Tanto os que apoiam Mauricio Macri como os que apoiam Daniel Scioli encontraram um novo ponto em comum: atacar, com diferentes argumentos, aqueles que propõem o voto em branco. Muitos companheiros podem ter dúvidas se não é melhor votar em Scioli para que Macri não ganhe ou vice-versa, de acordo com quem odeiam mais. Qual é a melhor opção para depois do dia 22 do ponto de vista dos trabalhadores? Eleger o mal menor ou não votar em nenhum deles?

Por: Cristian Napia

Quem faz o jogo da direita?

Diante do segundo turno em 22 de novembro, Scioli e toda a Frente para a Vitória têm como principal argumento de campanha que se Macri ganhar “a direita virá”, e que por isso seria necessário votar em Scioli.

Intelectuais próximos aos Kirchner, o aparto dos meios de comunicação oficialista e reconhecidos jornalistas, a burocracia sindical, etc., levam adiante esta campanha com o objetivo de causar medo nos trabalhadores e na população dizendo que, apesar de Scioli não ser o melhor candidato, diante de Macri devemos “cerrar fileiras” para garantir nossos postos de trabalho e nossas condições de vida. “Não é o melhor, mas é o mal menor”, repetem vergonhosamente muitos militantes K.

É verdade que Macri é de direita

Nós, do PSTU na FIT, não temos a menor dúvida de quem é Macri, que denunciamos há tempo como um empresário a quem a ditadura estatizou as dívidas de sua grande empresa familiar. Governou a Cidade de Buenos Aires esvaziando os espaços e serviços públicos e com grandes negócios privados ao melhor estilo neoliberal.

Por isso dizemos claramente: sim, Macri representa uma tentativa de voltar aos anos 90.

O kirchnerismo fez o jogo da direita durante 12 anos

Mas também é verdade que Macri fez tudo isso com a cumplicidade dos K. Se Macri cresceu e hoje tem possibilidades de ser presidente é porque o kirchnerismo, em 12 anos, teve uma política de duplo discurso e nunca foi a fundo contra os interesses que hoje o macrismo representa. Em vez de enfrentar os latifundiários da soja quando tinha o apoio da grande maioria dos trabalhadores, permitiu que eles obtivessem lucros fabulosos mediante as associações para a produção (pool de siembra); desvalorizou o peso a pedido da indústria de exportação, o que significou a perda do poder de compra de nossos salários; reprimiu todos aqueles que se atreviam a se organizar em seus locais de trabalho para enfrentar os patrões; e reprimiu, junto com a Polícia Metropolitana de Macri, os que ocuparam o Parque Indo-americano em busca de um teto para seus filhos. Além disso, na Cidade de Buenos Aires, o bloco de legisladores K votou a favor de 90% das leis que Macri propôs.

Se Macri cresceu foi porque os K deixaram-no crescer e trataram de convencer os trabalhadores de que não tinham que enfrentar as grandes patronais organizando-se nos locais de trabalho e nas ruas.

O que os que chamam a votar em Scioli nos propõem é ceder posições e nos conformar a votar no mal menor. Dizem-nos para abdicar de nosso salário para garantir nosso posto de trabalho. Para derrotar um patrão não serve outro patrão. Isto é fazer o jogo da direita e dos que querem aplicar os ajustes. Se começarmos cedendo nosso salário, inevitavelmente virão atrás de nosso trabalho.

Qualquer um é bom para derrotar os K?

Milhões de trabalhadores deixaram de acreditar no duplo discurso do kirchnerismo. O governo “dos direitos humanos” e que “enfrentava” o imperialismo começou a aplicar um brutal ajuste sobre o povo trabalhador, reprimindo quem se atreve a protestar, ao mesmo tempo em que paga religiosamente aos agiotas da dívida e permite a pilhagem de empresas como a Chevrón (petroleira) e a Barrick Gold (mineradora). O pior do Partido Justicialista continua em pé, com sua corrupção, redes de narcotraficantes e de tráfico de pessoas nos bairros.

Por isso, aqueles que tinham depositado confiança na “nova política” agora enfrentam o governo que quer que a crise seja paga pelos trabalhadores.

O “voto útil” para derrotar Scioli e os K

Isso se refletiu nas eleições gerais de 25 de outubro, quando a Frente para a Vitória e seus aliados perderam na maioria das grandes cidades do país, o PJ e seus caciques sofreram uma dura derrota na Grande Buenos Aires, e na pequena diferença entre Scioli e Macri, o que dá grandes chances a Macri de ser o novo presidente.

Os trabalhadores utilizaram Macri, a UCR (União Cívica Radical) e até candidatos que nada tinham a ver com a política para derrotar os K.

Fortalecer com nosso voto um candidato patronal e a favor dos ajustes?

Embora a derrota dos K seja um triunfo dos trabalhadores, não podemos perder de vista que votando em Macri também se está fortalecendo uma alternativa que, passadas as eleições, utilizará o poder para seguir pelo mesmo caminho do ajuste aos trabalhadores, de mais dependência do imperialismo e da dívida externa e de repressão aos que lutam pelo salário e contra as demissões e suspensões.

O governo de Macri na Cidade de Buenos Aires, durante esses anos, deixou a marca do esvaziamento dos hospitais para fazer negócios com a saúde, como a repressão aos trabalhadores e pacientes do Hospital Borda que se organizaram em defesa do hospital; tentativas de privatizar todo espaço público que pôde; por permitir impunemente lucros fabulosos a empresas que administram os serviços públicos sem investir um peso, como o grupo Roggio no Metrô. Macri construiu grandes edifícios e empreendimentos imobiliários enquanto reprimia e desalojava do Parque Indo-americano (em conjunto com o governo nacional) famílias pobres que não tinham um teto para que seus filhos dormissem.

Só isso já mostra qual vai ser a política de Macri se for eleito presidente.

Por isso, nós, do PSTU na FIT, afirmamos que os trabalhadores não podem derrotar o ajuste do governo dando o poder a outro candidato que aplicará o mesmo plano.

Para enfrentar o ajuste: VOTE EM BRANCO

Votar em um candidato para que o outro não ganhe significa abdicar de qualquer luta por nossas condições de vida. Cada voto dado a Scioli ou a Macri estará fortalecendo uma alternativa que, depois do dia 22 de novembro, vai continuar pagando a dívida aos agiotas, entregando nossos recursos naturais e impondo ajustes aos trabalhadores.

Independentemente de ganhar Macri ou Scioli, nós trabalhadores temos uma só tarefa pela frente, que é nos organizar para que não sejamos nós a pagar pela crise.

Para isso, não podemos confiar mais do que em nossas próprias forças, temos que nos organizar nos locais de trabalho e nos mobilizar para derrotar o ajuste que todos os candidatos se comprometeram com os ianques a aplicar.

É por isso que, em vez de eleger o mal menor para que nos governe, no dia 22 de novembro devemos eleger o voto em branco para que desde já nós, os trabalhadores, “delimitemos o campo” e possamos colocar na ordem do dia a luta contra o ajuste.

Tradução: Rosângela Botelho