sáb jul 13, 2024
sábado, julho 13, 2024

Uruguai: nova crise do governo antioperário

Os eventos ocorridos nos últimos dias na coalizão encabeçada por Lacalle Pou marcaram um avanço qualitativo em sua crise. Tanto é assim que a mesma tem sido catalogada como a pior no que já se vai do período.

Por: IST-Uruguai

Os fatos de uma nova crise

A mesma se originou logo que se denunciou «corrupção» e «clientelismo político» no Ministério da Habitação*. Neste, a agora ex-ministra, Irene Moreira, teria acomodado um militante de seu próprio partido para acessar uma casa, o ultradireitista e abertamente defensor dos torturadores, Cabildo Abierto (CA). Agora se sabe que esse não foi o único caso, existe ao menos outros quatro.

Moreira saiu em defesa do que foi feito muito satisfeita consigo mesma depois de reunir-se com o presidente na Torre Executiva. Em sua saída afirmou: “me entendem perfeitamente” e se justificou dizendo que ela tinha “uma vaga de reserva que era minha”.

No outro dia, Lacalle Pou –que já se encontra rodeado de bastantes escândalos de todo tipo e que nem sequer saiu para falar do tema-, pediu a renúncia. O que pode ficar como um “acerto de contas” devido aos constantes problemas entre CA e o Executivo –e que se expressou com força nas negociações antes da votação da reforma da previdência-, ia se transformando em uma escalada, em uma nova crise no governo.

A acusação de corrupção no Ministério de Habitação sujou nada menos que a esposa de Manini Rios e por tanto a ele também, a principal figura do partido. O deputado R. Albernaz confessou que “com o diário de segunda-feira (…) teria que ter pensando duas vezes” em colocar a Moreira de ministra já que era “muito valiosa” como senadora (1). Tudo isso em um Ministério que, além disso, o próprio ex-membro do CA, Eduardo Lust, reconheceu que não haviam sido capazes de tirar uma só pessoa dos assentamentos (2).

Enrolado nessa situação, Cabildo Abierto decidiu então desafiar a renúncia e defende profundamente o feito de Moreira, desatando a crise na Coalizão.

O primeiro fato foi a conferencia de Manini Ríos onde exortou o presidente a rever sua decisão. Logo veio a conferencia de Moreira, onde também justificou em tom de confronto suas ações, mas deixando entender que definitivamente iria renunciar. Nesse momento Cabildo Abiertoanuncia que iria se reunir para decidir se segue ou não na Coalizão, gerando vários dias de incertezas e tensionando ao máximo a situação.

Finalmente, em sua conferencia na segunda feira, em horário central e quase em cadeia nacional, Manini Rios anunciou, não sem várias críticas ao presidente, que se manteria na Coalizão. A gargalhada dos nostálgicos da ditadura de Cabildo Abierto, que quiseram transformar um fato de presumível corrupção que os envolve em uma oportunidade para ocupar “o centro das atenções”, terminou em um recuo. As acusações no Estado que deveriam ser retiradas caso saíssem pesavam mais do que os falsos “princípios” que tanto invocam.

Tal foi a marcha ré que o agora novo ministro, Raúl Lozano (CA), disse depois de se reunir com Lacalle Pou que “teria que rever este regulamento para que não tenha zonas cinzentas e que não aconteçam coisas como as que aconteceram” (3). E Albernaz opinou que na Coalizão “as relações depois disso só podem melhorar”. Todo esse palavreio ficou muito longe dos falsos e desafiantes discursos cabildantes e tanto retrocedeu o ex-comandante que agora disse que a entrega da casa a um militante ele «não teria feito».

A crise na coalizão de direita se aprofunda

Este novo ponto de inflexão na crise do governo não faz mais que demonstrar um salto em sua fragilidade. Todos os jornais e analistas burgueses revelam sua incerteza acerca do governo e sua unidade. Essa é a incógnita que fica sobrevoando e o único que os une é o violento ataque contra os trabalhadores.

Ninguém pode descartar novas crises que levam o governo a outra agonia. Um choque pelos escândalos por uma ação parlamentar, novos feitos de corrupção ou mais derivações pelos escândalos de Penadés Astesiano ou outros, podem ser detonantes. O governo está por um fio muito tênue. Além do mais, à medida que os partidos vão se preparando para as eleições, é provável que CA –que também sai golpeado por este fato-, querendo distanciar do governo com um discurso enganoso, siga aprofundando mais a crise.

Um governo debilitado e em crise permanente

Esta crise dos de cima é um reflexo do crescente desprestígio do governo de Lacalle Pou. Da revolta que existe entre os de baixo, entre os trabalhadores contra o mesmo e também da insatisfação que vai crescendo nos setores médios.

Bronca e insatisfação produto do aumento de preços sobre todo os alimentos, que no último tempo tem dado um salto muito importante primeiro com o argumento da guerra e agora com o da seca. E produto do desemprego que vem agravando sobre tudo em vários departamentos do interior, especialmente do litoral.

Também pelos graves casos de Marset-Astesiano e agora de Penadés; pelos sucessivos casos de corrupção em diversos ministérios, pelas renuncias constantes de ministros, funcionários e hierarcas.

E agora se soma uma grave crise pela água potável a que nos submete o governo depois de ter aumentado o cloro e duplicado o sal da mesma, colocando em risco a saúde sobre tudo dos trabalhadores e os pobres que não podem comprar água engarrafada.

Nesse contexto, os trabalhadores realizaram uma forte greve geral contra a reforma da previdência. Os estudantes da IAVA continuam enfrentando a política autoritária do governo e seus hierarcas na educação. Os estudantes do Dámaso ocuparam o liceu e existem potencias conflitos em todos as escolas secundárias. Os operários lácteos, os do supergás e os de Bimbo também estão em conflito e ameaçam aprofundá-los. Duas importantes mobilizações foram realizadas devido ao problema da água com forte presença juvenil.

Todos esses fatores se combinaram para fazer com que a crise do governo tenha um caráter permanente que revela sua debilidade e instabilidade.

A direção da Frente Ampla

Lamentavelmente, a direção da Frente Ampla, ante semelhante crise no governo e a apertada situação por baixo, continua repetindo que temos que esperar as eleições do ano que vêm. Assim afirmou Fernando Pereira em meio toda esta crise quando disse que isso se resolve “trocando o governo em 2024”. O deputado Gerardo Olmos foi mais longe e defendeu a Lacalle Pou sem nenhuma vergonha: “devemos respaldar o presidente ante a crise institucional gerada pela ministra insurrecta” (4).

Como se não fosse o próprio Lacalle Pou quem se uniu à ultradireita, o mesmo que protegeu a Manini Ríos pactuando com ele para que pudesse amparar-se em seus fóruns parlamentares e não ir à Justiça pelo ocultamento de informações vinculada a casos de violações dos Direitos Humanos. O mesmo que negociou para aprovar a lei machista que expõe as crianças a pais violentos, denominada “Tenencia Compartida”, que impulsionou CA.

Lamentavelmente esses dirigentes tímidos do «progressismo» não querem enfrenta-lo nas ruas e pretendem que Lacalle termine seu mandato em 2025. Querem que os trabalhadores continuem aguentando a situação enquanto os dirigentes da FA estão muito tranquilos para negociar com o governo seus cargos parlamentares.

Uma saída Operária e Socialista

Nós da Esquerda Socialista dos Trabalhadores consideramos que esta crise que colocou na realidade a possível ruptura da Coalizão e a governabilidade, é, como afirmamos mais acima, a aguda expressão de um governo debilitado e em crescente desprestígio. É um governo em crise periódica. Essas condições objetivas mostram que é possível sua caída se organizamos uma grande luta.

Mas lamentavelmente, a direção da Frente Ampla e a cúpula do PIT-CNT têm a orientação contrária: querem conciliar com o governo, amortecendo a crise e canalizando para as eleições.

Nós opinamos que, por tudo que expusemos anteriormente, este governo já não pode continuar. É necessário que das lutas, das bases nos sindicatos, nos bairros, nos centros de estudo, nas fábricas e escritórios nos organizemos para isso, em um plano de luta unificado que culmine em uma Greve Geral. A partir dessas lutas colocamos que este governo não pode seguir e que suas reformas antioperárias devem cair e assim impor uma Assembleia Constituinte –da qual já existem antecedentes históricos em nosso país- Livre e Soberana.

Não para que os exploradores pactuem entre eles a solução da crise do regime como tem feiro até agora, mas para o contrário: que através das organizações operárias e populares se tomem medidas a favor dos trabalhadores tais como: não pagamento da dívida externa, aumento geral dos salários e congelamento dos preços, redução da jornada de trabalho sem redução de salário para dar trabalho a todos, reduzir a idade de aposentadoria, outorgar não menos que 6+1% do PIB à educação, estatizar os bancos e o comercio exterior e que através do controle operário e popular das grandes empresas enfrente a problemática meio-ambiental como a atual crise da água potável.

Dessa maneira poderemos dar passos em uma saída operária e popular na perspectiva de instaurar um governo dos trabalhadores e suas instituições; um Uruguai Socialista como parte da luta por uma Federação de Repúblicas Socialistas da América Latina.

Para conseguir essas tarefas temos o desafio de construir uma nova direção que queira enfrentar o governo de forma consequente, não para negociar e cuidar da podre institucionalidade capitalista, mas para destruí-la e construir sobre seus escombros o Socialismo com democracia operária.

– Abaixo Lacalle Pou e seu governo corrupto!!!

– Preparemos a Greve Geral!!!

– Por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana!!!

– Não ao pagamento da dívida externa!!!

– Por uma alternativa Operária e Socialista!!!   

Fontes

*https://ladiaria.com.uy/politica/articulo/2023/5/fa-evalua-interpelar-a-irene-moreira-por-adjudicacion-de-vivienda-a-militante-de-ca/

1) https://www.m24.com.uy/renuncia-de-moreira-a-vivienda-creo-que-el-presidente-lo-tendria-que-haber-pensado-dos-veces-sostuvo-diputado-rodrigo-albernaz/

2) https://ladiaria.com.uy/politica/articulo/2023/2/eduardo-lust-pasamos-todo-este-tiempo-en-el-gobierno-y-no-sacamos-a-nadie-del-asentamiento-teniendo-al-ministerio-de-vivienda/

3) https://www.telenoche.com.uy/nacionales/lozano-habra-que-rever-normativa-adjudicacion-directa-n5348739

4) https://www.elpais.com.uy/informacion/politica/diputado-del-fa-respaldo-a-lacalle-pou-y-califico-a-manini-rios-como-generalote-prepotente

Artículo publicado en ist.uy 14/05/2023

Tradução: Túlio Rocha

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