Vaca Muerta1 reflete a dura realidade, a crise econômica e a impossibilidade de superá-la se a exploração dos recursos naturais não for estatizada sob controle de seus trabalhadores.
Quanto mais os dias passam, mais se confirma o cenário que temos denunciado. O negócio de Vaca Muerta é a maior entrega que se conhece, rapidamente se esgota e só deixa mais pobreza.

 Ainda que tentem explicar o projeto a partir de uma visão econômica, com o uso de dados técnicos, a situação colocada se baseia num problema que, de fundo, é político. Em relação a este tema, a unidade do governo da província2 de Sepag com o governo nacional kirchnerista ou o seu candidato Daniel Scioli e o apoio daqueles que desejam se apresentar como oposição – caso de Macri, Massa etc. – é de total acordo. Todos concordam que, para “minimizar” a crise, é necessário aplicar um plano de ajuste que ataca os trabalhadores. Tanto é assim que até mesmo os jornais oficiais do governo e da “oposição” já não podem esconder a realidade.
 
Diante da crise mundial, as empresas multinacionais executam um plano global segundo o qual o orçamento de investimento e de lucros obtidos são medidos mundialmente. O plano é baixar custos operacionais em todo o mundo para manter a lucratividade ou reduzir ao mínimo o que eles denominam de perdas. Esse plano é aplicado principalmente em Vaca Muerta, onde a própria YPF3 estabeleceu o objetivo de reduzir em 20% os custos operacionais. É necessário dizer novamente que, quando as empresas falam de perdas, tentam vender a ideia de que não estão lucrando, o que não passa de uma mentira. A verdade é que as empresas continuam ganhando fortunas, que estão garantidas porque durante anos tiveram níveis de lucratividade enormes. O que os empresários chamam de “perdas” é o fato de não estarem lucrando como antes, mas continuam ganhando, e qualquer diminuição dos lucros se traduz em ajuste para os trabalhadores e o povo.

Este cenário colocou no olho do furacão as pequenas e médias empresas locais, que começaram a denunciar a ação cruel das operadoras, que atentam contra sua sustentabilidade, podendo levar à demissão de mais de 600 trabalhadores num curto prazo. “Estão confundindo o potencial de Vaca Muerta com a realidade atual”, advertiram. (jornal Río Negro, 5/11) 
 
A mentira chamada Vaca Muerta

A realidade está muito distante da propaganda que o governo realizou para conseguir fechar o acordo Chevron – YPF, estabelecido à base de repressão. Parte da propaganda dizia: “Segundo afirmaram algumas fontes próximas do governo de Neuquén, espera-se que ‘a cada dia de 2014 ingressem na província algo próximo de 16 milhões de dólares em investimentos vindos da atividade petrolífera, o que, ao final do ano, daria uma cifra ao redor de 6 bilhões de dólares’”. (http://www.iprofesional.com/notas/178142).
 
Ao contrário do que foi dito, o 13o salário dos funcionários públicos foi pago com um mês de atraso, não há aumento salarial, o valor da cesta básica cresce o dobro em relação ao salário dos funcionários públicos e de grande parte dos trabalhadores, os petroleiros são ameaçados com demissões e redução salarial, além de verem aumentar o ritmo de trabalho. Para completar, o governo anunciou que a província não tem dinheiro para aumentar os salários.
Por outro lado, as empresas já enviaram seus lucros para as matrizes e anunciam a impossibilidade de pagar o bônus de 6 mil dólares acordado com o sindicato dos petroleiros (acordo que representou um aumento de 12% este ano, muito abaixo de outros acordos do setor privado) e houve reduções salariais de até 50%. Além disso, as grandes empresas como Schlumberger, Halliburton, Baker Hughes e Weatherford negam-se a pagar as horas gastas pelos trabalhadores para chegar ao local de trabalho que, na maioria dos casos, são grandes distâncias. 

Os petroleiros não ficaram parados diante desta situação. Fizeram bloqueios em bases de exploração de petróleo. O sindicato teve a postura de frear essa ação, mas não foi fácil. Os trabalhadores esteavam muito insatisfeitos e a paralisação de 24 horas foi realizada. Os trabalhadores sabem que essa é uma luta pela sobrevivência e que as negociações já se esgotaram. É necessário organizar-se e mostrar a força da categoria petroleira.
 
Se não houver estatização, não há garantias

A conta é simples: enquanto milhões de dólares saem do país, os salários sofrem ajustes, as condições de trabalho pioram cada vez mais e a exploração aumenta. O governo subsidia o barril de petróleo para que seus amigos empresários “não saiam perdendo” com a desculpa de manter as fontes de trabalho. Mas os abutres ainda querem mais e não têm dúvidas de atacar com mais ajustes, suspensão do trabalho e demissões.

Tudo isso desmascara a situação e a mostra como realmente é. Vaca Muerta é um negócio para as multinacionais. A província e o país, além de não lucrarem com o projeto, estão subsidiando as empresas estrangeiras. A promessa de uma economia próspera e de uma província comparada com a Arábia Saudita caiu por terra.

A expropriação e a estatização dos recursos naturais é urgente. É a única garantia para que as riquezas não saiam do país, enriquecendo os responsáveis pela crise às nossas custas. Garantia para que esse dinheiro seja destinado às necessidades dos trabalhadores, com salários dignos, hospitais, escolas, moradias, polos esportivos. Precisamos tomar o problema em nossas mãos. A solução não virá de nenhum outro lugar.


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Notas:
1. Vaca Muerta: jazida de petróleo ultrapesado (não convencional) e gás de xisto nas províncias de Neuquén e Río Negro, na Argentina. Tem um potencial muito grande que duplicaria as reservas do país, mas para explorá-lo é necessário utilizar o sistema de fracking (explosões subterrâneas que destroem as rochas do solo).
2. Províncias: equivalentes aos estados brasileiros
3. YPF: Yacimientos Petrolíferos Fiscales é uma estatal argentina dedicada à exploração, refino e venda do petróleo e seus produtos derivados.

Tradução: George Bezerra