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sexta-feira, julho 19, 2024

Dois anos do massacre de Rabaa

A ditadura militar egípcia matou mais de duas mil pessoas em 14 de agosto de 2013.
Em 14 de agosto de 2015 é celebrado o segundo aniversário do massacre de Rabaa, ocorrido nas praças de Rabaa Al-Adaweya e Al-Nahda, no Cairo, quando as forças de segurança atacaram, por diversas vezes, um acampamento de manifestantes convocado pela Irmandade Muçulmana contra o golpe de Estado liderado por Abd al-Fattah al-Sisi cerca de um mês e meio antes (03/07/2013). O presidente do Egito naquele momento, Mohamad Morsi, da Irmandade Muçulmana, foi destituído e levado à prisão pelos militares. A polícia dispersou os manifestantes em Rabaa utilizando munição de verdade, com a desculpa de que uma parte deles portava armas de fogo.
 
A ONG Human Rights Watch afirmou, em um informe de 2014, que pelo menos 1150 pessoas foram assassinadas, o que caracterizaria um crime contra a humanidade. Outras fontes afirmam que foram mais de 2500 mortos. Cerca de 43 policiais perderam a vida durante os confrontos. Depois do massacre, o governo pôs em marcha um operativo de eliminação de provas, bem como mandou que os meios de comunicação públicos não divulgassem ou fizessem qualquer comentário sobre o ocorrido, o que demonstra o grau de censura imposto pela ditadura militar no Egito.
Até hoje ninguém foi responsabilizado pelo que aconteceu há dois anos.
 
O massacre de Rabaa foi, na verdade, o primeiro ato de um brutal processo de criminalização dos protestos e de grandes ataques contra os direitos básicos dos trabalhadores, como a liberdade de expressão, de imprensa e de organização. O argumento de al-Sisi sempre foi a luta contra o terrorismo, personificado, segundo o governo, na Irmandade Muçulmana e, mais recentemente, no Estado Islâmico. No entanto, o que o governo quer é intimidar qualquer tipo de oposição às suas políticas.
 
A repressão, de fato, está sendo direcionada a todos os movimentos sociais. Não se sabe o número de ativistas e jornalistas presos. Há milhares de pessoas condenadas à pena de morte, entre elas Morsi, assim como vários correspondentes de imprensa estrangeiros expulsos do país e ativistas proibidos de exercer a atividades sindical e política. Sisi anunciou há poucos dias que aprovaria novas leis para acelerar a execução das penas de morte e os processos contra pessoas acusadas de terrorismo.
 
Ativistas como Yara Salam, Sanaa Abdel Fatah, Mahienour al-Marsi, Mohamad Sultan, Ahmed Maher, Ahmed Douma, Alaa Abdel Fatah, entre outros, estão presos. Alguns deles estão há meses em greve de fome, alguns já foram condenados por desobedecer a lei antiprotesto, outros foram acusados de pertencer à Irmandade Muçulmana e muitos outros simplesmente esperam na prisão um veredito por acusações falsas.
Desde o golpe de julho de 2013, não foram realizadas eleições parlamentares no país, que em princípio estavam previstas para o primeiro semestre de 2015, mas foram canceladas sem grandes explicações pelo Poder Executivo.
 
Um informe intitulado "O direito esquecido" documentou mais de 650 violações ao livre exercício do jornalismo. Um dos casos mais recentes foi a expulsão do correspondente do jornal espanhol El País do Egito.
 
Os trabalhadores resistem
 
A Corte Suprema administrativa do Egito criminalizou o direito de greve em abril, proibindo os trabalhadores privados de exercê-lo e penalizando os trabalhadores públicos com aposentadorias obrigatórias caso façam greve.
 
No entanto, os conflitos trabalhistas continuam, como na indústria do cimento, do petróleo e têxtil. Há inúmeros casos de empresas que estão fechando em decorrência da crise e deixam seus trabalhadores desamparados. Em muitos casos, os donos atrasam o pagamento dos salários e os trabalhadores não têm a quem recorrer porque os sindicatos que não apoiam o governo são impedidos de atuar e seus dirigentes são perseguidos. Apesar da brutal repressão, as greves nos principais centros industriais do país, como Cairo e Mahala, acontecem com muita frequência.
 
A ampliação do Canal de Suez não vai melhorar a vida da população
 
Sisi inaugurou há duas semanas o chamado "novo Canal de Suez", um mega projeto arquitetônico que pode ter custado mais de oito milhões de dólares e envolvido cerca de 44 mil trabalhadores. O governo lançou uma grande campanha publicitária das supostas vantagens que resultarão desse investimento milionário. Segundo as autoridades egípcias, a expansão do canal criará um milhão de empregos, US$100 milhões ao ano para a economia, assim como duplicará, até 2023, para mais de US$13 bilhões o total de benefícios anuais provenientes do canal.
Muitos economistas opinam que essas cifras são simplesmente impossíveis de alcançar. Atualmente, o canal está operando muito abaixo de sua capacidade total, por causa da redução do comércio na China e da menor demanda de petróleo do Golfo por parte da Europa e dos EUA.
 
As péssimas condições de trabalho nas obras de ampliação do canal
 
Mais de dez trabalhadores morreram durante a construção dos 45 quilômetros de ampliação do canal. Cerca de 145 sofreram lesões. Havia duas classes de trabalhadores: os contratados pela Autoridade do Canal de Suez (ACS) e os subcontratados, vinculados a empresas privadas.
Os contratados pela ACS recebiam cerca de 120 dólares por mês para trabalhar de 10 a 12 horas por dia, sem descanso semanal. Os contratados pelas empresas privadas tinham condições de trabalho ainda piores. O ritmo intenso e a necessidade de terminar a obra em um período muito curto provocaram as mortes e as lesões.
 
Onda de protestos no Iraque contra as péssimas condições de vida
 
Nos últimos dias, uma onda de protestos se espalhou pelo Iraque contra os frequentes cortes de luz, as péssimas condições de vida, a má qualidade da água e a corrupção governamental. As manifestações se expandiram como um rastro de pólvora nas cidades de Bagdá, Basra (importante produtora de petróleo), Karbala (uma das cidades sagradas dos xiitas), Hillah e Nasriyah. As principais críticas eram direcionadas aos políticas e em alguns casos, como em Basra, os manifestantes pediam a renúncia dos conselhos local e provincial. Milhares de pessoas participaram das manifestações em todo o país.
 
O primeiro-ministro Haider al-Abadi reagiu aos protestos prometendo reformas. Apresentou um aplano anticorrupção e de redução da estrutura governamental. Medidas totalmente insuficientes. Haider al-Abadi chegou ao governo em 2014, durante a crise política que atingiu o país nas semanas seguintes ao surgimento do ISIS no Iraque e a posterior ocupação de Mosul pelos extremistas, a segunda cidade mais importante do país.
 
Haider é apoiado pelos Estados Unidos e pelo Irã e não passa de um mero fantoche das potências mundiais e das empresas de petróleo na região. Estudou no Reino Unido e serviu aos governos do Iraque durante a ocupação do país, em 2003, pelas forças da coalizão internacional dirigida pelos EUA e pelo Reino Unido.
 
Liberdade aos presos políticos egípcios!
Todo apoio às lutas no Egito e no Iraque!
Tradução: Raquel Polla

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