A decisão do presidente Biden de fornecer rockets de médio alcance à Ucrânia baralha o rumo da guerra e incomoda aliados dentro e fora dos EUA.

Por: Cristina Portella – Em Luta / Portugal

Ao contrário do que supunham Vladimir Putin – e inclusive boa parte dos seus adversários -, a invasão da Ucrânia não foi um passeio. A blitzkrieg em direção a Kiev resultou num completo fracasso, devido à forte resposta militar ucraniana e à desorientação das tropas russas. O povo ucraniano pegou em armas para defender o seu país e somou-se à resistência, obtendo vitórias importantes, como na capital e em Kharkiv, a segunda maior cidade do país. Isso tudo apesar de as suas forças armadas possuírem armas menos eficazes e modernas, e em muito menor quantidade, que o exército russo. Só o fato de não poderem contar com meios aéreos ou, até agora, modernos sistemas de lançamento múltiplo de rockets, transforma a resistência ucraniana numa façanha heroica.

A ofensiva do Donbass

A derrota em Kiev e a inesperada firmeza da resistência ucraniana obrigaram Putin a alterar os seus planos. Recuou do propósito original de conquistar o país e derrubar o seu governo, concentrou as suas forças na região do Donbass e passou a bombardear as suas cidades. Mariupol foi o símbolo da barbárie russa, com os seus habitantes resistindo durante mais de 80 dias ao sistemático ataque de mísseis e rockets em abrigos ou caves e, por último, na fábrica de Azovstal.
No fim de maio, com o avanço russo no leste, Severodonetsk toma o lugar de Mariupol como cidade mártir, a tentar impedir que os invasores conquistem todo o Donbass.

Restaurar as fronteiras

Aos quase quatro meses de guerra, a situação é assustadora: 100 milhões de ucranianos foram forçados a fugir das suas casas; desses, 6,5 milhões estão refugiados noutros países; morrem até 100 soldados ucranianos por dia no Leste; e a Ucrânia está impedida de utilizar os seus portos, por onde escoava entre 50% a 70% das suas exportações de cereais e outros produtos, devido ao bloqueio naval russo.
Mesmo assim, de acordo com pesquisa realizada em Kiev, 82% dos ucranianos não concordam em ceder territórios em troca de um acordo de paz. O governo de Volodymyr Zelensky diz o mesmo e tem apelado insistentemente para que os seus aliados ocidentais enviem armas mais modernas e de maior alcance para derrotar o invasor e restaurar a integridade territorial do país.

A paz do imperialismo

É ainda cedo para se retirarem todas as conclusões sobre a iniciativa de Biden, mas há duas pelo menos que são claras: fortalece a Ucrânia, tanto no terreno bélico como numa eventual mesa de negociações com a Rússia.
Na Europa, pressionada pela dependência de gás e petróleo russos, Emmanuel Macron, Olaf Scholz e Mario Draghi, sem falar em Viktor Orbán, posicionam-se por um acordo de paz em que a Ucrânia ceda territórios à Rússia, nomeadamente no Donbass. Até o influente New York Times é categórico em editorial de finais de maio: o sonho de vitória contra a Rússia seria “um objetivo irrealista”.

É possível vencer a guerra?

Sim, é possível. E os ucranianos demonstraram isso nos primeiros meses do conflito. Mesmo com o relativo sucesso de Putin no Donbass, em maio, é inegável que o exército russo está sendo duramente castigado. Há mais baixas desde 24 de fevereiro do que nos dez anos de ocupação soviética no Afeganistão. Aliado às perdas humanas, o nível de destruição do equipamento militar russo até agora impediria, segundo algumas avaliações, que as forças russas tenham condições de executar uma nova ação ofensiva naquela região nos próximos tempos.
Terminar a guerra é, certamente, o desejo de todos os ucranianos e são eles que devem ter a última palavra. Apoiá-los na sua resistência ao exército russo é uma obrigação de todos os que defendem a autodeterminação dos povos e não a paz convenientemente imposta pelo invasor ou sugerida pelos países imperialistas, ansiosos por retomar a “normalidade” capitalista e retirar dividendos do conflito.