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Nas comemorações do bicentenário do nascimento de Karl Marx, muitos falaram sobre a necessidade de retomá-lo. Até o jornal inglês The Economist, da burguesia financeira, publicou uma matéria com o irônico título “Governantes de todo o mundo, leiam Marx”. O artigo dizia que “seu diagnóstico sobre as falhas do capitalismo” se mostra hoje de enorme relevância. Obviamente, antes de destacar as ideias de Marx, o jornal dedica um largo espaço para criticá-lo com falsificações históricas grosseiras.

Por: Gustavo Lopes Machado

Se nem o The Economist consegue negar totalmente a importância das elaborações de Marx, eles, assim como a maioria da esquerda contemporânea, fazem questão de negar, falsificar ou esconder duas coisas do revolucionário alemão: o programa que Marx construiu para superar o capitalismo e as organizações políticas. Nesse sentido, o The Economist não se diferencia muito do ex-prefeito de São Paulo, o petista Fernando Haddad. Segundo ele, “tem marxista que defende a socialdemocracia no PSDB, há marxista no PT, no PSOL”. Para Haddad, é como se o pensamento de Marx fosse compatível com qualquer forma organizativa, qualquer partido e qualquer programa. Cada um arranca o pedaço de sua obra que lhe interessa e constrói o seu marxismo Frankenstein.

Essas posições contribuíram para a visão de que, no pensamento de Marx, o tema da organização e do partido era secundário. Várias lendas cercam essa interpretação. A primeira delas é a de que Marx entendia por partido os interesses históricos da classe trabalhadora e não uma organização específica. Outra lenda, mais elaborada, a concepção de partido de Marx remetia a uma organização que englobasse o conjunto da classe operária com todos os programas e matizes que pudessem ser encontrados em seu seio.

Várias passagens dos seus livros são arrancadas de seu contexto original para sustentar essas lendas. Por exemplo, no Manifesto Comunista, podemos ler: “os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Não têm interesses diferentes daqueles do proletariado em geral. Não formulam quaisquer princípios particulares a fim de modelar o movimento proletário”.

Numa entrevista para o jornal norte-americano Chicago Tribune, Marx diz: “[as] revoluções serão feitas pela maioria. As revoluções não serão mais feitas por um partido, mas por toda a nação”. Também é muito difundida, no mesmo sentido, uma troca de cartas entre Marx e seu amigo e poeta Ferdinand Freiligrath, quando este confundira o termo, e Marx respondera que, por “partido, eu entendia o grande sentido histórico que a palavra contém”.

Atuação partidária

Se é verdade que Marx empregou, em alguns casos, o termo partido no sentido de tomar partido de uma classe social numa perspectiva histórica, dizer que ele não diferenciava de maneira clara o significado de partido enquanto uma organização é considerá-lo como louco. Isso porque Marx ingressou e fundou organizações atrás de organizações no curso de toda sua vida.

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Na Bélgica, fundou o Comitê de Correspondência Comunista de Bruxelas. Pouco depois, ingressou na Liga dos Comunistas, chegando a integrar, em dois momentos distintos, seu Comitê Central. Nas revoluções de 1848-49, quando a Liga se tornara inativa em função da dispersão de seus membros, Marx ingressou e reorganizou a Associação dos Trabalhadores de Colônia, assumindo sua direção ao lado do tipógrafo Karl Schapper.

Fundou a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), a I Internacional. O envolvimento de Marx com a AIT foi tamanho que sua casa em Londres chegou a funcionar como uma espécie de sede informal da organização. Por fim, no período final de sua vida, acompanhou de perto a formação e o desenvolvimento do Partido Social Democrata da Alemanha.

O fato de que seus escritos, no curso de todas essas experiências, tenham sido deixados de lado contribui para a marginalização da atuação partidária de Marx. O abandono desses escritos facilitou a apropriação e a distorção de seu pensamento por todo tipo de corrente política. Como disse Haddad, do PSDB ao PSOL.

Para se ter uma ideia, apenas entre 1853 e 1860, Marx publicara três livros diretamente ligados à sua atividade organizativa. Em Revelações sobre o processo dos comunistas de Colônia, ele defende seus companheiros da Liga dos Comunistas, presos arbitrariamente em seu país de origem. Publicou, ainda, O Cavaleiro da nobre consciência, defendendo suas posições contra a fração Willich-Schapper que se conformara no interior da mesma Liga. Sem falar no denso volume Senhor Vogt, uma resposta a Karl Vogt, que publicara artigos na imprensa europeia justamente com o objetivo de caluniar a atividade organizativa de Marx. Mais tarde, soube-se que Vogt era financiado pelo imperador francês Luis Bonaparte (1808-1873). Como se vê, se muitos consideram pouco relevante a atuação organizativa de Marx, o imperador da França naquela época não pensava o mesmo.

Marx, o militante

Todas essas obras, bem como estatutos, resoluções escritas ou aprovadas por Marx em todas as organizações, estão infelizmente esquecidas. Uma breve leitura desse material, porém, desmonta sem grande esforço o conjunto dos mitos acima levantados. Por exemplo, em O Cavaleiro da nobre consciência, Marx escreve que seu antagonista na Liga, August Willich, “transforma a posição do partido específico e secreto no interior de uma sociedade alemã (…) na posição do partido no interior do proletariado”. Como podemos perceber, Willich distorce as palavras de Marx justamente por confundir suas posições sobre um partido e um momento específico com a defesa do partido entendido no sentido dos interesses gerais do proletariado.

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A hipótese do partido único do proletariado também não sobrevive a uma só página de todo esse material acima citado. Tanto é assim que, em todas as organizações que ingressou ou fundou, Marx o fez apenas com uma demarcação programática nítida em meio a batalhas quase intermináveis. O ingresso de Marx na Liga dos Comunistas, por exemplo (anteriormente chamada Liga dos Justos), ocorreu após uma batalha feroz com seu antigo líder Weitling. Esse dizia: dê-me um exército de 40 mil ex-presidiários, e eu implanto pela força o comunismo.

Como se nota, o programa defendido por Weitling é indiferente às necessidades objetivas do proletariado. Trata-se da construção de uma sociedade comunista pré-fabricada por meios exclusivamente militares. É esse tipo de concepção que Marx combate no Manifesto Comunista quando diz que os “comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários” ou que “revoluções não serão mais feitas por um partido”. Disso, todavia, não se segue que um partido seja desnecessário para ganhar e disputar o proletariado no sentido indicado por Marx.

Somente após uma longa batalha contra as concepções de Weitling, que se retirou da Liga, Marx ingressou nela. Em suas próprias palavras no livro Senhor Vogt: “o Comitê Central preparava a realização de um Congresso da Liga em Londres, onde as opiniões críticas sustentadas por nós [Engels e Marx] viriam a ser proclamadas doutrina da Liga em manifesto público [Manifesto Comunista]”. Somente então Marx entrou na organização.

Longe de um partido único da classe operária, os “Estatutos da Liga”, redigidos em dezembro de 1847, começavam por declarar o programa: “A finalidade da Liga é a derrota da burguesia, a instauração do regime do proletariado, a abolição da velha sociedade burguesa baseada nos antagonismos de classes”. Como condição para integrar a organização, o estatuto dizia: “vida e atuação em consonância com o fim proposto”, “submeter todas as decisões à Liga”. Esses estatutos foram reformulados em fins de 1850 com contribuição direta de Marx. Nas cláusulas que definiam quem podia ser membro da organização, podemos ler:

  • Compreender as condições, o curso do desenvolvimento e o objetivo final do movimento proletário;
  • Ficar distante de todas as organizações e iniciativas particulares que se opõem ou obstruem o progresso da Liga em direção ao seu objetivo;
  • Mostrar habilidade e zelo na propaganda, devoção inabalável às convicções e energia revolucionária;
  • Manter o sigilo mais estrito em todas as questões relativas à Liga.
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Muitos outros exemplos poderiam ser mencionados, tanto na AIT quanto na socialdemocracia alemã.

Como se vê, Marx dedicou boa parte de sua vida a atividades organizativas e militantes. Batalhou por um partido independente da classe operária com um programa delimitado por bases científicas. Opôs-se tanto ao núcleo clandestino e puramente conspirativo quanto a uma organização propensa a administrar o capitalismo. O esquecimento desses momentos tão essenciais da vida, da atividade e da elaboração de Marx não é coincidência. Está a serviço de um Marx esvaziado de seu conteúdo essencial. Um Marx distante da classe operária e da revolução socialista. Um Marx artificialmente construído após sua morte. Certamente, é esse último Marx, recortado e desfigurado, o “Marx Frankenstein” que é reivindicado pelo The Economist, por Haddad e por muitos outros no ano em que se completa 200 anos de seu nascimento.

ENTENDA

Frankenstein é um romance de terror, de autoria de Mary Shelley. O livro conta a história de Victor Frankenstein, um cientista que constrói um monstro em seu laboratório.

Comitê de Correspondência Comunista de Bruxelas foi criado em 1846, e sua função era divulgar as novas ideias sobre o comunismo.

Liga dos Comunistas foi a primeira organização internacional do proletariado. Foi fundada em 1847, em Londres, por Marx e Engels. Ela substituiu a Liga dos Justos, associação secreta alemã de operários e artesãos, que surgiu em 1836. O lema da Liga dos Comunistas era: “Proletários de todos os países, uni-vos!”, e seu programa era o Manifesto do Partido Comunista (Manifesto Comunista).

August Willich (1810-1878) foi membro da Liga dos Comunistas. Participante da insurreição e foi um dos dirigentes da fração aventureira saída da Liga dos Comunistas em 1850.