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A libertação de Jesús Santrich, por ordem do Supremo Tribunal de Justiça e a sua posse na Câmara dos Representantes – enquanto o Tribunal Constitucional nega objecções à Lei Estatutária da Jurisdição Especial para a Paz (JEP) – é uma trégua à crise interna das FARC, mas as causas que a geraram permanecem sem solução. A crise das FARC tem causas diferentes, mas a principal delas é a democracia interna. Nem como grupo insurgente, nem no processo de negociação, nem como partido, as FARC levaram em conta as bases ex-guerrilheiras e muito menos os setores populares que afirmam representar.

Por: Antonio Romero

Como guerrilha, a então Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo – foi uma organização militarista, hierárquica e autoritária, que impunha uma rígida disciplina não apenas aos seus membros, mas também às comunidades nas quais atuavam. Não raro, eles agrediram os setores populares e as organizações sociais com as quais tinham contradições políticas, em grande parte, muitas das reivindicações que um setor das vítimas faz hoje provêm dessa concepção das FARC-EP.

Nas negociações foi o mesmo, nos diálogos do Caguán fizeram desfilar sindicatos, associações estudantis, camponesas e de mulheres por seu acampamento para entregar as reivindicações que eles negociariam como seus representantes. Em Havana, eles não puderam fazer o mesmo, mas sua negociação era orientada por ONGs internacionais, coletivos de advogados e, em geral, consultores de projetos de cooperação internacional e até instituições do Estado. O papel de suas bases foi esperar para ser informado por seu comando.

Hoje como partido, as FARC vivem sua crise, sem as armas com as quais sempre impuseram e alcançaram a disciplina interna, afloram suas discussões e diferenças. Aparentemente, um setor do partido segue as orientações de Rodrigo Londoño “Timochenko”, que está por cumprir o acordo assinado com Santos e inclusive aceitar as condições de implementação do acordo colocadas pelo uribismo. Por outro lado, está Iván Márquez, que criticou o acordo – para ele, o problema estava no cronograma de abandono de armas e não na falta de democracia – e aspira pressionar o governo para cumprir, marginalizando-se de seu processo de submissão ao JEP.

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Enquanto isso, as bases guerrilheiras continuam sofrendo não só as violações do governo na implementação dos acordos, mas uma política sistemática de extermínio que custou a vida de mais de 150 ex-guerrilheiros.

As organizações sociais e de direitos humanos devem reivindicar como uma vitória a libertação de Santrich, já que foi a mobilização contra as montagens do Promotor e contra o assassinato de líderes sociais que levou o regime, em particular aos altos tribunais, a assinar esta ordem de liberdade.

No entanto, o setor de Timochenko e o reformismo – em particular o Polo Democrático e a Aliança Verde – em face da chamada “crise institucional” que o uribismo e o santismo proclamam continuam pedindo para fazer parte do Pacto Nacional chamado por Duque.

A classe trabalhadora e os setores populares, apesar do fato de que as FARC fizeram um processo de desmobilização pelas costas de suas bases guerrilheiras, devemos cerrar fileiras contra as intenções do uribismo de modificar os acordos de paz, restringir ainda mais as poucas garantias legais e políticas. Mas também devemos afirmar que não é pedindo espaço em um novo pacto nacional que se defende os acordos, mas com uma frente operária e popular para a luta contra os planos de Duque e o imperialismo.

Tradução: Lena Souza