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A partir do momento em que aconteceu a explosão social, em todo o território chileno, as trabalhadoras, trabalhadores e estudantes fomos para as ruas lutar para recuperar nossos direitos e em geral tudo o que os poderosos roubaram neste país por mais de 30 anos.

Por: Marcela Olivares – dirigente sindical e dirigente do MIT

Valparaíso não foi uma exceção e sofremos uma repressão brutal por parte do governo, esta cidade em ruínas, foi saqueada durante anos pelas máfias imobiliárias que queimaram a cidade para construir edifícios altos. Os empresários inescrupulosos, repartiram entre eles o porto, eliminando a indústria e precarizando os empregos.

Valparaíso que anteriormente era uma cidade pujante com seu comércio local, como parte de uma política neoliberal, o comércio varejista viu surgir ao seu lado a “multi-loja”, o “shopping”, o supermercado e o shopping chinês, que lhe foi roubando a clientela. Como resultado, os negócios pequenos faliram, assim como as lojas de material de construção; fecharam as adegas e finalmente o neoliberalismo acabou oferecendo trabalhos precários, terceirizados, empregos inseguros com salários mínimos e jornadas esgotadoras. Os “Auto-serviços (sirva-se e pague)” e os caixas automáticos começaram a substituir as e os trabalhadores e chegamos a ser a cidade com maior desemprego deste país.

Desta forma, o capitalismo nos foi saqueando tudo e os habitantes de Valparaíso fomos obrigados a buscar diferentes formas para sobreviver.

Os empresários ladrões e o congresso nos tiraram tudo, exceto a dignidade. E a explosão, a revolta, a revolução e a raiva ocuparam as ruas.

Se hoje Valparaíso está destruída, foi porque o capitalismo a destruiu muito antes da explosão social e se hoje os empresários demitiram e diminuíram os salários de seus trabalhadores, é apenas uma amostra de sua política exploradora de sempre.

Quase como uma desforra, enquanto a polícia reprimia brutalmente nosso povo, começaram os incêndios nos morros, nas ocupações e os chamados da Prefeitura para suspender as mobilizações. Os moradores de Valparaíso, podemos reconhecer nestes incêndios da periferia, a forma de agir das máfias imobiliárias e a velha fórmula de expropriação encoberta utilizada no ano de 2014, nesta mesma cidade – As perguntas que temos que fazer então são: – Por que após os incêndios se realiza o despejo, a expropriação dos mais pobres? – Por que as casas dos ricos não queimam?
– Por que não se investe em equipamentos para evitar e controlar os incêndios? Como hidroaviões, ou em corta-fogos.

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Enquanto os morros se queimavam sem controle, nas ruas do centro, milhares de litros de água eram jogados pelos “guanacos” (tanques lança-águas) sobre os manifestantes, demonstrando onde está a prioridade deste governo assassino, da mesma maneira que os governos anteriores.

Após a tragédia, Sebastián Piñera, quis limpar sua imagem e tentar apagar o caráter repressivo do Estado, visitando os morros incendiados. Não conseguiu seu objetivo, após uma curta reunião, teve que fugir pela porta de trás da Prefeitura, em meio aos fortes protestos.

Em Valparaíso não aceitamos manobras, cada vez há mais raiva nas ruas e pouco a pouco vai se delineando quem são os parasitas capitalistas que nos exploram e o papel de serventes fiéis que cumprem a polícia, a milícia e principalmente os crápulas do Congresso que apoiaram em bloco a repressão contra o povo. Todos os dias, em cada manifestação o povo canta “todas a balas serão devolvidas”, “Avançar e queimar o Congresso Nacional” com a absoluta certeza que esse dia vai chegar.

Valparaíso, carcomida, derruída e corroída pelos ratos do capitalismo, não se rende nem se renderá, lutará como sempre foi a tradição centenária deste porto. Desta vez, para acabar com os privilégios dos exploradores e conquistar uma sociedade justa e igualitária para ressurgir luminosa e heroica dos escombros.

Tradução: Carla Carrión