sex jul 19, 2024
sexta-feira, julho 19, 2024

O referendo passou: organizar a luta

Em um resultado muito apertado, o NÃO à revogação dos 135 artigos da Lei de Consideração Urgente (LUC) se impôs com 49.8% dos votos válidos, frente aos 48.8% do SIM, que para triunfar deveria superar os 50% dos votos válidos.Por: IST Uruguai

No domingo à noite, à medida que a tendência ia se confirmando, a sensação de amargura se apoderava dos trabalhadores, dos jovens e das mulheres, que a partir das bases tinham se colocado ombro a ombro na campanha pelo SIM. Na segunda-feira pela manhã essa sensação estava nos locais de trabalho e estudo, onde o sentimento era uma mistura de perda e raiva.

Mas à medida que os dias vão passando e o golpe vai sendo assimilado, a cabeça vai esfriando, os trabalhadores e jovens começam a refletir, discutir e a pensar no que vem.

A classe operária votou massivamente pelo SIM

Em Montevidéu o SIM obteve uma votação muito alta nos bairros mais operários e populares: por exemplo, no Cerro, La Teja, Nuevo París e nas zonas periféricas, ficou em torno e inclusive superou 70% dos votos. Por sua vez, a juventude, que foi a vanguarda da luta contra a LUC, voltou-se massivamente para o SIM (66.6%).

Nos bairros mais ao Centro de Montevidéu e no litoral, a votação tende a ser mais igualitária com vantagens menores para o SIM, com resultados muito apertados, quase 50 a 50, e inclusive com vitórias apertadas do NÃO, por exemplo em Parque Rodó, Buceo e Cordón.
Onde o NÃO levou melhor vantagem foi nos bairros de classe média e alta em Pocitos, Punta Carretas e sobretudo Carrasco.

No interior, o SIM se impôs em Canelones e em Paysandú, departamento de tradição operária combativa que ainda concentra certa indústria, e onde, além disso, os operários de Paycueros vinham de duras lutas. Na localidade de Juan Lacaze (Colonia), histórico bastião operário, o SIM foi o dobro do NÃO, apesar de que no departamento (divisão regional de primeira ordem, ndt.) o NÃO ganhou por 10 pontos de diferença.

O NÃO conseguiu ganhar em quase todos os departamentos – mas não em todas as capitais – com ampla diferença nos que fazem fronteira com o Brasil.

No interior é provável que, combinando-se a crise da Frente Ampla com fatores de caráter histórico como o peso do caudilhismo típico dos dirigentes locais, onde o Partido Nacional historicamente teve peso, com trabalhadores menos organizados e mais dispersos – onde se aplica uma forte pressão patronal – explicariam em parte os resultados.

Em conclusão, este referendo expressou de forma distorcida a polarização social existente: os jovens, os trabalhadores e os setores populares mais próximos votaram em sua maioria pelo SIM, enquanto que um setor de trabalhadores, uma parte da classe média, fundamentalmente do interior, as patronais e a alta burguesia, decidiram votar pelo NÃO, permitindo ao governo manter sua base de apoio.

Esse setor médio embora não tenha sido atingido em cheio pela crise e dê certo crédito ao governo, não o vê como o principal responsável pela situação. Este setor da população acredita no relato do governo de que é “vítima” de problemas externos, primeiro com a pandemia e agora com a guerra na Ucrânia, e que só agora “começaria a governar”.

Entretanto, a apertada vitória do NÃO está longe de ser um cheque em branco ao governo ou um respaldo incondicional. De fato, comparando os votos que o governo teve no segundo turno em 2019 com os obtidos pelo NÃO, perdeu cerca de 100 mil votos. A deterioração econômica e os ataques que vem, irão apagar as ilusões de melhoria e de “luz no fim do túnel” de todo um setor que, como dissemos, até agora não vê o governo como o principal culpado.

A reação do governo

Visto o resultado, a reação do governo foi cautelosa. Lacalle Pou – em cuja suposta alta popularidade a Coalición apostava baseando-se nas pesquisas -, deu uma entrevista sucinta às 23:30 h para anunciar que a lei havia sido ratificada. E anunciou de passagem, que vem a reforma da Previdência e da Educação.

A paridade no resultado evitou que o governo saísse com euforia. Em seu editorial de terça-feira pós-referendo, o jornal ultra oficialista El País, reconheceu que “a diferença foi mínima e isso não deve ser menosprezado” (1). E o próprio Sanguinetti declarou que embora soubesse que o resultado seria apertado “gostaria de [ganhar por] um pouquinho mais” e reconheceu, ao seu modo, o impacto pelo “desgaste” que significa o aumento de preços e dos combustíveis (2).

Não obstante, usarão a vitória nas urnas para tentar aprofundar os ataques contra os trabalhadores e setores populares. Assim manifestou o senador G. Penadés anunciando que agora vão “pisar fundo no acelerador”, sobretudo nas reformas da Previdência e na mercantilização do ensino.

Não há nada para esperar: organizar e ir à luta!

Enquanto as bases da Frente Ampla, dos sindicatos, das panelas populares e dos bairros processavam a raiva pelo resultado, os dirigentes das Frente Ampla saudavam “a jornada democrática”, evitavam falar de derrota e até se mostravam contentes pensando nas eleições de 2024!!

Por outro lado, a direção do PIT-CNT (Central Sindical), em seu comunicado disse que não houve “nem vitória nem derrota”, se juntou a essa falsa “celebração da democracia” e nos diz que o urgente agora é …preparar o ato de 1º de Maio, como uma questão isolada das lutas cotidianas e mais imediatas.

Claro que o 1º de Maio é importante e os trabalhadores devem organizá-lo a partir das bases, mas ainda falta um mês, por isso é necessário começar imediatamente a nos organizar para ir unificados à luta.

Não passou nem uma semana do referendo e o governo da direita voltou a aumentar os combustíveis, o que leva a outro aumento geral de preços. O “asado del Cuqui”*, que de churrasco tem pouco e durará apenas um mês, e a retirada do IVA  (Imposto de Valor Agregado) básico do pão e do macarrão (o cardápio destinado aos operários precarizados, com salário muito baixo, e aos muitos aposentados), não passa de uma medida para suavizar e tornar mais “gradual” os aumentos.

Lamentavelmente, a Intendência de Montevidéu (governo de departamento, ndt.) governada pela Frente Ampla, tomou o mesmo caminho aumentando a passagem de ônibus e justificando com os mesmos argumentos do governo. Em conclusão, todos descarregam o ajuste sobre o bolso dos trabalhadores.

Aqueles que sofrem, de forma mais drástica, a política de ajuste e o aumento de preços deste governo antioperário, não podem esperar. Também não podem esperar as mulheres e as jovens que sofrem violência machista e assédio, como o ocorrido no colégio do bairro Colón. Não podem esperar os bairros humildes e localidades que não tem saneamento nem rede de esgoto, onde os setores mais pobres perdem seus poucos pertences, como vimos na cidade de Mercedes, onde o problema não são apenas os fatores climáticos. Menos ainda podem esperar os milhares que são empurrados, pela falta de emprego, a depender dos panelas populares para comer.

Por isso enquanto os dirigentes do oficialismo e a “oposição” festejam “a democracia” e a “institucionalidade” uruguaia, os de baixo tem pouco para comemorar.

O SIM recebeu mais de um milhão de votos, eles expressam uma enorme raiva pelo governo. Um repúdio massivo dos bairros mais operários e mais negligenciados, onde os direitos não são mais que letra morta no papel.

Com o passar dos dias, a amargura do resultado irá dando lugar ao aumento da raiva contra um governo que já começou um novo ajuste, o que parece prever um cenário de acirramento das lutas.

A partir das bases, deveremos conversar, tirar conclusões, nos organizar e preparar para ir à luta. Por isso, como já vem colocando a IST, esta campanha do SIM que conquistou mais de um milhão de votos, deve servir para impulsionar e retomar as lutas nas ruas de forma unificada. A organização deverá ser assumida pelas bases nas fábricas, locais de estudo, bairros e panelas populares para deter a mão deste governo dos donos do Uruguai.

1) https://www.elpais.com.uy/opinion/editorial/claro-gobierno-gano.html

2) https://enperspectiva.uy/en-perspectiva-programa/entrevistas/julio-maria-sanguinetti-pc-si-el-frente-amplio-quiere-volver-a-ganar-el-gobierno-tiene-que-ser-proclive-a-la-negociacion-tiene-que-transar-no-imponer/

* Rebaixa do preço da carne. Ver: https://www.elobservador.com.uy/nota/del-asado-del-pepe-al-asado-del-cuqui-las-carnicerias-promocionan-el-nuevo-precio-de-la-carne-2022329145514

Tradução: Lilian Enck

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