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Em 3 de maio deste ano, os venezuelanos acordaram com a notícia de que um comando composto por um grupo de supostos mercenários estadunidense, acompanhado por ex-militares e ex-policiais venezuelanos, haviam sido capturado e outros assassinados. Isso enquanto tentavam uma incursão armada no território venezuelano, que foi detectado e neutralizado pelas forças de segurança do estado, com um saldo de dez detidos e pelo menos oito mortos no confronto.

Por: UST – Venezuela

Segundo informações divulgadas pelo governo, o comando terrorista tinha a intenção de desembarcar nas costas da cidade de Macuto (estado de La Guaira) onde foram capturados e o confronto ocorreu. Uma detenção semelhante de outra embarcação teria sido feita nas costas do Chuao (estado de Aragua) e com o passar das horas, foram efetuadas detenções em Puerto la Cruz (estado de Anzoátegui). Uma semana antes, outra ação de conspiração teria sido frustrada em Los Teques (estado de Miranda). No confronto em Macuto, o ex-oficial das forças armadas venezuelanas, conhecido como El Pantera, um ex-colaborador do major-general (r) Cliver Alcalá, foi morto.

As notícias se espalharam rapidamente e foram colocadas em duvida por amplos setores da população, chegando inclusive a ridicularizar e minimizar os fatos. Uma reação lógica, se levar em conta as repetidas atitudes mentirosas do governo em lidar com a crise, a agitação permanente de planos de magnicídio, tanto pelo falecido presidente Chávez quanto pelo atual presidente. As montagens, alegações de planos de conspiração inacreditáveis ​​e ações heroicas do governo e de seus aliados para detectá-los e desmantelá-los. Bem como a não menos conhecida e pouco acreditada pelas massas, história da guerra econômica, para tentar fugir de sua responsabilidade na crise econômica e as declarações oficiais de sabotagem no setor elétrico, no momento dos apagões e na crise elétrica não superada.

Horas e dias depois, alguns fatos, como a captura de dois mercenários estadunidenses Luke Alexander Denman e Airan Berry, e outras como as de Josnar Adolfo Baduel, filho do general Raúl Baduel tornaram possível ir esclarecendo a situação. A revelação das declarações, reconhecendo a existência de uma operação, descrevendo-a como uma ação libertária e invalidando a autoria das incursões, do ex boina verde gringo Jordan Goudreau, proprietário da empresa Silvercorp, pertencente ao ramo de empresas conhecidas com o eufemismo de “prestadores de serviços de segurança”, bem como as declarações de outros porta-vozes da operação, como a de um oficial militar dissidente chamado Javier Nieto Quintero.

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A chamada “Operação Gedeon” teria sido produto de um contrato para levá-la a cabo, assinado entre a empresa Silvercorp e Juan Guaidó, segundo jornalistas simpatizantes da oposição patronal que inclusive tornaram público o contrato.

As declarações contraditórias de Guaidó, reconhecendo a existência da operação, mas distanciando-se dela, embora sem se pronunciar sobre o contrato supostamente assinado por ele, acabam confirmando sua existência.

Apesar de suas tentativas de se afastar da fracassada incursão militar, não temos dúvidas sobre os vínculos de Juan Guaidó nessa operação, ainda mais quando um de seus principais estrategistas políticos, o direitista e ultrarreacionário, Juan José Rendón (mais conhecido como JJ Rendón), um indivíduo também estreitamente vinculado ao uribismo e à extrema-direita colombiana, reconheceu publicamente, em declarações à rede estadunidense CNN, a assinatura do referido contrato entre o líder da oposição burguesa venezuelana e a empresa Silvercorp, no valor de 50 mil dólares.

Segundo JJ Rendón: “Era uma exploração para ver a possibilidade de capturar e levar à justiça membros do regime com indicments (acusações), mandados de prisão etc.” E acrescenta: “O presidente Guaidó não controla uma força policial no país, por isso foram analisados ​​diferentes cenários, como alianças com países, pessoas de dentro que se juntem à constituição, atores que estão do lado de fora como militares aposentados”.

Denunciamos a responsabilidade direta de Juan Guaidó nessa operação fracassada, em conluio com o governo imperialista de Donald Trump e a direita colombiana. Expressamos nosso total repúdio a essas ações intervencionistas.

Esse tipo de ação, a julgar pelo planejamento evidentemente péssimo e pelos limitados recursos utilizados, está longe de ser classificada como uma tentativa séria de intervenção militar, como pretende fazer o governo em comparação à invasão da Baía dos Porcos, perpetrado por mercenários ianques contra a revolução cubana, na década de sessenta.

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Consideramos que estão enquadrados nas ações militares de pressão intervencionista e provocação, refletindo e respondendo às pressões de setores radicalizados, desesperados e mais lúmpens da direita patronal venezuelana, executados com a participação de ex-militares, ex-policiais e membros de bandos gângsteres, sob a liderança imprudente de mercenários. E financiados por capitalistas que apostam na remota possibilidade de obter benefícios econômicas, se sua incursão for bem-sucedida, tudo com o auspício e autorização do imperialismo, a liderança de setores da oposição patronal venezuelana, neste caso a liderada por Juan Guaidó e setores da direita continental, desta vez a direita colombiana.

A Unidade Socialista dos Trabalhadores (UST) foi categoricamente contrária à interferência imperialista e ao golpismo na Venezuela, bem como a esse tipo de ações que nada têm a ver com a mobilização e organização dos trabalhadores e das massas populares. Assim, diante da recente ação aventureira separada das massas, alheia ao movimento, métodos e tradições da classe trabalhadora, expressamos nosso mais profundo rechaço e chamamos a população a repudiá-la.

Essa operação, além de seus propósitos imediatos, sem dúvida teve o objetivo fundamental de impor uma situação de fome e miséria aos trabalhadores e ao povo venezuelano em níveis semelhantes ou piores aos que já nos submete a ditadura madurista.

Devido a suas características aventureiras, o isolamento das massas, a falta de coordenação em seu planejamento, que restringia seus recursos (fala-se de falhas na entrega de armas e dinheiro para contratar tropas), suas possibilidades de sucesso eram limitadas, terminando em um fracasso retumbante. Além disso, serviu ao governo para se vitimar, desviando a atenção dos problemas reais do país, como fome, falta de combustível, massacres nas prisões e o confronto entre quadrilhas criminosas em bairros da capital do país, como Petare, procurando esconder e minimizá-los. Também fez uso de seu aparato midiático para bombardear a população com a ampliação da ação e a exaltação de sua grande “eficiência militar” e o “heroísmo do povo aliado” que frustrou a operação.

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E por fim servem ao governo para justificar a ação repressiva, o fortalecimento de seus dispositivos de coerção e controle social contra os trabalhadores e habitantes dos setores populares, para criminalizar os protestos trabalhistas, sociais e populares, acusando-os de fazer parte de um “plano terrorista”, complicando ainda mais as possibilidades para lutar contra o ajuste antioperário que o governo aplica contra os trabalhadores, descarregando sobre seus ombros o peso da pior crise econômica e social da história recente do país.

Nesse contexto, os trabalhadores e o povo humilde da Venezuela só podem contar com a força de sua mobilização e auto-organização. Isso significa que não podemos depositar nenhuma confiança em mercenários por suas ações “libertárias”, nem no imperialismo que endossa e permite que esse tipo de operação ocorra, nem em Guaidó e no conjunto da oposição patronal. Temos que denunciar a responsabilidade deles no fracassado ataque armado e repudiá-lo.

Devemos nos mobilizar e nos organizar independentemente desses setores e contra sua política de sanções, bloqueios e interferências, para a defesa de nossos direitos democráticos, para exigir a liberdade de presos políticos, para denunciar que o governo usa a operação frustrada como argumento para realizar um ataque repressivo e criminalizar protestos legítimos, lutar contra a fome, combater o pacote do governamental antioperário e antipopular, bem como derrubar o governo promotor da fome, corrupto e repressivo de Maduro.

Tradução: Nea Vieira