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No dia 14 de agosto, foi realizado o lançamento do livro “La Guerra contra la Triple Alianza en debate”, [Editora Lorca, São Paulo, 2019], na sede do Arquivo Nacional de Assunção. Cerca de 90 pessoas estiveram presentes no evento, que terminou com um brinde. A mesa foi composta por Montserrat Álvarez, filósofa e escritora, e pelo autor da obra, o historiador marxista e militante do PT do Paraguai, Ronald León Núñez.

Por: PT-Paraguai

A Guerra do Paraguai contra a Tríplice Aliança [1864-1870] é considerada o maior e mais sangrento conflito na América do Sul até hoje. A ação combinada dos exércitos do então Império do Brasil, da Argentina de Bartolomeu Mitre e do caudilho uruguaio Venâncio Flores – financiado em grande parte pelo capital britânico e com a cobertura do governo inglês – não apenas destruiu o incipiente, mas progressivo desenvolvimento econômico independente do Paraguai, mas cometeu também um genocídio que exterminou entre 60 e 69% da população total do país.

Iniciado o evento, Montserrat Álvarez destacou a relevância do livro porque, fora do Paraguai, há quase completo desconhecimento sobre esse fato, já que “não ultrapassa os campos acadêmicos” e seu estudo recai quase exclusivamente sobre os historiadores profissionais.

Montserrat Álvarez

Segundo Álvarez, o livro “não se limita à análise dos processos econômicos e sociopolíticos dos acontecimentos passados ​​- o que faz e faz muito bem -, mas também analisa os relatos presentes dos fatos e processos passados. e seu uso, sua instrumentalização no campo do debate público para apoiar posições contemporâneas, ou seja, coloca a análise dos relatos historiográficos sobre a Guerra contra a Tríplice Aliança no campo a que realmente pertencem, que é o terreno do debate político e atual”.

A discussão com a narrativa liberal, segundo o escritor, embora compreensível, “não levou a algo melhor; a versão nacionalista do episódio contra a Guerra Contra a Tríplice Aliança levou a um culto secular de figuras autoritárias, que inclusive foi assimilado por vastos setores do espectro reivindicados pela esquerda, e até mesmo marxista, bebendo diretamente das fontes do nacionalismo de direita”.

Diante disso, Montserrat argumenta que “precisamos recuperar as ferramentas conceituais do marxismo” e entender que “a esquerda, se é marxista, não é e não pode ser nacionalista; não só porque desde o início a análise econômica e histórica que está no corpus do próprio Marx e que se desenvolve em sua linha mais coerente até hoje, ultrapassa as fronteiras fantasiosas daquela superstição burguesa que é a nação, mas porque o próprio sentido de esse discurso aponta necessariamente para a destruição dessa forma nacional, [… já que essa ilusão] só serve para defender os interesses da classe dominante dentro de cada nação, como se [esses interesses] fossem os de todos”.

Por sua parte, o autor do livro, Ronald León Núñez, depois de agradecer o prólogo do professor argentino, marxista e internacionalista, Ricardo De Titto, e a Editora Lorca, que aceitou publicar o material, comparou este novo trabalho com seu primeiro livro lançado em 2011 [Revolução e Genocídio, Editorial Arandurã], e notou que La Guerra Contra la Tríplice Aliança em debateamplia sua visão, engloba um espectro mais amplo de interpretações, e entra em polêmicas com autores e narrativas que pode interessar a alguém fora do Paraguai”.

Lançamento no Arquivo Nacional de Assunção

Nesse sentido, León Núñez enfatizou que “o livro está estruturado e escrito em tom de polêmica. Isso sempre nos obriga a argumentar, fundamentar melhor, para contrapor uma visão, no meu caso marxista, às interpretações tradicionais, e que em algum momento elas já eram “oficiais”, que são o liberalismo e o nacionalismo burguês, seja de direita, da extrema direita e o chamado de esquerda.”

Também disse que o objetivo com este material é “que o tema saia de círculos fechados de acadêmicos profissionais, de especialistas, e que o estudo da história sirva para desenvolver ou atualizar um programa político de ação revolucionária, um programa para a classe trabalhadora.” Especialmente “queremos debater nossa história e a do Cone Sul e chegar à classe trabalhadora do Paraguai, do Brasil, da Argentina e, por que não, da América Latina”.

Sobre os debates levantados, enfatizou que “o principal debate, evidentemente ocorre com a historiografia liberal ou neoliberal, isto é, com a que, de um modo ou de outro, justifica a Tríplice Aliança. Esta é basicamente a história escrita pelos vencedores. Não apenas o mitrismo mais grotesco, mas também a versão moderna dessa corrente, que se denominou Nova Historiografia, encabeçada talvez pelo intelectual brasileiro Francisco Doratioto, mas que até certo ponto influencia quase todas as publicações acadêmicas atuais no Brasil e até mesmo no Paraguai.”

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Essa narrativa, disse ele, ”ainda que se diga imparcial e se mimetize se dizendo mais científica, é uma atualização da versão dos nacionalismos brasileiro e argentino. Isso é assim”.

Entretanto, o livro não se limita à controvérsia com o liberalismo: “este livro também polemiza duramente com qualquer interpretação nacionalista paraguaia, por considerar o nacionalismo, seja de direita, extrema direita ou até da esquerda, é também uma visão burguesa de a história. O marxismo, em geral, defende a autodeterminação nacional das nações oprimidas, mas não é nacionalista. O marxismo é internacionalista por natureza”.

Ronald León Núñez, historiador

Neste sentido, Ronald León Núñez, fez um alerta geral: “há um perigo político que, em um esforço para discutir com os defensores da Tríplice Aliança, denunciar os crimes cometidos contra o Paraguai, a esquerda assume premissas do nacionalismo e cai no culto da personalidade de um doutor Francia ou dos López. E o marxismo não aceita nenhum culto de personalidade”.

O que temos que entender – continuou León Núñez – é que, para polemizar com a Tríplice Aliança, não é necessário exagerar em nada, como faz Chiavenato ou o nacionalismo de esquerda.”

Posteriormente, o autor se referiu aos principais problemas que o livro aborda: o caráter da colonização europeia na América; o caráter, o sujeito social e político, das revoluções de independência da América Latina no século XIX; o caso paraguaio e, nesse sentido, os regimes de José Gaspar Rodríguez de França e de los López. Sobre a Guerra contra a Aliança Tripla em si. Mencionou que as polêmicas em torno da questão têm a ver com o caráter desse conflito – se foi progressivo ou reacionário – a caracterização do Paraguai pré-guerra; os interesses dos Estados nacionais da região; o papel desempenhado pelo governo e o capital do Império Britânico; e, finalmente, a discussão sobre se houve ou não “genocídio” do povo paraguaio. Todos os temas que segundo Ronald León no Paraguai são tomados como certos, são extremamente controversos no Brasil e na Argentina, e quase desconhecidos em outras partes do mundo.

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Sobre a relevância e as consequências políticas, práticas, dessas discussões, o jovem historiador assegurou que o estudo da história e sua interpretação “não podem ser um exercício intelectual estéril, uma redução a comentar sobre o passado”.

O prólogo do livro foi realizado pelo historiador marxista argentino Ricardo De Titto.

Para o marxismo, “estudar e compreender qualquer processo histórico deve estar a serviço do desenvolvimento de um programa e uma política acertadas para revolucionar o presente, mudar as coisas na raiz, com vistas ao futuro. No nosso caso, este estudo e qualquer outro que façamos está a serviço da elaboração ou atualização de um programa operário e socialista”.

De acordo com León Núñez, é preciso estudar história “para responder perguntas simples: qual é a saída para a classe trabalhadora hoje? O que precisa ser feito? Com ​​quem devemos lutar?”

Para o Paraguai, como para todos os países latino-americanos, “um ponto de partida deve ser o problema agrário e a independência nacional, a soberania em todos os sentidos, mas a partir de uma perspectiva de classe e socialista”, enfatizou.

O autor do livro concluiu sua apresentação dizendo que “a segunda independência será um processo revolucionário continental, como aconteceu no século XIX. Mas a diferença qualitativa com o primeiro processo emancipatório é que ele não será mais realizado por nenhum setor burguês ou privilegiado de nossas sociedades. Não será encabeçado por nenhum Bolívar, San Martín, Rodríguez de Francia, por nenhum López. Não há um messias! Essa tarefa passou para a classe trabalhadora e suas próprias organizações!”

O livro La Guerra Contra la Tríplice Alianza em debate pode ser adquirido através do perfil do Partido dos Trabalhadores do Paraguai (https://www.facebook.com/PTParaguay/), ou escrevendo para a Editora Lorca: editoralorca@gmail.com

Ficha técnica:

LEÓN NÚÑEZ, Ronald. La Guerra contra la Triple Alianza en debate. São Paulo: Lorca, 2019, 524 pp.

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ISBN: 978-85-63097-11-8

Editor responsável: Alicia Sagra

Capa: Martin Garcia

Projeto gráfico e layout: Romerito Pontes

Comentário: Natalia Estrada

Revisão técnica: Isa Pérez

Padronização técnica: Iraci Borges (CRB 8-2263)

Tradução: Lena Souza