O estudante do terceiro ano de enfermagem Dafydd Jones reflete sobre a campanha salarial e condições no NHS (National Health Service – serviço público de saúde da Grã-Bretanha) durante o ano mais difícil para os trabalhadores de saúde em nossa memória.

Por: ISL – Grã-Bretanha

Como a luta dos trabalhadores do NHS avançou em 2020 em relação aos salários, verbas públicas etc.?

2020 é, naturalmente, uma história de duas partes, pré e pós-quarentena. Até o início da quarentena, a situação tinha se tornado muito interessante rapidamente, com o surgimento do NHS Workers Say No! (Trabalhadores do NHS Dizem Não!) O NHSWSN é uma organização de base que luta por um aumento de 15% nos salários do pessoal do NHS em todos os níveis. Em muitos casos, seus membros não tinham nenhuma experiência prévia de ativismo e a campanha foi bem-sucedida, organizando uma série de manifestações dinâmicas e com boa participação em todo o país. Por exemplo, na minha cidade de Swansea (País de Gales), a manifestação foi a maior vista em muitos anos.

Claro que, com o início da quarentena, a campanha tornou-se online e teve que se adaptar de acordo às circunstâncias, e esta mudança não ocorreu sem problemas. Os ativistas tiveram que aprender a utilizar os recursos online, bem como aprender a fazer trabalho de base e organizar no local de trabalho. Vale a pena lembrar que tudo isso ocorreu diante da luta contra a pandemia, com ativistas na linha de frente enfrentando a exaustão e ficando eles mesmos doentes.

Qual é o papel da base na organização da luta?

Em resumo, fizeram praticamente de tudo. Os sindicatos têm se destacado por sua ausência durante a maior parte da campanha (eles eram praticamente invisíveis nas manifestações aqui no País de Gales), e a campanha tem sido feita quase que inteiramente pela base. Quando os sindicatos se envolveram nas reivindicações salariais, elas foram maiores do que o esperado, e é minha opinião que a organização de base influenciou isto.

A campanha está agora na fase em que estamos tentando, em primeiro lugar, aumentar a filiação sindical e, em segundo lugar, começar a insistir na ação sindical por dentro dos próprios sindicatos.

Que papel o Nurses United desempenhou na luta?

A Nurses United é uma organização mais permanente do que o NHSWSN e, como o nome sugere (Enfermeiros Unidos), estão preocupados com os problemas enfrentados pelos enfermeiros, assistentes de enfermagem e estudantes de enfermagem em particular, ao invés do NHS em geral. Dito isto, a Nurses United está fortemente envolvida nas campanhas do NHSWSN e têm liderado os ativistas dentro dele.

E os estudantes de enfermagem?

Infelizmente, dada a forma como os cursos de enfermagem são estruturados, os estudantes de enfermagem têm sido cautelosos em se envolverem publicamente na campanha por medo disso ter um impacto negativo em sua formatura e futura contratação. No entanto, eventos recentes aumentaram a combatividade dos estudantes. No verão (julho-agosto de 2020) passado, estudantes do 2º e 3º anos foram convidados a optar por uma colocação de longo prazo para ajudar enfermeiros qualificados na luta contra a pandemia e serem pagos por isso. Os estudantes aceitaram esta oferta de forma esmagadora.

Este ano, com a pandemia em alta, o Conselho de Enfermagem e Obstetrícia (NMC) autorizou os estudantes a repetir o processo do verão passado, adotando protocolos de emergência. No entanto, a Diretora de Enfermagem do País de Gales declinou esta oferta. Isto significa que os estudantes de enfermagem galeses ainda terão que ir para estágios, arriscando suas vidas, sem ser pagos, mesmo que existam mecanismos para pagá-los. Além disso, qualquer estudante de enfermagem do País de Gales que contrair COVID via infecção ou tendo que se isolar terá que repor os dias ausentes no final do curso, novamente de graça.

Os estudantes reagiram a isto com fúria pelo que eles percebem como um insulto a todo o trabalho que já realizaram nas enfermarias. O principal sindicato de enfermagem, o Royal College of Nursing (RCN) nada mais fez do que nos garantir que “eles entendem nossas preocupações”. Estão em andamento discussões nas escolas de enfermagem sobre um próximo curso de ação para forçar a Diretora de Enfermagem a reverter sua decisão.

Quais foram os momentos mais importantes de 2020 para os trabalhadores do NHS?

Acho que as manifestações no verão (julho-agosto de 2020) abriram os olhos de todos. Não creio que alguém envolvido esperasse que elas fossem tão grandes e combativas quanto foram, e isso mostrou aos ativistas o potencial que a campanha tinha para ser vitoriosa. Vale a pena mencionar novamente que a maioria desses ativistas era nova na campanha e isso deu em todos uma injeção de ânimo e um sentimento de que não estávamos sozinhos e que podíamos ser bem-sucedidos.

Entretanto, por outro lado, a segunda onda (da pandemia) deixou a campanha apenas online ou nos locais de trabalho. Esta última torna-se cada vez mais difícil, à medida que a carga de trabalho aumentou exponencialmente devido à infecção dos profissionais de saúde, desmoralização e pura exaustão. As pessoas estão tão sobrecarregadas no trabalho que há pouco tempo ou oportunidade para discutir a questão salarial ou a campanha.

Há uma luta internacional dos trabalhadores da saúde, por exemplo, na Bélgica e na França. De que maneira você acha que é possível estabelecer vínculos e ações comuns com eles e quais seriam os primeiros passos?

Pouco antes do natal, o NHSWSN conseguiu estabelecer vínculos iniciais com a organização belga La Sante en Lutte (Saúde na Luta), que por sua vez tem vínculos com organizações francesas similares. É claro que a campanha deles está muito mais desenvolvida do que a nossa no País de Gales e estamos ansiosos para aprender com suas experiências e adaptar suas estratégias à nossa luta aqui. Como digo, estes vínculos são muito incipientes, mas depois de discuti-los, é claro que o NHSWSN está interessado em desenvolvê-los no próximo ano para nosso benefício mútuo.

Tradução: Marcos Margarido