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sexta-feira, março 1, 2024

Irã, 1979: uma revolução interrompida

O início da década de 1970 conheceu a primeira recessão simultânea e generalizada nos países imperialistas no pós-segunda guerra. Os 20 anos do boom da economia, iniciados por volta de 1950, haviam chegado ao fim. O ano de 1975 foi marcado pela queda assombrosa do PIB dos Estados Unidos, Alemanha, Japão, França e Inglaterra. A produção industrial no segundo trimestre de 1975 caiu 14% nos EUA, 20% no Japão e 10% na Inglaterra. Depois de duas décadas de “pleno emprego”, chegou-se a um total oficial de 17 milhões de desempregados no conjunto dos países imperialistas, além de uma alta da inflação que atingiu níveis insuportáveis em todos os países.

Por: Marcos Margarido

Na década de 70, os EUA sofreram sua primeira derrota militar clara no Vietnã.  A revolução portuguesa de abril de 1974 abriu um processo que além de derrotar a ditadura salazarista possibilitou a libertação de suas colônias da África e incendiou o continente negro. No Oriente Médio, sucediam-se os enfrentamentos com Israel,  em que os países árabes foram derrotados, como na guerra do Yom Kippur, enquanto a guerrilha palestina seguia resistindo e o Líbano ardia em plena guerra civil. A década assistiu ainda ao seu final as revoluções nicaraguense e iraniana.

Neste cenário, os países árabes membros da OPEP resolvem quadruplicar o preço do petróleo em 1973, como retaliação à derrota na guerra do Yom Kippur para Israel, gerando uma renda extra aos países exportadores de petróleo, os petrodólares, estimados em US$ 180 bilhões em 19801.

O Irã, assim como os demais países produtores de petróleo, inseria-se na divisão mundial do trabalho como exportador de matérias primas – o petróleo – e com um desenvolvimento capitalista subordinado aos interesses imperialistas. A renda do petróleo aumenta a cobiça imperialista e os conflitos interburgueses pela sua posse, gerando o aumento da miséria da população paralelamente à acumulação capitalista. No Irã, essa combinação atingiu níveis explosivos, que passamos a analisar.

O rei dos reis

Mohammad Reza Pahlevi foi o segundo Xá da dinastia Pahlevi. Foi empossado após a ocupação do país pelos exércitos da Inglaterra e da União Soviética em 1941, em substituição a seu pai, Reza Khan, soldado do exército iraniano, que também havia subido ao poder através de um golpe contra o reinado da dinastia Oajar em 1921.

O início da década de 50 assistia ao crescimento de uma onda nacionalista que varreu o Oriente Médio e desembocou no nasserismo, o movimento liderado pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, que buscava uma independência relativa em relação ao imperialismo, para estabelecer melhores condições de negociação com ele. No Irã, tal movimento era liderado por Mohammed Mossadegh, eleito primeiro-ministro em 1951, um mês depois da nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company pelo parlamento iraniano, um golpe ao principal imperialismo da região.

Por essa ousadia, os governos imperialistas dos Estados Unidos e Inglaterra, através de seus serviços secretos, planejaram a queda de Mossadegh, conseguida após uma primeira tentativa frustrada, que resultou na queda e exílio do Xá. O general Fazlollah Zahedi foi nomeado primeiro-ministro e Reza Pahlevi reempossado, selando sua submissão aos desígnios norte-americanos.

Em 1963 institui a Revolução Branca2, com o objetivo de transformar o Irã na quinta potência mundial e aproximá-lo ao mundo ocidental. A “modernização” buscada pelo Xá seguia a lógica da dominação imperialista de um país semicolonial, com sua abertura ao capital estrangeiro, ávido pela renda do petróleo. Cerca de US$ 250 bilhões acumulados pelo Irã entre 1974 e 1980 pela alta do petróleo foram utilizados na importação de bens de capital e de consumo. Enquanto isso, a burguesia nacional comerciante, conhecida como burguesia do bazar, era reduzida ao papel de “mendigo” que se alimenta dos restos do banquete da exploração capitalista.

A expansão industrial do país garantiu a presença maciça de empresas norte-americanas – cerca de 500 segundo a revista Fortune – e a expansão das Forças Armadas iranianas, com 475 mil soldados, para a proteção de sua propriedade. Os Estados Unidos conseguiam, assim, impor seu controle da região a partir do enclave israelense e do Irã, o único país do mundo muçulmano que reconhecia o Estado de Israel.  

A associação com o capital estrangeiro foi levada a cabo por meio do controle da oposição e do uso da força contra a população. Em 1975 os partidos políticos foram extintos e um regime de partido único, o Partido da Ressurreição, foi fundado, justificado de maneira clara pelo Xá:

“Uma pessoa que não entrar no novo partido político e não acreditar nos três princípios cardeais tem apenas duas opções. Ou ele é um indivíduo que pertence a uma organização ilegal ou está ligado ao clandestino Partido Tudeh, em outras palavras, é um traidor.”

Pahlevi dizia que o lugar dos traidores era a prisão ou o exílio, e a Savak, uma das polícias políticas mais cruéis do mundo, desdobrava-se dia e noite para identificá-los, prendê-los, torturá-los e executá-los. Estima-se que cem mil pessoas estavam presas em 1976, mas o regime reconhecia a existência de “apenas” 3500 presos políticos. 

A situação de miséria e desemprego das massas, gerada pela Revolução Branca, foi agravada pela crise iniciada em 1974. A capitalização do campo causou o êxodo de milhões de camponeses às cidades onde o desemprego e a inflação os esperava. Estas sequer possuíam redes de água e esgoto, apesar das enormes somas obtidas pela renda do petróleo. Os salários dos trabalhadores foram congelados e até um “passaporte interno” para controlá-los foi instituído. A burguesia do bazar foi prejudicada com o aumento dos impostos. O clero xiita, da religião muçulmana, beneficiava-se politicamente dessa situação ao capitalizar o descontentamento de amplas camadas da população, reunidas nas chamadas cidades santas, como Qom, que se transformavam nos redutos da oposição ao Xá.

A revolução dá seus primeiros passos

As primeiras mobilizações, realizadas pela juventude e intelectuais, ocorreram em 1977, exigindo o respeito à constituição de 1906 ainda em vigor, a defesa da liberdade de imprensa e da independência do poder Judiciário.

Os protestos seriam intensificados em 1978, quando ocorre o Massacre de Qom em 9 de janeiro, a cidade santa que se tornaria a morada oficial do aiatolá Khomeini. A manifestação de 4 mil estudantes e líderes religiosos contra o jornal Ettela’at controlado pelo Xá, que acusava o aiatolá, exilado desde 1963, de ser homossexual, terminou numa repressão brutal com o resultado de pelo menos 10 mortos. A tentativa de calar as vozes da oposição surtiu um efeito contrário; em 18 de fevereiro comemorou-se o arba’een – o luto xiita de 40 dias – com manifestações de massas em todo o país. Em Tabriz, a população de maioria curda ocupa a cidade sem que os militares locais a reprimissem. Pahlevi foi obrigado a deslocar tropas para executar outro banho de sangue. Estima-se em cem pessoas mortas e, mais uma vez, as manifestações alastraram-se, desta vez para Ahwaz, importante centro petrolífero do Irã.  

Novas manifestações voltam a ocorrer em Isfahan, onde foi imposta a lei marcial em 16 de agosto, após os primeiros sinais de fraqueza do regime ditatorial. O chefe da Savak era substituído por Nasser Moghadam em junho e o próprio Xá prometia a realização de eleições gerais em 1979. Dez dias depois o primeiro-ministro é substituído por Jafar Sharif-Emami, que abole o calendário imperial3 instituído pelo Xá e declara a legalidade de todos os partidos políticos. Era a primeira vitória democrática das massas, embora o núcleo repressor do regime – as Forças Armadas e a Savak – continuasse intacto.

O imperialismo mantinha seu apoio a Reza Pahlevi. Numa coletiva à imprensa, o presidente dos EUA, Jimmy Carter, declara que “eu espero que o Xá mantenha o poder… o Xá tem nosso apoio e também tem nossa confiança” e o diretor da CIA, Stansfield Turner, afirma que “recebi um relatório da assessoria onde é dito que o Xá vai sobreviver por mais dez anos” no poder.

Morte ao Xá!

O grito de guerra da revolução – Morte ao Xá! – foi escutado pela primeira vez em Tabriz e espalhou-se a todas as manifestações do país. Em 4 de setembro uma manifestação de 4 a 5 milhões é realizada em Teerã para comemorar o Eid ul-Fitr, o feriado do fim do Ramadã4, e se transforma num gigantesco protesto político. A lei marcial é decretada em 12 cidades no dia 8, mas, ainda assim, milhares de pessoas voltam a sair às ruas de Teerã para reunir-se na Praça Jaleh, onde as tropas reais começam a atirar contra a multidão, de helicópteros e do solo, assassinando centenas de pessoas5 no massacre conhecido como “sexta-feira negra”.

No dia seguinte, Khomeini, do exílio, chama a realização de uma greve geral. Além das mobilizações populares, os métodos e reivindicações típicos da classe operária passam a ser incluídos na agenda revolucionária. As greves começam a pipocar envolvendo milhares de operários e culminam numa greve geral dos petroleiros no fim do mês que, por sua vez, incendiou a população em manifestações e rebeliões de apoio por todo o país.

Durante o mês de outubro as greves se sucedem. São bancários, funcionários públicos, mineiros, trabalhadores têxteis, dos correios e telégrafos, transportes e rádio e televisão. Os jornalistas param no dia 11 de outubro. Os bancários paralisam o sistema financeiro do país, com a greve do Banco Central, seguida do incêndio de cerca de 400 agências bancárias pelas massas. Os bancários revelaram que 178 pessoas ligadas ao Xá haviam transferido um bilhão de libras ao exterior. Mas, não só seus amigos. Segundo David Rockefeller, presidente do Chase Manhattan Bank, Pahlevi possuía depósitos de US$ 2 bilhões, cuja retirada poderia levar o sistema bancário norte-americano à bancarrota.

Finalmente, depois de mobilizações permanentes enfrentando a repressão armada e a prisão de líderes, uma greve geral de petroleiros iniciada em 21 de outubro sela o destino do Xá. Negam-se a produzir petróleo sob a ditadura. O primeiro-ministro Sharif-Emami renuncia em 4 de novembro e o Xá faz um pronunciamento na TV dizendo que “ouvi a voz de sua revolução … Como Xá do Irã e como cidadão iraniano, eu devo apoiar sua revolução”. Sucedem-se a nomeação do general Reza Azhari para primeiro-ministro que, no entanto, impõe a lei marcial.

No início de dezembro, cerca de 9 milhões, num país com 35 milhões de habitantes, saem às ruas exigindo a “morte ao Xá”. Uma declaração de 17 pontos é apresentada com a exigência de “independência, liberdade, república islâmica” e a afirmação de que o aiatolá Khomeini é o líder dos iranianos. Os comandantes não conseguem ordenar a repressão e os manifestantes sobem nos tanques e caminhões para se solidarizar com os soldados, entregando-lhes flores.

A última jogada do Xá foi a indicação de um antigo líder oposicionista para primeiro-ministro, Shapour Bakhtiar, em 29 de dezembro. Ele tentaria uma transição pacífica ao novo regime em acordo com Mehdi Bazargan, futuro chefe do governo revolucionário provisório de Khomeini. “O roteiro da transição seria: a partida do Xá, a instauração de um Conselho da Coroa, convocação de eleições gerais e livres, instalação de uma Assembleia Constituinte e, por fim, a transferência do poder6. Mas, o retorno de Khomeini em 1º de fevereiro de 1979 e uma gigantesca manifestação de mais de um milhão de pessoas nas ruas de Teerã em 8 de fevereiro exigindo a renúncia de Bakhtiar impede qualquer acordo. Em 11 de fevereiro de 1979 completa-se a dissolução da monarquia, com a ocupação de Teerã por forças guerrilheiras, a população armada e tropas rebeldes. Reza Pahlevi não presenciou a queda de seu próprio império, pois em 16 de janeiro de 1979 havia embarcado num Boeing pilotado por ele próprio rumo ao Kuwait, primeiro, e aos Estados Unidos, definitivamente, para “tirar férias e tratar de uma doença”, onde morreria em 1981.

Uma revolução operária

A revolução do Irã foi marcada por grandes manifestações, convocadas pela hierarquia xiita e organizações sindicais e políticas de várias tendências. O protesto de dezembro, com 9 milhões de pessoas nas ruas, é considerado a maior concentração popular da história das revoluções.

Mas, é necessário olhar para a ação operária para entender a dimensão dessa grandiosa revolução. Nos últimos 15 anos da ditadura, com a “modernização”, uma classe operária poderosa seria formada a partir dos investimentos imperialistas, enquanto a burguesia nacional perdia sua força relativa.

Havia, em 1978, dois milhões de operários industriais, além de 750 mil trabalhadores nos setores de transportes e outros serviços, concentrados em bairros da periferia das grandes cidades. A maioria das empresas era de pequeno porte, com 35 a 50 empregados, ao lado de fábricas gigantes que dominavam a cena, principalmente do setor petroquímico, automobilístico e da construção civil, algumas delas com dezenas de milhares de trabalhadores. Pode-se fazer um paralelo com a Rússia na revolução de 1917, que possuía uma classe operária de 4 milhões para 150 milhões de habitantes, enquanto no Irã havia quase o mesmo número de operários para 35 milhões.

Foi este contingente que marcou o fim do reinado do Xá, ao paralisar a economia do país com suas greves, principalmente da categoria petroleira. É como afirmava uma declaração da Ala Militante dos Trabalhadores de Indústrias Petrolíferas do Irã de 5 de junho de 1979:

“Os trabalhadores da indústria petrolífera foram os que derrubaram o regime de 2500 anos de monarquia e despotismo. Quando sua heroica greve deteve o fluxo do petróleo, cortaram a veia jugular da monarquia. E ao romper a barreira representada pela monarquia, abriram as portas à liberdade e à abundância para uma sociedade atrasada como a nossa.”

As esperanças numa nova liberdade eram enormes, e as massas começaram a exercê-la com a constituição de comitês revolucionários, os shoras. Foram criados para ocuparem-se da distribuição de alimento e combustível à população, durante a greve geral que decretou a queda do Xá, e posteriormente adquiriram um caráter militar, prendendo membros do antigo regime e executando os agentes da odiada Savak. Espalharam-se por todas as cidades do país e na capital, Teerã, chegaram a existir 14 grandes comitês e outros 1500 de menor alcance.

Após a queda do Xá, multiplicaram-se e se desenvolveram de forma independente em relação à burguesia, constituindo-se em embriões de duplo poder. O jornal New York Times de 24 de fevereiro de 1979 publicava uma matéria de seu enviado especial, onde se podia ler:

“Além dessas autoridades centrais há grupos que têm boas conexões e podem conseguir coisas, como os aiatolás e os mulás. Finalmente, quase todos os ministérios, bancos, escritórios ou fábricas têm um comitê de trabalhadores pelos quais todas as ordens devem passar para ter alguma chance de aprovação. O membro do gabinete do primeiro-ministro, Abbas Amir Entezam, reclamou na última quarta-feira que ‘apesar do comando do Aiatolá, nenhuma das grandes indústrias está operando, porque os operários gastam todo seu tempo realizando reuniões políticas’.”

Tais reuniões tinham como objetivo organizar a produção sob o controle dos trabalhadores, a conquista de reivindicações econômicas, e a construção de sindicatos. Segundo um jornal da época, “os petroleiros … formaram recentemente uma organização nacional, o Sindicato Nacional dos Petroleiros. Estão reivindicando jornada semanal imediata de 42 horas e a abertura dos livros de contabilidade das empresas petrolíferas. Se o governo [de Khomeini] não responder em três dias, entrarão em greve”.

 A burguesia e a hierarquia xiita desejavam a normalização imediata do país e o fim dos comitês revolucionários, mas as condições políticas lhes eram desfavoráveis. Mehdi Barzagan, o primeiro-ministro indicado por Khomeini, reclamava que os comitês estavam se constituindo num “poder paralelo ao meu próprio governo provisório”.

Ideologia e realidade

O fato de a revolução iraniana ter sido dirigida por líderes religiosos, como o aiatolá Khomeini, levou os propagandistas do imperialismo a afirmar que sua causa fundamental foi religiosa, com muçulmanos fanáticos que repudiavam a modernização ocidental e desejavam retornar à idade média para construir uma República Islâmica, submetida às leis do Corão. Seria, em essência, uma revolução reacionária.

É verdade que as medidas de ampliação dos direitos da mulher adotadas pelo Xá, como a permissão para frequentar a universidade, o direito ao voto e ao divórcio7, sofreram a oposição do reacionário clero xiita. É verdade, também, que essa a propaganda religiosa era difundida a todo o mundo por Khomeini desde Paris, seu local de moradia desde 6 de outubro de 1978.

Porém, como disse Marx, “cada época acredita piamente no que a época em questão diz de si própria e nas ilusões que cria sobre si própria8, e isso vale perfeitamente para os ideólogos da República Islâmica. Mas, é necessário fazer a distinção entre o que cada um pensa ser e o que realmente é. Vejamos:

A República Islâmica defendida por Khomeini tinha duas instituições principais: os poderes executivo e judiciário. Estas instituições teriam a obrigação fundamental de aplicar e defender as leis divinas, escritas no Corão. O sistema judiciário seria composto por pessoas com conhecimento profundo destas leis, o clero xiita. E “no alto do poder temporal encontra-se o imã, em sua função de intérprete supremo das leis divinas, de guia espiritual e de coordenador dos aparelhos judiciário e executivo9. Khomeini seria confirmado imã após a aprovação da constituição islâmica no plebiscito de 1º de abril de 1979. Para conhecermos o significado concreto de sua investidura, basta remover o manto religioso que encobre a constituição para verificar sua condição de Bonaparte10, com a missão de reconstruir o Estado burguês.

Da mesma forma, a burguesia nacional iraniana não entrou em choque com o imperialismo para defender uma hipotética superioridade do islã sobre o cristianismo ocidental, mas para tomar posse da renda do petróleo. Tratava-se de uma burguesia frágil de conjunto, que perdera força perante o movimento de massas com a capitulação do nasserismo ao imperialismo na década de 60 e via nascer “uma nova corrente de massas, que organizava camadas inteiras da pequena burguesia e setores desclassificados11, através de uma rede de 180 mil mulás que controlavam o movimento através de uma ideologia religiosa. Sem condições de impedir a revolução e temendo muito mais a insurreição operária do que a dominação imperialista, a burguesia volta-se ao islamismo, “que rechaça simetricamente o imperialismo e a emancipação do proletariado12, para derrotar o processo revolucionário. 

 Por isso, assim que Khomeini assumiu o poder, a indústria petrolífera foi nacionalizada, bem como todo ramo energético e bancário. As propriedades do Xá foram expropriadas e o comércio exterior ficou sob controle estatal. São políticas muito mais próprias de uma burguesia nacional em luta contra o imperialismo para manter sua parte na mais-valia extraída e sob o peso de um processo revolucionário gigantesco, do que de um anticapitalismo reacionário ávido por um retorno à época feudal.

A contrarrevolução

A queda do Xá causou a liberação das forças revolucionárias da população. Os shoras surgiam em todas as partes, revelando a força do movimento operário. No campo eram criadas organizações semelhantes para a ocupação das terras. As organizações de esquerda saiam da clandestinidade e publicavam inúmeros jornais, enquanto as minorias nacionais de língua árabe, turcomana e curda exigiam autonomia em suas regiões.

A burguesia dividia-se, com o surgimento de um setor contrário ao controle total do aparato estatal pelo clero xiita, representado por Bazargan e Bani Sadr. Este setor refletia interesses diversos em relação ao imperialismo e quanto aos métodos utilizados para controlar o movimento operário. Preferia desviar a revolução para o rumo da democracia burguesa, com suas instituições “representativas” e eleições regulares. Mas, tais instituições eram inexistentes no Irã, o que debilitou suas posições. Apenas um Bonaparte, capaz de colocar-se “acima” das classes pela sua posição de imã, poderia manobrar adequadamente entre as pressões do imperialismo de um lado e do movimento de massas de outro. Sua ideologia reacionária, posta a serviço da defesa irredutível da propriedade privada, combinada com a repressão brutal foram as formas encontradas pela burguesia do bazar para a defesa de seus interesses históricos de classe. 

Em junho de 1979, uma nova lei de imprensa foi aprovada, dando o sinal verde para a perseguição aos jornais de esquerda. Em agosto, a redação do Ayandegan foi fechada, seguindo-se o fechamento de 34 jornais de oposição no mesmo mês. Em setembro, os dois maiores jornais burgueses do país, Kayhan e Ettela’at, foram expropriados e transferidos para a Fundação dos Deserdados, controlada pelo clero.

Os partidos oposicionistas foram postos na clandestinidade, como o Mujahedeen-e Khalq (Mujadines ou Lutadores do Povo), guerrilha pequeno-burguesa de ideologia muçulmana, e o Hezb-e Kargaran-e Sosialist (HKS ou Partido Socialista dos Trabalhadores), trotskista. Massoud Rajavi, líder dos Mujadines, foi obrigado a exilar-se na França, enquanto 14 dirigentes do HKS foram presos, doze dos quais condenados à morte.

O único partido operário que permaneceu legalizado durante três anos foi o Tudeh (Partido Comunista Iraniano), de orientação stalinista, por declarar lealdade a Khomeini e apoiar o clero xiita em sua repressão às organizações de esquerda. Apenas em 1982, devido à ocupação do Afeganistão pela burocracia soviética, os membros do Tudeh foram considerados agentes de uma potência estrangeira e postos na ilegalidade. Em fevereiro do ano seguinte, Nureddin Kianuri, principal dirigente do Tudeh, foi preso. Kianuri, como bom stalinista, confessou na televisão ser espião da União Soviética.

O levante da minoria curda pela autodeterminação foi o mais importante e adquiriu um caráter de massas. Os curdos, dirigidos pelo Partido Democrático, exigiam a autonomia administrativa do Cordestão, o direito à sua própria língua e cultura, uma participação específica na receita nacional e a responsabilidade pelas forças locais de segurança. O descontentamento da minoria curda ficou demonstrado no plebiscito constitucional, rejeitado pela imensa maioria da população sob a palavra de ordem de “abaixo o plebiscito, primeiro a autodeterminação”. Os choques com as forças armadas de Khomeini começaram em agosto de 1979, sob o governo de Bazargan. A guerrilha curda chegou a controlar parte de seu território, até que o exército iniciou uma ofensiva, ocupando a cidade de Bukan em novembro de 1981 e todo o território em 1983.

 A repressão também atingia os shoras que não se sujeitaram às novas instituições da república islâmica. Segundo a Anistia Internacional, pelo menos 900 pessoas foram executadas entre janeiro de 1980 e junho de 1981, em sua maioria lutadores da esquerda e da minoria curda. Nos doze meses seguintes, mais 2974 mortes foram computadas. Estima-se em 20 mil o número de prisioneiros políticos durante 1981 e, conforme a revista Time, cerca de cem mil em 198413. São números que nada deixam a desejar à época do terror imperial.

As forças khomeinistas conseguiram, finalmente, consolidar sua posição em fins de 1981, tomar o controle absoluto do poder e estabilizar relativamente o Estado burguês. Além da sangrenta repressão interna, a invasão do Irã pelo Iraque muito contribuiu para isso.

A guerra Irã-Iraque

Em 22 de setembro de 1980, Saddam Hussein invade o Irã para impedir que o processo revolucionário avançasse para o território iraquiano através da comunidade xiita, que compõe 70% da população iraquiana, e do levante curdo. O exército iraniano consegue repelir o invasor e no início de 1982 o território iraniano estava liberado. Khomeini, no entanto, decide continuar a guerra, que duraria mais seis anos, ao custo de pelo menos 500 mil vidas. O ataque da ditadura de Hussein ocorreu num momento vital do processo revolucionário.

O movimento independente dos shoras, depois de uma reativação ao calor de uma onda de lutas econômicas da classe operária era o alvo de uma ofensiva frontal por parte do regime. A campanha de ‘união nacional’ que o regime islâmico pôde encarar frente ao ataque iraquiano, permitiu-lhe dar golpes decisivos contra toda expressão independente da classe operária14.

Apesar de uma guerra sem país vencedor, pois acabou por um acordo na ONU, ela atingiu o objetivo que os Estados Unidos e a burocracia soviética perseguiam ao dar apoio a Hussein: ajudar a derrotar a onda revolucionária. Nesse sentido, pode-se dizer que o maior beneficiado pelo resultado, além do próprio Khomeini, foi o imperialismo, pois esgotava a energia anti-imperialista das massas iranianas e impunha limites ao grau de independência política conseguida pelo Irã com a queda de Pahlevi.

As contradições da luta anti-imperialista

A revolução iraniana tinha um caráter democrático e anti-imperialista, que estava se transformando em revolução social pelo impulso das massas contra a exploração capitalista. Além de arbitrar o conflito entre a burguesia nacional e a classe operária, Khomeini desempenhava o papel de um bonapartismo sui generis, pois manobrava entre a mobilização das massas e a pressão imperialista para não perder o controle do processo, ao mesmo tempo em que zelava pela manutenção da propriedade privada. Este duplo papel limitava a luta pela independência nacional, devido ao caráter dependente da burguesia. Esta contradição ficou claramente demonstrada quando, em 4 de novembro de 1979, estudantes, incentivados pelo chamado de Khomeini para uma “mobilização geral contra o grande Satanás, os Estados Unidos”, invadiram a embaixada norte-americana sem sua prévia autorização, para exigir a extradição de Reza Pahlevi e a devolução de sua fortuna depositada nos bancos dos EUA.

Com a lembrança ainda recente da derrota no Vietnã e a campanha pelos “direitos humanos” do presidente Carter, os Estados Unidos não ousaram invadir o Irã. E ficaram desmoralizados ao realizar uma operação secreta para o resgate dos 66 reféns – a Operação Garra da Águia -, que terminou com a morte de oito soldados no choque de um helicóptero com um avião, ambos norte-americanos, em território iraniano.

Mas, em vez de uma vitória contra o “grande Satanás”, a “crise dos reféns” desembocou numa capitulação vergonhosa do governo iraniano. Os reféns foram libertados em 20 de janeiro de 1981 por um acordo com o novo governo de Ronald Reagan15, pelo qual os EUA liberavam US$11 bilhões de fundos iranianos retidos pelos bancos norte-americanos em troca do pagamento de US$ 5,1 bilhões de empréstimos fraudulentos realizados por Reza Pahlevi.

A crise da direção revolucionária

Apesar de longa tradição marxista – a delegação iraniana no Congresso dos Povos do Oriente, organizada pela III Internacional em 1920, era a segunda em tamanho, com 192 membros16 –, o longo período da ditadura dos Pahlevi havia impedido seu desenvolvimento. Apenas o Tudeh, de origem stalinista, encontrava-se em condições de organizar uma parcela dos trabalhadores no período revolucionário. Mas, seu papel traidor durante seu período de legalidade, seu histórico de capitulações, como o apoio à Revolução Branca do Xá, e sua submissão incondicional à burocracia soviética impediram que se transformasse numa alternativa para a classe operária.

Os jovens partidos marxistas, como o HKS, sofreram uma perseguição implacável e as variantes pequeno-burguesas do islamismo, como os fedaines e os mujadines, embora tenham sido oposição ao regime de Khomeini, apoiavam a República Islâmica e não defendiam a independência de classe em seus programas. Outros grupos, como o Paykar (uma dissidência marxista dos mujadines) e a União dos Comunistas tiveram seus líderes assassinados em 1983, além da prisão e execução de milhares de militantes.

Ao drama da revolução, soma-se o da ausência de um partido revolucionário que não pôde ser construído no calor de uma luta tão complexa como a que se deu no Irã, um país muçulmano em que:

“O combate contra as direções islâmicas [deve ser feito]… pondo no centro as necessidades da luta de classes, o combate ao imperialismo e aos governos lacaios. Desmascarar sua inconsequência, seu palavrório, sua submissão aos interesses burgueses, seu falso igualitarismo, é parte do combate e o fazemos deste ângulo, o da luta dos trabalhadores por cima das crenças religiosas, e não do combate à religião.”18

Uma revolução interrompida

Com a consolidação do poder por Khomeini em fins de 1981 e uma relativa estabilidade das instituições islâmicas a partir de 1985, com a transformação da burguesia do bazar o do próprio clero xiita numa grande burguesia industrial e financeira, o Irã continua refém de suas contradições internas, com as mais elementares tarefas democráticas não resolvidas.

A burguesia iraniana, com seus atuais chefes islâmicos demonstraram na prática esse limite estrutural, histórico, das burguesias coloniais e semicoloniais que são incapazes de realizar até o fim as tarefas democráticas que historicamente as revoluções burguesas cumpriram na aurora do capitalismo, a saber, a independência nacional, a reforma agrária e as liberdades democráticas.

Em relação ao imperialismo, o Irã consegue sua independência política com a revolução de 1979. Mas, a partir do momento em que a revolução é congelada nos marcos do capitalismo, quando a burguesia nada tem a oferecer, nem mesmo a realização de suas próprias tarefas históricas, o retrocesso é sempre iminente.

A revolução iraniana foi extraordinária e passa à história como uma das mais importantes presenciadas pela humanidade. Mas, ao não expropriar a burguesia para a construção de uma sociedade socialista, sua tarefa não foi terminada e, assim, o domínio capitalista permaneceu sob a forma de uma república islâmica teocrática.


1     MANDEL, E. A crise do capital. São Paulo: Ed. Ensaio, 1990, p. 39. Os valores em dólares são nominais, relativos ao ano mencionado.

2     Revolução branca: revolução realizada “por cima”, em oposição às revoluções populares ou socialistas, consideradas “vermelhas”.

3     O calendário imperial substituiu o antigo calendário persa, causando a ira do clero xiita.

4     Ramadã: nono mês do calendário islâmico, onde os muçulmanos praticam o jejum. É considerado o mês em que foi revelado o Corão.

5     Este número é motivo de muitas controvérsias, pois na época o clero xiita falava de dezenas de milhares de mortos. Emad al-Din Baghi, historiador da Fundação dos Mártires do Irã, estabeleceu o número de 88 em suas pesquisas. Michel Foulcaut, testemunha ocular, falou em 2 a 3 mil mortos. O número exato nunca será conhecido, mas as imagens do massacre indicam a possibilidade de centenas de mortos.

6     COGGIOLA, O. O Irã no centro do mundo. www.blog.controversia.com.br, acessado em 20/10/2009

7     A revogação do uso do chador já havia sido adotada por Reza Khan, pai de Pahlevi.

8     MARX, K., ENGELS, F. Feuerbach, A oposição entre as concepções materialista e idealista. Capítulo 1 de A ideologia alemã. Lisboa: Ed. Estampa, 1975, p. 72.

9     Declaração de Khomeini em Paris.

1     0      Bonapartismo: regime de caráter ditatorial, apoiado diretamente nas Forças Armadas e executado pela burocracia estatal. Seu governo “da ordem” apela sempre a um “árbitro inapelável”, capaz de arbitrar entre os distintos setores e classes sociais, com o objetivo de derrotar o movimento operário e estabilizar o Estado burguês. Porém, o governo Khomeini nos primeiros meses da revolução, quando os Comitês Revolucionários exerciam um duplo poder, pode ser caracterizado como kerenskista.

1     1      DIVÈS, Jean Phillippe. Una guerra contra los pueblos de Irak e Irán. Correo Internacional, n. 7, 1985.

1     2      Idem.

1     3      Idem.

1     4      Idem. Para uma análise completa da guerra Irã-Iraque, o artigo referenciado pode ser encontrado em www.archivoleontrotsky.org.

1     5      A eleição presidencial norte-americana ocorreu em novembro de 1980. Um dos principais fatores que contribuiu para a derrota de Carter em sua tentativa de reeleição foi a crise dos reféns e o fracasso da Operação Garra de Águia.

1     6      BROUÉ, P. História da Internacional Comunista. São Paulo: Ed. Sundermann, 2008

1     8      PARRAS, Angel Luis. Islamismo, expressão distorcida do nacionalismo. Em: O Oriente Médio na perspectiva marxista. São Paulo: Editora Sundermann, 2007, p. 167

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