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A crise do coronavírus e o confinamento

Desde o início da crise do coronavírus não param de proliferar teorias conspirativas ou negacionistas da pandemia.

Por: Ángel Luis Parras

Sem dúvida, Jair Bolsonaro e Donald Trump chamaram a atenção ao negar o que se tornava mais evidente e dramático a cada hora.  O coronavírus “é muito mais uma fantasia”, “os brasileiros não são infectados nem pulando em águas de esgoto”, disse o presidente brasileiro, para quem o coronavírus não passava de “uma gripe sem importância”. Para Trump, “o vírus desapareceria no calor primavera” e até prenunciou seu final para o mês de abril. E existem aqueles que até receitam esporte e vodca para combater a infecção como o presidente bielorrusso, Aleksander Lukashenko.

Além dos negacionistas, a crise do coronavírus alimentou e muito as teorias conspiratórias. Há quem afirme que tudo isso “é uma claríssima operação chinesa para dominar o mundo”, “com a disseminação do vírus, criado em um laboratório”. Para eles não tem importância os estudos de diversos/as cientistas reafirmando que de forma alguma se trata de uma construção de laboratório. [1] Existem até aqueles que atribuem a atual pandemia a um “plano de Soros, aliado com fundos de investimento e companhias de seguros de carros, para se tornarem milionários” ou teorizam que “a morte de milhares de idosos resolverá o problema das pensões por duas décadas”. [2]

Como em todo momento de crise social, não faltam aqueles que encontram nas teorias conspirativas sua fonte de inspiração.

A Pandemia não pode ser subestimada

Em uma das primeiras declarações da LIT-QI (2) se afirma: “Infelizmente, muitos trabalhadores refletem essa visão e acabam pensando que existem “exageros”, que “muito mais pessoas morrem de fome”, etc. Ou ainda, que é uma “manobra do imperialismo”. É preciso dizer a verdade. A pandemia do coronavírus é realmente uma séria ameaça, principalmente para os trabalhadores e o povo pobre”.

A subestimação dessa pandemia começou nos próprios governos, mas em outros níveis manifesta-se em uma infinidade de argumentos ouvidos nesses dias. Um exemplo é: “não se pode falar de pandemia quando a gripe espanhola matou muito mais pessoas”.

De fato, existiram muitas pandemias mais letais. A chamada gripe espanhola matou em dois anos (1918-1920) entre 50 e 100 milhões de pessoas. Durante a “peste negra”, em meados do Século XIV, morreram cerca de 50 milhões de pessoas, reduzindo a população europeia de 80 para 30 milhões de pessoas. Na Península Ibérica a população caiu de 6 para 2,5 milhões de habitantes.

Outra pandemia como a do sarampo matou 200 milhões de pessoas sem falar na da varíola ou mais recentemente, da síndrome de imunodeficiência adquirida (HIV/AIDS).

Mas há anos a declaração por parte da OMS sobre o estado de uma pandemia não tem a ver com critérios quantitativos, isto é, com o número de mortes, mas “tem que atender a dois critérios: que o surto epidêmico atinja a mais de um continente e que os casos de cada país já não sejam importados, mas provocados pela transmissão comunitária [3]

Esse critério, estabelecido desde 2009, modificou o anterior, que exigia para definir uma pandemia que fosse “simultânea em diferentes países, com uma mortalidade significativa em relação à proporção da população infectada”. Esse critério quantitativo de “mortalidade” foi suprimido, entre outras razões, porque esperar para declarar uma situação de pandemia a um número “significativo” de mortes é algo insensato, apenas facilita a propagação do contágio e, assim, aumenta a mortalidade.

O confinamento é uma “manobra”?

Há quem entende que as quarentenas “não servem para nada”. Que, neste caso, seria algo como “a manobra perfeita antes da iminência de uma nova recessão econômica”; “o confinamento paralisa toda a classe operária, os deixa trancados em casas e isso permite que os governos façam ajustes econômicos como queiram, sem nenhuma resposta social”.  Isto é, o confinamento é essencialmente “uma manobra do imperialismo”.

Deve-se dizer, em primeiro lugar, que confinamentos, quarentenas contra epidemias, são utilizados há 3.000 anos. Há evidência escrita desde o século V a.C. “Historicamente, a quarentena foi utilizada como um método drástico para conter a disseminação de doenças contra as quais a medicina não tinha recursos. Diante da lepra ou da famosa peste bubônica, contra a “febre amarela, cólera, tifo ou a chamada gripe espanhola de 1918…” [4]

O fato real, sobre o que voltaremos a falar, da utilização do confinamento para outros fins políticos, repressivos ou inclusive que nem sempre obtiveram os resultados desejados, não nega essa norma básica, científica, cujo objetivo é conter a propagação da doença e evitar o colapso do sistema de saúde, para não aumentar por essa via a letalidade da pandemia.

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A denúncia da LIT-QI foi e é, em primeiro lugar, aos governos do mundo que se negaram a declarar o confinamento. Mas também contra aqueles que o fizeram, como o Governo PSOE-UP, mas que declararam tardiamente e de forma ineficaz. Ineficaz porque o confinamento, se não for acompanhado de medidas sociais que o garantam, não vai ser rigorosamente cumprido. Não pode se manter isolado em casa quem não a tem ou vive em espaços minúsculos; não podem ir as compras quem não tem nem para comprar; e vai contra a essência de como deve ser um confinamento quando libera para trabalhar os setores que não são essenciais em tal situação. E ineficaz, tardio e deplorável quando àqueles que estão na linha de frente, os trabalhadores/as da saúde, limpeza, supermercados, transporte…  sequer lhes é garantido os equipamentos básicos para evitar serem infectados.

Portanto, qual deve ser a exigência ao governo? Suspender o confinamento o quanto antes ou garantir as condições sociais para o confinamento dos/as trabalhadores/as, autônomos e setores mais pobres? Suspender o confinamento ou aplicar um plano de emergência de saúde para, entre outras coisas, garantir testes generalizados para interromper os focos de contágio?

Se o confinamento é uma “manobra”, então o mais progressivo é o que fazem Bolsonaro e Trump? As pessoas devem ser chamadas a suspender o confinamento, como incentivado por eles? E aos trabalhadores/as das fábricas na Itália e no Estado espanhol, que entraram em greve se negando a trabalhar para garantir a quarentena, devemos dizer que suas reivindicações fazem o jogo do imperialismo?

Na semana passada, o Governo de Sánchez suspendeu o confinamento na indústria e na construção civil. Essa medida deve ser considerada progressiva ou é uma nova improvisação que coloca em risco mais vidas e atenta contra a essência do confinamento, a fim de preservar os lucros dos capitalistas?

A crise do coronavírus caiu como uma luva para o imperialismo?    

Há outros raciocínios mais sutis. “Se focarmos no coronavírus – e deixando de lado o debate sobre sua possível origem – a verdade é que as medidas de confinamento adotadas em todo o planeta para enfrentar a pandemia caíram como uma luva aos gestores do desastre para justificar a recessão econômica que se aproximava e para preparar os novos mecanismos de acumulação de capital…” [5]

Se for assim, se mais do que diante de uma crise descomunal do sistema, estamos diante de um fato que caiu como uma luva para os capitalistas, a primeira pergunta seria: Por que os gestores do imperialismo não explicaram a Jair Bolsonaro, Donald Trump ou Boris Johnson que o confinamento lhes caiu como uma luva?   Por que eles não explicaram melhor a Pedro Sánchez, Antonio Costa, Giuseppe Conte ou a Emmanuel Macron, que o declararam tardiamente e de forma ineficaz e o suspenderam parcialmente em setores não essenciais em uma pandemia? Que tipo de manobra imperialista é essa que os principais governos não se informam e se negam ao confinamento ou o fazem só parcialmente?

As medidas de confinamento, sua não aplicação ou sua aplicação parcial, não são pagas apenas com vidas e miséria para muitas famílias, mas geraram crises políticas e choques interburgueses em todos os países.

Os dados sobre a economia são enfáticos: com a crise do coronavírus o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou de prognosticar um crescimento menor a falar abertamente de a pior crise desde o crash de 1929”. Nos EUA, mais de 22 milhões de norte-americanos perderam seu emprego nas últimas quatro semanas.

As perspectivas para o Estado espanhol são devastadoras, o FMI fala de uma queda do Produto Interno Bruto de 8% neste ano [6] (a maior desde a guerra civil), e o Banco da Espanha eleva essa cifra para 13,6%. A dívida pública excederá entre 114% (FMI) e 122% (Banco da Espanha) do PIB, níveis desconhecidos desde 1902, na época de Alfonso XIII. Para se ter uma ideia dessas cifras, basta lembrar que, com menos dívida, foram pagos em 2019, apenas de juros da dívida, ao redor de 30 bilhões de euros, o que significa cerca de 82 milhões de euros ao dia (mais de 3,4 milhões a cada hora). Estes são alguns dos dados de uma colossal crise capitalista que anuncia uma catástrofe social.

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Milhares de empresas vão sucumbir. Setores inteiros como hotelaria, comércio, turismo (que contribuíram com 12,5% do PIB em 2019, cerca de 300 bilhões de euros) vão falir e indústrias como a automotiva ou a aeronáutica vêem seu futuro ameaçado. Mais ainda, se tomarmos como referência a flor e a nata do capitalismo no Estado espanhol: as empresas do Ibex 35 [principal indicador da Bolsa de Valores espanhola] perderam em três semanas 36% de seu valor de mercado, 227 bilhões de euros.

Esta é a situação que caiu como luva, a manobra imperialista? Pode-se argumentar que existem capitalistas que ganharão muito dinheiro na crise, o que é verdade. Por exemplo, o banco de investimento norte-americano JP Morgan aproveitou o colapso das ações da Repsol na Bolsa para converter-se no segundo acionista da companhia de petróleo. O mesmo foi feito pela BlackRock, administradora de fundos norte-americano, que se tornou a principal investidora do IBEX 35. É a maior acionista de várias entidades financeiras (Santander, BBVA, Sabadell), bem como de outras empresas como a Telefônica e DIA, além de deter participações significativas na maioria das empresas que compõem o IBEX 35.

Mas esses dados só vêm corroborar que, um dos subprodutos das crises capitalistas é a centralização do capital, ou seja, alguns capitalistas aumentam o volume de seus capitais absorvendo a outros, o peixe grande come o pequeno.

O capitalismo não precisa de conspirações nem manobras para entrar em crises porque as crises são inerentes ao sistema capitalista. Ele precisa é da classe operária e dos setores populares para sair dessas crises, mesmo em meio à morte, dor e miséria.

Em uma carta de Marx ao seu amigo, o médico Ludwig Kugelmann, membro da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e militante do Partido Social-democrata Alemão (SPD), ele disse: “Todas as crianças sabem que uma nação que parasse de trabalhar, não digamos um ano, mas inclusive em umas poucas semanas, pereceria”. [7]

Os capitalistas não sabem o que as crianças sabem e fazem “manobras” para parar de trabalhar por semanas?

Alertas sobre o cerceamento às liberdades

Apontar a necessidade do confinamento e exigir medidas sociais para que isso seja garantido não pode significar incentivar qualquer confiança ou dar apoio aos governos. Não são poucos os casos na história em que o confinamento é utilizado pelos governos de plantão para alentar medidas racistas, xenófobas ou para liquidar a oposição política ou social. Em um artigo recente sobre a história das quarentenas foram citados exemplos de como o surto da febre tifoide varreu os bairros de Nova York, onde moravam imigrantes judeus russos. “As autoridades detiveram e transferiram centenas deles para barracas de quarentena na ilha de North Brother. Isolaram exclusivamente os imigrantes, incluindo muitos que não estavam infectados e que contraíram a doença precisamente pelo fato de estarem lá”. [8]

Na declaração de Corriente Roja, Confinamento, sim. Cerceamento de liberdades, não!, afirmamos: “No entanto, a necessidade de confinamento não pode ser uma desculpa para o cerceamento de liberdades”. Esse alerta (e os fatos concretos denunciados na declaração) é ainda mais necessário quando se fala de introduzir mais medidas de controle em torno do chamado plano de flexibilização do isolamento social. Em caso de dúvidas, basta ouvir as declarações do chefe do Estado Maior da Polícia Civil, general José Manuel Santiago, que garantiu que a Polícia Civil trabalha para “minimizar” o clima contrário ao gerenciamento do Governo. O lamentável é que o discurso em apoio ao “governo progressista PSOE-UP” deixe nas mãos do Vox e do PP a denúncia dessas declarações do chefe da Policia Civil.

Um desses mecanismos de controle que está sendo discutido atualmente é o da instalação de aplicativos nos celulares para controlar as pessoas. Não são poucas as denúncias apresentadas em muitos países do mundo, começando nos EUA, Israel ou China e estendido na Polônia, Sérvia ou Cingapura, onde a instalação desses sistemas de controle acaba por patrocinar um regime de controle policial e completo das pessoas. “Se aumentar a vigilância agora para combater a pandemia, depois poderia abrir as portas de maneira permanente para formas mais invasivas… É uma lição que os norte-americanos aprenderam após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 (…) Quase duas décadas depois, as agências de segurança têm acesso aos sistemas de vigilância mais poderosos, como o rastreamento detalhado de localização e reconhecimento facial: tecnologias que poderiam readaptar-se para atender agendas políticas como as políticas anti-imigração”. [9]

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Uma medida como essa, visa um maior controle policial e do Estado que vai atentar de maneira imediata contra os direitos mais elementares à privacidade e contra as ações coletivas dos trabalhadores/as e dos povos. No entanto, entre os próprios especialistas, há quem questione essa medida pelo grau de desproporção existente entre sua utilidade prática e o risco que isso implica no cerceamento de direitos civis.

Voltaremos a pisar nas ruas novamente

“Essa pandemia revela verdades sobre a sociedade com a mesma velocidade com que avança. Desnuda as contradições do sistema capitalista-imperialista como poucas vezes aconteceu”. [10] É por isso que essas longas semanas de confinamento não significam para milhares de lutadores/as qualquer resignação como demonstram as redes sociais, os panelaços, os aplausos aos companheiros/as da saúde, mas também as redes de apoio aos vizinhos como a Somos tribo do bairro de Vallecas e muitas outras, as múltiplas iniciativas de solidariedade para garantir que os alimentos cheguem às pessoas mais necessitadas, de cuidados com os idosos que moram sozinhos, etc.

Como em qualquer “situação de guerra”, a propaganda adquiriu, para uns e outros, um enorme valor e nesse espaço não faltou à propaganda revolucionária. Queremos contribuir a partir da LIT-QI e de Corriente Roja, com escritos diários, pôsteres, vídeos, cine fóruns, abrindo as redes para os trabalhadores/as, aos jovens, para que eles possam escrever e contribuir a partir de sua própria experiência.

Os setores mais resolutos da classe operária e da juventude, as organizações revolucionárias, não precisamos apelar para as teorias da conspiração ou as trapaças para entender uma crise que não é mais do que uma das expressões da barbárie que nos submete esse sistema capitalista, que destrói a natureza e a própria vida dos seres humanos. Também não nos desesperarmos diante do confinamento que exigimos e que nada mais é do que o prelúdio de inevitáveis confrontos sociais. E continuaremos exigindo deste governo e a todos os governos locais e autônomos um Plano de emergência de medidas de saúde e sociais, ao mesmo tempo em que continuaremos apoiando aos trabalhadores/as dos setores essenciais que estão na linha de frente da luta contra a pandemia.

O futuro imediato pós-confinamento anuncia uma catástrofe social para milhões de trabalhadores/as, mas, como dizia a velha canção de Pablo Milanés, voltaremos a pisar nas ruas novamente e as semanas de confinamento não serão um desperdício de tempo para a classe operária, a juventude e os oprimidos se aprendermos com as lições dessa crise; se diante dos discursos patrióticos dos governos patronais que exigem um grande Pacto social (como os tristemente célebres Pactos da Moncloa) saímos às ruas depois do fim do confinamento levantando em alto e bom som que: não pagaremos pela sua crise como sempre o fizemos! Queremos um Plano de resgate dos trabalhadores/as e do povo!

Notas:

1- “Conseguimos determinar, decodificando o material genético do novo coronavírus, que não é uma criação de laboratório, mas o produto da evolução natural”; “Se fosse uma construção de laboratório, teria que ser utilizado um vírus previamente conhecido como modelo”. Robert E. Garry, professor da Universidade de Tulane, para a BBC Mundo (El País 11/04/2020).

2- Escolha sua própria conspiração. (El País 9/abril/2020)

3-Ángel Gil, catedrático de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade Rei Juan Carlos.

4- https://www.lavanguardia.com/autores/abril-phillips.html

5- La Voragine Vicente G. E.

6- Para a Itália, o PIB cai 9,1%; Portugal (8,1%), França (7,2%), Alemanha (7%), Reino Unido (6,5%), Grécia sofre o enésimo revés e a queda é estimada em10%.

7- K. Marx Carta a Ludwig Kugelmann, Londres, 11 de julho de 1868.

8- Da gripe espanhola ao coronavírus, história das quarentenas. Abril Phillips. La Vanguardia 01/02/2020.

9-The New York Times “À medida que aumenta a vigilância pelo coronavirus, diminui a privacidade pessoal”. Natasha Singer e Choe Sang-Hun. 24/03/2020.

10- http://www.corrienteroja.net/la-guerra-de-las-mascarillas-y-la-anarquia-del-capitalismo/

Tradução: Rosangela Botelho