COMPARTILHAR

A pandemia e suas consequências atingem duramente muitos países. Porém seus ataques não afetam a todos os setores sociais de maneira igual. Nestes momentos de catástrofe, o capitalismo imperialista nos mostra, de modo exacerbado e com toda sua crueza, a profunda desigualdade que gera de forma crescente.

Por: Alejandro Iturbe

Vamos começar pela mais elementar das necessidades: a água corrente potável, imprescindível para lavar as mãos e beber periodicamente, como medida de precaução. Em 22 de março passado, Dia Mundial da Água, a ONU informou que 40% da população mundial não tem acesso à água nessas condições.

Em um artigo publicado recentemente, o biólogo e investigador argentino Guillermo Folguera explica algumas das causas [1]: a) nas zonas urbanas, em especial nas grandes cidades, os setores mais pobres que foram parte dessa urbanização estão em regiões onde não havia obras para provê-las e que nunca foram realizadas posteriormente; b) a ação da poluição urbana e os resíduos industriais sobre as fontes e cursos d’água, sem um tratamento que a torne potável antes de seu consumo; c) a ação de atividades econômicas (que são estimuladas sem controle por parte dos governos burgueses) como o agronegócio, a megamineração e o fracking (fraturamento hidráulico), que não só utilizam quantidades de recursos aquíferos como deterioram sua qualidade e, inclusive, contaminam, e d) o capitalismo imperialista que deixou de considerar a água como um recurso natural essencial, que deveria ser um direito com acesso gratuito, para considerá-la “bem comercial”, uma mercadoria para obter lucros. Como o presidente da Nestlé, Peter Brabeck-Letmathe expressou: “é necessário privatizar o abastecimento da água” [2].

Esta análise profunda, se expressa em muitos seres humanos de carne e osso que são marginalizados em favelas, vilas miseráveis e outros bairros marginais em condições precárias. Neste tipo de bairros, por suas condições, um primeiro caso não detectado pode expandir-se de maneira muito rápida. Como na famosa Cidade de Deus no Rio de Janeiro (onde já apareceu o primeiro caso de contágio) [3] ou o bairro Cabin 9 (Rosario, Argentina) cujos moradores devem sair do bairro para conseguir água porque os lençóis freáticos estão contaminados. Yolanda Ruiz, integrante das Assembleias de bairro, contou: “Para nós só resta ir ao tanque de água para poder encher os galões que utilizaremos para cozinhar e consumir. Lamentavelmente, nos expomos ao contágio já que devemos fazer uma longa fila para conseguir água e podemos ter contato com população de risco e idosos” [4].

A situação é pior ainda, entre os marginais dos marginais: os sem teto. José, que vive nas ruas de São Paulo, fala de agua corrente: “Na rua não há nada disso. Dizem que temos que lavar as mãos, mas onde? Nos lavamos com a água que se recolhe quando chove” [5]Sem falar do álcool em gel que é considerado um “luxo” inacessível exceto quando, muito esporadicamente, é oferecido por alguma igreja da redondeza.

Leia também:  Colômbia | Com panelaços e bandeiras vermelhas, os pobres lutam contra a fome

Enquanto isso, os “ricos e famosos” exibem sua “quarentena” cheia de luxos e prazeres em suas casas com piscina (com a agua que falta em outros lugares) nos bairros privados, cercados de segurança que os isola do mundo, ainda que muitos meios de comunicação os exibam sórdida. [6].

Um caso extremo desse exibicionismo foi o de Marcelo Cibelli, empresário da televisão e do esporte argentino, que viajou em um avião particular e foi passar a quarentena com sua família em sua luxuosa casa de Esquel, em um lugar paradisíaco da Patagônia, cercado de lagos e montanhas [7].

 “A maldição do trabalho”

Enquanto os “ricos e famosos” vivem da exploração dos trabalhadores e/ou de suas rendas, muitos trabalhadores se debatem entre a cruel opção de trabalhar e se expor ou não trabalhar e morrer de fome. Esta contradição é especialmente dura para aqueles trabalhadores precarizados que não tem possibilidades de lutar por licenças remuneradas ou de conseguir fazer com que as empresas garantam condições de salubridade básicas.

É o caso dos peões rurais, como os catadores de frutas da região do Alto Valle del Río Negro (na Patagônia argentina), uma atividade que está isenta do decreto de emergência do governo de Alberto Fernández e cujos empresários não cumprem nenhuma das medidas de salubridade e higiene, diante da ausência absoluta dos sindicatos do setor ou de controles oficiais. Um artigo sobre o caso mostra uma foto na qual os trabalhadores são levados para trabalhar amontoados em um veículo de madeira rebocado por um trator [8]. Não difere em nada de suas condições de trabalho habituais, mas agora, em meio à pandemia, acaba sendo uma atitude patronal criminosa.

Inclusive estas terríveis condições de trabalho poderiam até ser “aceitáveis” para muitas mulheres do bairro de Rosário já citado, que não podem sair para realizar sua jornada diária de trabalho doméstico informal com o qual ajudavam a manter suas famílias.

Ou para os milhares de vendedores ambulantes que, todos os dias, se movem nas grandes cidades revendendo produtos ou vendendo alimentos que eles mesmos produzem. Eles não têm outras alternativas de renda, em meio à redução de clientes e dos conselhos do governo para que “não saiam de casa”. “Se não morrer desse vírus, morro de fome” diz José Maria, que vende sorvetes de fabricação caseira na porta de uma unidade de saúde no bairro da Lapa, em São Paulo [9].

Leia também:  Covid-19, capitalismo, guerras, revolução...

Uma situação da qual os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, “exemplo” do capitalismo mundial, não está isento. Com 140 milhões de pessoas cujas rendas não são suficientes para pagar suas contas [10], o sistema de saúde pública mais caro do mundo para os trabalhadores e suas famílias, e um sistema social que educa no individualismo, está a caminho para ser o terceiro país do mundo a sofrer o impacto da pandemia, com epicentro na cidade de Nova York [11].

No final da escala

Um ou dois degraus abaixo dos vendedores ambulantes, estão os milhares de presos que, como expressão extrema da decadência capitalista, estão apinhados nas prisões da América Latina e do mundo. E que, confrontados a um risco certo de contágio e morte, começaram violentas rebeliões como as que aconteceram na Argentina, Brasil e Colômbia, muitas delas reprimidas de forma sangrenta [12]. Ou começam a fugir em massa [13]. Há também informes de tensão em prisões do Sri Lanka e Egito [14].

Somente a situação dos idosos que morreram abandonados em casas de repouso ou que morreram sozinhos em suas casas poderia ser considerada pior, o que ocorreu no Estado espanhol, como informa um artigo BBC [15].

Mais privilégios

Os privilégios dos ricos e famosos não se limitam às condições em que passam a quarentena, mas também se estendem à detecção de um possível contágio. Para as pessoas comuns, é muito difícil ter acesso a um teste seguro de diagnóstico porque os governos e centros de saúde pública os fazem em conta gotas e não investem neles, apesar de ser considerada uma medida imprescindível para frear a pandemia e para que o isolamento seja realmente eficaz [16].

Entretanto, os ricos e famosos não tem esse problema. Para os jogadores de basquete da NBA foi garantido pelas suas próprias entidades-empresas desportivas, enquanto outras celebridades, políticos e milionários já o fizeram, comprados em laboratórios privados [17].

Também pretendem que esses privilégios existam na hora de evitar a quarentena, ainda que se enquadrem em situações de risco e possam contagiar muitas pessoas. Luca Singerman, um jovem jogador de rugby argentino, filho do economista e professor universitário Pablo Singerman, vinha da Holanda. No Uruguai, detectaram nele sintomas de contágio e ficou hospitalizado em Montevidéu; fugiu, embarcou na empresa Buquebús e obrigou 500 tripulantes e passageiros a submeterem-se a uma quarentena obrigatória e a controles intensivos na chegada do navio em Buenos Aires [18].

Ou a juíza do Tribunal Superior de Justiça de Jujuy, Argentina, que ao chegar de Miami tentou escapar da quarentena com um recurso de habeas corpus, justificando em uma das exceções do decreto assinado pelo presidente Alberto Fernández, que se refere às pessoas que ocupam cargos hierárquicos nos três poderes do Estado nacional e provinciais [19].

Leia também:  Grã-Bretanha| Resposta capitalista à covid-19: EPI’s insuficientes, pouquíssimos testes e muitas mortes. Apoiar todas as ações dos trabalhadores para salvar vidas

Preparando-se para possíveis “explosões sociais”

É verdade que também há setores populares e trabalhadores que não obedecem ao isolamento decretado. Mas, para eles, pelo menos na Argentina, está reservada a repressão militar ou da polícia, inclusive a prisão, em meio ao estado de sítio, que de fato, foi imposto no país, com varias dezenas de milhares de pessoas detidas em todo o país [20].

Não se trata apenas de um excesso de zelo no combate ao coronavírus. Por trás desta implantação se esconde o temor de que a combinação entre a situação criada pela pandemia, o agravamento dos efeitos da crise econômica e a comprovação de que o “sacrifício” não seja igual para todos, gerem “explosões sociais” nas regiões mais afetadas.

Vários prefeitos já preveem esta possibilidade, acusando os “setores de esquerda” de promovê-los, e se preparam para evitá-los: formaram “comitês da crise” com o presidente Alberto Fernández, que planejam medidas paliativas, com a intenção real de aumentar a repressão se não forem eficazes [21]. Esta situação existente na Argentina está na realidade latente em muitos outros países do mundo.

Algumas conclusões

A pandemia do coronavírus não criou os flagelos que o capitalismo imperialista gera. Só os escancara ainda mais e aprofunda. Situados sobre um sistema putrefato, as burguesias e seus governos combatem a pandemia de modo insuficiente e limitado. E o fazem com um critério de classe: protegendo primeiro os seus e, essencialmente, a exploração e seus lucros.

Há muita hipocrisia em suas palavras e ações. Seu verdadeiro pensamento, pelo menos o de um setor importante dessa classe, expressou o empresário brasileiro Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero: “O Brasil não pode parar por 5.000 ou 7.000 mortes” [22]. Claro que estas mortes serão, em sua maioria, de trabalhadores e pobres.

Notas:

[1] https://www.elciudadanoweb.com/el-40-de-la-poblacion-mundial-no-se-puede-lavar-las-manos-en-plena-pandemia/?fbclid=IwAR0qUlNNTFzJZzudUq6QVV6rjm6508O_WX_pJhiIcycPmKjO6AQpMZG_esU

[2] https://litci.org/es/menu/debates/el-agua-en-manos-del-imperialismo/

[3]https://www.pagina12.com.ar/254701-el-primer-contagio-en-la-favela-ciudad-de-dios-disparo-las-a

[4] https://www.conclusion.com.ar/la-ciudad/cuando-los-vecinos-del-barrio-no-pueden-quedarse-en-sus-casas-por-no-tener-agua/03/2020/?fbclid=IwAR14aV_XPxMLvNQUWklHC-nU9i9xJ1uw_flcJ10BILLdM1MFsvXXDXBFKLw

[5] https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-03-20/moradores-de-rua-a-margem-da-prevencao-contra-a-covid-19-lavamos-as-maos-nas-pocas-quando-chove.html

[6] https://www.publico.es/tremending/2020/03/21/coronavirus-famosos-y-ricos-dejad-de-ensenarnos-como-pasais-el-confinamiento-en-vuestras-mansiones-con-piscina/

[7] https://caras.perfil.com/noticias/celebridades/marcelo-tinelli-jutifico-su-viaje-a-esquel-en-medio-de-la-cuarentena.phtml

[8] https://www.lasuperdigital.com.ar/2020/03/23/en-plena-cuarentena-por-el-coronavirus-asi-transportan-a-trabajadores-rurales/?fbclid=IwAR3Whof6D37ebQvQMcW0HEJkO6fssl5f-l6DIpwgMqiUVsJyQPO0afEND60

[9] https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/03/22/se-nao-morrer-desse-virus-morro-de-fome-diz-ambulante-de-65-anos.htm?utm_source=facebook&utm_medium=social-media&utm_campaign=noticias&utm_content=geral

[10] https://exame.abril.com.br/mundo/mais-de-140-milhoes-de-pessoas-sao-pobres-nos-estados-unidos-denuncia-ong/

[11] https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/03/24/oms-alerta-que-eua-podem-se-tornar-novo-epicentro-de-pandemia.htm

[12] https://www.20minutos.es/noticia/4196841/0/al-menos-23-presos-muertos-en-colombia-en-motines-por-el-coronavirus/ y https://www.infobae.com/sociedad/policiales/2020/03/23/los-videos-que-los-presos-viralizan-por-whatsapp-y-muestran-la-tension-por-el-coronavirus-en-las-carceles/

[13] https://www.20minutos.es/noticia/4190121/0/al-menos-1-350-presos-se-fugan-de-carceles-de-brasil-en-motines-por-las-medidas-contra-el-coronavirus/

[14] https://www.france24.com/es/20200322-coronavirus-presos-carceles-temor-motines

[15] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52025727?at_custom3=BBC+Brasil&at_custom2=facebook_page&at_custom4=F2EA65F8-6DF1-11EA-91F3-B4CBC28169F1&at_custom1=%5Bpost+type%5D&at_campaign=64&at_medium=custom7&fbclid=IwAR2HJklLl1LsCO8kDgtEYlyh8Ey0nlifL9c0LNwpQuCuytiOH7KqQaJcbZ4&fbclid=IwAR3YTjmkQ_tQ-Cm3A-sen_VsSKeD4gLBezJ2quAGxDPNMshCjsDHcVbKdQY

[16]  https://www.infobae.com/america/tendencias-america/2020/03/23/tests-tests-y-mas-tests-la-receta-que-recomiendan-los-especialistas-para-ganarle-al-coronavirus/

[17] https://www.dallasnews.com/espanol/al-dia/espectaculos/2020/03/19/famosos-enfrentan-criticas-por-acceso-a-pruebas-de-coronavirus-incluso-sin-sintomas/

[18] https://www.lt10.com.ar/noticia/265327–quien-es-el-joven-que-escapo-de-un-hospital-en-uruguay-y-tomo-el-buquebus

[19] https://www.lanacion.com.ar/politica/coronavirus-jueza-del-tribunal-superior-jujuy-quiso-nid2346700

[20] https://www.cba24n.com.ar/sociedad/mas-de-20-mil-demorados-por-violar-la-cuarentena_a5e7b4887a778135daa686e2b

[21] http://andigital.com.ar/politica/item/28711-conurbano-intendentes-ya-barajan-la-posibilidad-de-un-estallido-social

[22] https://istoe.com.br/dono-do-madero-diz-que-brasil-nao-pode-parar-por-5-ou-7-mil-mortes/

Tradução: Lilian Enck