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segunda-feira, novembro 28, 2022

Invasão terrestre no Iêmen

A agressão militar da coalizão liderada pela Arábia Saudita – que conta com o apoio dos EUA e Israel – contra o Iêmen continua e aumenta sua escala de devastação. Depois de cinco meses de criminosos bombardeios contra os iemenitas, as monarquias do petróleo passaram à invasão terrestre.

O conflito começou em setembro de 2014, quando uma onda de mobilizações populares, encabeçada principalmente pelas milícias xiitas denominadas houthis, tomou Sanaa, capital do país. Em março de 2015, o aumento dos protestos e o avanço dos houthis derrubaram o então presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi, que, vendo-se perdido, fugiu rumo à Arábia Saudita. Em meio a este processo, o exército se dividiu: uma parte passou a apoiar os houthis; a outra passou a reivindicar o retorno de Hadi como “presidente legítimo”.

Os houthis são uma expressão político-militar burguesa da minoria xiita no Iêmen1. Constituem um “partido-exército” que promove um programa teocrático derivado de uma vertente do xiismo – a dissidência zaidi – que, ainda que “minoritária”, representa um terço da população no Iêmen, principalmente no norte.
 
Hadi foi durante muitos anos o vice-presidente do ex-ditador Ali Abdullah Saleh. De tal forma que, entre 2011 e 2012, quando as mobilizações estouraram no Iêmen, refletindo com particularidades o processo revolucionário mais geral em toda a região, e forçaram a renúncia de Saleh – ainda que de forma “negociada” –, quem assumiu o poder foi Hadi. Esta medida, que pretendia “mudar alguma coisa para que tudo continuasse igual”, contou com o apoio do imperialismo e principalmente dos sauditas. No entanto, não demorou muito tempo até que as contradições sociais insolúveis, provocadas pelas péssimas condições de vida e pelos anseios democráticos, voltassem a explodir. Uma nova onda de mobilizações era previsível e aconteceu.
 
A derrubada de Hadi, herdeiro de Saleh e agente dos sauditas, constituiu, portanto, uma nova vitória e abriu um novo momento da revolução iemenita, no contexto do curso desigual das revoluções no Oriente Médio.
 
A atual agressão saudita, denominada cinicamente Operação Restaurar a Esperança, tem como objetivo declarado colocar Hadi novamente no poder. Vale ressaltar que não passa de uma resposta contrarrevolucionária diante de uma vitória do povo iemenita que expulsou do país seu homem de confiança. Não devemos esquecer o papel que a Arábia Saudita cumpre na região: um “reino” governado por uma monarquia teocrática profundamente reacionária, que se constitui, depois do Estado sionista de Israel, como o principal agente dos interesses do imperialismo.
 
Segundo a ONU, os incessantes bombardeios sobre Sanaa e outras cidades controladas pelos houthis causaram ao menos quatro mil vítimas, a metade delas civis. Pelo menos 23.000 pessoas ficaram feridas. Quase um milhão e meio ficaram desalojadas. O embargo a que o país está submetido leva a uma escassez alarmante de alimentos, combustíveis e remédios. A precária infraestrutura (centrais elétricas, hospitais, escolas etc.) do Iêmen, que é o país mais pobre do Oriente Médio, está quase destruída.
 
Invasão terrestre
 
Em julho, a agressão militar deu um salto e, além dos ataques aéreos, passou a envolver tropas terrestres. Tropas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes desembarcaram em Áden, a segunda cidade mais povoada e considerada a capital do sul. Com auxílio de uma artilharia pesada e blindados, no dia 17 de julho retomaram a cidade, que além de tudo possui o principal porto iemenita.
 
A partir daí, nas primeiras semanas de agosto, as forças invasoras e os leais a Hadi dentro do país foram avançando e conquistaram três capitais de províncias do sul. A ofensiva se mantém e, no começo de setembro, o Catar enviou 1.500 soldados ao Iêmen, apoiados por 200 tanques e 30 helicópteros de combate Apache, segundo informou a rede de notícias Al Jazeera. A aviação do Catar já participava da agressão ao Iêmen.
 
Isso foi, sem dúvida, um golpe à revolução, porém tudo indica que, à medida que as tropas contrarrevolucionárias avançarem em direção ao norte, a resistência será muito mais sangrenta.
Uma mostra disso é a recente morte, pelas mãos dos houthis, de mais de 60 soldados da coalizão das monarquias do petróleo, 45 deles procedentes dos Emirados Árabes Unidos (EAU), segundo reconhecimento oficial.  Outras fontes falam em 210 mortos, entre eles 97 soldados sauditas e 83 emiradenses.2 Isso aconteceu no dia 4 de setembro em um quartel em Safer, na província de Marib, a uns 250 quilômetros de Sanaa. Um foguete do tipo Toshka  fez o lugar voar pelos ares destruindo também vários helicópteros Apache e veículos blindados.
 
O ataque impactou a coalizão de agressão ao Iêmen, especialmente os Emirados Árabes que, segundo analistas, lideram as ações sobre o território. Os soldados deste país representam aproximadamente 30% dos 10.000 invasores (o restante é da Arábia Saudita e do Catar) que estão em solo iemenita. São eles que se encarregam, além do mais, da segurança do porto e do aeroporto em Áden.
 
A coalizão diz agora que prepara  a “batalha decisiva” para retomar Sanaa. De fato, desde o dia 5 de setembro os bombardeios sobre a capital se intensificaram. Nesse dia morreram 24 civis, segundo informe dos houthis, que seguem controlando a cidade e continuam fortes no norte. Apesar dos anúncios ressonantes de Riad e seus aliados, o mais provável é que estejamos diante de uma guerra prolongada, que ainda está em seu início e que trará resultados imprevisíveis.
 
Nosso lado nesse enfrentamento é categórico: estamos na mesma trincheira que o povo iemenita e pela derrota dos invasores ao seu território. Diante da agressão militar de um país mais forte e opressor contra outro mais pobre e oprimido, os revolucionários têm uma primeira obrigação: posicionar-nos militarmente do lado do país oprimido (Iêmen) e pela derrota do país opressor (Arábia Saudita e seus amos imperialistas). Isso não significa, evidentemente, manifestar apoio político ao partido houthi.
A luta feroz no Iêmen mostra que estamos diante de um novo episódio da revolução, que engloba não só este país mas também o processo revolucionário mais geral no Magreb e no Oriente Médio. A isso se une a resistência síria contra o ditador Al Assad e o Estado Islâmico; a luta dos curdos por sua independência; as mobilizações do povo libanês; o combate do povo iraquiano contra o EI e contra o governo repressor de Bagdá.
 
Expressamos, uma vez mais, nossa solidariedade incondicional ao povo do Iêmen e, ao mesmo tempo, chamamos todas as forças revolucionárias e democráticas a cerrar fileiras em torno da resistência armada iemenita. Esta é uma tarefa anti-imperialista de suma importância e inevitável.

Notas:
1. http://litci.org/es/archive/rechacemos-los-bombardeos-sauditas-a-yemen-viva-la-revolucion-del-pueblo-yemeni/
2. http://hispantv.com/newsdetail/Yemen/55827/yemen-marib-soldados-extranjeros-ejercito-misiles-211

Tradução: Julio Soares

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