Nos últimos meses, a Guatemala foi testemunha de lutas estudantis muito importantes, que só não foram visíveis porque os meios de comunicação burgueses mantêm um cerco. Nem sequer nos países do istmo centro-americano há difusão das lutas.
 
Os estudantes de colégios normalistas (que formam professores) estão lutando contra o aumento de seus anos de estudo para poder se formar, e os da Universidade de San Carlos (USAC), a única instituição pública, reivindicam uma representação estudantil real e o reconhecimento das associações estudantis por carreira. Estas duas lutas são exemplos que mostram o caminho ao movimento estudantil da América Central e de todo o mundo.
 
Contra o aumento dos anos de estudo nas escolas normais
 
A luta dos estudantes normalistas iniciou-se em 13 de maio, quando o governo de Pérez Molina anunciou uma reforma do programa de estudo, estendendo o período acadêmico de 3 para 5 anos. De fato, isto implica que os estudantes já não poderão se formar, ao concluir o terceiro ano, como professores, mas como bacharéis com orientação pedagógica, obrigando-os a mais dois anos de estudo no ensino secundário e mais três na universidade para chegar a professores. Em termos práticos, significa maiores gastos para suas famílias, pois, com o sistema anterior, os estudantes podiam trabalhar na educação primária com seu título de normalista, enquanto continuavam seus estudos universitários, o que facilitava a manutenção familiar. Agora, esta possibilidade está vetada.
 
Os estudantes começaram com a ocupação de vários colégios da Cidade da Guatemala, e se estendeu, mais tarde, para colégios no interior do país.
 
As escolas normais manifestam-se não só contra esta proposta, como também aglutinaram outros eixos de luta, como a melhoria nas condições de estudo e maior orçamento para a Educação secundária. Desde então, os normalistas enfrentam tanto a resistência do governo para abrir negociação, como também de setores de estudantes e de pais de família, cooptados pela política do governo, que se opõem às lutas.
 
Em 29 de junho passado, diante da continuidade das ocupações e da intransigência dos estudantes em luta, a Ministra da Educação Del Águila apresentou-se para dar início às aulas em um dos salões do Parque da Indústria, quando um grupo de estudantes aproveitou para interrogá-la. A resposta da ministra foi o chamado aos antimotins. Os estudantes enfrentaram os policiais com paus, pedras e tudo o que encontraram. O resultado: muitos feridos e intoxicados com gás.
 
Diante destes fatos e por temor de que a luta receba a solidariedade de outros setores sociais, o governo chamou, desde 9 de julho, audiências onde os estudantes e suas organizações possam expressar suas reivindicações.
 
Nestas audiências, os vazios do sistema educativo ficaram evidentes. Os estudantes rechaçaram a reforma, pediram mais escolas, mais bolsas, e a socialização da proposta de idiomas mayas. A promessa de sistematizar as propostas foi uma farsa e não teve nenhum resultado, por isso os estudantes normalistas apresentaram uma contraproposta com uma manifestação estudantil, em 10 de agosto passado.
 
A proposta estudantil contém as principais demandas do movimento normalista e, sobretudo, a manutenção da carreira do magistério por três anos, mas com melhorias na qualidade de ensino. A luta dos estudantes normalistas continua aberta à espera da resposta do governo.
 
Pela democratização da AEU
 
Enquanto isso, a USAC foi ocupada por integrantes do grupo Estudantes pela Autonomia (EPA) exigindo que se realizem eleições democráticas na Associação de Estudantes Universitários (AEU).
 
Nos últimos anos, a AEU, tomada por pequenos grupos mafiosos, afinados com a reitoria da Universidade, repartiram os fundos que lhes correspondiam como representação estudantil e agora os defendem a balaços, como aconteceu assim que foram enfrentados.
 
É por isso que se aposta pela reorganização da AEU em eleições amplas e democráticas, onde primeiro vote, em Assembleia, todos os estudantes da USAC e se crie uma comissão eleitoral.
 
{module Propaganda 30 anos – BRASIL}Os integrantes da EPA expressam o objetivo das manifestações da seguinte forma: “Queremos que a AEU seja devolvida aos estudantes universitários, e se realize um processo democrático no qual participe qualquer pessoa que seja estudante e tenha a intenção de trabalhar para a USAC e para o PAÍS. Não entendemos como grupos que sempre foram aplacados por estes integrantes da AEU se oponham a que esta instituição seja devolvida aos estudantes. Talvez seja porque, como não tiveram a coragem de denunciá-los e podem perder seu protagonismo sectário, lhes incomoda que outros tenham a valentia de fazê-lo. E definitivamente, ao existir uma AEU consciente e consequente, todos os grupos perderiam o protagonismo que tiveram enquanto a AEU estava sequestrada. Queremos que a USAC renasça”.
 
A luta por uma real representação estudantil, votada desde as bases e contra grupos de estudantes lumpesinados que se perpetuam no poder, é o primeiro eixo das manifestações. No entanto, também existem outras exigências como a demanda de um orçamento justo: “O orçamento da USAC é de 5% segundo a Constituição, isto é, de um orçamento da nação de 50,000,000 de quetzales[1], falaríamos de um orçamento de 2,500,000 de quetzales. Mas recebemos só 1,300,000 quetzales e o Conselho Superior Universitário (CSU) não tem a valentia de solicitar que se cumpra o que a Constituição manda. Por que creem que o CSU defende a AEU atual e não vai apoiar que a entidade seja entregue aos estudantes?” A privatização da Educação superior tem como uma de suas principais aliadas a falta de uma organização estudantil combativa contra os cortes orçamentários. Então, as reitorias e governos sempre terão grupos de estudantes disputando os espaços de representação para depois lhes manter as portas abertas aos planos privatizantes.
 
Outra das exigências dos estudantes é a reforma universitária, que se volte urgente para os problemas que enfrenta a USAC tanto na representação como na infraestrutura e cotas. É a mesma reivindicação que motivou o desaparecimento de nove estudantes da AEU em 1989.

Muitos jovens, uma só luta.
 
Ambas as lutas dos estudantes guatemaltecos continuam abertas. É urgente organizar um movimento estudantil tanto em nível nacional como regional que responda aos interesses dos estudantes de modo independente das reitorias, dos diretórios e dos partidos de governo. Só os estudantes decidindo em espaços realmente democráticos podem lutar contra a privatização da Educação e por uma representação estudantil que responda a nossos interesses.
 
A única ferramenta que nos pode garantir o triunfo é a mobilização na mais ampla unidade com todos os setores, estrategicamente com os setores de trabalhadores, que enfrentam também os cortes de seus salários e de suas garantias trabalhistas como parte dos planos privatizantes.
 
No resto dos países da América Central, enfrentamos os mesmos problemas de falta de organismos estudantis que lutem por nossos interesses, além da forte repressão que sofremos cada vez que saímos para nos manifestar. Todos estes atropelos a nossos direitos, devemos enfrentá-los em conjunto como região, sendo nossas principais tarefas como estudantes conseguir a articulação real das lutas e da solidariedade no istmo.
 
Agora são os estudantes guatemaltecos os que nos mostram o caminho, por isso lhes dizemos com orgulho que não estão sozinhos porque tanto na América Central como no mundo somos: Muitos jovens, uma só luta!
 
Viva a luta dos estudantes Guatemaltecos!
Abaixo a reforma educativa de Pereza Molina às Escolas Normais!
Pela representação estudantil eleita democraticamente na USAC!
Contra a repressão ao Movimento Estudantil!
Pela unidade do movimento estudantil Centro-americano!

Tradução: Suely Corvacho


[1] . 1 quetzale corresponde a 0,10 Euros e 0,13 Dólar (EUA)