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Entrevistamos Daniel Ruiz, dirigente sindical petroleiro e da direção do PSTU, preso político há nove meses por participar das manifestações contra a reforma previdenciária. Conversamos sobre sua detenção, sobre sua candidatura a deputado, sobre as eleições e a situação do movimento operário. 

Por ANRed

18 de dezembro de 2017 foi um dia de luta. Enquanto no Congresso os deputados debatiam sobre a reforma previdenciária, fora a polícia distribuía gases e balas para as centenas de milhares de manifestantes que se opunham a um novo roubo contra os e as aposentadas. Daniel Ruiz participou desse feito: ele viu como a polícia avançava e como as pessoas não recuavam. 9 meses depois, em 12 de setembro de 2018, a mídia estampou: “O dirigente petroleiro, Daniel Ruiz, do PSTU, é detido”.

Daniel Ruiz, dirigente sindical petroleiro de Chubut e dirigente do PSTU e da Liga Internacional dos Trabalhadores, foi preso por ordem do juiz federal Sergio Torres e preso no Complexo Penitenciário de Marcos Paz. Como César Arakaki, Dimas Ponce, Sebastián Romero e uma centena de manifestantes, Ruiz foi um dos perseguidos pela ministra da Segurança Patricia Bullrich e pelo governo de Mauricio Macri.

9 meses depois, no quartel da linha 60, um celular toca: “Esta ligação vem de uma prisão”.-Olá?-Olá, sim, que tal …Daniel?Sim, Daniel, bom dia. Aqui calma com os companheiros no pavilhão.-Em caso de corte, você quer dizer o mais urgente, o que você quer comunicar?

– Sim, o que eu gostaria é de expressar a todos os companheiros, das organizações e trabalhadores em geral que o meu confinamento aqui não se deve a uma ação diretiva, mas a uma mensagem para a luta dos trabalhadores. E basicamente ao freio que foi dado às reformas que o governo Macri queria impor em dezembro de 2017, que era a reforma trabalhista, avançar com a reforma tributária e avançar ainda mais com a reforma previdenciária. Bem, em resposta a tanta fome e tanta miséria, o povo trabalhador foi às ruas e, como resultado dessa enorme mobilização, precisaram encontrar algum culpado para frear a resistência dos trabalhadores. E dentro disso há uma série de companheiros que são imputados nesta causa: há 118 no total, há o camarada Romero, Arakaki, Dimas Ponce, o camarada da UOM e eu que estamos sendo detidos pela mesma causa.  

– Por que no caso de Arakaki, de Ponce, eles puderam se libertar e você continua detido?

Basicamente, o que o juiz investigador, que foi quem os libertou e quem ordenou a minha prisão, é que no momento em que supostamente cometeram algum ato criminoso, Arakaki e Ponce foi depois do que eu supostamente havia começado. Para mim, do que eles alegadamente me acusam é de intimidação pública; ao que dizem que a partir das 12 horas eu estaria fazendo ações com essa imputação. Esse foi um dos determinantes jurídicos, pelos que os camaradas estão em liberdade; mas isso responde a outra situação, ou seja: fui preso em setembro do ano passado e os colegas foram presos imediatamente após a mobilização. 

Um grupo atravessa o portão de entrada e buzina. A chamada é cortada. Alguns segundos depois, Daniel continua:

Eles me detiveram no dia da greve nacional da ATE em defesa dos Estaleiros, foi basicamente uma resistência, vendo que o ano eleitoral estava chegando eles queriam parar as lutas. Coisa que não aconteceu. Além da minha detenção e das arbitrariedades de todos os juizes de instrução, procuradores, o Tribunal Oral número 3, o Ministério Público número 4, eu ainda continuo detido enquanto eles rejeitam cada um dos pedidos de liberação de acusações que são passíveis de libertação; não respondendo a artigos do próprio Código Penal que me beneficiariam com uma liberdade condicional. E mesmo assim, tanto a Câmara número 1 quanto a Cassação, e a Corte de Apelações, como cada um dos promotores, colocaram obstáculos para que eu permaneça na detenção. Por ordens do Ministério da Segurança, Patricia Bullrich e também do Governo Nacional.  

Daniel fala nitidamente e sem rodeios. No fundo se pode ouvir alguns ruídos vindos do pavilhão. Eu pergunto a ele sobre a campanha por sua libertação, Daniel responde:

Felizmente, a solidariedade operária e popular neste país é muito grande, há uma rejeição das políticas que têm a ver com a repressão e a partir disso que este povo todo dia 24 de março sai a lutar pelo Nunca Mais, faz com que haja muitas organizações, não só de direitos humanos, mas sociais, sindicais, estudantis, barriais que apoiam minha libertação, e que tem crescido com o passar dos dias e meses. Eu não posso deixar de agradecer a cada dos esforços que fazem tantos companheiros em todo o país pela minha liberdade. E foram emitidos não apenas por setores de esquerda ou combativos, mas também setores do próprio PJ e até inclusive vereadores do PRO se manifestaram pela minha liberdade, uma vez que é perceptível que há uma crueldade. E há uma questão que faz fronteira com as questões mínimas das garantias democráticas.

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Enquanto Daniel Ruiz se encontra detido, do lado de fora, a Frente de Esquerda em Unidade, luta por sua candidatura.

Fizemos uma proposta quando foram as primeiras eleições de governador e dos deputados provinciais em Chubut, solicitamos à Frente de Esquerda se havia a possibilidade de me apresentar como candidato para aproveitar o processo eleitoral para aprofundar minha campanha. Para essas eleições gerais, a Frente de Esquerda, mais os grupos que se juntaram à frente da unidade, concordaram em que eu fosse candidato a Deputado Nacional para aprofundar a campanha. Basicamente usar as eleições para que milhares de trabalhadores em Chubut conheçam minha situação.

Trancado em um pavilhão, privado de sua liberdade por 9 meses, Daniel não para de pensar na militância e em como modificar as estruturas que sujeitam o povo trabalhador.Eu sou de Cómodoro Rivadavia, uma cidade puramente petroleira, sou delegado petroleiro e congressual, e tivemos muitas lutas, mas há cidades como Esquel, Trebelin que não conhecem nossa história e a partir desta campanha eleitoral denunciaremos a situação e o que propomos de fundo: que as multinacionais, que nos saquearam por tantos anos os recursos naturais da província, vão embora de uma vez por todas e que todos os recursos passem para as mãos do Estado e sob o controle de dos trabalhadores, para o desenvolvimento da região e das Pymes e as economias regionais, que foram as mais afetadas com este governo. Seu programa eleitoral para as próximas eleições é o mesmo que levantou em cada luta junto com seus companheiros petroleiros.

Hoje Cómodoro Rivadavia é um cemitério de instalações fechadas, muitas pymes se fundiram, empresas familiares também, então, nesse sentido, a única maneira de impulsionar isso e revitalizar a economia é que os recursos estejam a serviço da população. Hoje todas as multinacionais estão indo para Vaca Muerta e com o adendo o que há são mortos e contaminação. Houve 8 mortes nos últimos 12 meses. Houve uma contaminação de 8 quilômetros. Cidades abandonadas, como tudo o que é o norte de Neuquén, outras cidades que por muitos anos foram uma potência petroleira como Plaza Huincul e Cutral Co, estão sendo abandonadas, porque as empresas preferem ir a Vaca Muerta para explorar porque lá eles têm garantia de tudo: trabalham com menos operários, sobrecarga de horários, não podem fazer assembleias e isso gera precarização e gera morte e lucros para as multinacionais. É por isso que eles pretendem ir para lá e o resto das cidades ficam no esquecimento. Essa é uma questão que sempre aconteceu e é algo que deve ser evitado. A serviço disto é que nós vamos tentar montar a campanha eleitoral. PyME é uma micro, pequena ou média empresa que realiza suas atividades no país, em algum destes setores: serviços, comercial, industrial. A Formação Vaca Muerta, é uma formação geológica, localizada na Bacia de Neuquén no norte da Patagônia, Argentina. É bem conhecida como a rocha hospedeira para grandes depósitos de óleo de xisto e gás de xisto.   

O sindicato petroleiro, ou algum setor dos petroleiros, veio apoiá-lo?

Muitos camaradas saíram e tenho de agradecer-lhes, de assembleias, de delegados e comissões diretivas que se puseram em campanha. Mas, por si só, hoje, apoiar minha candidatura é um apoio explícito para enfrentar o governo. Há muitos sindicalistas que, como resultado dos negócios que têm com as companhias petrolíferas e com o governo nacional, não se jogam a fundo. Independentemente disso, houve uma enorme resistência por parte dos trabalhadores, embora o adendo tenha sido assinado e isso significou mortes e contaminação para nós, os trabalhadores petroleiro ainda estão lutando. O que se quer fazer com a reforma trabalhista e a reforma previdenciária é aumentar a idade de aposentadoria dos trabalhadores petroleiros: nos aposentamos aos 50 anos com 25 anos de serviço porque trabalhamos ao ar livre em meio a climas hostis. E como você acha que os trabalhadores responderão à precariedade de seus acordos?

Haverá resistência do conjunto dos trabalhadores e sabe-se que as lutas petroleiras em toda a extensão e largura do país, e nossa história, mostra que em algum momento há uma resposta a essa ganância patronal. É disso que eles estão com medo. É por isso que as cúpulas sindicais tentam, por causa do investimento, reduzir nosso acordo que custou sangue e suor. Para se ter uma idéia, Roberti, que era deputado nacional, foi membro da Federação Petroleira Privado e foi quem deu o quórum em 18 de dezembro para que a reforma previdenciária pudesse ser realizada. Isto é, ele deu o quorum e retirou-se.

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Você acabou de mencionar as cúpulas sindicais, alguma das centrais sindicatos se pronunciou para a sua liberdade?

Sim, houve setores das três CTAs, também do Modelo Sindical (para o Modelo Nacional), houve até uma reunião de advogados trabalhistas e comissões de direitos humanos, tanto dos setores da CGT como da CTA, que se pronunciaram. E graças a eles, meu caso foi levado à OIT, então, estou desde já, totalmente grato. Eu entendo que, além da minha situação como refém do governo, a primeira tarefa dos trabalhadores é continuar a luta. Além do fato de que hoje existe um processo eleitoral, permanece a fome na mesa dos trabalhadores, com o apagão no outro dia foi demonstrado que a energia é vital para o conjunto e o desenvolvimento da nação e acima de tudo da soberania e hoje vemos que todas as empresas são privatizadas e sob o controle de pessoas que nem sequer são do país. Nos fizeram acreditar que com o YPF estatal se recuperou o petróleo hoje 70% dos campos de petróleo do país estão em mãos estrangeiras: Vaca Muerta é administrado pela Chevron, que é uma empresa estadunidense e o segundo mais importante, que é o Cerro Dragón, é operado pelos ingleses de Panamerican desde 1958. Durante a guerra das Ilhas Malvinas seguiram pegando óleo para beneficiar seus navios.  O que você acha das próximas eleições? 

Cada um dos principais candidatos, daqueles que têm opções para ganhar as eleições, afirmaram que de uma forma ou de outra manterão relações com o fundo monetário, relações com as multinacionais, com os países imperialistas que dominam cada uma das empresas; então, nesse contexto, onde há uma crise econômica, onde há uma guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, não se prevê um desenvolvimento econômico que favoreça o país, então: se cada um dos principais candidatos diz que manterá, mais ou menos, esse tipo de relacionamento, o que significará que, por algum tempo, haverá também fome e miséria para os trabalhadores como um todo.

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E qual seria a saída?

Neste quadro, se coloca uma saída de luta que é a Frente da Esquerda. Basicamente, envio uma saudação aos companheiros trabalhadores que acham que votar na fórmula de Fernández Fernández pode ser uma melhoria, digo que, embora acabem votando, tenham paciência porque continuará a luta. Nós estaremos aqui e continuaremos lutando, como nos encontramos no dia 18 de dezembro. Certamente, esse processo continuará porque a fome continuará e a única maneira de conseguir uma economia a serviço dos trabalhadores é romper com o Fundo Monetário, das multinacionais. Como a Panamerican, que ganha 4 bilhões de dólares por ano, esse dinheiro pode ser usado para desenvolver energia barata para que as pymes possam funcionar, para que as empresas não fechem, para que os hospitais funcionem corretamente.

Que mensagem você daria aos trabalhadores?

Agradecer-lhes, porque durante esses anos que Macri governou eles não deixaram um minuto de lutar. Isso é o que me mantém em pé. A única coisa que eu digo é que continuem lutando, que continuemos a construir a alternativa e que de uma vez por todas os trabalhadores possamos decidir nosso futuro democraticamente. O caminho de dezembro marcou um antes e depois, assim como os 50 anos do Cordobazo foram comemorados, o 18 de dezembro será como um feito e está em todos nós continuarmos construindo esse caminho para que de uma vez por todas acabemos com tanta fome e miséria. E se tivermos que fazer outro 2001 para que as coisas mudem pela raiz, teremos que fazê-lo. Os trabalhadores querem trabalhar e ficar tranquilos, mas quando a fome atinge nossas famílias, nossos pais e nossos avós, não temos outro caminho além da luta. E não temos nada a perder. Continue lutando porque é o melhor caminho, para que todos os presos políticos possam sair e também que se abram as perspectivas de uma mudança real na Argentina.

Você quer adicionar outra coisa?

Cumprimentar minha família e meus companheiros e todos aqueles que de uma forma ou de outra me acompanharam nesses meses, que vêm me visitar de diferentes organizações e agradecer-lhes infinitamente, porque eles são uma ajuda para não desabar aqui dentro. E também afirmar que continuamos a lutar pela melhoria das prisões que são situações desumanas, a superpopulação carcerária, que gera problemas e situações que poderiam ser evitadas. As prisões não devem ser uma punição, mas sim para o aperfeiçoamento dos seres humanos e dos companheiros que estão aqui dentro. Estou muito confiante de que em algum momento todos nós aqui vamos mudar para sermos trabalhadores e fazer uma sociedade mais justa e solidária.

A ligação cai. Um grupo atravessa o portão e sai para as ruas. Às mesmas ruas que os trabalhadores ganharam no dia 18 de dezembro e às mesmas ruas onde, em breve, Daniel Ruiz voltará a levantar suas bandeiras.

Nota: 

Fuente: https://www.anred.org/?p=117415

Tradução: Nea Vieira