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quinta-feira, junho 20, 2024

Quem foi Hugo Blanco?

Hoje perdemos um grande lutador, Hugo Blanco Galdós. Líder camponês histórico do Peru. Durante vários anos pertenceu à nossa corrente e foi, segundo Nahuel Moreno, o maior líder trotskista das massas, depois de Trotsky.

Depois de passar pela prisão e pelo exílio, foi deputado e senador constituinte, sendo um grande exemplo de como os revolucionários devem usar o parlamento, como amplificador das reivindicações operárias, com denúncia permanente de seu caráter burguês e conclamando os trabalhadores e camponeses a nunca terem confiança na democracia dos ricos.

Nos últimos anos afastou-se do trotskismo, mas nunca desistiu de lutar pelos interesses dos camponeses e indígenas e pelo socialismo, nem pela defesa da democracia de base. Glória a Hugo Blanco! Até o socialismo sempre companheiro

Nahuel Moreno dizia que Hugo Blanco foi o maior dirigente trotskista das massas depois de Trotsky. E até hoje é assim. Foi o dirigente indiscutível da revolução agrária peruana, que teve seu centro em La Convención[1], desencadeada na década de 1960 do século passado. Ao longo desse processo, fez parte da nossa corrente e da luta pela construção do partido revolucionário no Peru. Hoje ele se reivindica indigenista e continua sendo uma importante referência para o movimento camponês-indígena latino-americano.

Hugo Blanco Galdós nasceu em Cuzco, Peru, em 1934. Seu pai era advogado, defensor de camponeses, o que o fez, desde cedo, conhecer suas misérias e aprender a língua quíchua, por meio do contato com velhos dirigentes camponeses e indígenas que visitavam a seu pai.

Em 1954 foi para La Plata, Argentina, estudar Agronomia. E entrou na organização dirigida por Nahuel Moreno, conhecido pelo nome de seu jornal “Palabra Obrera”. Ele descreve essa fase de sua vida da seguinte forma:

“Em 1954 fui para La Plata, na Argentina, quando havia uma ditadura no Peru. Lá chegaram os exilados apristas, como Melgar, Villanueva. Meus irmãos, de 17 e 19 anos, foram presos por serem apristas. Naquela época, ser aprista, ou comunista, era crime no Peru. Quando cheguei descobri que meu irmão era secretário geral da célula aprista em La Plata. Evidentemente que já não havia mais perseguição lá.

Não gostava do aprismo. E meu irmão se encarregava de manter os comunistas longe de mim. Eu procurava pessoas do POR (e/ou trotskistas que eu sabia que existia), porque sabia que em Lima tinha havido uma repressão contra o POR e seu programa, que me agradou, havia sido publicado no jornal.

Estávamos no quarto do meu irmão, que era a sede do partido Aprista. O Centro Federado tinha caído, pela primeira vez, nas mãos da esquerda. E meu irmão diz: “Você sabe o que Pavón fez, ele trouxe um trotskista para o Sindicato dos Estudantes Peruanos”. E então, eu prestei atenção. E meu outro irmão disse “você diz justo a ele que está procurando trotskistas”.

Houve uma mobilização de apoio aos estudantes peruanos e lá conheci Carlos Salguín, um peruano, e disse a ele: “Você é trotskista e estou procurando apristas rebeldes, do POR ou o pessoal trotskista”. Ele respondeu: “Sou trotskista do POR-Peru e estou deportado” e me colocou em contato com o POR argentino. Foi assim que conheci Moreno, ele era o dirigente do POR. Era 1956.

Os peruanos entraram no POR como aspirantes. Tínhamos todos os direitos e obrigações, exceto o direito de voto.

Eu e outros alunos saímos da universidade e fomos trabalhar em uma fábrica[2]. No Peru houve uma abertura. Tínhamos que voltar para construir o partido lá.

Nós Peruanos, como íamos voltar ao Peru, mesmo sendo aspirantes, tivemos o privilégio de participar das reuniões da direção do partido, onde Moreno estava presente”[3].

A visita de Blanco ao Peru não foi para aderir ao movimento camponês, mas, como ele bem diz, tinha como objetivo principal ajudar a construir o partido revolucionário. Com este objetivo, aderiu ao POR[4]

“De volta ao Peru, tentava entrar na fábrica, mas eram pequenas fábricas sem sindicatos que tentávamos organizar. Até que finalmente consegui entrar em uma fábrica de óleo, que tinha sindicato. Nesse momento chegou Nixon, então vice-presidente, e preparou-se uma manifestação contra, onde participou o POR peruano que sofreu a repressão. Lá decidimos que eu deveria ir para Cuzco, onde havia um importante levantamento. E aí começa outra história, a luta de La Convención”[5]

A luta da Convenção

Hugo foi para Cuzco, trabalhou como jornaleiro e fundou o sindicato. Se junta aos camponeses de La Convención. É preso por participar de uma mobilização em Cuzco e libertado por pressão da Federação dos Trabalhadores de La Convención e com seu apoio consegue superar os obstáculos que o Partido Comunista colocou para ele participar das assembleias da Federação dos Trabalhadores de Cuzco e da Federação dos Camponeses. Fixou-se no vale de La Convención e depois de impulsionar a organização sindical camponesa, tornou-se gradualmente o grande dirigente da sublevação agrária que eclodiu em 1961, que tinha seu centro na província de La Convención, ao mesmo tempo em que ganhava dirigentes camponesas para a construção do partido revolucionário, depois de entrar no POR.

“O grito de Ota allpa otac huañuy! (Terra ou morte) viajará pelos vales na boca de dezenas de milhares de camponeses. Blanco, ao chegar a Cuzco, havia encontrado apenas seis sindicatos organizados. Quando sua campanha terminou, eram cento e quarenta e oito.

Em julho de 1961, Hugo Blanco já era um importante dirigente camponês em La Convención e disputava palmo a palmo a direção da FTC (Federação dos Trabalhadores) com o PC.”[6]

Por um ano continua o processo de sindicalização, ocupação de fazendas, confrontos armados com a polícia. A política discutida no SLATO (Secretariado Latino-Americano do Trotskismo Ortodoxo), de impulsionar a organização camponesa na luta contra o latifúndio incorporava a defesa dos indígenas como nação oprimida.

“O “índio” é uma nacionalidade oprimida. Embora o muro que a separa do mestiço e do branco não seja tão sólido como no caso dos Estados Unidos, a humilhação e o esmagamento de que é vítima são maiores. A sua língua, a sua música, o seu vestuário, os seus gostos, os seus costumes são ridicularizados, esmagados, maculados (…) Sem dúvida, a luta no campo é a do camponês contra o gamonal[7]; mas a reivindicação do índio, da nacionalidade oprimida, é um ingrediente fundamental. Por isso, sempre falamos em quíchua durante toda a luta, sempre exaltamos o que é índio”[8].

E, como disse Nahuel Moreno, “o grande problema que se coloca é como conciliar esta luta pela terra e o voto para o campesinato[9] (que é uma luta que interessa às massas camponesas) com os problemas que afligem ou preocupam às massas urbanas e especialmente à classe operária de Lima”[10]

Infelizmente essa combinação não foi alcançada. Os esforços para encontrar uma solução no exterior não renderam resultados. Palabra Obrera, da Argentina, enviou um de seus dirigentes a Cuba para pedir apoio material, mas essa ajuda não chegou. Assim, a insurreição camponesa ficou isolada e a repressão, especialmente a perseguição a Hugo Blanco, aumentou.

Hugo Blanco é capturado

Em agosto de 1962, Blanco com um grupo de companheiros, foram forçados a se transformar em guerrilha para se defender.

“O que era previsível aconteceu. Uma forte repressão contra nós que derrubou tudo (…) exceto a única coisa sólida que havia: o movimento camponês. Ainda que devido à proteção não pudessem me prender, minha ação ficou muito limitada (…) Foi justamente o isolamento que nos obrigou a passar de milícia a guerrilha”[11]

Este destacamento armado foi aprovado pelas assembleias camponesas.

“O apoio do campesinato foi quase absoluto, emocionante. Alimentava-nos, vestia-nos, guiava-nos, protegia-nos (…) Como nosso estômago e nossa mochila tinham capacidade limitada, recebíamos um pouco de cada um, para que ninguém se sentisse ofendido (…) qualquer alusão a um pagamento teria sido um insulto (…)”[12]

Hugo Blanco e seu destacamento armado continuaram percorrendo as diferentes zonas e assinando como “Secretário de Reforma Agrária da Federação Departamental” as resoluções aprovadas pelas assembleias camponesas. Eles tiveram três confrontos armados. Finalmente, em 15 de maio de 1963, Hugo Blanco foi preso. Ele foi salvo de ser assassinado porque houve uma discussão entre seus captores que não conseguiram se colocar de acordo em matá-lo.

Uma grande campanha internacional conseguiu que a pena de morte fosse comutada para 25 anos de prisão. Foi anistiado aos 8 anos e deportado para o México, de onde foi para a Argentina, onde foi preso novamente e uma nova campanha internacional conseguiu sua liberdade.

O grande apoio das massas ficou evidenciado pelo fato de ter sido eleito para a direção da Federação Camponesa durante todos os anos em que esteve preso, mas não apenas por isso. Foi muito comovente ouvi-lo em uma palestra que deu aos militantes do PST em La Plata quando nos contou que quando foi perseguido, em cada casa camponesa de La Convención havia uma cama extra, era a cama de Hugo Blanco, ou como era importante para ele, quando estava incomunicável, ver todas as noites, por uma janelinha que dava para uma colina, LIBERDADE PARA HUGO BLANCO, escrito com tochas.

A mesma relação com o movimento de massas se manifestou quando, voltando do exílio, como membro da FOCEP[13], disputou as eleições para a Constituinte em 1978, sendo um dos candidatos mais votados.

Hugo Blanco não foi um líder guerrilheiro

Apesar de muitos setores apresentarem dessa forma, isso não tem nada a ver com a realidade. Hugo Blanco continua sendo um grande defensor da democracia de base, das assembleias, o que é contrário à ação de todos os dirigentes guerrilheiros, que nunca levaram em conta a opinião da base operária e camponesa.

Nahuel Moreno explica isso quando discute com Mandel (Germain) sobre a atuação de Hugo Blanco no Peru: “Será que o camarada Germain esqueceu que tudo o que Hugo Blanco fez, foi feito a partir dos sindicatos camponeses e não de um “exército revolucionário” criado pelo partido, por iniciativa própria? O camarada Germain esqueceu que a luta armada surgiu como uma necessidade para o movimento camponês (sindicalmente organizado por Hugo Blanco) para defender da repressão desencadeada pelo regime diante da massiva ocupação de terras? O que essa luta armada, resultado de um momento de luta de classes no Peru, tem a ver com a “estratégia de luta armada” da maioria para toda a América Latina e para todo momento da luta de classes? O camarada Germain esquece que esta luta armada surgiu como uma necessidade do movimento de massas camponês e não como uma iniciativa do partido ou da vanguarda?[14]

Já vimos a explicação de Hugo Blanco sobre por que ele teve que recorrer ao método de guerrilha. Mas para que não restem dúvidas sobre sua posição sobre o assunto, vejamos o que ele disse em 1970, em entrevista concedida à Imprecor e reproduzida na Revista de América N 1 [15]

Blanco: É muito triste que Fidel apoie este governo burguês e pró-imperialista, por sua política de desenvolvimento do país e por sua demagogia anti-imperialista. Este é o governo que massacrou os camponeses, que está ao lado da burguesia nacional e dos imperialistas em seus conflitos com os trabalhadores peruanos, e que está reprimindo os estudantes (…)

Por que Fidel deposita sua confiança nesse governo que luta contra essa camponesa? Por que não confia naquela companheira que lutou por sua terra e alimentou, vestiu e protegeu seus guerrilheiros que lutavam nas montanhas? Fidel acredita que só a guerrilha e os exércitos burgueses são capazes de fazer uma revolução? Serão as massas do Peru que farão a revolução, camarada Fidel, e usarão a guerrilha apenas como uma de suas armas.

(…)

Blanco: Pelas respostas que demos às outras perguntas, fica claro que não consideramos a luta guerrilheira como uma estratégia, mas apenas como uma tática a ser usada em determinados momentos e em determinadas circunstâncias.

Elevar a guerrilha rural como estratégia geral para todos os países latino-americanos foi um grave erro de Fidel e Che. Foi uma experiência muito dolorosa para toda a América Latina. Felizmente, a dura realidade está obrigando muitos camaradas fidelistas a reconsiderar. Começam a entender que a escolha não é entre oportunismo ou guerrilha, mas entre oportunismo ou revolução.[16]

Hugo Blanco hoje

Hugo Blanco afastou-se do trotskismo, não pertence a nenhuma organização política, dirige a revista “Luta Indígena”.

Diferente de muitos outros dirigentes, ele não foi das “trincheiras aos palácios”. Pelo contrário, a partir de sua atual visão indígena, continuou a luta contra o imperialismo e o capitalismo, defendendo os interesses dos explorados e oprimidos, sempre reivindicando a democracia de base das assembleias camponesas e indígenas.

Hugo Blanco foi uma glória da nossa corrente. As diferenças políticas, programáticas e ideológicas que temos hoje não mudam em nada esse passado glorioso nem o nosso grande respeito por ele e sua luta permanente.

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[1] Uma das 13 províncias que compõem o departamento de Cusco, no sul do Peru.

[2] Hugo Blanco trabalhava como operário na geladeira Swift de Berisso.

[3][3] Conversas com Nahuel Moreno, edição homenagem 30 anos após sua morte. Testemunho de Hugo Blanco. Edições Vivendo o Marxismo

[4] Partido Obrero Revolucionario, organização trotskista, pertencente ao SLATO (Secretariado Latino-Americano do Trotskismo Ortodoxo), organização fundada por Moreno diante da recusa do SWP dos Estados Unidos em centralizar o Comitê Internacional, setor que reunia as organizações que enfrentavam o desvio pablista na ruptura da IV Internacional em 1953. Outros dirigentes estiveram no SLATO, como Luis Vitale, e agrupava os partidos argentino, chileno e peruano.

[5] Idem

[6] O trotskismo operário e internacionalista na Argentina, Cord. Ernesto Gonzalez

[7] O gamonalismo foi um sistema de poder nas mãos dos latifundiários, que surgiu em meados do século XIX e durou até a reforma agrária de 1970, no sul do Peru. Nem todos esses fazendeiros haviam herdado a terra, mas muitos deles, por meio de artimanhas, a vinham roubando dos indígenas.

[8] Hugo Blanco, Terra ou Morte. A luta camponesa no Peru

[9] Somente os alfabetizados votavam e na época o analfabetismo chegava a 80% nas áreas rurais de Cuzco (citado em El trotskismo obrero e internacionalista en Argentina, p. 210).

[10] Carta de Nahuel Moreno de abril de 1961

[11] Hugo Blanco, Terra ou morte. A luta camponesa no Peru.

[12] idem

[13] Frente Obrero, Campesino, Popular, que obteve 12% dos votos

[14] Nahuel Moreno, O partido e a revolução, Edições Marxismo Vivo, p. 276

[15] Imprecor, revista da Secretaria Unificada. Magazine of America, revista da Fração Bolchevique, antecessora da LIT-CI

[16] Reportagem sobre Bejar, Gadea e Blanco, publicada na Revista de América nº 1 (maio de 1970)

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