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quinta-feira, maio 23, 2024

Algumas notas sobre os “Cadernos da Ala de Isolamento de Verkhneuralsk”

Durante as obras de reforma na cadeia de Verkhneuralsk[1], ainda em funcionamento, no início de 2018 na Rússia, foi feita uma descoberta sensacional. A Diretoria Principal do Serviço Penitenciário Federal da Rússia para a região de Chelyabinsk informou que foi encontrado um esconderijo sob as tábuas do piso da cela nº 312, que continha documentos datados de 1932-1933. Eram manuscritos abrangendo mais de 400 páginas e contendo títulos como “A traição decisiva da clique de Stalin: Sobre os recentes acontecimentos na Alemanha”, ou “Projeto de resolução sobre os fundamentos teóricos da oposição leninista e sobre o socialismo nacional stalinista”.

Por Marcos Margarido

Estes documentos, devido às condições de armazenamento, estavam bastante danificados, não sendo possível determinar o número exato de textos, mas estima-se a existência de 30 a 35 documentos separados, ou “cadernos”, dos quais 27 estão em condições de serem transcritos e interpretados.

Por que uma descoberta sensacional? Porque se trata de textos escritos por membros da Oposição de Esquerda na Rússia, a organização internacional criada por Trotsky para combater a burocratização do Estado soviético sob o comando de Stalin e retomar o caminho revolucionário do país, iniciado em outubro de 1917. Sabia-se que os trotskistas presos produziam um jornal samizdat, isto é, escrito à mão, o Bolchevique-Leninista, em Verkhneuralsk, mas ninguém o tinha visto antes que os cadernos fossem encontrados. O texto O golpe fascista na Alemanha, por exemplo, é a edição do Bolchevique-Leninista nº 2 (12), de 1933.

Jornal dos Bolcheviques Leninistas

Até então, a presença de membros da Oposição de Esquerda nas prisões políticas da era stalinista era confirmada apenas por relatos indiretos, como nas memórias do oposicionista de esquerda iugoslavo Ante Ciliga, The Russian Enigma, ou no romance de Victor Serge, Meia-Noite no Século, e analisada pelo historiador francês Pierre Broué em seu livro, Comunistas contra Stalin, lançado em português pela Ed. Sundermann.

Os “Cadernos da Ala de Isolamento de Verkhneuralsk”, uma espécie de prisão política, que passaram a ser identificados e transcritos pelo historiador russo Aleksandr Fokin e sua equipe, são a confirmação documental dessa presença. Verkhneuralsk era uma prisão política operada pela NKVD no início dos anos 30, e tinha mais de 100 oposicionistas de esquerda, incluindo Ante Ciliga, Viktor El’tsin, Man Nevel’son, e Fedor Dingel’shtedt. Os manuscritos encontrados na prisão, mais de 80 anos após serem escritos, finalmente fornecem provas materiais da vibrante troca clandestina de ideias e opiniões da Oposição de Esquerda na prisão.

Conforme observado por outro historiador russo, Aleksey Gusev, a ala de isolamento de Verkhneuralsk, mais as prisões de Yaroslavl e Suzdal, foram os centros da vida ideológica da oposição após sua derrota pelos órgãos de repressão.

Imediatamente após a notícia da descoberta, os historiadores russos tentaram ter acesso aos documentos. Já em março de 2018, o historiador Aleksandr Fokin (Universidade Pública de Chelyabinsk) conseguiu publicar uma primeira análise dos manuscritos, bem como a transcrição de um deles, O golpe fascista na Alemanha (1933), na revista de história Ab Império[2]. Outro texto foi publicado posteriormente, a seção A linha estratégica da revolução proletária,que é partedo documento A crise da revolução e as tarefas do proletariado.

Este tem as seguintes seções: I. A linha estratégica da revolução proletária; III. A situação mundial e a Comintern; IV. A economia estatal e perspectivas para seu desenvolvimento; V. A condição da classe operária; VI. Agricultura; VII. A evolução do Estado Soviético e o perigo do bonapartismo; IX. As táticas e tarefas da oposição leninista; X. Programa e sugestões práticas; XI. Conclusão. Contra o oportunismo! Pela teoria e prática revolucionária de Marx e Lenin! 

As condições das prisões políticas no início dos anos 1930

Um dado interessante da descoberta é que eram utilizadas capas de edições de revistas publicadas pelo Estado soviético como capas dos cadernos, provavelmente para esconder seu conteúdo. Assim, segundo A. Fokin, para o caderno A crise da revolução e as tarefas do proletariado foi utilizada a capa da revista A Internacional Comunista. Isto indica que os prisioneiros tinham acesso a publicações políticas do país e estrangeiras (por exemplo, livros de Trotsky publicados no exterior).

Isto leva à questão do grau de liberdade que havia nas prisões políticas. Segundo Aleksei Gusev:

Até meados dos 30, os presos políticos na URSS tinham um status especial, e não estavam mesclados com os delinquentes comuns nem com os que enviavam para construir canais, etc. Assim, eram mantidos nestas prisões políticas especiais em condições relativamente livres. Relativamente, é claro, porque às vezes os golpeavam, invadiam suas acomodações, etc. Mas, podiam escrever, podiam produzir revistas manuscritas, programas, podiam discutir, encontrar-se nos pátios da prisão durante suas caminhadas. Duas vezes por dia podiam sair para caminhar e discutir.[3]

Este relato de liberdade relativa está baseado no livro de memórias de Ante Ciliga, que pôde ler os trabalhos publicados na prisão, provavelmente, entre eles, alguns dos cadernos descobertos, pois ele também foi preso em Verkhneuralsk. Segundo ele:

Que diversidade de opinião havia, que liberdade em cada artigo! Que paixão e que sinceridade, não só na abordagem das questões teóricas e abstratas, mas até mesmo em questões da maior atualidade. Ainda era possível reformar o sistema por meios pacíficos, ou seria necessário um levante armado, uma nova revolução? Stalin era um traidor consciente ou meramente inconsciente? Sua política era de reação ou de contrarrevolução? Ele poderia ser eliminado pela simples remoção dos dirigentes, ou era necessária uma verdadeira revolução? Todos os artigos foram escritos com a maior liberdade, sem qualquer reticência, pontilhando i’s e cruzando t’s e, supremo horror:- cada artigo era assinado com o nome completo do escritor.[4]

E completava, sobre as condições de vida na prisão:

Nossa liberdade não estava limitada a isso. Durante as caminhadas, que reuniam várias alas, os prisioneiros tinham o hábito de realizar reuniões regulares em um local do pátio, com presidente, secretário e oradores falando em ordem adequada… Nessas reuniões, os assuntos mais perigosos e proibidos eram discutidos sem a menor restrição e sem nenhum medo… Nessas reuniões, Stalin saía-se muito mal, sendo chamado de todo tipo de nomes. Eu tinha visto muitas coisas na URSS, mas nenhuma tão desconcertante como esta ilha de liberdade, perdida em um oceano de escravidão – ou era apenas um manicômio? Tão grande era o contraste entre o país humilhado e aterrorizado e a liberdade de espírito que reinava nesta prisão que eu me inclinava primeiro pela teoria do manicômio. Como admitir que, na imensidão de silêncio da Rússia, duas ou três pequenas ilhas de liberdade, onde os homens ainda tinham o direito de falar livremente, eram… as prisões?[5]

Mas, havia outra opinião, talvez por se tratar de outra prisão. A. Tarov, membro da Oposição de Esquerda preso na ala de isolamento de Verkhne-Uralsky, faz o seguinte relato:

No sétimo mês a partir da data de nossa prisão, fomos transferidos para a ala de isolamento de Verkhne-Uralsky. Justamente naquele momento, os prisioneiros bolcheviques-leninistas, em número de 450 pessoas, entraram em greve geral de fome em protesto contra o regime prisional e a arbitrariedade da administração em relação ao bolchevique-leninista Kame. Antes desta primeira greve geral de fome, em 1930, a administração penitenciária, liderada pelo chefe da prisão Bizyukov, ordenou jogar água fria sobre os bolcheviques-leninistas (no inverno, na Sibéria!). A ordem foi executada. Num momento de tumulto, quando nossos camaradas tentaram bloquear as passagens para não deixar entrar água nas câmaras, os guardas dirigiram as mangueiras diretamente nos olhos dos camaradas, cegando o camarada Poghosyan. E, em 1931, no mês de abril, um sentinela disparou através das barras no peito do camarada Yesayan.[6]

Mas, apesar destas diferenças, uma coisa é certa. Conforme Aleksei Gusev:

Mas, depois do assassinato de Kírov, é claro que toda essa liberdade relativa se acabou e os presos políticos da oposição comunista primeiro foram enviados ao Gulag, e depois quase todos foram assassinados, fuzilados… Stalin ordenou uma “solução final”: todo mundo devia ser assassinado. E mataram-nos com metralhadoras, entre 200 e 300 por dia, em Kolymá e Vorkutá.[7]

Perspectivas em relação aos Cadernos

Este breve texto visa introduzir os leitores aos dois Cadernos, inéditos em português, que serão publicados no site da LIT-QI: A linha estratégica da revolução proletária e, em breve, O golpe fascista na Alemanha.

Podemos esperar a publicação de outros textos? Certamente. Segundo A. Fokin:

Alguns cadernos são um índice e um catálogo contendo informações sobre documentos que não foram encontrados na cela nº 312 (de acordo com oficiais da GUFSIN, há várias outras celas em Verkhneuralsk onde os presos políticos foram mantidos e onde ainda não houve reforma, portanto é possível que um conjunto de novas fontes seja fornecido no futuro).[8]

Além disso, o historiador russo informou em comunicação pessoal que está sendo preparado um livro com as transcrições dos cadernos já encontrados, com publicação prevista para breve. Estamos ansiosos para conhecê-lo.


[1]          Verkhneuralsk: cidade na província de Cheliabinsk, perto dos Montes Urais, no sul da Rússia.

[2]          Aleksandr Fokin, Tetradi Verkhneural’skogo politicheskogo izoliatora. Predstavlenie istochnika i razmyshleniia o ego znachenii [Os cadernos da prisão política de Verkhneuralsk. Apresentação das fontes e reflexões sobre seu significado], revista Ab Imperio, no. 4 (2017): 177–94, https://doi.org/10.1353/imp.2017.0080.

[3]     https://www.esquerdadiario.com.br/Aleksei-Gusev-Na-URSS-a-burocracia-atacava-Trotski-como-aliado-da-contrarrevolucao-na-Russia-atual

[4]     Ante Ciliga, The Russian Enigma, p. 199

[5]     Ibid., p. 200

[6]     А. Tarov. Letter on Escape // Opposition Bulletin. 1935. December. № 46. http://www.1917.com/Marxism/Trotsky/BO/BO_No_46/BO-0441.html. Citado por A. Fokin, Tetradi Verkhneural’skogo politicheskogo izolyatora: predstavleniye istochnika i razmyshleniya o yego znachenii (Cadernos da ala de isolamento político Verkhneuralsky: apresentação de suas fontes e reflexões sobre seu significado). Revista Ab Imperio, 4/2017.

[7]     A. Gusev, Idem.

[8]     A. Fokin, Idem.

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