Após nove anos de destruição e massacres para impedir a revolução democrática do povo sírio, as potências estrangeiras que ocupam o país e o regime sírio enfrentam dificuldades para governar o país e o futuro é incerto.

Por: Hassan al-Barazili

Ocupação sob recessão mundial

Hoje a Síria é um país ocupado. A recessão mundial trouxe novos desafios para as potências ocupantes. Tendo que enfrentar a crescente insatisfação em casa com os altos gastos com ocupação da Síria, todas as potências estrangeiras são obrigadas a pensar novas políticas.

As forças iranianas e russas estão por trás do controle do regime sobre 60% das terras sírias.

Para o regime iraniano, a Síria representa sua conexão estratégica com o Líbano e o Mar Mediterrâneo através do Iraque. As forças iranianas trabalham para que o regime sírio retome o controle sobre todas as terras sírias (exceto as colinas de Golã) e para o reembolso de cerca de US$ 30 bilhões gastos para manter o impopular regime sírio no poder.

No entanto, o regime iraniano enfrenta uma devastadora crise econômica e sanitária, a impopularidade das milícias apoiadas pelo Irã entre os sírios e o bombardeio regular de bases iranianas na Síria pela força aérea israelense que combinadas forçam a redução da presença das milícias apoiadas pelo Irã e de sua capacidade de sustentar o regime assassino.

Já o regime russo ainda desempenha um papel crítico na manutenção do regime sírio apesar de ter uma agenda internacional mais ampla, que inclui acordos com o Estado sionista, Arábia Saudita, União Europeia e os Estados Unidos. Vladimir Putin está pronto para negociar, como fez no acordo com o regime turco ao longo da grande fronteira norte da Síria; e como fez com os sionistas, deixando as bases iranianas na Síria indefesas frente aos ataques aéreos israelenses. Existem rumores sobre uma eventual negociação com os Estados Unidos para substituir Bashar El-Assad através de algum acordo ou eleições nacionais em 2021.

A principal preocupação do regime turco é estabelecer um cordão sanitário separando o povo curdo que vive em Bakur (áreas de maioria curda sob o Estado turco) de Rojava na Síria. As tropas turcas controlam toda a fronteira norte da Síria, do Mar Mediterrâneo ao Iraque. A presença militar turca na Síria, através de tropas turcas e milícias apoiadas pela Turquia, juntamente com o apoio a 3,6 milhões de refugiados sírios, deve garantir ao regime turco um assento na mesa de negociações que abordará o futuro da Síria.

Além de impedir a revolução síria de uma vitória que pudesse impactar todo o Oriente Médio e se tornar um ponto de partida para o fim do Estado sionista, o principal objetivo da América é ter um regime pró-ocidental que atenda aos interesses econômicos das empresas americanas e impeça a presença de milícias apoiadas pelo Irã ou qualquer outra força que possa ameaçar o Estado sionista e a ordem regional. Os EUA têm tropas perto de campos de petróleo no leste da Síria e promulgaram a Lei Cesar, que visa garantir aos EUA um assento nas discussões sobre o futuro da Síria.

Economia no chão

Nove anos atrás, o regime sírio resumiu suas políticas com o lema “Bashar ou nós queimamos o país”. Com a revolução, Bashar levou as milícias apoiadas pelo Irã e a força aérea russa a literalmente destruir grandes áreas de grandes cidades como Damasco, Hama, Homs e Aleppo, matando pelo menos meio milhão de pessoas.

Fatores internos como corrupção generalizada, má administração e a força de senhores da guerra, combinados com a falência da economia libanesa e a Lei Cesar, estão por trás da situação desesperadora da economia síria.

Atualmente, 90% dos sírios que estão no país vivem abaixo da linha da pobreza (US$ 2 por dia) . O desemprego é generalizado e os salários dos funcionários públicos estão em torno de US$ 20 por mês. A lira síria desvalorizou de SL 50 / USD em 2011 para o SL 2600 / USD agora. O preço de produtos básicos importados como arroz, café e remédios disparou.

Para ter moeda forte, o regime sírio recorreu às exportações de drogas ilegais, ao contrabando e ao mercado negro .

Lei César: Quem será afetado?

A Lei César, que estabelece sanções dos EUA contra a Síria por violações dos direitos humanos, foi promulgada pelo congresso dos EUA em dezembro de 2019, após uma luta de cinco anos pela comunidade sírio-americana. Em 17 de junho de 2020, essas sanções foram estendidas a qualquer pessoa ou empresa que tenha acordos comerciais ou financeiros com o regime sírio, seus líderes ou mesmo grandes empresas sírias.

Apesar do amplo apoio entre os refugiados sírios que desejam o fim do regime autoritário da Síria, a Lei César é controversa quanto à luta pela Síria Livre.

Avaliando as sanções anteriores dos EUA ao Irã (de 1979) e ao Iraque sob Saddam Hussein, notamos que elas não conseguiram por fim a esses regimes. Pelo contrário, apesar de dificuldades, esses regimes se fortaleceram internamente à medida que a pobreza e a repressão foram legitimadas. Além disso, o ônus é colocado nas costas das classes trabalhadoras, que terão menos acesso a alimentos, medicamentos e gasolina .

O segundo problema é que a Lei César visa garantir a presença dos Estados Unidos em qualquer discussão sobre o futuro da Síria. Os Estados Unidos não querem mudar o regime, embora possam trabalhar para substituir Bashar el-Assad. Os EUA querem impor um regime pró-imperialista na Síria que interrompa a revolução e atenda aos interesses das empresas americanas.

Uma vez no poder, um regime pró-imperialista não desmantelará os odiados serviços de inteligência (e de tortura e assassinatos). Pelo contrário, os EUA os utilizarão para fazer o que for necessário para beneficiar as empresas americanas contra as necessidades operárias e populares. Essa é a situação do Egito sob al-Sissi.

Por fim, qualquer apoio à Lei César rompe os laços de solidariedade entre o povo sírio que vive dentro e fora da Síria. Os revolucionários sírios devem se opor à Lei César para impedir mais pobreza e sofrimento para os sírios que vivem dentro do país e para impedir que os EUA tenham uma posição privilegiada no destino sírio.

Muitos refugiados sírios e alguns revolucionários compartilham duas crenças erradas. A primeira é que o país já está destruído e as sanções dos EUA não terão grande impacto nas condições de vida das pessoas. A segunda é que qualquer regime é melhor que o de Bashar.

É verdade que o país está em grande parte destruído, mas ainda há pelo menos 10 milhões de sírios vivendo lá cujas vidas já foram afetadas pela crise econômica, uma vez que os preços do arroz, café e medicamentos aumentaram quase 70% nos últimos meses, e pode piorar.

Também é verdade que não é fácil ter um regime ditatorial pior que o de Bashar. Isso não significa que um regime apoiado pelos EUA seria melhor. Esse é o caso do Iraque. Alguns revolucionários acreditavam que depois que os EUA derrubassem o regime de Sadam Hussein, eles teriam mais liberdade para lutar por uma revolução socialista. Os três massacres na cidade de Fallujah em 2004 e 2016 mostraram o que é a “democracia” americana.

Somente uma nova revolução por soberania, liberdade, pão e justiça social pode acabar com o regime sírio

Apesar da ocupação estrangeira e da péssima situação da economia, o regime sírio não deixará o poder sem uma nova revolução democrática popular.

Os sírios realizaram manifestações em Latakia, Sweida e Deraa. Estes são passos importantes, pois podem se tornar o ponto de partida para uma nova revolução.

Alguns esforços de refugiados sírios no exterior também são críticos. É o caso dos três criminosos do regime que foram presos e estão sendo julgados na Alemanha.

É fundamental reunir todos esses esforços. Portanto, o passo principal é construir um novo Conselho Nacional Sírio (CNS) que una a resistência dentro e fora da Síria para derrubar o regime, mesmo que Bashar el-Assad seja substituído por qualquer outro ditador.

Em vez de implorar por intervenção internacional na Síria, o novo CNS deve defender que todas as potências estrangeiras deixem as terras sírias.

Além disso, o novo CNS deve trabalhar para trazer o povo curdo para a luta contra o regime sírio, garantindo-lhes o direito à autodeterminação.

Outros pontos críticos são:

1) solidariedade com as revoluções libanesa e iraquiana;

2) denunciar a política de repressão de Assad contra os palestinos e lutar pela libertação da Palestina, do rio ao mar.

Finalmente, precisamos falar sobre a necessidade de um partido revolucionário para a revolução síria. A falta de um partido revolucionário tem sido uma das principais fraquezas da revolução e os revolucionários sírios devem trabalhar para superá-la .