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O ano começou com protestos contra o desemprego em Omã.

Por: Hasan al-Barazili

No dia primeiro de janeiro houve protestos na capital Muscat e na cidade de Salalah na província de Dhofar, próximo à fronteira com o Iêmen. Os protestos ocorreram em frente ao Ministério do Trabalho. Dois radialistas foram presos.

A taxa de desemprego oficial é de 16% (2017). O setor privado emprega 2 milhões de trabalhadores e trabalhadoras estrangeiros em situação precária, a exemplo de outros países do golfo. Eles constituem cerca de 90% da mão de obra no setor privado. No ano passado, protestos similares duraram algumas semanas e levaram o sultanato a gerar 25 mil novos empregos no setor público.

A economia do país gira em torno do turismo, da indústria da pesca, da metalurgia e do petróleo, ainda que em proporção bem menor que os vizinhos Arábia Saudita, Emirados Árabes e Irã. Mesmo assim a queda do preço do petróleo impacta toda a economia nacional.

Em resposta aos protestos, as autoridades omanitas anunciaram a criação de uma agência nacional de emprego para atuar tanto no setor público como no privado. A agência será criada em fevereiro, mas não estão claras quais serão as medidas para acabar com o desemprego que afeta principalmente a juventude.

Normalização com Israel

No final de outubro, o primeiro-ministro israelense Binyamin Netaniahu visitou o sultanato de Omã e foi recebido pelo sultão Qaboos. Esta é a primeira visita de um líder israelense ao sultanato desde 1996, quando Shimon Peres visitou o país.

Netaniahu estava acompanhado pelo chefe do Mossad Yossi Cohen, pelo chefe da Autoridade de Segurança Nacional Meir Ben-Shabat, pelo secretário para assuntos militares brigadeiro-general Avi Plut. Além destes, Yuval Rotem do ministério de relações exteriores e Yuval Horowitz da casa civil.

A declaração final diz que “O encontro tratou de formas para avançar com o processo de paz no Oriente Médio bem como questões de interesse mútuo relacionados à paz e estabilidade na região”. Ayoob Kara, ministro israelense das comunicações, afirmou que a visita à Omã foi uma “prova das boas relações entre o governo israelense e os países sunitas que se opõem ao terrorismo iraniano que os ameaça”.

Esta afirmação contém dois equívocos e uma verdade. A religião oficial de Omã é o Islamismo de matriz Ibadita que convive em paz com os muçulmanos sunitas e xiitas. O outro equívoco é sobre a ameaça iraniana. Omã mantém boas relações com o Irã, que é seu vizinho. Também foi o único membro do Conselho de Países do Golfo (GCC) a não integrar a coalizão liderada pelos sauditas na guerra no Iêmen. Ao contrário, o sultão Qaboos mantém relações cordiais com os Houthis (rebeldes iemenitas que enfrentam a coalizão saudita), recebendo seus líderes em Muscat. Por fim o sultanato não participa do bloqueio imposto ao Qatar. Ou seja, se há alguém descontente com o sultão omanita, esse alguém é o governo saudita.

Para se proteger de ameaças externas, o sultão Qaboos renovou no dia 2 de novembro seu pacto de defesa com o Reino Unido, ex-metrópole colonial e antiga aliada. No mês anterior realizou o maior exercício militar conjunto com os britânicos em 15 anos do qual participaram 5.500 militares britânicos e 65 mil omanitas.

Mas a afirmação do ministro israelense das comunicações é verdadeira quando trata das boas relações entre os países árabes e o Estado de Israel. No caso de Omã, seu ministro de relações exteriores Yusuf bin Alawi bin Abdullah afirmou que “Israel é um dos países da região… Talvez seja a hora de Israel ter os mesmo privilégios e obrigações dos outros países”.

A população de Omã parece não ter a mesma opinião. O protesto de apoiadores da causa palestina contra a presença de Netaniahu foi reprimido e dois blogueiros foram presos. Segundo relatos de organizações de direitos humanos, o blogueiro Sultan al-Maktoumi que escreve para o jornal Al-Raya e a revista Al-Shabab al-Toufahim foi preso em 23 de outubro de 2018 pela divisão especial da polícia de Sohar. Ele se posicionava contra a normalização das relações com Israel e também defendia reformas democráticas no sultanato. Outro blogueiro Salem al-Arimi também foi preso pela divisão especial da polícia de Muscat em 27 de outubro.

Se não bastasse a visita de Netaniahu, o ministro de transportes israelense Yisrael Katz participou de reunião da União Internacional de Transportes Terrestres em Muscat onde apresentou a proposta de construir uma ferrovia que ligue os países do golfo ao porto de Haifa na Palestina ocupada através da Jordânia.

Outros países

À exceção do Kuwait, da Tunísia e da Argélia, outros países árabes estão envolvidos em esforços de normalização, além do Egito e da Jordânia que já firmaram acordos de reconhecimento do Estado de Israel há vários anos.

A ministra israelense da cultura Miri Regev visitou os Emirados Árabes por ocasião de uma competição de judô em Abu Dhabi na qual o judoca israelense Sagi Muki ganhou uma medalha de ouro com direito a hasteamento da bandeira israelense e execução do hino Hatikva. A ministra ainda visitou a mesquita Sheikh Zayed.

Já o Qatar permitiu a participação de uma equipe de ginástica olímpica israelense no campeonato mundial realizado no país com direito a exibição de seus símbolos nacionais. O Qatar foi um dos primeiros países árabes a abrir oficialmente uma missão comercial israelense já em 1996. O príncipe Mubarak al-Khalifa do Bahrein visitou Tel Aviv onde se reuniu com o ministro israelense das comunicações Ayoub Kara que declarou que a visita visava “fortalecer o relacionamento entre os dois países”.

Além de visitas de autoridades à Israel, a Arábia Saudita permite que a companhia aérea Air India ingresse em seu espaço aéreo a caminho de Tel Aviv.

Ventos da segunda onda

A desaceleração da economia mundial e a queda do preço do petróleo coloca o mundo árabe na rota de protestos em vários países que podem evoluir para uma segunda onda de revoluções sociais.

Protestos de rua combinados com greves na Tunísia, no Sudão e no Líbano, ao lado das marchas pelo retorno em Gaza apontam nessa direção em uma região onde há conflitos armados em curso no Iêmen, na Síria e na Líbia patrocinados por potências regionais que não conseguem por fim às lutas populares e trazer de volta a estabilidade para os negócios capitalistas.

Na luta por salários, empregos e outros direitos sociais, rapidamente emerge a questão das liberdades democráticas ausentes em praticamente toda a região.

O desenvolvimento dessas lutas também traz à tona a colaboração dos países árabes com o imperialismo europeu ou americano, e com o Estado de Israel, que é odiado em toda a região.

A ausência de organizações revolucionárias com influência de massas representa uma grande debilidade para o desenvolvimento e a vitória dessas lutas operárias e populares. E será no calor dessas lutas que essa debilidade terá de ser superada.