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A luta dos trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago tornou-se emblemática. Não apenas pela força dos trabalhadores na defesa das fontes de trabalho e suas conquistas históricas. Mas, porque é uma luta em defesa da soberania e a indústria naval estatal.

Por: Víctor Quiroga

Os companheiros demonstraram uma grande vontade de lutar. Mobilizaram-se, enfrentaram à repressão, tomaram a fábrica com todos os empregados no seu interior, ocuparam o Ministério da Economia da Província de Buenos Aires; arrancaram compromissos da Governadora Maria Eugenia Vidal de fornecer os insumos necessários para continuar trabalhando. A Igreja, através da Pastoral Social, participou como “mediadora”, mas com o real objetivo de “pacificar os ânimos”.

Ainda que não se possa confiar em nenhum papel assinado por um governo de mentirosos e vigaristas, ou confiar nos padres, os trabalhadores conseguiram pequenos triunfos que devem ser defendidos agora com a luta e a mobilização. Uma conquista importante foi a plenária com uns 500 delegados de diferentes sindicatos que votaram por um Plano de Luta. E agora se prepara outra para a continuidade das lutas. Sem dúvida esta luta é de todos e devemos cercá-la de solidariedade. Com ampla unidade podemos ganhar.

“Dinamitar o Estaleiro”: um novo ataque à Soberania Nacional

O Estaleiro Rio Santiago chegou a ser o Estaleiro mais moderno da América Latina, construiu a Fragata Liberdade[1], navios transportadores de grãos, navios-tanques, petroleiros de grande porte e diferentes navios e embarcações militares.

Apesar de sua capacidade de produção, e da diversidade de tarefas que realizou (trabalhos para Yaciretá (Central Elétrica), YPF (petroleira), etc.) Macri-Vidal querem destruí-lo.

O jornalista Omar Zanarini, da Rádio Gráfica, assegura que “Vidal planejou a destruição do Estaleiro Rio Santiago com perseguição contra os trabalhadores e os sindicatos”. Teria vazado um documento confidencial sobre um “plano abrangente que contemplaria diferentes agendas, econômica, Judicial, Pública”, para criar um verdadeiro “inimigo interno” para facilitar os ataques ao estaleiro e seus trabalhadores.

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Daí a campanha “há 10 anos que não fabricam um navio”, instrumentada pelo jornalista Lanata e outros meios de comunicação próximos ao Governo. O objetivo seria fechar o Estaleiro ou “reconvertê-lo”, com um número mínimo de trabalhadores, e a possibilidade de privatizar uma parte.

Já nos anos 90, uma dura luta freou as tentativas de privatização do então Presidente Menem, embora avançasse com a privatização dos portos, a destruição da indústria naval e a liquidação da ELMA (nossa linha marítima estatal), entre outros ataques.

Agora Macri-Vidal voltam à carga para “dinamitar o Estaleiro” e, além disso, abrir caminho para o ajuste do FMI contra os trabalhadores em toda a província.

O discurso da governadora quer ganhar adeptos denunciando “as máfias e negociatas” e de querer um “Estaleiro produtivo”, mas a realidade mostra de onde vem o ataque. Cambiemos (coalizão política que elegeu Macri e Vidal, ndt) como denunciaram os trabalhadores, comprou da França – sem licitação – quatro navios de guerra, e lanchas israelenses por mais de 300 milhões de dólares, quando essas mesmas embarcações podem ser fabricadas no Estaleiro pela metade desse valor.

Não é culpa dos operários dos Estaleiros que não haja produção. Existem dois navios petroleiros encomendados pela Venezuela em etapa final, mas que não podem ser entregues devido à falta dos insumos necessários que o Governo se nega a fornecer.

Um programa anti-imperialista para defender nossa soberania

Embora durante o governo de Néstor Kirchner tenha sido assinado um acordo com a Venezuela para a construção de vários navios, o que permitiu a manutenção das fontes de trabalho, isto não fazia parte de um plano estratégico de recuperação da indústria naval estatal. O mais grave é que as principais privatizações de Carlos Menem nesta e outras frentes não foram revertidas: os portos permanecem em mãos privadas, as principais exportações do país nas mãos de multinacionais e grandes produtores, bem como o transporte marítimo.

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A defesa do Estaleiro Rio Santiago é uma luta pela indústria naval 100% estatal. Mas deve ser parte de um plano estratégico anti-imperialista para recuperar nossa soberania. Nossa produção naval e a frota mercante, a reestatização de todos os portos com o controle de seus trabalhadores.

Essas primeiras medidas para recuperar e alavancar a indústria naval, e os portos devem ser parte de um plano mais geral, operário e popular, de ruptura com o imperialismo, anticapitalista, começando por não pagar a Dívida Externa, estatizar os bancos e todo o sistema financeiro, as multinacionais do campo, a energia, a mineração, etc.

E junto com isso, é necessário reconstruir os Conselhos Nacionais de Carnes e de Grãos que sejam os que compram a totalidade da produção e comercializam nossas exportações de trigo, soja, milho e a carne.

Desta maneira o Estado e os trabalhadores poderão exercer controle sobre os preços desses alimentos básicos (como a carne e a produção de farinha e seus derivados).

Acreditamos que as organizações operárias devem encabeçar essa luta junto com as organizações sociais e populares. Os companheiros honestamente anti-imperialistas devem exigir dos dirigentes que pretendem ignorar os acordos com o FMI, e os rejeitam, a apoiar a luta do Estaleiro, impulsionar a mais ampla unidade para enfrentar o imperialismo agora. Não podemos esperar pelas eleições de 2019.

Somos conscientes que este programa que propomos só pode ser realizado – em conjunto com as medidas imediatas necessárias para poder comer, se curar e estudar – por um governo de nossa classe. Isto é um Governo Operário e Socialista.

[1] A Fragata Liberdade, navio-escola, construída em 1962, bateu o “recorde mundial” de velocidade dos grandes veleiros ao atravessar o Oceano Atlântico Norte, em 1966, cobrindo uma distância de 2.058,6 milhas náuticas em 8 dias e 12 horas, entre Cabo Race (Canadá) e a linha imaginária entre Dublin e Liverpool, ndt;

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Tradução: Rosangela Botelho