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sexta-feira, abril 12, 2024

A LIT-QI, a questão palestina e as revoluções árabes

Em seus 40 anos de fundação, a LIT-QI é reconhecida por suas posições inequívocas em defesa de um Estado palestino único laico, livre, democrático e não racista, uma Palestina livre do rio ao mar. Assim, jamais aderiu, como a esmagadora maioria das organizações, à injusta desde sempre e já morta “solução de dois Estados”. Também é reconhecida por seu apoio incondicional às revoluções árabes. Não significa que não tenha enfrentado desafios ou cometido erros, mas seguramente sua trajetória segue os princípios da IV Internacional em sua tarefa de reconstruí-la, rumo à revolução socialista mundial.

Por Soraya Misleh e Fabio Bosco

Já no seu primeiro ano de vida, em 1982, a LIT-QI enfrentou dois desafios relativos à questão palestina. O primeiro foi teórico-programático, sobre a natureza da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Naquele momento, o principal dirigente da LIT-QI, Nahuel Moreno, responde aos questionamentos de um camarada chileno sobre a política da Internacional para a questão palestina. Em sua resposta, Moreno desenvolve uma elaboração original e principista ao tratar a OLP como uma “nação sui generis sem território”.  

No debate, o companheiro chileno questiona, entre vários pontos, a caracterização sobre a OLP: 

“Por que não caracterizamos nem a OLP no Boletim Interno? Por acaso não é uma organização frentista controlada pela burguesia e pela pequena burguesia, tendo Arafat como expressão disso? Não é uma organização que deu amplos sinais de capitulação – em franca contradição com o incrível heroísmo demonstrado pelo povo palestino? Que setores são os “revolucionários” referidos pela nossa imprensa? Hawatmeth? Habash? Não há uma incrível ilusão em afirmar no Boletim Interno que a OLP deve ser chamada a “tomar a liderança da luta palestina no caminho do socialismo”? Pedimos à burguesia e à pequena burguesia que “lutem pelo socialismo”? Esse erro crasso não é uma forma grosseira de “pedir desculpas” pelo caráter mínimo do slogan central sobre a Palestina, tirando a ideia de socialismo de qualquer contexto prático e real?” (I)

Moreno responde com a carta que foi posteriormente publicada na revista Correio Internacional número 8, de julho de 1982, sob o título “Palavra de ordem democrática que pode abrir caminho à revolução socialista”. (II) Eis dois trechos onde aparece essa elaboração: 

“Vocês caracterizam a OLP como se fosse um partido político a mais. Para nós, ela representa a nacionalidade palestina como organização estatal sui generis laica, democrática e não racista, em guerra.”(III)

“Porém, tampouco são capazes de golpear a direção por suas verdadeiras capitulações que, a nosso juízo, se baseiam no abandono da palavra de ordem por uma Palestina laica, democrática e não racista. A mesma raiz tem a crítica de que somos uns iludidos porque chamamos a OLP a lutar pelo socialismo. Sem ser esta nossa palavra de ordem fundamental, já que, como dissemos, ela é a recuperação da terra para reconstituir a nação, expulsando os sionistas e terminando de constituir uma Palestina laica, democrática e não racista, nosso chamado à OLP para que lute pelo socialismo se baseia naquilo que consideramos uma nação sui generis. Dizemos “OLP socialista” como dizemos “Chile socialista”. Não pedimos isso à sua direção burguesa ou pequeno-burguesa, do mesmo modo que no Chile não pedimos isso a Pinochet. Vocês se esquecem de notar que, cuidadosa e sistematicamente – como fazemos com todo governo burguês que dirige uma guerra justa – , criticamos a direção da OLP e não lhe brindamos nenhum apoio político.” (IV)

Como vimos, Moreno não concorda em caracterizar a OLP meramente como uma frente burguesa ou pequeno-burguesa. Ao contrário, atribui a ela um caráter quase estatal, equiparável a um Estado sem seu território. Moreno fugiu do esquematismo ao realizar uma análise concreta sobre um caso concreto adotando uma forma dialética de analisar a principal organização do povo palestino, uma nacionalidade oprimida por um Estado racista com características de enclave colonial.

O segundo desafio foi a resposta ao massacre de 3 mil palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, na cidade de Beirute, no Líbano, por milícias cristãs de extrema-direita apoiadas pelo exército israelense que então ocupavam a capital do Líbano em setembro de 1982. A LIT-QI chamou uma campanha internacional de solidariedade ao povo palestino e participou ativamente das mobilizações que ocorreram em todo o mundo. Essa campanha foi uma das primeiras realizadas pela Internacional, ao lado da campanha pelas Malvinas Argentinas.

Os acordos de Oslo de 1993

Em setembro de 1993, a direção da OLP e o Estado de Israel, sob intermediação do imperialismo estadunidense, firmaram os acordos de Oslo. Apresentados ao mundo como o caminho para a paz no Oriente Médio, os acordos paralisaram a Intifada palestina (levante iniciado em 1987) e pavimentaram o caminho para ampliar o sistema de apartheid e a colonização das terras palestinas na contínua Nakba (catástrofe desde a formação do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada), desta vez com o apoio das lideranças da OLP que – através da Autoridade Palestina – se tornaram gerentes da ocupação. 

O principal dirigente palestino, o carismático Yasser Arafat, defendeu os acordos como uma forma de se instalar em alguma parte do território palestino e fortalecer a luta pela libertação, já que as derrotas na Jordânia (chamadas de setembro negro) e no Líbano em 1982 tinham imposto à OLP um longo exílio na Tunísia. 

Parte da esquerda palestina rejeitou os acordos, já que implicavam o reconhecimento do Estado de Israel, mas depois capitulou e “de fato” acatou suas premissas, situação que perdura até os dias de hoje. Desse modo, abandonou a única solução justa para a totalidade do povo palestino, que contemplasse, portanto, além dos que vivem sob ocupação brutal na Cisjordânia e Gaza, milhões de refugiados e a diáspora, em seu direito inalienável e inegociável de retorno às suas terras, e os “palestinos de 1948”, remanescentes nos territórios ocupados há mais de 74 anos onde se formou o Estado sionista, submetidos a mais de 60 leis racistas.

A LIT-QI denunciou os acordos de Oslo, a exemplo do intelectual palestino Edward Said, que os denominava “Tratado de Versalhes da causa palestina”. Assim, manteve a defesa da proposta original da OLP de luta por uma Palestina laica, democrática e não racista e pelo desmantelamento do Estado racista de Israel, ao contrário da ampla maioria das organizações de esquerda que aderiram à farsa da chamada “solução de dois Estados”.

Essa longa trajetória de defesa dos direitos históricos e inalienáveis do povo palestino, que antecede a própria formação da LIT-QI, foi lembrada por ocasião do aniversário de 30 anos da Internacional em um importante ato em Buenos Aires, capital da Argentina. Entre os oradores estava a coautora deste artigo, a palestino-brasileira Soraya Misleh. No ensejo, ela relatou aos presentes sua emoção em ingressar nas fileiras da LIT-QI e seu partido brasileiro, o PSTU, e em ter se reunido com palestinas da Cisjordânia, de Gaza e dos territórios ocupados em 1948, por ocasião do Fórum Social Mundial Palestina Livre em Porto Alegre, em 2012 – encontro que está impossibilitado de ser realizado na Palestina por conta da ocupação sionista que impõe a divisão do povo palestino e recoloca a necessidade de libertar toda a Palestina do rio ao mar.

Vale a pena citar também a publicação de importantes livros da causa palestina pela Editora Sundermann, vinculada ao partido afiliado PSTU, no Brasil, em língua portuguesa. Em 2015 foi publicada a obra “A revolta de 1936-39 na Palestina” do dirigente marxista palestino Ghassan Kanafani, cuja introdução à edição brasileira tem uma interessante elaboração sobre o papel da burguesia palestina frente à ocupação sionista. (V) Kanafani apresenta os inimigos da causa palestina: o imperialismo/sionismo, os regimes árabes e a “elite reacionária feudal-clerical palestina”. Estes seguem atuais lamentavelmente, como segue a denunciar a LIT-QI e reivindicar as elaborações do dirigente marxista palestino.

Outra obra publicada foi “A limpeza étnica da Palestina”, do historiador israelense Ilan Pappé, com a primeira visita do autor ao Brasil. Por fim, foi publicada “Al-Nakba, um estudo sobre a catástrofe palestina”, de Soraya Misleh, na qual a autora examina a expulsão violenta da população palestina da aldeia de Qaqun, entre os quais seu pai, em 1948, demonstrando que houve um processo deliberado de limpeza étnica durante a Nakba, planejado pelas principais lideranças sionistas.

A LIT-QI, em sua atuação inequívoca no apoio ao povo palestino e sua resistência heroica, tem apresentado essas contribuições e se somado às campanhas pela libertação nacional. Nesse sentido, soma-se ao chamado da sociedade palestina feito a partir de 2005 por BDS (boicote, desinvestimento e sanções), ao tempo que apoia a resistência sob todos os meios.

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A atuação nas revoluções árabes

A onda de revoluções nos países de maioria árabe a partir de 17 de dezembro de 2010 representou um novo desafio para a Internacional.

Sem seções afiliadas nestes países, a Internacional deu os primeiros passos para intervir em apoio às revoluções. Por um lado, chamou a classe trabalhadora a participar de atos em solidariedade às revoluções em vários países. E enviou um correspondente ao Cairo que relatou ao vivo da Praça Tahrir a queda de Mubarak.

Milícias na Líbia, 2011.

Por outro lado, a Internacional iniciou um estudo sobre a natureza destas revoluções. As reivindicações de “Pão, Liberdade e Justiça Social” e sua composição social operária e popular definem seu caráter democrático que se enfrenta contra os pilares da dominação imperialista sobre a região, os regimes autocráticos árabes e sua subordinação aos interesses do imperialismo estadunidense e europeu.

Desta forma, ao contrário de grande parte das organizações da esquerda internacional que saíram em defesa dos regimes autocráticos oriundos do nacionalismo árabe, a LIT-QI se posicionou incondicionalmente ao lado destas revoluções democráticas que se chocaram com os interesses capitalistas e imperialistas, sem nunca apoiar direções burguesas ou pequeno-burguesas dessas revoluções.

O avanço das revoluções colocou desafios que exigiram o aprofundamento da análise marxista para definir nossa política.

Um desses casos foi a revolução na Líbia. Veja um trecho do artigo “Onde está a revolução e onde está a contrarrevolução na Líbia?” (VI)

“Nós da LIT, pelo contrário, sustentamos desde o começo que na Líbia o que se passava era uma revolução popular e antiimperialista, pois enfrentava a ditadura sanguinária de Kadafi, um dos principais agentes do imperialismo na região. Coerentemente com esta caracterização de onde estava a revolução e onde estava a contrarrevolução, nos colocamos ao lado das massas líbias e saudamos como uma tremenda conquista democrática a destruição do regime Kadafista e o justiçamento do ditador pelas mãos das milícias populares.

Luta palestina

Com a mesma força, também desde o primeiro momento, denunciamos a intervenção imperialista da OTAN como contrarrevolucionária. Levantando a palavra de ordem “Não à OTAN, Fora Kadafi”, explicamos que a contradição, expressa no fato de a intervenção imperialista ter se dado durante a guerra civil no mesmo campo militar das massas armadas e contra seu agente, Kadafi, se devia à dificuldade política que tem atualmente o imperialismo para invadir de forma direta com suas tropas e ao fato de que se viu obrigado a intervir por dentro de um levante popular armado para disputá-lo e derrotá-lo, tarefa primordial que Kadafi demonstrou ser incapaz de cumprir, convertendo-se assim em um elemento descartável.”

Outro caso importante foi a defesa de armas para a revolução síria. Veja um trecho do artigo “Exigir ou não armas do imperialismo” (VII) do jornalista marxista Daniel Sugasti:

“A LIT-QI defende a necessidade de desenvolver uma política de ampla solidariedade internacional com a causa do povo sírio. Isto significa, concretamente, uma campanha de apoio, incondicional e em todos os sentidos, para a vitória militar rebelde.

Assim, sustentamos que uma tarefa imperiosa é impulsionar a mais ampla mobilização para exigir dos governos de nossos países e de todos os governos do mundo, inclusive os dos países imperialistas, o envio imediato de modernas armas pesadas, medicamentos e todo tipo de ajuda material para as milícias rebeldes do ELS e aos Comitês de Coordenação Local, sem condições de nenhuma natureza.

Nossa exigência de armas não inclui as brigadas unidas à al-Qaeda ou ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante, cuja visão sectária e confessional-religiosa do conflito levou-as a romper a frente militar contra a ditadura e, em várias zonas, começaram a atacar milícias curdas e do ELS, atuando como “quinta coluna” do regime.”

Estes artigos mostram que a Internacional soube se posicionar claramente pela vitória destas revoluções com acertos importantes, mas também com fragilidades e erros como a questão da repressão sobre a Irmandade Muçulmana pelos militares liderados pelo ditador Al-Sissi. Nenhuma organização revolucionária está isenta de erros, ainda que haja organizações que se julgam infalíveis. Não é o nosso caso. A questão mais importante é saber se esta organização está dotada de instrumental teórico e programático e de mecanismos internos para reavaliar e corrigir sua política. Este foi o caso. Poucos meses depois, o XI Congresso da LIT-QI entendeu que houve um erro de avaliação quanto às forças em conflito e corrigiu a política da Internacional.

Além das atividades de solidariedade às revoluções e de toda a elaboração política desenvolvida, a LIT-QI criou e mantém um sítio da Internacional em língua árabe. Ao lado de artigos políticos publicados regularmente, estão disponíveis no site várias obras tais como O Capital volume I de Karl Marx, Questões de Organização de Nahuel Moreno, O Veredito da História – Da Revolução Socialista à Restauração do Capitalismo na Rússia, China e Cuba de Martin Hernandez, História da Revolução Russa de Leon Trotsky além de marxistas árabes como Anwar Kamil. Por ocasião do aniversário de cem anos da Revolução Russa, a editora Sundermann, impulsionada pelo PSTU brasileiro, publicou a edição impressa em árabe de A Revolução Traída de León Trotsky.

Conclusão

A intervenção da LIT-QI sobre a questão Palestina e as revoluções árabes demonstra sua orientação política, antes de mais nada, internacionalista. Poucas organizações socialistas dedicaram seu tempo e atenção à resistência palestina e a esta onda revolucionária, talvez a mais importante deste século XXI, como a LIT-QI.

Para além de uma intervenção internacionalista, é uma intervenção que busca embasamento teórico e programático no marxismo, como são prova toda a elaboração política e a produção de bons artigos.

E acima de tudo, é uma intervenção voltada a construir uma direção revolucionária para que a resistência palestina e as revoluções árabes possam superar sua principal debilidade para atingir seus objetivos estratégicos: a liberação frente ao sionismo e o imperialismo, o fim das ditaduras e do capitalismo para que a classe trabalhadora e a povo pobre possa viver usufruir das riquezas de toda a região em plena liberdade.

Notas:

(I) https://www.marxists.org/espanol/moreno/pi1105.htm

(II) idem

(III) idem

(IV) idem

(V) https://litci.org/en/preface-to-the-revolt-of-1936-1939-in-palestine-by-ghassan-kanafani/

(VI) https://litci.org/pt/2011/12/17/onde-esta-a-revolucao-e-onde-esta-a-contrarrevolucao-na-libia/

(VII) https://litci.org/pt/2015/10/10/exigir-ou-nao-armas-do-imperialismo/

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