ter jan 31, 2023
terça-feira, janeiro 31, 2023

Os muros de que não se falam

Desde a queda do Muro de Berlim, os meios de comunicação do mundo ocidental preencheram páginas e páginas e ocuparam horas e horas de televisão para nos fazer crer que somos mais livres, já que o muro representava a divisão entre “dois mundos” conflitantes e incompatíveis.

 

E foi bom, muito bom, que as massas tenham derrubado este Muro, mas não nos enganemos. Nos anos 1990 começou também uma ofensiva voraz dos imperialismos para se apoderar, via planos neoliberais, de qualquer parte do mundo que tentasse ser independente ou fugir dos seus ditames. Implementaram, então, a “globalização”. Esta prometia ser a integração de todos. E, neste março, a União Europeia, que pretendia ser um Estado supranacional onde as pessoas pudessem deslocar-se livremente para trabalhar e viver.
Que bom seria poder dizer que vivemos em um mundo sem fronteiras e sem muros…se fosse assim. Sem dúvida, tudo o que a humanidade tem de bom poderia ser compartilhado e servir para que todos alcançássemos nossos máximos potenciais, conhecêssemos e aprendêssemos deste mundo que tanto tem a oferecer.
 
No entanto, a realidade está muito distante disso. O mundo globalizado que nos propuseram por estes anos e que tentaram nos vender como a integração dos Estados e das nações, e os países e continentes, depois de derrubado o tristemente célebre Muro de Berlim, é uma das piores farsas que já foram ditas e implementadas.
 
A tão repetida “globalização”, que parecia ser “um mundo de portas abertas para todos”, não foi e nem é manda mais que um teatro de operações para os ricos e poderosos. E neste teatro há papeis protagonistas e papeis de figurantes.
O protagonismo foi roubado pelas burguesias, com grandes corporações empresariais e bancos, onde o capital financeiro e a especulação e a corrupção levam –das mãos dos governos dos países mais ricos: o senhor do mundo, Estados Unidos, e seus cúmplices e seguidores, os imperialismos da União Europeia e alguns outros países– o esforço e o sacrifício dos elencos de figurantes de todo o resto.
 
E os papeis de figurantes, que enfrentam pobreza, miséria, desemprego, opressões infinitas e muitos outros golpes, foram dados à maioria dos habitantes dos países pobres, coloniais e semicoloniais, dependentes dos poderosos protagonistas.
E como os protagonistas devem “cuidar” de seus papeis e não se deixar atropelar por aqueles restantes que tentam viver melhor, decidiram terminar com a farsa e começar a levantar muros que evitem o atropelo.
 
Assim, desde a queda do Muro de Berlim –quando havia em todo o mundo 16 delas–, foram levantadas ou estão em construção 65 muralhas que tentam deter o “avanço” de milhares de refugiados e imigrantes que fogem das guerras do Oriente Médio, da falta de perspectivas em alguns outros países asiáticos, e também africanos, europeus e/ou latino-americanos, que procuram todos conseguir um lugar melhor para trabalhar e viver com suas famílias.
 
Mas os poderosos –e outros setores que os poderosos convenceram de que o que ameaça seus cada vez mais escassos privilégios são os imigrantes– impõem a estes a ilegalidade, o terror e até a morte. E vemos um aumento de imigrantes que, no entanto, bem poderiam ser absorvidos nos países de destino, mas que devido à crise econômica não são aceitos para aumentar a barata mão de obra estrangeira. Por isso, os poderosos mudaram sua política e, ao mesmo tempo, utilizam e fazem crescer o fantasma da imigração como uma ameaça para confundir a seus próprios povos.
 
Por isso, o que cria esta “crise migratória” atual não é o aumento exponencial de novos migrantes, mas a mudança de política dos países que os recebem e seu endurecimento nas fronteiras, acarretando todo tipo de violência e atrocidades contra os mais pobres e “desclassados” que tentam superar as barreiras… e os muros –físicos e ideológicos– que lhes impõem o capitalismo, o “mundo globalizado”.
 
E, então, este mundo de portas abertas dos países “democráticos” se revela de cara para os imigrantes –e para todos que quiserem ver– como realmente é: uma prisão repleta de muros quase insuperáveis, com guardas armados e dispostos a matar, em meio a uma hipocrisia crescente e asquerosa que pretende nos fazer acreditar que a xenofobia, a preguiça e a corrupção não existem ou são males de “alguma outra parte” do mundo.
 
Nos últimos dias, esta crise migratória tomou mais vidas que nos anos anteriores e ultrapassou as fronteiras de países europeus como Itália, Hungria, Macedônia e Grécia, muitas vezes utilizados como passagem até Alemanha e Norte da Europa.
 
E em meio a esse caos, os muros seguem crescendo… Aos já conhecidos e sinistros que Israel impõe à Palestina –em aberta violação à legislação internacional e com o objetivo de marcar uma fronteira que, via ocupação de territórios, permita-lhe apoderar-se de terras e vidas– e os Estados Unidos ao México e países centro-americanos –com o argumento de reforçar as fronteiras para evitar a infiltração de “terroristas islâmicos” (e, junto, latinos e pobres)–, somam-se o muro da rota balcânica, ao longo da fronteira da Sérvia com a Hungria, com 177 quilômetros de extensão, impulsionado pelo conservador governo húngaro de Orban, que pretende deter o fluxo migratório de pessoas provenientes da Síria, Afeganistão e Paquistão através da Sérvia, e com destino à Alemanha, Áustria e a península escandinava.
 
E outros muros, como o de Evros, entre a Grécia e a Turquia, que atrasa a entrada de imigrantes que anseiam chegar à União Europeia; ou os levantados na Irlanda do Norte com o nome de “linhas de paz”, para separar comunidades católicas e protestantes; ou os existentes entre Espanha e Marrocos, nos enclaves espanhois de Ceuta e Melilla, que cada dia toma a vida de muitos que tentam saltar sobre eles, quando não são mortos nas águas ou assassinados pela repressão.
Ou a cerca com que a Índia circunda a Bangladesh com o objetivo de frear a imigração, e que deixou pelo menos 100.000 pessoas no mais absoluto desamparo, sem nenhum serviço e presas em uma terra de ninguém. E até o pequeno Chipre tem um muro que divide em duas à sua capital, Nicosia, e que separa as populações grega e turca desde 1974.
 
Também existe um muro de areia de quase 3.000 quilômetros no Saara Ocidental, que separa Marrocos das regiões sob controle da Frente Polisário; e o da Arábia Saudita-Iraque, que chega aos 900 quilômetros, com mirantes, torres de controle e centros de intervenção rápida; e outro, na Bulgária, que percorre toda a fronteira terrestre com a Turquia para evitar a entrada de refugiados provenientes dos países árabes na guerra.
 
Assim, a repetida “globalização”, que prometia “unir o mundo em um só para todos”, somente uniu aos imperialismos contra os trabalhadores e os povos que, obrigados pelas guerras, a miséria, a fome, a falta de oportunidades, o terror, a opressão, o desemprego e outros tantos fatores deste tipo, emigram em massa para o que consideram um lugar melhor, e onde encontram com valas, muros, barreiras, requisições, quando não com a violência descarada dos “governos democráticos “, que não lhes permitem a entrada e os forçam a vivem em acampamentos de refugiados, em uma peregrinação sem fim de fronteira em fronteira… de muro em muro.
 
O “mundo de todos e para todos” converte-se, assim, cada dia mais no teatro de operações que inclui aos ricos e poderosos, protagonistas da comédia que representam, contra o elenco de figurantes que vivem na tragédia cotidiana de ter que fugir para encontrar um lugar “melhor” para viver e onde só encontram muros e mais muros –esses sim, “globalizados”–, que os empurram de um lado a outro de cada fronteira natural ou fabricada para lhes mostrar que o mundo não é de todos nem para todos.
 
No entanto, algumas vezes este mundo “imenso e distante” mostra também que a grandes humana é infinita, que a solidariedade entre trabalhadores e pobres conseguiu derrubar muitas barreiras, que os muros podem cair e que a luta incansáveis “dos figurantes” pode tornar concreto e verdadeiro este mundo sem fronteiras e sem muros, que tanto aspiramos e pelo qual lutamos.
 
Esta é nossa luta, essa é nossa esperança, esse é o objetivo final para o qual devemos empenhar nosso esforço e nossas vidas. A construção desse mundo livre, de pessoas livres, não é fácil, mas também não é utópico. É uma luta sem atalho nem capitulações, é a revolução operária e socialista internacional, o único caminho que nos permitirá viver livres neste “mundo de todos e para todos”.

Tradução – Isa Perez 

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