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O referendo de 1-O (1 de outubro) foi uma vitória democrática extraordinária. Nesse dia, mais de dois milhões de catalães e catalãs, superando uma brutal movimentação policial, impuseram o referendo. Foi um vitória maior do que esperava e queria o governo da Generalitat, que nunca esteve disposto a lutar até o fim. Como confessou a ex-conselheira Ponsatí: “jogávamos poker e íamos blefando”.

Por: Paola García

Capitulação da direção independentista e divisão da classe trabalhadora

Mas esse triunfo foi traído pela direção independentista, que capitulou e entregou às instituições sem resistência. Isso provocou a derrota política do movimento, entregou a iniciativa às forças do regime e permitiu que uma grande divisão fosse criada entre a população. Não podemos ignorar que atualmente um grande setor da população trabalhadora foi ganhado para as teses espanholistas. Contribuiu para isso o fato de o projeto independentista ter surgido como algo alheio às preocupações e demandas da classe trabalhadora.

Hoje não estamos como no início de outubro do ano passado, quando a legitimidade do 1-O não era questionada, o povo estava em luta e o regime golpeado. Não estamos naquele lapso de dias em que a República da Catalunha estava ao nosso alcance. Hoje, a perspectiva da proclamação da República da Catalunha desapareceu da agenda política e metade da população não reconhece o 1-O como um referendo e nem a legitimidade de seus resultados.

Torra brinca com a retórica de que “obedecerá ao mandato do 1-O” e que sua atuação vai girar em torno da “construção da república e a abertura de um processo constituinte”. Este é o novo mantra com o qual a direção independentista dá cobertura a uma política cujo conteúdo real é a normalização autônoma e cujo objetivo final é buscar um novo “encaixe” na monarquia espanhola.

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Os partidos do regime (PP-Cs e PSOE) aproveitam essa retórica para estimular confrontos. Sua tarefa é facilitada pelo fato de que a reivindicação do direito de decidir foi eliminada do campo independentista. Da mesma forma, os Comunes e o Podemos eliminaram de seu discurso. Seu descafeinado “referendo pactuado” foi para o congelador.

 Reconstruir uma maioria pelo direito à autodeterminação

A ampla maioria catalã, independentista ou não, continua apoiando o direito de decidir. Somente recuperando a luta por um referendo de autodeterminação vamos reconstruir uma clara maioria frente ao regime e neutralizar no resto do estado a onda reacionária espanholista. Sem reconstruir esta maioria e sem uma batalha junto com a classe trabalhadora e o resto dos povos do estado, não haverá direito à autodeterminação, nem república catalã, nem união livre de repúblicas livres.

Alguns dirão que retomar a luta pelo referendo é voltar atrás e que já tivemos o 1-O. Mas, acima dos desejos, as circunstâncias mudaram drasticamente e agora temos que reconstruir uma maioria pelo direito à autodeterminação. Cabe aos setores mais conscientes da classe trabalhadora liderar essa luta necessária, que vai se deparar com a oposição da burocracia sindical.

Devemos também estar conscientes de que a luta pela soberania, hoje, passa por exigir que o Parlament, desacatando ao Tribunal Constitucional, coloque em prática as reivindicações sociais do povo trabalhador: as da Marea Pensionista, a revogação das reformas trabalhistas ou das leis sociais suspensas. Nessa batalha, não apenas enfrentaremos o governo central, PP e Cs, mas também o governo de Torra.

Tradução: Tae Amaru