dom dez 04, 2022
domingo, dezembro 4, 2022

O que significa ser militante hoje?

“Sim, nosso partido nos toma por inteiro. Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar na construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão (…) O partido nos exige uma entrega total e completa. Que os filisteus continuem buscando sua individualidade no vazio; para um revolucionário dar-se inteiramente ao partido significa encontrar-se…”

León Trotsky, dirigente da Revolução Russa de 1917. Discurso da Fundação da IV Internacional, 1938.

Hoje poderia parecer, ao ler as palavras de Trotsky dos finais dos anos 30, que estivéssemos lendo um discurso que só pode encaixar nos sentidos de um fanático revolucionário. Muitas vezes, como trabalhadores, não temos tempo para tais preocupações.

Por: Camila Ruz

A vida profissional, os turnos que esgotam, os problemas de saúde, ter que sustentar nossas famílias e/ou seres queridos, os problemas cotidianos, são os que invadem nosso tempo e nos afunda em uma sobrevivência. Entretanto, lamentavelmente, a realidade atual da decadência capitalista nos coloca em uma encruzilhada bastante conhecida: ou avançamos conscientemente para a revolução socialista, (que não tem nada a ver com o falso socialismo de Maduro e Díaz-Canel, por exemplo) ou seguiremos rumo à barbárie.

O capitalismo continua a nos levar à destruição. E nós, o que fazemos?

Quatro dias depois das forças armadas russas cruzarem a fronteira ucraniana, o novo informe do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) sobre as consequências do aquecimento global no planeta afirma que “as ondas de calor, as secas e as inundações já ultrapassaram os limites da tolerância…criando impactos cada vez mais difíceis de controlar”.

De acordo com um recente estudo realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), prevê-se que em 2030 haverá uma catástrofe natural por dia no mundo. Atualmente, os desastres naturais estão tendo consequências impactantes: a OMS calcula que o calor extremo causou a morte de cerca de 15.000 pessoas só na Europa em 2022; chuvas torrenciais inundaram um terço do Paquistão; os últimos oito anos foram os mais quentes da história; o Informe Planeta Vivo 2022 da WWF (World Wildlife Fund) publicou que a América Latina e o Caribe lideraram a perda da biodiversidade com 94% (entre 1970 e 2018, a média geral foi de 69%).

Esta destruição ambiental não é produzida pelo “ser humano” em geral, mas pela burguesia mundial. Já conhecemos o papel poluidor das grandes empresas que usam combustíveis fósseis, do agronegócio, etc. Recentemente, foi publicado um estudo que denuncia que um multimilionário emite um milhão de vezes mais gases de efeito estufa que uma pessoa comum que pertença aos 90% da população menos rica do planeta, devido aos seus investimentos¹. Nesse mesmo estudo localizam o magnata chileno Luksic como um dos grupos econômicos mais poluentes. Outra análise da organização “Carbon Brief” indicou que os EUA são o país que mais poluiu historicamente, embora hoje as emissões de gases de efeito estufa provenientes da China são mais do que o dobro dos EUA.

Esta destruição ambiental nos deixa mais propensos a novas pandemias (pela liberação de vírus devido ao impacto de seu habitat natural). A pandemia da Covid 19 causou mais de 18 milhões de mortos segundo a revista científica Lancet (os números oficiais falam de 6 milhões), sem contar as sequelas físicas e psicológicas dos infectados.

Juntamente com a destruição ambiental, se desenvolve a destruição humana como consequência. O informe sobre a Desigualdade Mundial (World Inequality Lab) afirma que metade da população mais pobre do planeta recebe menos do que recebia em 1820, quando a maioria dos países eram ainda colônias dos impérios capitalistas, o que revela que o retrocesso nas condições de vida da classe trabalhadora é paralelo ao aumento da subordinação imperialista dos povos do planeta.

Temos visto as terríveis consequências da guerra que Putin impôs à Ucrânia, mas também não devemos esquecer as consequências das invasões do imperialismo em diferentes países (Afeganistão, Palestina, etc).

Esta situação geral é pior em países sob ditaduras ou onde se oprimem mais as mulheres, a população LGBTI, negros, etc. É por isso que eclodiram os protestos no Irã, onde o regime responde com uma brutal repressão: segundo organizações de direitos humanos, no lapso de mais de um mês de protestos contínuos já morreram mais de 300 pessoas em diferentes cidades iranianas. Além disso, o parlamento fez um comunicado pedindo pena de morte para os presos políticos, assinado por 227 dos 290 deputados, o qual denomina os manifestantes de ‘mohareb’ (equivalente a guerreiro, mas também ‘inimigo de Deus’) o que acarreta a pena de morte no Irã.

Diante desse cenário global, como dissemos, a pandemia e a guerra são fatores que aumentam o retrocesso em todos os aspectos da vida, nos salários das e dos trabalhadores, mas também nas próprias conquistas democráticas dos oprimidos.

Não podemos dizer que, diante de tal avanço da barbárie, a humanidade e a classe trabalhadora não respondem. Respondemos, tem acontecido revoluções e revoltas: processos revolucionários na América Latina, (Equador em 2000, Argentina 2001, Venezuela 2002, Bolívia 2003 e 2005); mobilizações multitudinárias das massas europeias contra a guerra em 2003; a recente rebelião nos EUA após o assassinato de George Floyd; as explosões no Líbano, Hong Kong, Colômbia, Chile, etc). Entretanto, sentimos impotência, devido à falta de um partido revolucionário mundial que pudesse encaminhar essas lutas para a vitória total, para um enfrentamento unificado contra o imperialismo e para a luta pelo poder em diferentes países.

É que o capitalismo já não serve, pois estamos em uma espiral de decadência. Isto é intrínseco a esse sistema, isso não pode ser reformado. Precisamos destruir o capitalismo nas aras da vida, da humanidade. Por isso, Lênin, dirigente da Revolução Russa de 1917, dizia que estávamos em uma época revolucionária após o começo da Primeira Guerra Mundial, pois este sistema demonstra que para poder se revitalizar, precisa da destruição humana, da destruição das forças destrutivas. Mas não podemos destruir o capitalismo sem pensar em outra alternativa de sociedade. Também não podemos fazê-lo sem nos organizar seriamente.

Por que um partido? Não bastam as assembleias, sindicatos, associações de bairros ou movimentos sociais?

Para manter este estado das coisas, ao longo da história, os empresários criaram e usaram suas ferramentas para organizar suas ideias e dominar toda a sociedade. Têm seus partidos. Todas as instituições e governos estão a seu serviço. A diferença entre os partidos é a máscara. Os de direita e de “esquerda” seguem as ordens do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial (BM), que impõem os planos de ajustes para resguardar os lucros das transnacionais. Assim, todos os partidos atuam como uma só ferramenta poderosa para que os exploradores continuem sendo a classe dominante, apesar de serem uma ínfima minoria. Em cada país, estes partidos refletem diferentes setores do empresariado: no Brasil o empresariado do agronegócio está mais vinculado a Bolsonaro; no Chile os partidos de esquerda ou direita trabalham junto com a CPC (Confederação de Produção e Comércio); etc.

Para enfrentar esta ordem das coisas, as pessoas se organizam de muitas formas: assembleias, sindicatos, grupos ambientais, associações de bairros, organizações de direitos humanos, grupos de mulheres, coletivos de negros, de LGBTI, movimentos sociais, etc. Cada um tem sua bandeira de luta contra o capital. Embora em muitos casos, várias destes grupos lutem nos marcos do sistema capitalista. Mas, ainda não temos uma organização que defenda a totalidade dos problemas da classe trabalhadora, que tenha uma visão geral e não sindical, para superar esta espiral de decadência.

Nós trabalhadoras e trabalhadores precisamos da força de uma organização exclusivamente da nossa classe, para fazer frente aos empresários e virar o jogo onde eles têm tudo a seu favor. Se não destinarmos um tempo de nossas vidas para construir uma ferramenta séria, disciplinada, para defender nossos direitos e a sociedade que queremos, as coisas continuarão igual e pior.

Quando a LIT-QI foi fundada em 1982, manifestávamos da seguinte forma: A maior necessidade material, objetiva, da humanidade, a revolução socialista mundial, tem um correlato subjetivo: uma direção revolucionária mundial. Sem esta, aquela é impossível. Assim, a crise da humanidade se agrava dia a dia sem solução. Afirmamos que, mais de seis décadas de revoluções e contrarrevoluções provam inapelavelmente que com direções burocráticas, sem direção revolucionária internacional, até as maiores vitórias do proletariado, os maiores avanços no caminho da revolução socialista mundial, se transformam em seus contrários. A necessidade absoluta objetiva da revolução socialista mundial se materializa e se encarna na necessidade absoluta subjetiva de uma direção revolucionária – não burocrática – internacional.”

 Que tipo de partido e por quê?

  • Um partido para a revolução: que combata os enganos dos partidos empresariais e reformistas. Trotsky dizia no discurso da IV Internacional: “Queridos amigos, não somos um partido igual aos demais. Não ambicionamos somente ter mais filiados, mais jornais, mais dinheiro, mais deputados. Tudo isso faz falta, mas não é mais que um meio. Nosso objetivo é a total libertação, material e espiritual, dos trabalhadores e dos explorados por meio da revolução socialista. Se nós não a fizermos, ninguém a preparará nem a dirigirá”.
  • Um partido que reflita principalmente a base operária: Hoje a classe operária a nível mundial é maior que nos tempos da Revolução Russa (cresceu em países como a China e Índia), está mais explorada e tem um potencial mais revolucionário. É por isso que reafirmamos o que dizíamos na fundação da LIT-QI em 1982: a necessidade de “que o partido revolucionário deve refletir a base operária, em especial os setores mais explorados da classe. Isso significa refletir não apenas os interesses históricos da única classe que pode destruir a burguesia imperialista mundial, mas também os interesses imediatos deste setor. Mas o partido revolucionário só poderá fazê-lo se, pela sua composição, refletir esta base operária.” Isto está interligado com construir o partido em setores populares e outros.
  • Um partido Internacional: O Partido é construído a nível internacional ou não haverá vitória que se possa sustentar. Nahuel Moreno (fundador da nossa internacional, a LIT-QI), em seu artigo “Ser Trotskista hoje” o manifestava assim: “Se a economia é mundial tem que ter uma política mundial e uma organização mundial dos trabalhadores para que toda revolução, todo país que fizer sua revolução, a estenda a escala mundial, por um lado. O socialismo não pode ser nada mais que mundial. Todas tentativas de fazer socialismo nacional fracassaram, porque a economia é mundial e não pode haver solução econômico-social dos problemas dentro das estreitas fronteiras nacionais de um país.”

Esta grande tarefa de preparar a revolução socialista vitoriosa, é a mais difícil que conhecemos. É que militar em uma organização revolucionária requer seriedade e disciplina. Por isso, somos nítidos em diferenciar dois níveis de relação com o partido: os militantes e os simpatizantes. A militância é bem vinda para todo ativista que assim o desejar, mas devem ser estabelecidas regras nítidas para serem parte da vida interna e a tomada de decisões.

Primeiro, um militante deve saber que a preparação da revolução não é um “hobby” nem algo secundário em nossas vidas, mas que é vista por nós como uma necessidade humana. Trotsky, em um debate com um “dirigente” militante da França, o advogado Paz, coloca assim:  Depois de observá-los muito de perto, me disse que os camaradas que são capazes de assumir essa iniciativa e esse sacrifício pessoal são revolucionários, ou podem tornar-se revolucionários; porque é assim, camarada Paz, como são formados os revolucionários. Há revolucionários sábios e outros ignorantes, há os inteligentes e há os medíocres. Mas não é revolucionário aquele que não está disposto a destruir obstáculos, que carece de abnegação e espírito de sacrifício.E depois continua: “Sou perfeitamente capaz de compreender uma pessoa que simpatiza com a causa comunista sem abandonar seu meio. Esse tipo de ajuda pode nos ser muito valiosa, mas é a ajuda de um simpatizante. Me referi a esta questão em uma carta aos meus amigos norte-americanos…se autointitula “companheiro de rota”, afirma que não aspira a ocupar nenhum cargo de direção no movimento de Oposição e se contenta em ajudá-la…por que? Porque não é possível proporcionar o movimento por inteiro. E age corretamente. Em conclusão, suas cartas (camarada Paz) e sobretudo sua atitude política demonstram para mim que, para você o comunismo é mais uma ideia sincera que a convicção que guia sua vida” ².

Trotsky é nítido entre diferenciar o militante do simpatizante, tem a ver centralmente com sua compreensão e entrega à revolução (para o simpatizante é aderir a uma ideia sincera e para o militante revolucionário é uma convicção que guia sua vida). Mas, ao mesmo tempo, deixa evidente que os simpatizantes são valiosos.

O militante deve participar cotidianamente de reuniões; realizar um trabalho político em seus locais de trabalho, em seus bairros ou em outro, com o objetivo de difundir e explicar sempre a política que o partido vota; e também fazer os esforços para contribuir economicamente para o sustento da organização, já que ao ter como objetivo a revolução, não se depende de doações de empresas ou de instituições governamentais. Um simpatizante pode realizar alguma dessas tarefas, ou várias, mas de modo inorgânico. É necessário diferenciar entre militantes e simpatizantes, pois não precisamos construir um partido de filiados nos quais a pessoa assina uma vez, vota e depois considera isso como militar, não precisamos construir um projeto, assim como dos partidos reformistas ou empresariais, pois nosso objetivo é mil vezes mais ambicioso, portanto, mais difícil.

Se não construirmos esta militância revolucionária, mais limpo deixaremos o caminho para a decadência capitalista. Aqui retomamos a frase de Trotsky (que perdeu vários de seus filhos por causa da repressão) no discurso da Fundação da IV Internacional a respeito disto: “Sim, nosso partido nos toma por inteiro. Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar na construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão.”

O exemplo da Revolução Russa e o caminho a retomar

Todas as características anteriores do tipo de partido a construir, não foram inventadas por nós aqui. É um modelo geral que se baseia no partido Bolchevique, o único partido capaz de organizar uma revolução vitoriosa com a classe operária na liderança, a Revolução Russa. A existência desse partido foi o elemento central para a vitória da Revolução Russa e a constituição de um estado operário baseado na democracia dos Sovietes.

O Partido Bolchevique foi construído como um partido operário, de combate, altamente centralizado, cuja coluna vertebral era formada por revolucionários profissionais. Os bolcheviques lutaram por mais de 20 anos contra diferentes correntes oportunistas: a “economicista”, que defendia que o proletariado se limitasse às reivindicações econômicas; os mencheviques, que queriam que o proletariado se subordinasse à burguesia liberal: os liquidacionistas, que lutavam contra o partido³.

Essa combinação de elementos levou os bolcheviques a construir um partido para fazer a revolução e tomar o poder. Assim, estavam preparados para os acontecimentos revolucionários de 1917.

A conquista mais importante da Revolução Russa de Outubro foi a fundação da III Internacional Comunista. Foi a primeira tentativa de formar uma direção revolucionária mundial, isto é, uma organização centralizada de partidos revolucionários para desenvolver a revolução socialista e tomar o poder em todos os países do mundo. Assim, o Partido Bolchevique, coerente com seu objetivo de usar a Revolução Russa para impulsionar a revolução internacional, fundou a III Internacional em janeiro de 1919. A III Internacional teve um rápido crescimento, mas foi atingida pela derrota da revolução europeia e pelo surgimento do estalinismo na URSS, que burocratizou, sufocou e acabou por dissolver a III Internacional em 1943.

É por isso que, depois de anos e anos tentando recuperar a III Internacional, Trotsky chega à conclusão de que não é possível recuperar e chama para fundar a IV Internacional em 1938. A Quarta nasceu para defender os princípios do marxismo e do leninismo – o internacionalismo, a democracia operária e o poder operário – e para dar uma política ofensiva para enfrentar o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a IV Internacional após a morte de Trotsky também se fragmentou, devido à capitulação de vários partidos aos governos burgueses⁴. Há uma batalha pendente para recuperar o sentido original e reconstruir a IV Internacional.

Nesta longa e difícil batalha para construir a IV Internacional, a LIT-QI teve alguns acertos e muitos erros. Mas aprendendo desses erros e vendo a realidade da decadência do capitalismo, insistimos em fazer um chamado para retomar a grande tarefa da reconstrução de um partido internacional, tendo como fio histórico a Revolução Russa, e as origens da IV Internacional. Se como classe trabalhadora não avançarmos nesta tarefa, qualquer revolução que exploda pode ser desviada, traída ou reinventada, como tem ocorrido até agora. O antipartidarismo ou espontaneísmo que propõem algumas correntes filo anarquistas ou autonomistas, embora com boas intenções, não fazem mais do que favorecer a prevalência do empresariado.

Provavelmente vários de nós estão dando o máximo de si pela revolução, cada um em seu lugar, mas a tarefa é unificar esses esforços em um projeto internacionalista e consciente, que não apenas faça o trabalho político, mas que além disso, estude as revoluções anteriores, aprenda, para preparar um futuro melhor.

Referências:

  1. Os multimilionários emitem um milhão de vezes mais gases de efeito estufa que o cidadão médio, descobre um estudo (https://cnnespanol.cnn.com/2022/11/07/multimillonarios-millon-gases-efecto-invernadero-trax/); Família Luksic aparece na lista dos milionários mais poluidores(https://www.eldesconcierto.cl/bienes-comunes/2022/11/09/familia-luksic-aparece-en-el-listado-de-los-millonarios-mas-contaminantes.html)
  2. Como se formam os revolucionários. León Trotsky (https://ceip.org.ar/Como-se-forman-los-revolucionarios)
  3. O Partido Bolchevique e a Terceira Internacional. Bernardo Cerdeira. (https://litci.org/es/el-partido-bolchevique-y-la-tercera-internacional/)
  4. Pela reconstrução da IV Internacional. Alejandro Iturbe. (https://litci.org/es/la-reconstruccion-la-iv-internacional/)

Tradução: Lilian Enck

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