Este é o primeiro de três artigos que vamos publicar para abordar a discussão sobre panafricanismo e stalinismo. O objetivo é combater o discurso dos novos defensores do stalinismo de que marxismo e stalinismo seriam a mesma coisa e que teriam as mesmas posições políticas e bases teóricas, particularmente sobre a questão negra e a luta pela independência dos países africanos. Também pretendemos combater a ideia de que stalinismo e panafricanismo seriam, em essência, baseados nos mesmos preceitos políticos e teóricos e que, ao longo da história, caminharam juntos.

Por: Américo Gomes

O que ocorreu foi o contrário: o que passou a ser chamado como “pan-africanismo moderno” – com seus equívocos e debilidades – foi uma reação ao stalinismo e sua política de “coexistência pacífica” com os países imperialistas, considerados progressistas. Particularmente o V Congresso Pan Africano e suas deliberações caminharam no sentido oposto do que defendiam os partidos comunistas baseados nas deliberações da III Internacional (Comintern), depois da morte de Lenin, na época em que passou a ser dirigida por Stalin e Dimitrov.

Caminhos opostos

Atualmente, stalinistas e neo stalinistas, buscando fugir do isolamento político, continuam a desenvolver falsificações históricas, teóricas e políticas, para ver se estabelecem um diálogo com novos setores da vanguarda que estão na primeira linha no combate aos governos capitalistas em todo mundo, e para encobrir as traições desta corrente dentro do movimento da classe trabalhadora ao longo da história.

Com relação à questão negra e a luta contra o colonialismo na África tentam colocar um sinal de igual entre stalinismo e panafricanismo. Vemos isso nos esforços feitos por Jones Manoel que em seu Facebook afirma: “A história do pan-africanismo se confunde com a história do marxismo e do movimento comunista”. No livro que organizou com antologias sobre a Revolução Africana[1] Manoel cria um amálgama entre pan-africanismo, marxismo e a história e política do movimento comunista da III Internacional da era stalinista. Por ser militante do PCB tenta justificar as posições assumidas pelos Partidos Comunistas ao longo da história.

Demonstraremos que existem coincidências, mas também diferenças importantes entre pan-africanismo e marxismo, principalmente no que diz respeito a seu caráter de classe. Diferenças essas que nunca foram omitidas pelos verdadeiros pan-africanistas e que consideramos que levaram aos maiores erros dos adeptos deste movimento.

Mas, também demonstraremos que a política de Stalin e da III Internacional a partir do V Congresso foi de priorizar a “coexistência pacífica” e as alianças com as nações imperialistas consideradas “progressistas” em detrimento da luta emancipadora pela independência dos povos coloniais, em uma verdadeira traição a estes lutadores. Uma política implementada pelo conjunto dos Partidos Comunistas, em particular pelos partidos que estavam localizados nos países imperialistas.

Lenin e a «questão negra» e a luta colonial

Lenin foi o principal impulsionador de que os revolucionários deveriam apoiar e participar dos movimentos de autodeterminação nas colônias, mesmo quando estes movimentos fossem liderados pelas burguesias nacionais. Mas, diferentemente do que fizera posteriormente Stálin, Lenin defendia a necessidade de diferenciação e enfrentamento político com estas mesmas burguesias nacionais, quando realizavam esta “unidade de ação”.

A base de partida e fundamento do programa construído por Lenin para a IIIa Internacional era uma continuidade direta do que havia elaborado Marx e Engels sobre o tema, em particular o reconhecimento da “divisão das nações em opressoras e oprimidas como um fato essencial, fundamental e inevitável sob o imperialismo[2]. A partir daí entende-se que a luta pelo direito à autodeterminação das nações oprimidas, o seu direito a independência, é fundamental e essencialmente parte da luta por uma sociedade socialista mundial, isto é, a luta dos povos colonizados por sua independência é um componente da revolução socialista mundial. E como lutadores internacionalistas era necessário colocar por cima de tudo os interesses de todas as nações à liberdade e à igualdade de direitos.

Mas, ao mesmo tempo, Lenin estabelecia que a obrigação dos revolucionários era dar um caráter e um conteúdo classista para esta reivindicação – como para todas as outras reivindicações fundamentais da democracia política – e associá-la à luta revolucionária direta das massas pela derrocada dos governos burgueses. Para o revolucionário russo, a luta pelo direito à autodeterminação é parte essencial da construção da unidade da classe trabalhadora e a delimitação de classe fundamental, inclusive porque a burguesia das nações oprimidas sempre transforma as consignas de liberação nacional em enganação para os operários utilizando esta luta para os acordos com os governos imperialistas.[3]

Isso levou a que o IIo Congresso da IIIa Internacional incluísse nas 21 Condições de Admissão:

“(…) os Partidos de países cuja burguesia possui colônias ou oprime nações devem ter uma linha de conduta particularmente aberta e nítida. Qualquer Partido que pertença à III Internacional tem como dever revelar impiedosamente as proezas dos «seus» imperialistas nas colônias, de apoiar, não por palavras, mas efetivamente, qualquer movimento de emancipação nas colônias, de exigir a expulsão das colônias dos imperialistas da metrópole, de alimentar no coração dos trabalhadores do país sentimentos verdadeiramente fraternos para com a população trabalhadora das colônias e das nacionalidades oprimidas e cultivar entre os grupos trabalhadores da metrópole uma agitação contínua contra qualquer opressão dos povos coloniais”.

Stálin contra o marxismo na questão nacional

Apesar de muitas vezes reivindicar materiais de Lenin e do partido, Stalin desenvolveu uma política inversa logo após se consolidar no poder, e mesmo quando Lenin se encontrava no leito de morte. A primeira demonstração concreta disto se deu, quando Stálin e Dzerzhinsky tratam sobre a questão da Geórgia, na qual sua política é a russificação desta nação se utilizando de métodos de intimidação e chegando, inclusive, à agressão física. Metodologia que depois foi aplicada em profundidade na Crimeia onde houve uma limpeza ética do povo tártaro que habitava a região.

Lenin rechaçou categoricamente esses métodos e essa política de Stalin “o georgiano” em seus últimos escritos, as notas ditadas às suas secretárias ao final de 1922, que depois foram publicados com o título “A respeito do problema das nacionalidades ou sobre a ‘autonomização“.

A atitude verdadeiramente proletária exige de nossa parte extrema cautela, delicadeza e transigência. O georgiano que despreza este aspecto do problema, que lança desdenhosamente acusações de “social-nacionalismo” (quando ele mesmo não é apenas um genuíno e verdadeiro ‘social-nacionalista’, mas um rude capanga russo), esse georgiano fere, em essência, os interesses da solidariedade proletária de classe“.

Lenin propôs castigo exemplar a todos os burocratas stalinistas responsáveis por defender a implantação das normas mais severas em defesa do uso do idioma russo e contra o uso do idioma nacional das repúblicas.

No entanto com a morte de Lenin[4] as concepções stalinistas se efetivaram com o controle de Stalin sobre o aparato do Estado russo e da Comintern e tiveram imediatamente consequências desastrosas e sangrentas para a classe operária chinesa, em 1927, quando foi aplicada a política frente populista, isto é, de aliança com as burguesias nacionalistas.

A política de formação de “Frentes Populares”, elaborada por Stálin, impediu que a classe operária tivesse uma posição independente da burguesia sob a alegação de uma suposta impossibilidade de tomar o poder nos países coloniais, pois estes países “não estavam maduros”. Com isso, de fato, o objetivo era a subordinação dos interesses e a luta dos setores mais explorados da sociedade e da classe trabalhadora às burguesias nacionais que queriam se apresentar como “anti-imperialistas”. Um dos aspectos se concretizou na teoria da “revolução por etapas”, acompanhante inseparável da “coexistência pacífica” com o imperialismo e da construção do “socialismo em um só país”. Teorias que afastaram a IIIa Internacional das revoluções coloniais no continente africano e em todo mundo.

Trotsky e a Revolução Permanente

Trotsky tinha uma posição completamente contrária à de Stálin. Para o comandante do Exército Vermelho, as condições históricas para o Socialismo “não apenas amadureceram, como já começavam a apodrecer” em todo mundo, incluindo aí os países coloniais.

Os contornos finais da sua teoria da Revolução Permanente foram baseados na gravíssima derrota da revolução chinesa de 1927, as partir dela ele generalizou suas conclusões teóricas para os países coloniais e semicoloniais na perspectiva da teoria mundial da revolução. Assim, Trotsky deu continuidade à estratégia leninista-marxista sobre as nacionalidades, apresentadas nas teses do II Congresso da IIIa Internacional.

Trotsky sintetiza as conclusões em suas teses finais, por exemplo, na:

2ª. em relação aos países de desenvolvimento burguês tardio, particularmente os países coloniais e semicoloniais, a teoria da revolução permanente significa que a resolução completa e genuína de suas tarefas democráticas e de emancipação nacional só é concebível através da ditadura do proletariado como o líder da nação oprimida, principalmente de suas massas camponesas.[5]; e “11ª. (…) O capitalismo, ao criar um mercado mundial, uma divisão mundial do trabalho e as forças produtivas mundiais, se encarrega por si só de preparar a economia mundial em seu conjunto para a transformação socialista. Este processo de transformação se realizará com diferente ritmo segundo os diferentes países. Em determinadas condições, os países atrasados podem chegar à ditadura do proletariado antes que os avançados, mas mais tarde ao socialismo…”[6].

Não importam quais forem as primeiras fases de um processo revolucionário em diferentes países, isto é, como e com que setores se iniciará a revolução. Para a vitória deste processo revolucionário é imperativa a realização da aliança revolucionária entre o proletariado e os setores mais explorados da classe e a formação de uma direção política baseada na vanguarda proletária, organizada em um partido revolucionário. Com isso a tomada do poder pela classe trabalhadora estará destinada, em primeiro lugar, a realizar as tarefas da revolução democrática.[7]

Estas posições foram resumidas no Programa de Transição, no capítulo “Os países atrasados e o programa de reivindicações transitórias”:

Os países coloniais e semicoloniais são por sua própria natureza países atrasados. Mas estes países atrasados vivem nas condições da dominação mundial do imperialismo. É por isso que seu desenvolvimento tem um caráter combinado: reúnem ao mesmo tempo as formas econômicas mais primitivas e a última palavra da técnica e da civilização capitalista. Isto é o que determina a política do proletariado dos países atrasados: está obrigado a combinar a luta pelas tarefas mais elementares da independência nacional e da democracia burguesa com a luta socialista contra o imperialismo mundial”. (…) “O peso relativo de cada uma das reivindicações democráticas e transitórias na luta do proletariado, sua ligação recíproca e sua ordem de sucessão estão determinadas pelas particularidades e condições próprias de cada país atrasado, em uma medida considerável, por seu grau de atraso. No entanto, a tendência geral do desenvolvimento revolucionário em todos os países atrasados pode ser determinada pela fórmula da revolução permanente no sentido que definitivamente lhe deram as três revoluções da Rússia (1905, fevereiro de 1917 e outubro de 1917)”.

A coexistência pacífica de Stálin e Dimitrov

Jones Manoel busca se basear nos estudos de Hakin Adi autor de “Pan African History” para tentar passar a ideia de que: 1) a III Internacional, quando dirigida por Stalin e Greorgi Dimitrov, manteve uma linha de defesa da independência colonial ao invés de priorizar a aliança com os governos dos países imperialistas que julgavam progressistas contra o nazismo; 2) que somente existiam algumas pequenas divergências com os partidos comunistas ingleses e franceses sobre a questão das lutas pela independência das colônias – não por acaso nos principais países imperialistas.

Por isso não nos surpreende que, como já citamos em artigos anteriores[8], em seu livro de antologias sobre as revoluções africanas não inclua George Padmore e nem mesmo CLR James, conhecidos marxistas que deram importantes contribuições para a revolução negra na África.[9]

O próprio Adi é obrigado a admitir que a dissolução da International Trade Union Committee of Negro Workers (Comitê Sindical Internacional de Trabalhadores Negros ITUCNW) tinha a ver com uma mudança em toda atuação da III Internacional a partir das deliberações do VII Congresso, de 1935

Tanto assim que a Internacional Sindical foi dissolvida em 1937, e o Comintern se dissolveu, por ordem de Stálin, em 1943, durante a Segunda Guerra mundial. Uma política que vinha sendo implementada desde a entrada da URSS na Liga das Nações[10], em 1934, e com o Pacto Franco-Soviético, em 1935. “O surgimento do fascismo e o perigo da guerra tinham igualmente levado o Comintern a reavaliar a sua aproximação à II Internacional e a procurar formar uma frente única de todas as organizações operárias assim como uma frente anti-imperialista nas colónias. Isso levou também a uma reavaliação da necessidade da ISR, que acabará por ser dissolvida[11]

Mas foi a invasão da Etiópia pela Itália fascista em 1935, o grande delimitador de campo e diferenciador do movimento negro e do pan-africanismo com o stalinismo.

O abandono da Etiópia e a ruptura de Padmore

George Padmore foi, por muitos, chamado com um dos “pais do panafricanismo” junto com Marcus Garvey e WEB Du Bois, ou pelo menos pai do “panafricanismo moderno”. Antes disso militou no Partido Comunista dos Estados Unidos, em 1927, quando o partido defendia a igualdade racial. Sua frente de atuação era o movimento negro americano, em particular o Congresso Trabalhista Negro Americano.

Em março de 1929 foi delegado (mas sem direito a voto) na 6ª Convenção Nacional do CPUSA, e enviado à URSS, destacado para militar no (Comitê Sindical Internacional de Trabalhadores Negros – ITUCNW) e membro do Profintern (a Red International of Labor Sindicatos) no Bureau Negro. No ITUCNW, ele foi responsável por editar o jornal Negro Worker, produzia panfletos e artigos para o jornal de língua inglesa de Moscou, além de ser “mensageiro de fundos” de Moscou para vários partidos comunistas estrangeiros. Em julho de 1930 foi enviado para a Alemanha, onde organizou a conferência internacional da ITUCNW em Hamburgo, a primeira conferência de trabalhadores negros.

Foi quando escreveu “A vida e as lutas dos trabalhadores negros”, publicado em 1931, em Londres, pela editora da Internacional Sindical Vermelha. Neste livro apresenta de maneira dialética a relação entre raça e classe, e, entre exploração e opressão, tanto nos Estados Unidos como do ponto de vista internacional. Critica duramente os sindicalistas reformistas brancos da Federação Americana dos Trabalhadores (AFL), da Internacional de Amsterdam e os reformistas negros, como Marcus Garvey (a quem chama de “demagogo e desonesto” e afirma que “a luta contra o garveyismo é a maior tarefa dos trabalhadores negros”). Com um relato detalhado e impressionante da situação dos negros e suas lutas na África, Padmore aponta as tarefas do proletariado nos países avançados, no sentido de unir forças com seus irmãos brancos contra o inimigo comum: o capitalismo mundial. E termina repudiando a formação de uma República Negra na África que não tenha um caráter de classe e que sirva para “exploração dos trabalhadores por sua própria raça[12].

Frente ao crescimento do nazismo, a política de Stalin foi priorizar as alianças diplomáticas com as potências coloniais, como a França e a Inglaterra. George Orwell, autor do afamado “A revolução dos bichos”, em seu artigo “Not Counting Niggers[13], denunciou que – por detrás do discurso “antifascista” – a política dos stalinistas-comunistas na Inglaterra era defender os lucros britânicos, apresentando Winston Churchill como um democrata, e se posicionando contra a luta pela independência da Índia (alegando que este país ainda não tinha capacidade para um autogoverno), de maneira semelhante à política para a África: “A cláusula tácita é sempre ‘sem contar os negros’. Pois como podemos fazer uma ‘posição firme’ contra Hitler se estamos simultaneamente nos enfraquecendo em casa? Em outras palavras, como podemos ‘lutar contra o fascismo’, exceto reforçando uma injustiça muito mais ampla?”[14]

Padmore estava contra virar as costas aos africanos colonizados em nome do antifascismo, com o discurso político de que os inimigos dos explorados das colônias não eram os imperialistas, mas apenas o movimento fascista.  Em suas palavras, “os negros foram jogados aos lobos[15].

Como escreveu CLR James, autor do livro clássico sobre a Revolução Haitiana, Os jacobinos Negros,

“[Padmore] uma vez na América, tornou-se um comunista ativo. Ele foi transferido para Moscou para assumir a liderança do escritório de propaganda e organização do povo negro e lá ele se tornou o mais conhecido e o mais confiável dos agitadores pela independência africana. Em 1935, o Kremlin, em busca de alianças, separou a Grã-Bretanha e a França, como “imperialismos democráticos”, da Alemanha e do Japão, ou seja, “os imperialismos fascistas”, alvo principal da propaganda russa e comunista. Essa distinção reduzia a atividade de emancipação africana a uma farsa: a Alemanha e o Japão, de fato, não tinham colônias na África. Padmore imediatamente rompeu todas as relações com o Kremlin[16].

Por isso Padmore foi vilipendiado e perseguido pelos comunistas/stalinistas em todo o mundo, assim como pelos fascistas, vivendo sob vigilância do serviço secreto britânico. Na Inglaterra, em 1935, trabalhou como jornalista para jornais negros. Retornando a trabalhar com C.L.R. James; Wallace-Johson, sindicalista de Serra Leoa; Amy Ashwood Garvey e Jomo Kenyatta na International African Opinion. Formaram a International African Friends of Abyssinia (Etiópia) neste ano, para a campanha contra a invasão italiana fascista, um dos únicos países africanos independentes na época, e visto como o representante do ideal de liberdade e resistência ao imperialismo. Para se ter uma ideia dos Estados Unidos, à época, dois pilotos de avião, negros, foram combater contra os fascistas italianos, um deles Hubert Julian passou a ser conhecido como a “Águia Negra do Harlem”, o outro John C Robinson “o Condor Negro”, responsáveis pela fundação da Força Aérea etíope.

No entanto, a IIIa Internacional se abstinha até de comentar o assunto, Stalin apostava na cooperação entre URSS, Inglaterra e França através de uma “Frente Única” para conter o expansionismo nazista[17]. Por isso desenvolvia uma postura de neutralidade diante da explícita política agressiva da Alemanha hitlerista. Para se cobrirem, denunciavam que na Etiópia havia uma “monarquia feudal” e que o rei Haile Selassie tinha ligações com o Império japonês.

A Liga das Nações votou sanções econômicas contra a Italia, e condenou a guerra ilegal de agressão, os stalinistas da URSS apoiaram as sançoes. Mas extra-oficialmente, os governos britânico e francês não tomaram qualquer ação seria contra a Italia, os Estados Unidos continuou exportando, inclusive materiais de guerra, e os stalinistas continuaram vendendo petróleo para a Itália fascista, que o usava para abastecer seus aviões e tanques na Etiópia.

Tentando negar estes fatos, Jones Manoel[18] se apoia em Domenico Losurdo[19] para dizer que Stalin não teve responsabilidade nos avanços nazistas como a invasão da Tchecoslováquia, e tampouco a derrota na Etiópia, pois, as responsabilidades únicas e exclusivas eram das “potências ocidentais”[20].

Até mesmo a Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP) nos Estados Unidos questionou o silêncio de Moscou[21]. Padmore fez um artigo violento contra ITUCNW, “Ethiopi and World Politics”, na publicação oficial da NAACP[22]: The Crisis. A seguir denunciou a hipocrisia soviética-stalinista que vendia trigo, petróleo e carvão para a Itália, utilizados na guerra contra a Etiópia[23]. Neste conflito, Mussolini utilizou armas químicas contra os africanos e estima-se que foram mortos 500 mil etíopes!

Em 1936, a Liga das Nações – com os votos contrários da URSS e dos Estados Unidos – mas com o apoio dos supostos governos progressistas da Inglaterra e da França – reconheceu o controle da Itália sobre a Etiópia, dominação que se manteve até 1941.

Padmore e CRL James criticaram duramente a política de Stalin por abandonar a Abissínia (Etiópia). Padmore passou a defender o que seria depois conhecido como “Pan africanismo de luta de classes[24]. Em seu livro World Revolution, James, denunciou Stalin e a III Internacional, reivindicando “fundamentalmente ideias do marxismo” demonstrando que a política para a Etiópia tinha tudo a ver com a política de “coexistência pacífica” e de “socialismo em um só pais”, que se refletia nas lutas anticoloniais, um exemplo do abandono da política revolucionaria leninista de defesa do direito à autodeterminação. No penúltimo capítulo, “A Revolução Abandonada”, afirma que era necessário a mobilização dos trabalhadores, associando a luta antifascista com a anticolonial.

Dando o exemplo que os trabalhadores soviéticos poderiam ter realizado o embargo de petróleo para a Itália em base ao sentimento generalizado dos trabalhadores em todo mundo de repúdio a Mussolini. Como as ações realizadas por marinheiros em Trinidad Tobago e Grécia: uma greve contra o envio de materiais de guerra para as tropas italianas; ou de marinheiros do Egito, África do Sul e França que se recusavam a carregar os navios italianos; boicotes semelhantes organizados em portos como San Pedro (EUA), Cardiff (Reino Unido), Marselha (França), Bone (Argélia) e Luderitz (Namibia). Se a III Internacional apoiasse a luta do povo etíope colocaria num patamar mais avançado a construção dos partidos comunistas em todo continente africano, com vistas à revolução mundial.

Padmore passou a propor formar uma “Internacional Negra” que se opusesse ao Imperialismo, ao Fascismo, ao capitalismo “progressista” e ao que chamava de “comunismo soviético”. Relacionou a luta antinazista e a luta anticolonial da seguinte maneira “Para derrotar o nazismo devemos ser livres do colonialismo[25]. Defendia o direito à independência dos povos africanos como um elemento fundamental para derrotar os nazistas, associando as duas lutas.

Em 1941, para ganhar apoio dos trabalhadores na luta antinazista, Theodore Roosevelt e Winston Churchill assinaram a “Carta do Atlântico” que defendia a autodeterminação dos povos e o direito de decidirem o governo que teriam. Mas, confrontado na Europa, Churchill declarou que os termos da “Carta do Atlântico” não se aplicavam às colônias e somente aos povos da Europa que viviam sob o domínio nazista[26].

A partir daí, infelizmente Padmore passou a assumir posições puramente panafricanistas abandonando o critério de classe que havia defendido na década de 1930. Participou da fundação da Pan Afric Federation (PAF) em 1944, em Manchester, e passou a organizar o Vo Congresso Pan Africano, em 1945.

Nos próximos artigos desenvolveremos o que consideramos as bases teóricas e programáticas equivocadas do pan-africanismo, a organização do V Congresso, mas também a atuação dos partidos comunistas stalinistas nas lutas coloniais no pós-guerra, como em Argélia e colônias portuguesas, e sua política de “zigue-zagues” frente a Roosevelt nos Estados Unidos.

Finalizaremos esta série apontando as consequências de ambas as políticas para o continente africano e sua luta emancipatória e explicaremos porque é necessário construirmos uma organização revolucionária no continente para levar a cabo a Revolução Negra na África.

 

Notas:

[1]Revolução Africana, uma antologia do pensamento marxista, Autonomia Literária

[2]Lenin, A revolução socialista e o direito das nações à autodeterminação (Teses). Fev. 1916

[3] Lenin, A revolução socialista e o direito das nações à autodeterminação (Teses). Fev. 1916

[4]Janeiro de 1924.

[5] “O que é a revolução permanente? (Teses fundamentais)”.

[6] “O que é a revolução permanente? (Teses fundamentais)”.

[7] Tese 4

[8] Pan-africanismo e a perspectiva revolucionária, https://www.pstu.org.br/pan-africanismo-e-a-perspectiva-revolucionaria/

[9]  Pan-africanismo e a perspectiva revolucionária. https://www.pstu.org.br/pan-africanismo-e-a-perspectiva-revolucionaria/

[10] Para Lenin uma “Cova de ladrões”

[11] Hakin Adi

[12] A vida e a luta dos trabalhadores negros.

[13] Julho de 1939. First Published: Adelphi.

[14] George Orwell, “Not Counting Niggers,” http://orwell.ru/library/articles/niggers/english/e_ncn (acessado em 21 de junho de 2015).

[15]  Hakim Adi, Pan-africanism and Communism : The Communist International, Africa and the Diaspora, 1919-1939

[16] C. L. R. James, I Giacobini Neri. La prima rivolta contro l’uomo bianco [1963]. https://b-ok.lat/book/17155439/0f13ca

[17]  Isso não nos pode surpreender depois de sabermos que Stalin fez o acordo Molotov-Ribertrop, segundo ele para conter o avanço nazista, em 1939. Na verdade, fez esse acordo como aliados e em cima da divisão da Polônia entre os dois países, com uma total confiança na palavra de Hitler. E por isso, desdenhou o aviso de Leopold Trepper quando este denunciou a data da Operação Barbarosa de Hitler para invadir a URSS, e após a II guerra, mandou Trepper para a cadeia quando retornou à URSS.

[18] Contra o revisionismo histórico: o pacto de não agressão germano soviético e a Segunda Guerra Mundial. Blog Boitempo

[19] Stalin uma história crítica de uma lenda negra, Editora Revan.

[20] Stalin e Hitler: irmãos gêmeos ou inimigos mortais? 100 anos da Revolução Russa, 2017 Acervo Online Le Monde Diplomatique.

[21] Holger Weiss, Against Japanese and Itaian Imperialism: The Anti-War Campaigns of Communist International Trade Union Organizations, 1931-1936.

[22] Fundada em 1910 por WEB DuBois

[23] Soiviet Russia Aids Italy, in: The Crisis 42 (octubre 1935)

[24] Cristian Hogsbjerg, CLR James in Imperial Britain

[25] New Leader, Londres 1940

[26] Debates na Câmara dos Comuns em 1941, Mauricio Parada e outros, História da África Contemporânea, Editora PUC do Rio.