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Desde a última quinta-feira, 21 de novembro, a Colômbia não é mais a mesma. Em todo o território, as maiores mobilizações das últimas décadas,  encheram as ruas das grandes cidades até grande parte dos municípios do território colombiano.

Por: PST-Colômbia

Essas mobilizações que tiveram continuidade nos panelaços e inúmeras mobilizações que brotam em todos os cantos, especialmente em Bogotá e outras grandes cidades, notificaram a burguesia da rejeição maciça ao governo Duque, seu pacote contra os trabalhadores, sua cumplicidade com os assassinatos seletivos, genocídio indígena e violência em geral.

Declaração política do Partido Socialista dos Trabalhadores

 Com a alegria e a emoção de se sentir parte de um processo coletivo de milhares, vive-se a fraternidade, a criatividade e a alegria das mobilizações contra Duke, que também se expressam na resposta corajosa dos manifestantes e da população à violenta repressão policial. . Em todos os momentos do dia, as consignas que explodem repentinamente em qualquer esquina são respondidos por outros; marchas espontâneas emergem e convergem nos pontos de panelaços que continuam ressoando a noite toda. A questão do desemprego e os problemas do país são tocados em todas as conversas; não mais no meio de um processo eleitoral, mas no meio do verdadeiro motor da história: a luta de classes.

Colômbia: o país da desigualdade social

A Colômbia é o terceiro país mais desigual do mundo, depois de Angola e Haiti, e o segundo no continente. Neste país, os 10% mais ricos concentram metade da riqueza do país e, dentro dessa minoria privilegiada, 1% acumula mais de 20% da renda. Por outro lado, os 10% mais pobres mal podem possuir menos de 4% da riqueza.

Essa pobreza é mais aguda quando vamos para o campo, onde a pobreza é maior e a concentração de terra, especialmente as mais férteis e produtivas, estão nas mãos dos latifundiários, que a apropriaram graças a mais de 70 anos de violência sistemática contra os camponeses e os povos negros e indígenas. Além disso, a desigualdade e as marcas deste sistema são expressas como maior crueldade nos setores mais explorados e oprimidos da população, especialmente contra as mulheres, povos indígenas, negros/as, população LGBTI e a juventude.

A resposta real à crescente miséria social é a repressão para aqueles que expressam o descontentamento com luta. Nos governos de Uribe, Santos e Duque, os Esquadrões Móveis Antidistúrbios (ESMAD) aumentaram sua tecnologia e seu orçamento. 837 lutadores sociais, entre os quais há mais de 135 ex-combatentes da guerrilha1. Além de negar a natureza sistemática dos crimes, o governo tenta mascará-los com o rótulo de “crimes passionais”, “ajustes de contas” e outras infâmias para esconder a verdade: o extermínio contra aqueles que lutam.

Colômbia desperta de feitiço autoritário

O modo de agir da reacionária e sangrenta burguesia colombiana não é patrimônio exclusivo. Em toda América Latina e no Caribe, surgem lutas contra os governos que impõem planos de ajuste e superexploração em nome do FMI, enquanto enchem seus bolsos com as fatias da corrupção. Todos aplicam o essencial dos planos imperialistas: austeridade, corte de direitos, superexploração e repressão para os que estão embaixo; subsídios, planos de resgate e corrupção impune para os de cima.

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É por isso que explodiram no Equador contra a alta dos combustíveis, no Haiti contra o governo corrupto de Moïse, em Honduras contra o governo fraudulento de Juan Orlando Hernández, na Bolívia contra o golpe militar de direita e no Chile contra o governo de Piñera e todo o regime herdado da ditadura de Pinochet. Mas, essa onda de lutas e insurreições também atinge outras partes do mundo. Hong Kong, Catalunha, Líbano também fazem parte desse processo de massas contra os governos burgueses.

Hoje, na Colômbia, como no resto dos países, é a juventude, a quem roubaram seus direitos e seu futuro que foi às ruas para forjar na luta seu próprio futuro. São os jovens dos bairros populares que só recebem repressão e estigmatização do Estado. São os jovens das universidades públicas que estudam em prédios que desabam devido à falta de orçamento. São jovens de universidades particulares hipotecados aos créditos leoninos de Icetex para obter um diploma que nem garante a sobrevivência. Também é a juventude precarizada, que não sabem mais o que são estabilidade e direitos trabalhistas mínimos; os trabalhadores, os indígenas, os camponeses e outros setores vítimas da voracidade capitalista, saíram às ruas para marchar e bater panelas, tomam as ruas e enfrentam a repressão policial.

Medo das massas nas ruas: burguesia e burocracia

As mobilizações massivas e os panelaços ensurdecedores ressoam nos ouvidos atordoados daqueles que mantêm privilégios mesquinhos nessa sociedade decadente. A burguesia reacionária está muito nervosa. Da soberba segurança de algumas semanas atrás, de que o incêndio na América Latina era um problema em outros países, ficaram com medo diante do chamado que crescia. Agora, o terror ante as lutas que não param torna seus privilégios ameaçados. Hoje eles buscam, por todos os meios, reprimir o incêndio que cresce ao seu redor.

 

Até a unidade entre as fileiras do setor burguês em torno do governo, com as quais a Lei de Financiamento e o Plano de Desenvolvimento foram votados livremente no Congresso, hoje revela as fissuras internas. Isso mostra um governo que se enfraquece diante das contradições internas e do crescimento da mobilização.

O transbordamento sem precedentes da mobilização também assusta as burocracias sindicais das centrais operárias e suas lideranças políticas, partidos burgueses e reformistas na oposição parlamentar. O controle que exerceram durante anos do movimento de massas lhes permitiu acumular privilégios que colocam a serviço de suas estratégias fundamentais: dosar e fazer a luta e a mobilização a serviço da conciliação e de sua estratégia eleitoral

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Hoje, essa política traiçoeira da conciliação busca a todo custo negociar o mais rápido possível com o governo, privilegia os pactos com todos que querem sufocar a mobilização, dando as costas aos que lutam dia após dia nas ruas e noite após noite nos panelaços nos bairros e praças e aqueles que enfrentam a repressão policial na linha de frente.

Prova disso é a carta enviada em nome do Comitê Nacional de Paralisação a Duque exigindo uma mesa de diálogo. Esta carta sai sem ter consultado ou discutido na própria comissão e menos ainda com as assembleias populares, e acomodando às necessidades da paralisação aos interesses parlamentares, aceitando de fato que Duque fica e desprezando o clamor popular que exige sua queda e moderando a exigência, mais do que urgente, de desmontar o ESMAD por um “regulamento”.

Mas, como na França, com os coletes amarelos e no Chile, as massas continuam firmes nas ruas, com oscilações, mas com a consciência de que esse despertar ultrapassou o controle de qualquer aparato e que não pode acabar em promessas de superficiais acertadas burocraticamente por cima.

Não há conciliação nem diálogo possível com Duque

 “Do que você está falando, velho?”[1] É a resposta de um governo que conhece apenas a linguagem do lucro e do capital. Duque não sabe, nem quer, nem pode ouvir as demandas daqueles que protestam; portanto, ao abrir um “diálogo nacional” para ouvir os empresários e seus sindicatos, ignora qualquer diálogo e negociação com os setores em luta. É por isso que, enquanto ressoavam os panelaços e os atordoadores da ESMAD, o governo aprovou o Holding Financeiro que deixa os recursos de milhares de trabalhadores estatais nas mãos do setor financeiro, implementa a todo custo sua reforma tributária que reforça um dos sistemas tributários mais regressivos do planeta e ratifica toda a sua política.

Para quem luta, a única resposta que o governo conhece é a repressão. É por isso que ele responde, as manifestações, pacíficas ou não, da mesma maneira com os gases, golpes e tiros da ESMAD; com a militarização de estradas e cidades e com medidas próprias de ditaduras como o Toque de Recolher, acompanhadas pela estigmatização do protesto, do direito legítimo de responder às provocações e à repressão.

É por isso que não há reivindicação nem transformação à altura da força do movimento que seja possível com este governo e com esse regime. Só será possível arrebatá-las se a mobilização independente nas ruas for mantida e aprofundada. O governo Duque é o governo das elites burguesas, latifundiários e paramilitares que há décadas defendem seus interesses à custa da mais cruel violência política e econômica contra os trabalhadores e o povo. Duque, Uribe e sua gangue só respondem à voz de seu amo, o imperialismo e burguesia. Por isso, a mobilização deve ter como objetivo a queda desse governo e de todas as suas políticas, discutindo democraticamente entre os que lutam, quais são as saídas políticas, econômicas e sociais que podem resolver às demandas mais sentidas da população.

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Assembleias que decidam o rumo da luta

Mas outros processos tem mostrado que não é suficiente a espontaneidade e o radicalismo das lutas, principalmente da juventude. O governo e todos aqueles que conspiram contra a luta também jogam a carta do desgaste. Se não conseguirmos organizar a luta, em todas as fábricas, em todos os bairros, em todas as escolas e universidades, em cada lugar, em cada quadra, o fervor da luta se dissipará. É necessário realizar assembleias de base e exigir que seus delegados sejam os que decidam no Comitê Nacional de Paralisação e na assembleia nacional.

É por isso que esse despertar do feitiço autoritário, da consciência e confiança na luta coletiva, deve transcender a consciência que acompanha as verdadeiras mudanças na história: a consciência e a decisão de tomar nosso destino em nossas próprias mãos. Transformar o descontentamento e a explosão social em uma verdadeira revolução que fará com que os que estão  em cima nunca mais sejam capazes de governar livremente para satisfazer suas ambições. Temos que ser os que estão em baixo, os trabalhadores e o povo, que realmente produzem a riqueza do país e do mundo que forjemos nosso próprio destino.

E para isso é necessário construir um partido revolucionário, não apenas na Colômbia, mas no mundo que se proponha a conduzir essa mudança em todo o mundo. É por isso que construímos o Partido Socialista dos Trabalhadores na Colômbia, o Movimento Internacional dos Trabalhadores no Chile e em outros países do mundo construímos a Liga Internacional dos Trabalhadores. Essa é a nossa estratégia e convidamos você a participar e construir ativamente.

Abaixo Duque e seu pacote de superexploração econômica! Salário mínimo de 1500.000 pesos!

Contra a repressão ao protesto social, exigimos o desmantelamento da ESMAD e a desmilitarização da vida civil!

Chega de assassinatos dos lutadores sociais! Punição dos culpados materiais e intelectuais! Diante de cada assassinato, greve nacional imediata!

Pela unidade da luta internacional e latino-americana, não pagar a dívida externa!

Pela derrota do capitalismo explorador, governo operário e popular!

[1] “¿De qué me hablas, viejo? Foi a resposta de Duque a um jornalista que lhe perguntou sobre a operação de bombardeio em  Caguan onde morreram pelo menos oito jovens.