos meios de comunicação de massa.

Esta propaganda de guerra serve para justificar e alimentar o genocídio e a limpeza étnica, instrumentalizando a criminalização, repressão, censura, perseguição, racismo, xenofobia e islamofobia, também no Brasil.

Contribuindo com a criminalização, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, assinou, com a Confederação Israelita do Brasil (Conib), em 14 de novembro, um compromisso da cidade com a nova definição trazida pela Aliança Internacional para Lembrança do Holocausto (IHRA), que equipara antissemitismo a antissionismo.

Isto é algo absolutamente falso, uma vez que antissemitismo é discriminação contra judeus e antissionismo é a crítica ao projeto colonial sionista e ao Estado de Israel. Judeus antissionistas, que se ampliam também no Brasil, já estão denunciando essa falsa associação. Somam-se àqueles que erguem suas vozes: “Não em nosso nome, nunca mais é nunca mais, para todo mundo!”

É necessário barrar essa investida para silenciar as vozes que insistem em estar do lado certo da História e dar um basta à cumplicidade vergonhosa com o genocídio, a limpeza étnica e a contínua Nakba.

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