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O panorama de violência que as agências internacionais de notícias divulgam sobre a Colômbia faz com que, necessariamente, as perguntas que se formulam os leitores desprevenidos, no exterior, se refiram aos fatores e aos agentes que a criaram e a produzem. Narcotráfico, guerrilha e paramilitares ocupam a atenção de quem mostra algum interesse pela situação política e social deste país. No  entanto, por debaixo da estrepitosa guerra entre os aparatos armados da ultra-direita, a guerrilha e as Forças Armadas do Estado, avançam silenciosamente processos estruturais mais profundos, dos quais os meios massivos de comunicação pouco se ocupam.


A imagem estereotipada que o imperialismo e seus propagandistas vendem, para o consumo da reacionária classe média norte-americana e européia, é a de uma narco-república eternamente disputada a balaços por poderosas organizações guerrilheiras e paramilitares, terroristas e narcotraficantes. Mas essa imagem é parcial e oculta uma realidade econômica, política e social muito mais complexa que lhe dá origem, e explica essa outra realidade que é criada pelos fogos de artifício.


Claro que esses fatores de violência existem e têm um peso importante, mas são conseqüência e não a causa da realidade. São elementos que distorcem todos os fatos e fenômenos estruturais da luta de classes. Que a violência na Colômbia pareça não ter fim é a demonstração de que é uma expressão na superfície de realidades estruturais, econômicas e sociais, muito mais antigas, profundas e estáveis.
A violência crônica colombiana não corresponde à necessária violência com a qual as classes e suas lutas transformam a realidade fazendo a História. A violência na Colômbia é perniciosa e retardatária porque é uma violência de aparatos. É uma violência ao lado, e  contra, as imensas massas operárias, camponesas, indígenas e populares.


Obviamente que a violência crônica de hoje tem uma explicação que vem do passado e que se deriva das características específicas do desenvolvimento capitalista do país. Mas nem a violência de hoje tem as mesmas características daquela de quarenta anos atrás, nem os interesses de classe que estão por trás delas são idênticos. Além disso, o uso indiscriminado da violência é  justificado por cada um dos aparatos armados pelo uso que os outros fazem dela, formando assim um círculo vicioso onde é impossível saber qual das violências deu origem às demais.


Violência latifundiária e resistência guerrilheira


Os reacionários latifundiários colombianos sempre armaram exércitos privados de paramilitares para expulsar da terra as camadas mais pobres dos camponeses. Nas décadas de 40 e 50 do século passado, durante o período conhecido como “A violência”, os bandos de paramilitares, chamados “pássaros” em referência às aves de rapina, assassinaram  mais de trezentos mil camponeses e despojaram de suas terras a uma população calculada em seis ou sete vezes mais do que isso.


Os camponeses, organizados no Partido Liberal, criaram guerrilhas de auto-defesa conseguindo o controle territorial em amplas zonas da periferia rural, como nos Llanos Orientais, na fronteira com a Venezuela e nos distritos de Caquetá e Tolima. A traição da direção burguesa do Partido Liberal, que negociou com os latifundiários conservadores a constituição de um regime de alternância bipartidária chamado “Frente Nacional”, levou à derrota a guerrilha liberal. Os mais importantes dirigentes das colunas que se desmobilizaram foram assassinados um a um, desde Guadalupe Salcedo até Dumar Aljure. Algumas frentes menos significativas degeneraram em banditismo comum e se extinguiram, em um combate desigual com o regime. Os setores mais radicais e decididos se defenderam nas chamadas “repúblicas independentes” de Riochiquito, El Pato, Marquetalia e Guayabero. No começo da década de 60, o regime da Frente Nacional atacou violentamente essas trincheiras camponesas, provocando um verdadeiro massacre e obrigando novamente a resistência a retomar o caminho do êxodo guerrilheiro.


Esse ressurgimento da guerrilha se deu por fora do controle do liberalismo, como consequência da traição da direção burguesa. As FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) nascem em 1964 como um exército guerrilheiro dirigido pelos setores mais radicais em ruptura com o Partido Liberal que rapidamente cai sob a influência do aparato estalinista mundial. Essas características do seu nascimento explicam  todos seus rasgos progressivos e suas limitações. As FARC são durante as seguintes décadas a expressão da legítima resistência dos camponeses à violência e ao abuso dos latifundiários, porém seu programa e sua política de conciliação de classes e seus métodos de aparato levaram sistematicamente a luta dos camponeses pela terra a um beco sem saída.


Salvo algumas exceções, muito importantes porém, isoladas, os camponeses colombianos não conseguiram estruturar, durante a segunda metade do século XX, um verdadeiro movimento revolucionário de massas pela terra. As tentativas de recuperação foram, em geral, violentamente derrotadas por uma aliança do regime com os latifundiários. Regra geral, os camponeses que não emigraram para as cidades, fugindo da violência latifundiária, foram para zonas rurais ainda mais periféricas, ampliando a fronteira agrícola. E os latifundiários os empurraram até levá-los ao limite norte da selva amazônica. A baixa fertilidade das terras selvagens e a ausência de infra-estrutura viária obrigaram os camponeses a explorar o único produto eficaz e possível de transportar individualmente: a pasta básica de coca.


A guerra de guerrilhas e as finanças


As FARC, mais que organizar e dirigir a luta dos camponeses pela revolução agrária, acompanharam o processo de deslocamento dos camponeses, expressando sua resistência, mas suplantando sua ação direta. Essa contradição, inerente ao desenvolvimento dos partidos-exércitos guerrilheiros, os obrigou a extrair seus recursos materiais de fontes completamente alheias às da própria luta da classe que representam. Ao não avançar a revolução agrária, em grande medida por sua própria política, as FARC sempre foram obrigadas a recorrer a métodos totalmente estranhos aos métodos revolucionários para financiar-se.


O seqüestro, o “boleteo” – espécie de imposto cobrado por toda atividade agropecuária – e o benefício das “bonanzas” se converteram nas principais fontes de ingressos das FARC, e em geral do conjunto das organizações guerrilheiras colombianas. Os latifundiários, a classe média agrária, os comerciantes das zonas de influência guerrilheira, incluindo as velhas alas liberais que os apoiaram no início, foram obrigados a cotizar, ano após ano, importantes somas aos cofres da guerrilha. As associações patronais do agronegócio calculam em média entre quinhentos milhões e um bilhão de dólares anuais os recursos transferidos à guerrilha durante os últimos trinta anos.


Porém, por mais importante que pareça, essa cifra nunca foi suficiente para financiar o aparato militar em expansão. As FARC e as demais organizações guerrilheiras sempre encontraram uma forma de beneficiar-se das bonanças econômicas para suprir o permanente déficit orçamentário. De algumas centenas de combatentes e poucas frentes na década de 60, as FARC passaram a incluir em suas tropas entre quinze e vinte mil combatentes diretos e a estruturar uma complexa rede de apoio logístico que agrupa entre quarenta e cinqüenta mil ativistas e “trabalhadores”, como eles mesmos se nomeiam. Um aparato dessa magnitude, em uma permanente atividade militar de certa envergadura, é ao mesmo tempo uma insaciável máquina de consumo de armas, equipes de transporte e comunicações, vestuário e alimentos.  

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O camponês, toda vez que foi deslocado pela violência dos fazendeiros, foi em primeiro lugar para as zonas de novas atividades econômicas que lhes permitiam iniciar seu processo de reinserção social. As “bonanças” do café, as esmeraldas, o petróleo, a maconha, a coca e a amapola coincidiram, e não por sorte, com importantes processos de recolonização camponesa, e em menor medida operária, com o surgimento e fortalecimento de novas frentes e organizações guerrilheiras. Acompanhando o deslocamento camponês e popular, a guerrilha se assentou nos lugares de novos processos econômicos e sociais. As importantes massas de novo valor que surgiram dessas atividades econômicas geraram fontes de financiamento adicional para os partidos-exércitos guerrilheiros.


Os benefícios econômicos obtidos por essa via foram no início relativamente marginais. No entanto, a consolidação das atividades econômicas emergentes terminou envolvendo os exércitos guerrilheiros em novas atividades financeiras alheias aos métodos revolucionários tradicionais.


Bonança cocaleira e fortalecimento guerrilheiro
  
As FARC estão, ainda hoje, longe de ser o “principal cartel mundial da cocaína”, como pretendem os propagandistas do imperialismo para justificar sua intervenção militar na Colômbia. Porém, nem os mais intransigentes defensores da guerrilha se animam a desmentir o envolvimento das FARC com o negócio.


Apesar de o tráfico de drogas psicotrópicas ser um negócio capitalista como outro qualquer, ele tem a particularidade de produzir taxas de lucros dezenas de vezes superiores à taxa média, porque a burguesia imperialista o mantém na ilegalidade. E essa mistura de ilegalidade e altas taxas de lucros, sempre e em todas partes, tem gerado setores de burguesia lúmpen, mafiosa, violenta e disposta a tudo para defender seus lucros e tem provocado decomposição em setores importantes das massas e suas organizações.


Todos os economistas e centros que estudam seriamente o fenômeno do narcotráfico, desde Francisco Thoumi (1), assessor do Banco Mundial, até a equipe do lingüista Noam Chomski,  calculam que entre  97% e  98% do lucro do negócio ficam nas mãos das máfias imperialistas que controlam a distribuição ao consumo da droga nas ruas de Nova York ou Madri. Apenas  2% ou  3% vão para as mãos dos traficantes dos países semicoloniais que a produzem e a transportam a droga. No entanto, o volume que alcançou a indústria das drogas e as elevadas taxas de lucros que produzem deixam nas mãos dos traficantes colombianos entre cinco e oito bilhões de dólares por ano, o que pode equivaler a 10% do PIB. Esta, que  é uma cifra considerável para qualquer setor burguês de um país semicolonial, se converteu no principal fator de distorção de todos os processos estruturais econômicos, políticos, sociais e militares do país nos últimos vinte anos.


Em meados dos anos 80 e início do ascenso dos cartéis de Medellín e Cali, a maior parte da pasta básica utilizada na produção de cloridrato de cocaína vinha do Peru e da Bolívia, e apenas uma pequena porção correspondia a cultivos nacionais. Dez anos depois a produção interna havia substituído quase completamente a importação. Isso significou um novo deslocamento dos camponeses, desta vez para a fronteira agrícola da selva tropical colombiana. As províncias  amazônicas de Guaviare, Guainía, Caquetá e Putumayo, as planícies do Meta e o Vichada, e as selvas do Chocó e a Costa Atlântica foram inundados de cultivos de folhas de coca de todas as dimensões. O camponês cocaleiro pobre e médio forneceu durante vários anos aos narcos de Medellín e Cali a pasta básica que eles transformavam em cocaína e a juntavam em grandes carregamentos que introduziam nos Estados Unidos por meio de rotas construídas em colaboração com as máfias norte-americanas.


No entanto, essa sociedade econômica de mútua conveniência duraria pouco. As FARC rapidamente se impuseram como direção dos camponeses cocaleiros, colocando parte de sua estrutura militar a serviço da proteção dos pequenos cultivos contra a ofensiva erradicadora do regime e do imperialismo. Seu acionar afastava as patrulhas militares dos cultivos e dos  laboratórios improvisados  de onde se extraía em forma rudimentar o alcalóide das raspas da folha de coca. Em troca, as colunas guerrilheiras obtinham um imposto, entre 3 e 5% do preço de mercado, por cada quilo de pasta básica que se embarcava para os centros de cristalização. A extensão dos cultivos impulsionou, em conseqüência, o fortalecimento e a extensão das FARC.


O rearmamento paramilitar


A abertura de dezenas de novas frentes guerrilheiras agudizou o choque com os latifundiários e a burguesia agrária, que encontraram aí a justificativa para rearmar os bandos de pássaros  paramilitares.    


O desenvolvimento da indústria obrigou a transferência de parte dos laboratórios de cristalização da cocaína dos arredores de Medellín e Cali para as zonas de cultivo. A grande plantação se levantou ameaçadora ao lado da parcela camponesa e se abriu uma nova versão da luta pela terra. As poderosas e consolidadas máfias de narcotraficantes se aliaram com os latifundiários e os burgueses agrários – muitos dos quais ampliaram suas fortunas e seu poder lucrando com o negócio das drogas – e atacaram novamente os camponeses e o proletariado agrícola. Dezenas de bandos de assassinos foram armados em todo o país com a colaboração, algumas vezes aberta, outras disfarçada, dos diferentes governos e das instituições armadas do regime. Só como exemplo se pode mencionar que o atual presidente, Álvaro Uribe Vélez, anos antes, quando era governador de Antioquia, promoveu e organizou as cooperativas de autodefesa “Conviver”, base sobre a qual se desenvolveram os bandos paramilitares de Córdoba e Urabá – onde ele é grande latifundiário -, que se distinguem por sua agressividade e crueldade. Entre quinze e vinte mil mercenários foram armados, financiados e justificados como parte da estratégia geral contra insurgente da burguesia e do imperialismo.


O resultado da nova ofensiva contra-revolucionária é uma verdadeira catástrofe social. Os crimes mais atrozes foram cometidos na Colômbia nos últimos vinte anos em nome da defesa das instituições democráticas. Milhares de ativistas e dirigentes operários, camponeses e populares assassinados a cada ano.  No começo dos anos 80, a União Patriótica, o partido construído pelas FARC, ao tentar sua legalização política, foi exterminado fisicamente. Um exército de errantes de três milhões de desalojados pela guerra sem saída em que estão envolvidos os aparatos da guerrilha, os paramilitares e as forças armadas do Estado. E, entre cinco e seis milhões de hectares arrebatados dos camponeses pobres e médios.     
  
Burguesia, paramilitares e genocídio


Calcula-se que nas décadas de 80 e 90 o tráfico de drogas representou até 30% do crescimento anual da economia do país. Isto explica em parte a relativa estabilidade colombiana em comparação com a crise do restante dos países da América Latina. O conjunto da burguesia colombiana se beneficiou, direta ou indiretamente, do narcotráfico. Os comerciantes multiplicaram seus lucros, abastecendo os mafiosos dos mais extravagantes e inúteis bens de consumo luxuosos. Os banqueiros aumentaram suas reservas líquidas, administrando e lavando os excedentes do negócio. Grandes industriais evitaram as crises financiando operações de envio de  carregamentos de drogas. Importantes empresas de construção se aliaram aos chefes dos cartéis para financiar e desenvolver enormes projetos urbanísticos, comerciais e de moradia.

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Mas o benefício não foi apenas econômico. A grande burguesia nacional, as multinacionais no país, os diferentes governos e o imperialismo tiraram grande proveito dos bandos de assassinos organizados pelos narcotraficantes  para expulsar os camponeses, lutar contra a guerrilha ou simplesmente dirimir suas divergências. A burguesia encontrou nesses bandos o instrumento para desfazer-se dos militantes de esquerda, dos dirigentes sindicais e populares e até dos opositores burgueses que se tornavam incômodos.


As burguesias nacional e imperialista banharam o país em sangue operário e popular, sem ter que sujar as mãos diretamente. Os narcos e seus bandos de assassinos se encarregaram de fazer o trabalho sujo. Lançava-se contra todo aquele que devesse ser retirado do meio acusação de manter alguma relação com a guerrilha, real ou construída, e era assassinado com total impunidade. Milhares e milhares de ativistas e militantes foram mortos. Desconhece-se a cifra exata. Perdeu-se pela constância dos assassinatos diários. Ninguém sabe o número. As direções burocráticas, reformistas e traidoras dos grandes sindicatos e dos partidos majoritários da esquerda foram insensíveis diante da magnitude do massacre. No entanto, se nos ativermos à média dos anos nos quais os registros foram mais ou menos cuidadosos, podemos dizer com alguma certeza que o número de mortos declarados pelas direções sindicais e políticas nos últimos vinte anos pode chegar aos dez mil. O movimento operário e popular na Colômbia foi decapitado. Os dirigentes sindicais caíam assassinados e os capitalistas olhavam para outro lado como se não tivessem nada a ver com isso. Nenhuma denúncia de cumplicidade dos patrões com o genocídio foi adiante. Tudo aparecia como responsabilidade de um abstrato “fenômeno paramilitar” organizado e dirigido nas sombras por “forças ocultas”, que a burguesia, o governo e o imperialismo eram “os primeiros em condenar”.


Morreram centenas de professores, petroleiros, cimenteiros, metalúrgicos e bananeiros. Operários e dirigentes sindicais de multinacionais como Coca Cola, Renault e Nestlé caíram vítimas dos assassinos sem que jamais fosse citado e muito menos preso um único patrão ou alto funcionário dessas empresas. Milhares de dirigentes e simples camponeses e membros das comunidades indígenas foram brutalmente assassinados.


Paramilitarismo e regime político


Seria impossível levar adiante uma ofensiva contra-revolucionária de tal magnitude, que apelou para os mais violentos métodos de guerra civil contra a população indefesa, sem a colaboração aberta do imperialismo, do regime e dos diferentes governos que assim procederam. Os grupos paramilitares foram armados e financiados com dinheiro proveniente das enormes taxas de lucro do negócio do narcotráfico, com os aportes dos latifundiários e da burguesia industrial, com as apropriações orçamentárias especiais com que sempre contam as forças repressivas do Estado burguês para as operações encobertas e com as “contribuições” que o imperialismo introduz clandestinamente, por meio de suas agências de inteligência contra-revolucionárias, como a CIA e a ANS.


A cumplicidade do exército e da polícia com alguns dos maiores massacres cometidos pelos paramilitares, como os de La Gabarra no nordeste do país e Mapiripán no sul, foram tão evidentes que a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado a indenizar os familiares das vítimas. Contra sua vontade, o regime se viu obrigado a destituir e processar a altos oficiais comprometidos nos massacres e assassinatos. Muitos dos comandantes paramilitares são oficiais reformados do exército e da polícia que se relacionaram com eles, estando em serviço, protegendo os laboratórios dos narcos e cobrando por isso grandes somas de dinheiro.


Nos últimos dias tornou-se pública, por meio de alguns dos mais importantes meios de comunicação, uma realidade que todo o país sabia que existia, mas que ninguém podia demonstrar porque o Estado se encarregava de ocultá-la como informação de segurança nacional. O ex-diretor do Departamento Administrativo de Segurança – DAS (aparato armado que atua como verdadeira polícia política sob as ordens diretas do presidente da república), nomeado por Álvaro Uribe, foi acusado diante da Fiscalia por seu ex-chefe de informática de facilitar listas de dirigentes sindicais e populares aos paramilitares para que fossem assassinados. Em conseqüência do escândalo se fizeram públicas declarações de ex-agentes do DAS que confessaram sua participação direta, como autores materiais, nos assassinatos   


Guerra e paz: ambigüidades políticas


Esse genocídio, que significa uma enorme derrota para a classe operária e os trabalhadores colombianos, é fruto da combinação da ofensiva burguesa contra-revolucionária e da colaboração das direções do movimento de massas que, por ação ou por omissão, foram incapazes de organizar a resistência e de orientar a luta direta para detê-lo. E nessa direção há que incluir às organizações guerrilheiras que, com seu funcionamento isolado do movimento, com seus métodos opostos aos métodos revolucionários e sua política ambígua de seguir adiante com uma guerra de aparatos sem saída, ao mesmo tempo que clama por uma negociação com o regime, contribuem para desorganizar a luta de massas e facilitam à burguesia, aos latifundiários e ao imperialismo a justificativa da repressão oficial e paramilitar.


Todas as direções sindicais e políticas reformistas estão unificadas em torno da exigência de “saída política negociada ao conflito armado”. Essa exigência expressa um  reconhecimento tácito do fracasso da estratégia guerrilheira na Colômbia que, diferente das experiências cubana e nicaragüense, nunca chegou a empalmar com o ascenso revolucionário das massas urbanas e rurais, sem a qual é impossível o triunfo de algum aparato guerrilheiro. Esse divórcio se produz pela mesma combinação da crueldade com que a burguesia e os latifundiários debilitaram a vanguarda operária e popular e o método messiânico com que os aparatos guerrilheiros avançaram a guerra. Faz muitos anos que as FARC e o ELN tiraram da sua propaganda e da sua agitação o chamamento à mobilização dos trabalhadores da cidade e do campo contra o regime político e em defesa de suas reivindicações básicas, e qualquer referência à revolução socialista. As ocasiões excepcionais em que a guerrilha  mobilizou aos camponeses foi mais com o objetivo de obstaculizar as ofensivas militares do regime do que uma verdadeira estratégia de revolução agrária. A propaganda escrita e os comunicados que as FARC enviam permanentemente pela internet estão cheios de frases contra o governo e o imperialismo, mas nada dessa fraseologia se traduz em organização e mobilização dos setores que influenciam, contra o regime. O trabalho urbano das FARC, por intermédio do Movimento Bolivariano,  se limita a reproduzir nas cidades o método do atentado isolado e da ação heróica. Com isso, o único que conseguem é justificar a repressão nas cidades contra a classe operária e os setores populares e estimular e dar argumentos para a formação de bandos de assassinos nos bairros periféricos que já assolam zonas completas em Bogotá, Medellín e Cali. Essa estratégia de abertura do trabalho urbano tampouco é posta a serviço da mobilização. Atua  centralmente para proporcionar apoio logístico à guerra nas montanhas, para recrutar combatentes que logo vão para as frentes tradicionais e como representantes urbanos da política capituladora da solução política ao conflito.

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As FARC são um aparato militar muito poderoso e difícil de derrotar no enfrentamento direto. Nem as forças armadas, nem os paramilitares, nem as centenas de assessores do imperialismo, nem a colaboração de todos esses agentes  puderam derrotá-las. No entanto, as FARC, se não se une a um levantamento revolucionário urbano e camponês, tem  poucas possibilidades de derrotar ao regime e tomar o poder. Paradoxalmente, quanto mais se fortalece seu aparato militar, mais se reduz sua influência política e o apoio de setores importantes do movimento de massas.


No outro extremo, a burguesia, os latifundiários e o imperialismo têm vários problemas e diversas estratégias para solucioná-los. Em primeiro lugar, não conseguem derrotar militarmente a guerrilha, apesar dos imensos recursos destinados pelo regime, do orçamento nacional, e dos milhares de milhões de dólares que o governo americano injeta por meio do Plano Colômbia e do Plano Patriota. As forças armadas insistem em sua estratégia de perseguição, com a qual obtêm alguns triunfos e sofrem sistemáticos golpes e derrotas. Não abandonam sua estratégia de desgaste e continuam estimulando o acionar dos paramilitares contra os dirigentes de massas e contra os setores que proporcionam apoio logístico ou político às frentes guerrilheiras. Fazem uma sistemática campanha ideológica e política cada vez que a guerrilha promove emboscadas contra as patrulhas militares, cada vez que protagonizam um seqüestro ruidoso ou cada vez que as milícias urbanas ativam um explosivo, com o mencionado saldo de habitantes distantes do conflito que acabam mortos ou afetados.


A burguesia, assim como a guerrilha, tem uma dupla política. Acentua a guerra, a aberta e a suja, e faz um discurso pacifista que traz implícita a exigência à guerrilha da sua rendição incondicional. Utiliza as negociações de paz, quando as apresenta, para questionar a base política da guerrilha. Essa foi a vitória mais importante da política do governo anterior. Andrés Pastrana fez todas as concessões que a burguesia podia permitir. Chegou ao extremo, nunca imaginado, de esvaziar uma zona de quarenta mil quilômetros quadrados e  entregar às FARC para que concentrassem suas forças e para adiantar as negociações de paz. Quando a trégua foi rompida, a burguesia havia conseguido debilitar o apoio político interno e externo com que contava essa organização guerrilheira, ao fazê-la aparecer como intransigente e responsável pelo conflito.


Não obstante, essa estratégia se debilita pela existência dos bandos paramilitares. A burguesia colombiana, apesar de que avança em apresentar as organizações guerrilheiras como terroristas, não consegue convencer ninguém do seu papel de vítima, pelos crimes atrozes que seus bandos de assassinos cometem diariamente. Essa é uma entre as muitas das razões que obrigam o governo de Uribe Vélez a aparentar uma estratégia de desmonte dos grupos paramilitares. Claro que o imperialismo, que vê na existência dos paramilitares um obstáculo importante na luta contra as máfias de narcotraficantes, pressiona por seu debilitamento e controle. Convém a todos dar a aparência de que está sendo desmontada a estrutura do paramilitarismo, mas, na verdade, só estão confinando e localizando. Esta política lhes permite um duplo benefício político: aparentam uma atitude pacifista da ultra direita com a qual golpeiam politicamente as organizações guerrilheiras, e na realidade mantêm intacto um aparato militar contra-revolucionário que lhes foi útil e que podem voltar a utilizar contra o movimento de massas no momento em que for necessário. Para conseguir esse duplo objetivo, o governo aprovou no Parlamento leis que lhes concedem a impunidade pelos milhares de crimes cometidos, que tratam de proteger os grandes chefes contra as solicitações de extradição levadas pelo imperialismo e que lhes garantem a conservação das terras arrebatadas pela força, dos camponeses.           


Guerra de aparatos ou guerra de classes


Esse estranho equilíbrio, esse sinistro estado de coisas, é o que torna perniciosa a guerra de aparatos que ocorre na Colômbia e a mostra como aparentemente interminável. Porém, ao compasso do ascenso e da resistência dos trabalhadores na América Latina e das lutas da juventude operária e dos imigrantes na Europa e nos Estados Unidos, o movimento revolucionário colombiano iniciou sua recuperação. O processo de usurpação dos camponeses e os planos de superexploração, que a patronal e o imperialismo impuseram aos  trabalhadores nas cidades fizeram com que 60% da população (vinte e seis milhões) vivam na mais completa pobreza, obrigados a sobreviver com menos de dois dólares por dia, e oito milhões vivem na indigência. A classe operária, sobretudo sua juventude, chegou ao limite do fisicamente suportável e começa a expressar sua disposição a retomar a luta.


Hoje, os sintomas são apenas perceptíveis na superestrutura política, onde se expressam com o aumento da abstenção eleitoral (mais de 60% nas últimas eleições parlamentares) diante da ausência de uma alternativa que ofereça saída às suas angústias. Um indício mais claro de recuperação são as mobilizações e as ocupações de terras que os indígenas protagonizaram no ano passado, resistindo heroicamente à repressão policial. É importante também o ânimo que existe entre a juventude dos colégios secundaristas e em algumas universidades públicas. Sua receptividade à propaganda socialista revolucionária demonstra que já não é tão fértil o campo para a ideologia que o imperialismo construiu sobre a base da derrubada da URSS e  demais Estados Operários da Europa Oriental.


Profundos processos estruturais se puseram em movimento na Colômbia e sobre eles deve atuar o partido revolucionário e a Internacional. É a única rota firme para construir uma alternativa de direção política que possa conduzir ao novo proletariado pelo caminho da superação da guerra de aparatos que desgarrou a gerações inteiras de lutadores e sua conversão em uma verdadeira guerra de classe que imponha um governo operário e popular que inicie a construção do socialismo.


(1) Ver THOUMI,  Francisco, Economía política y narcotráfico. Tercer Mundo Editores, Bogotá.      


Tradução Néa Vieira