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Nos últimos anos, o governo Uribe enfrentou períodos de fortes crises, alternados com outros de relativo fortalecimento, sem que a sua estabilidade tenha sido colocada em questão, em momento algum. Isto se deve fundamentalmente, a que a oposição tem assumido um comportamento tímido e também porque, diferente do que tem acontecido com casos similares em outros países – onde a burguesia opositora se apoiou na mobilização das massas para debilitar e tirar do jogo do poder um determinado governo – a burguesia colombiana não arrisca nesta saída, porque desconfia profundamente da mobilização das massas. Todos apontam para a disputa eleitoral.


Enredado com o referendo.


Uribe acabou, até agora, complicado com o referendo e sua reeleição. O imperialismo, através de suas publicações mais importantes (The Economist, The New York Times e Washington Post), tem dado mostras de que não está de acordo em que ele se reeleja de imediato e que deve esperar até 2014. Ao mesmo tempo, um setor importante da burguesia tradicional colombiana está sugerindo que se distancie um pouco, e que espere outro momento para retomar o controle do governo nos próximos quatro anos. Isto não significa que o imperialismo e a burguesia nacional anti reeleição se tornaram democráticos, senão que entendem que ao Uribe continuar, uma crise do regime pode se configurar e sair do seu controle.


É verdade que Uribe continua tendo um alto nível de aceitação nas pesquisas, e que é de longe o candidato que derrotaria os demais nos votos. Ainda que não seja forte o suficiente, para garantir de forma limpa, as assinaturas para o referendo. Teve que conseguir o patrocínio da DMG [Data Marketing Group, grande empresa internacional de serviços, Nota do Editor] – segundo dizem as denúncias -, organizar um grupo de politiqueiros ardilosos encabeçados por Luis Guillermo Giraldo para coletar as assinaturas, e a compra de votos de congressistas para conseguir sua aprovação no Senado e mudar o conteúdo do texto.


Mas apesar de todas essas manobras ainda não conseguiu a sua aprovação final, pois falta conciliação entre o Senado e a Câmera, bem como o pronunciamento da Corte Constitucional. Pode ser que seja aprovado, mas finalmente ficará claro que foi produto de armadilhas, evasivas e corrupção.


Falsos positivos: tudo por dinheiro.


Outro problema para o governo é o escândalo das execuções de inocentes por parte das forças armadas, conhecido eufemisticamente como “falsos positivos”.


Para responder à exigência de resultados contra a guerrilha que o presidente Uribe e Santos, seu ex ministro de defesa, fizeram aos militares – pelos quatro milhões de pesos pagos por cada morto e pelas licenças que os militares conseguem como prêmios pelos resultados -, passaram a enganar e a assassinar centenas, talvez milhares, de jovens. A isto se soma que seu projeto de lei de vítimas [1] não foi aprovado e assim teve que ordenar a seus seguidores no Congresso que submergissem o projeto dos liberais.


Estes dois fatos colocaram o governo no olho do furacão do imperialismo europeu através da ONU. O Relator especial da ONU para execuções extrajudiciais, Philip Alston, após 10 dias de visitas a várias regiões, concluiu que os “Falsos Positivos” se converteram em prática sistemática que incluem 13 estados, e que essa prática “se caracteriza melhor como assassinato a sangue frio e premeditado, de civis inocentes, com a finalidade de obterem recompensas”.


“Ataco, se me contrariarem.”


O outro escândalo foi as ameaças do DAS, organismo [de segurança] que depende diretamente de Uribe. Interceptação da comunicação a opositores de direita e de esquerda; de juízes, jornalistas, defensores dos direitos humanos, e de todos que Uribe considera perigosos para seu governo porque são oposição. Como parte disto está à espionagem econômica que tem sido feita pela Unidade de Informação e Análise Financeira (UIAF), encabeçada pelo seu diretor Mario Aranguren, contra os magistrados das altas cortes. O caso das ameaças foram tão escandaloso que o Promotor Mario Iguarán – não precisamente um opositor de Uribe -, pediu a investigação de 34 servidores públicos e ex servidores públicos do DAS, de seus últimos cinco diretores, e do próprio Mario Aranguren.


Produto disso, Carlos Alberto Arzayús, ex diretor de Inteligência do DAS, fez revelações à Promotoria na sindicância, afirmando que no alto governo, há cinco anos, foi determinado que o DAS devesse ser da inteligência do Executivo, que o próprio Uribe apontou várias ONGS como infiltradas pela guerrilha e que tinham que ser vigiadas; que foi dessa maneira que se interceptou o Coletivo de Advogados José Alvear Restrepo, Redepaz, Justiça e Paz, Codhes, Comissão Colombiana de Juristas e o Cinep, entre outras organizações, partidos políticos, jornalistas e outros opositores de Uribe; e que toda essa informação chegava ao executivo que estava a par de tudo. Mais claro impossível.


A tudo isto se soma o fato de que a primeira reeleição foi aprovada com base na compra de votos de parlamentares conhecida como o caso da “Yidispolítica” [2], e que agora a burguesia opositora volta a reabrir e a denunciar que não foram somente os três congressistas que estão presos a quem o governo comprou votos em troca de benefícios, mas outros 30 que serão investigados agora.


Além disso, o conjunto de partidos financiados e respaldados pelos paramilitares em diversas regiões foi parte fundamental do aparelho eleitoral que garantiu o grande número de votos em Uribe nas duas últimas eleições, como foi demonstrado no escândalo da “Parapolitica” [3].


A burguesia não se atreve.


A oposição burguesa reabre escândalos a conta gotas, para debilitar Uribe, mas não se atreve a ir além. Mantém viva a lembrança de 9 de abril de 1948 [data de uma rebelião popular conhecida como “gaitanazo” ou bogotazo”, em reação ao assassinato do dirigente do partido liberal Jorge Eliécer Gaitán] e o Desemprego Cívico de 1977, onde a situação lhes saiu do controle sendo que no primeiro caso, teve que recorrer ao General Gustavo Rojas e à sua ditadura.


Portanto, parece que o pacto nacional de 1957 [4] continua funcionando implicitamente, pelo menos no que se refere a não mobilizar as massas para dirimir suas diferenças e interesses. Inclusive utilizando-se de sicários (assassinos pagos) para tirar do jogo um ou outro candidato ou opositor político, antes de ir para a confrontação nas ruas. Como nos casos de Luis Carlos Galã e de Álvaro Gómez.


É compreensível que a oposição burguesa seja vacilante e não se arrisque a se apoiar nas massas para tirar Uribe do poder, porque a grande burguesia e o imperialismo beneficiaram-se de seu governo. Enriqueceram-se, e tudo parece indicar que há um acordo de fato: não derrubar o governo e levar tudo para o terreno puramente eleitoral. Esse é o papel de César Gaviria como chefe da oposição.


.e o Pólo também não


Mas o que é inaceitável é que a oposição de esquerda, encabeçada pelo Pólo Democrático Alternativo, e as direções das centrais operárias não tenham se jogado para derrubar o governo, aproveitando os diferentes períodos de crise para mobilizar as massas e dar um empurrão para que o derrubassem.


Nos últimos anos convocaram-se encontros nacionais e cúpulas sociais para discutir e, semestre após semestre prometeram uma grande greve nacional mais uma vez adiada, ou convertida em uma pequena jornada nacional. Até agora não se conhece um pronunciamento da direção do Pólo ou dos partidos que o conformam, nem das direções das centrais operárias no sentido de impulsionar uma política para derrubar o governo.


E não se pode argumentar que as massas não tiveram disposição de luta. No primeiro semestre de 2007 estudantes universitários e secundaristas, impulsionando os professores, deram exemplo de luta. Mas a direção da Federação Colombiana de Educadores (Fecode), em vez de chamar os demais setores a apoiar e a sair à luta, adiou a greve na educação. Desde então está adiada. No segundo semestre do ano passado os trabalhadores da justiça, os cortadores de cana, os indígenas e outros setores do movimento operário, saíram à luta, mas as direções das centrais operárias estiveram mais preocupadas em desmontar o processo, tomando conflito por conflito, para evitar que se unificassem, em vez de que convocar uma greve nacional. Agora, o que supostamente seria um encontro para votar uma greve nacional, foi convertido em uma cúpula acadêmica para parlamentar.


Conclusão, a fortaleza de Uribe não se pauta na sua suposta capacidade para enfeitiçar as massas, senão na fraqueza da oposição burguesa e no nefasto papel das direções do Pólo e das centrais operárias quando dirigem tudo para o terreno parlamentar e renunciam à mobilização das massas, para derrubá-lo.


Diante disto não resta outra alternativa a não ser impulsionar, a partir  das bases, a unidade da luta, exigindo das direções que rompam sua trégua com o governo, que deixem de iludir com o “governo do Pólo”, e chamem a mobilização para derrubar Uribe. Nós trabalhadores podemos derrubar o regime autoritário e assassino tomando as ruas e paralisando a produção em defesa de nossos direitos; caso contrário a burguesia e o imperialismo o consolidarão para nos impor uma derrota ainda maior, descarregando a crise sobre nossos ombros. Com a direção que temos não há saída. Teremos que construir uma nova direção a partir das bases.


NT:


[1] Lei de Vítimas – norma que previa o pagamento de indenizações a vítimas dos chamados crimes de Estado – execuções extrajudiciais por membros da polícia e do Exército no país;


 [2] Yidispolitica – nome pelo qual ficou conhecido o escândalo de compra de votos para a aprovação de projetos na Câmara e no Senado pelo Governo Álvaro Uribe, entre eles o ato legislativo de reeleição presidencial em 2004;


[3] Parapolitica (ou Para-politica) é o nome como se conhece o escândalo político a partir de 2006, com a revelação dos vínculos de políticos com paramilitares membros das Autodefesas Unidas da Colômbia – AUC (extrema direita armada e, geralmente ligada ao narcotráfico).


[4] Em 1957, deposto o ditador, General Rojas Pinilla, uma junta governativa, a Frente Nacional, organizou uma trégua entre os dois partidos, segundo os grandes caciques partidários, para evitar uma nova recaída na “violência popular”. Celebraram um acordo em que a presidência da república seria alternada, ora ela seria assumida por um liberal, ora por um conservador, fazendo com que o mesmo pacto fosse aplicado equitativamente nas demais instâncias do poder, nos ministérios e governos departamentais.