Um argumento mil vezes repetido sobre a impossibilidade do socialismo é que somente no capitalismo teríamos estímulos para as ações e iniciativas individuais. Segundo essa lógica, esta forma de sociedade estimularia a inovação e o “mérito” de cada um, por estar baseada na competição de todos contra todos. Sem tal competição generalizada, os indivíduos se paralisariam, já que não teriam compensação individual pelos sucessos de seus esforços e a livre iniciativa.

Por: Gustavo Machado

Esse raciocínio é curioso, pois se observarmos a sociedade capitalista com profundidade, para além da aparência de um mundo de indivíduos soltos no mundo com suas capacidades individuais, veremos que é a forma menos meritocrática que já existiu na história; conceito que, por si só, já precisa ser problematizado, como veremos abaixo.

Quem elabora as ideias, realiza os projetos, inova e constrói toda riqueza de que dispomos – sejam iphones, aviões, automóveis ou sistemas computadorizados – são indivíduos que atuam como trabalhadores assalariados, cuja remuneração é proporcional à sua qualificação. Esses trabalhadores e trabalhadoras, quaisquer que sejam suas aptidões e talentos, desenvolvidos no decorrer da vida, estarão sempre sujeitos à demissão e aos rumos incertos do mercado de trabalho.

Não existe “mérito” privado ou individual

Além disso, estamos acostumamos a atribuir o “mérito” das inovações a uma dada empresa. Muitos dizem: “Vejam o novo sistema da Google ou o novo avião da EMBRAER!”. Esses produtos, no entanto, não foram projetados e produzidos pela ação da empresa.

Empresas privadas não falam, não pensam e nem se movem. Podemos tocar e ver as instalações de uma montadora de automóveis, mas não podemos tocar nem ver a empresa propriamente dita. Ela poderá ser vendida amanhã, mudar de nome e permanecer com as mesmas instalações e, até mesmo, os mesmos trabalhadores. A empresa é algo formal e abstrato. Seu papel é conceder a propriedade de tudo que lá ocorre a um tipo muito particular de indivíduos: os capitalistas e empresários.

Os capitalistas e empresários não estão soltos no mundo como os trabalhadores assalariados. Eles possuem a propriedade do capital, o que lhes permite enriquecer cada vez mais com o produto das aptidões, talentos e trabalho alheio. Para mover as grandes empresas, que produzem a quase totalidade do que consumimos, são necessários bilhões, normalmente herdados e acumulados por muito tempo.

Nenhum trabalhador terá acesso a um montante desse tamanho pelo seu próprio “mérito”. Mesmo nos raros casos dos “homens de negócio” que miraculosamente ascenderam socialmente, o processo se assemelha mais a uma loteria do que a meritocracia. Todos eles dizem em seus testemunhos: é porque eu estava “no lugar certo e na hora certa”.

Vale ressaltar que a própria noção de capacidade individual não é algo dado por natureza, mas desenvolvido por cada indivíduo à luz das possibilidades que lhe são oferecidas no curso de sua vida. Nesse caso, deve-se lembrar que, mesmo no interior da classe trabalhadora, as possibilidades para o desenvolvimento de cada indivíduo são muito distintas. Por exemplo, o machismo, o racismo, a LGBTIfobia e xenofobia, impõem profundas desigualdades em relação às condições sociais, culturais e materiais de vida.

No socialismo: desenvolvimento das aptidões individuais para o bem coletivo

A sociedade capitalista é aquela que suga a todo momento o mérito, o esforço e a alma dos trabalhadores. Transformam seu sucesso individual em patentes e capital pertencentes a outro indivíduo: o proprietário da empresa. Nem sequer conhecemos os nomes daqueles cujo mérito resultou em toda riqueza e tecnologia dos produtos que vemos ou utilizamos. Talvez, estejam até desempregados.

O socialismo, ao contrário, é a possibilidade de uma sociedade em que os indivíduos sejam valorizados e reconhecidos pelo seu “mérito real”. Ao se colocar fim em uma sociedade baseada na luta de todos contra todos por meio do mercado; a conquista de cada um deixa de ser uma ameaça aos seus concorrentes e se converte em uma conquista de todos. Torna-se do interesse de cada um o livre e máximo desenvolvimento de todos demais.

Em uma sociedade em que todo trabalho é distribuído entre todos os seus membros, de modo consciente, todos e todas terão tempo livre de sobra para se dedicar às atividades mais adequadas às suas qualidades e aptidões individuais: sejam artísticas, culturais, científicas etc. No capitalismo, ao contrário, cada um é obrigado a seguir a última tendência e moda do mercado; tendência essa que se altera a cada ano. Raros são aqueles que podem se dedicar a atividades de seu interesse, condizentes com seu talento e aptidão.

Além disso, ao contrário do que reza o senso comum, o socialismo não é uma forma de sociedade em que todos recebem precisamente a mesma coisa. Existem diferenças individuais de aptidão, de capacidade, de necessidades. Todas essas diferenças poderão e serão levadas em conta no estabelecimento da quota da riqueza social a que cada um tem acesso.

No socialismo, as diferenças individuais não serão negadas, mas potencializadas. É justamente porque cada indivíduo é diferente dos demais, que a divisão social do trabalho é possível de forma consciente e planejada. Isto é possível porque, nesta sociedade, os desenvolvimentos de cada um não estão, de antemão, em conflito com o do outro. Não existe a cisão entre público e privado na atuação social. É evidente que, para tal, deve-se desenvolver políticas diferenciadas (no campo da educação, da qualificação, formação etc.) voltadas para aqueles e aquelas que foram historicamente marginalizados e tratados como desiguais.

Somente assim, poderemos distribuir as diferentes funções e objetivos aos diferentes indivíduos e capacidades. Os critérios de acesso de cada um a quota da riqueza socialmente produzida não serão definidos pela lógica maluca do mercado, que transforma o mérito de um na riqueza do outro. Serão definidos pelos próprios produtores, em base as suas capacidades e as necessidades sociais, individuais e ambientais.

Não é o paraíso na Terra, mas uma sociedade transparente em que as relações sociais entre os indivíduos não são mascaradas e distorcidas pelo dinheiro e pela propriedade do capital. Agora, o livre desenvolvimento individual apenas potencializa o desenvolvimento da sociedade inteira.