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A natureza de classe das pandemias é revelada pelo fato de que, na pandemia de gripe de 2009,  três vezes mais pobres morreram em comparação a ricos, mesmo que os dois grupos tivessem o mesmo nível de infecções. Hoje os médicos do NHS (sistema de saúde pública britânico), enfermeiros, empregados e trabalhadores da saúde, motoristas de ônibus, trabalhadores da construção civil e vários outros estão morrendo em números crescentes devido a Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) inadequados e ao governo recusar-se a lançar mão de testes massivos para rastreio do vírus.

Por: Peter Windeler – ISL (International Socialist League)

O absurdo da situação é que, na Grã-Bretanha, o custo da crise será pelo menos de 350 bilhões de libras esterlinas (mais de 2 trilhões de reais), que é três vezes o custo anual do sistema de saúde. Entretanto, a crise poderia ser evitada se preparos fossem tomados em resposta aos avisos que existem há anos.

Os oprimidos e trabalhadores estão morrendo

Uma grande proporção dos que morrem de Covid-19 é de trabalhadores negros, asiáticos e de minorias étnicas. No jornal The Observer, a jornalista Sonia Sodha foi inundada de ataques racistas após apontar essa questão. Sodha também revelou que uma emissora de destaque repreendeu-a fortemente por apontar isso.

A crise está trazendo à tona o racismo no Reino Unido. O que é óbvio para todos é que o sistema de saúde não poderia sobreviver sem os trabalhadores imigrantes, mas esses mesmos trabalhadores precisam pagar uma taxa de 2.200 libras esterlinas (mais de 14 mil reais) por ano, apenas para que eles e suas famílias possam ter acesso ao sistema de saúde.

Está se tornando cada vez mais evidente que os trabalhadores estão pagando o preço da crise. Os que correm maior risco de perder o emprego são os jovens e menos bem remunerados, enquanto os mais abastados podem continuar desfrutando de seus salários e têm mais possibilidades de trabalhar de casa.

Há uma crise nos lares de idosos, onde moradores e funcionários estão morrendo, que só agora está sendo descoberta. “Os números coletados em casas de repouso pelo jornal The Guardian nesta semana mostram que o número real de mortes é consideravelmente maior, enquanto o Care England e o National Care Forum, que representam os trabalhadores de cuidados domésticos, estimaram que entre 7.500 e 4.000 pessoas já morreram de Covid-19 . Os números oficiais dependem de atestados de óbito, que podem levar 11 dias para serem processados ​​e nem sempre incluem o Covid-19 como causa de morte, às vezes incluindo mortes por gripe, pneumonia ou outras causas subjacentes. ”

A luta dos trabalhadores pelo controle da saúde e da segurança

Situações perigosas estão surgindo para todos aqueles que são forçados a trabalhar. As mortes de motoristas de ônibus em Londres por coronavírus estão crescendo. Isso causou uma resposta rápida dos motoristas que fecharam as portas dianteiras dos ônibus e exigiram e obtiveram outras medidas de proteção individual. Os sindicatos também pediram para fiscalizar a limpeza dos ônibus que as empresas dizem que acontece todas as noites. Sua luta é a razão pela qual os ônibus em Londres agora estão com catracas livres, como anunciado em 17 de abril. Porque para motoristas de ônibus, o pagamento das tarifas de ônibus significa a morte.

Os trabalhadores ferroviários do metrô de Londres também demandaram controle sobre medidas de saúde e segurança. Se a tarefa de um deles é considerada ameaçadora à saúde, eles não a cumprem e exigem pagamento integral.

Governo em crise e incapaz

Há uma pilha cada vez menor de EPIs e os funcionários do sistema de saúde estão sendo instruídos a trabalharem com aventais menores e menos eficazes. Ministros alertam que a escassez de EPI pode continuar, e as taxas de teste podem permanecer baixas, enquanto o número de mortes nos hospitais aumentou no domingo para 16.060. Com as mortes em casas de repouso e nos lares, é provável que o número de mortes por COVID-19 seja de cerca de 20.000 ou mais.

Os testes estão extremamente atrasados para muitos enfermeiros e aqueles que, por exemplo, apresentam temperatura alta, são enviados para casa e não estão sendo testados.

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O governo não atende às necessidades mais básicas de proteção dos muitos trabalhadores e população do Reino Unido – a menos que sejam ricos ou poderosos.

Além dos hospitais, equipamentos de proteção estão em falta em casas de repouso, prisões, autoridades locais, empresas funerárias e em muitas fábricas não essenciais que continuam a funcionar.

Hipocrisia da classe dominante

Todo mundo sabe que há quarentena, mas são os ricos que podem decidir onde morar. O príncipe Charles foi testado para a doença ao isolar em sua propriedade em Aberdeenshire e a rainha se mudou para o Castelo de Windsor. O primeiro-ministro mudou-se ao seu prazer, influenciando a debandada para o interior. Enquanto as Damas se mudam para se recuperarem após um aparente estouro de casos no hospital St. Thomas em Londres.

A Secretária de Saúde da Escócia teve que renunciar, já que estava visitando sua segunda casa durante os fins de semana. A filha do ministro Michael Gove furou a fila de funcionários de saúde para obter um teste do vírus (negativo). O Ministro de Gabinete, Robert Jenrick, quebrou a quarentena duas vezes ao se mudar para sua casa “de família”, localizada a 160km de Londres e longe de seu domicílio eleitoral.

Estratégias erradas, planos e promessas quebradas

A estratégia do governo para lidar com a pandemia de coronavírus foi ainda mais criticada. O governo teve que fazer uma aparente mudança em sua política de “imunidade de rebanho”. No entanto, quando houve a mudança para a quarentena, não havia uma política de rastreamento do contágio entre as pessoas.

Para reduzir efetivamente o vírus, além da quarentena, é preciso haver uma política de testagem e rastreio de contágios. Parece agora que o governo falhou em usar os 5.000 especialistas em rastreamento de contágio, empregados pelos conselhos locais.

A Agência de Saúde Pública da Inglaterra tinha uma equipe de 300 funcionários para o rastreamento de contágio, que estava utilizando, mas estes foram desligados em meados de março, de acordo com um relatório do jornal The Gardian, em 6 de abril. Os 5.000 trabalhadores para o rastreio de contágio que foram contratados pelos conselhos esperavam começar a trabalhar e estavam se organizando com esta expectativa. Mas eles nunca foram chamados.

Segundo Anthony Costello, professor de medicina global da Universidade College London, desistir do rastreamento de contágios estava errado. Falando com um repórter do Channel 4 News, Costello explicou que a quarentena não é a solução. Ela deve fazer parte de uma estratégia de supressão do vírus, com rastreio da contaminação. É uma “guerra de guerrilha”, e é necessário identificar os infectados, rastrear todos os contatos e isolá-los para eliminar o vírus. Foi assim que China, Singapura e Coreia do Sul abordaram com sucesso o problema.

O professor Costello explicou que, durante as comitivas de imprensa, o governo não conseguiu explicar sua estratégia. E sem uma estratégia, que incluísse rastreamento dos contágios, era evidente que o governo ainda estava buscando a “imunidade de rebanho” e possíveis 500.000 mortes. Na Rádio 4, em 9 de abril, o professor Costello mencionou que a incompetência da Grã-Bretanha é visível pelo fato de que ela tem uma taxa de mortalidade por COVID-19 cem vezes maior que a do Japão.

Nos estágios iniciais da crise, o jornal The Sunday Times relatou uma reivindicação de “apenas deixar os aposentados morrerem” por Dominic Cummings, consultor especial do primeiro-ministro, quando argumentou pela implementação de uma política de permitir que a doença se espalhe pelo país e, assim, minimizar seu custo para os grandes negócios. Ficou claro agora que os associados de Cummings, que trabalharam com ele na campanha do Brexit, estão envolvidos no planejamento dos efeitos da política de “imunidade de rebanho”.  Isso foi revelado em documentos vistos pelo jornal The Gardian depois que o governo, através do Secretário de Saúde Matt Hancock, negou explicitamente que o plano de sacrifício pela “imunidade de rebanho” tivesse sido abandonado.

Cortes e coronavirus: capitalismo exposto

O governo não tem uma estratégia para acabar com a crise do coronavírus no Reino Unido porque o capitalismo destruiu os serviços públicos e deixou os trabalhadores em risco vida, com o fechamento dos laboratórios de testes administrados pelo Serviço de Laboratório de Saúde Pública (PHLS).

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Matt Hancock admitiu que o Reino Unido “… não tinha a quantidade” de testes necessários para a pandemia do COVID-19, diferentemente da Alemanha. Uma rede de 50 laboratórios espalhados pelo Reino Unido, que funcionavam como uma primeira linha de defesa contra surtos de vírus, foi interrompida, fechada e centralizada após 2003. Um processo que começou sob um governo trabalhista neoliberal foi continuado pelos Conservadores com o único objetivo de economizar dinheiro e recompensar a classe capitalista.

Desativar o PHLS resultou em uma falta crucial de capacidade para testes extensivos em escala. Para evitar a implementação do cenário insano de “imunidade ao rebanho” e suas 500.000 mortes, será necessário implementar testes, rastreamento e isolamento. Sem a primeira parte, a segunda parte não pode acontecer.

À medida que a pandemia sobrecarrega o pessoal dos serviços de saúde, os mais vulneráveis, especialmente nos lares, ficam indefesos contra o ataque do vírus. As pessoas com deficiência estão particularmente em risco.

A verdade revelada

Uma estranha camarilha de políticos de direita agora governa a Grã-Bretanha. Essa camarilha só pensa em seus interesses de curto prazo e é incapaz de pensar estrategicamente para a população.

A taxa de mortalidade no Reino Unido ainda está subindo e deve exceder as mortes diárias na Espanha e na Itália. De fato, o Instituto de Avaliação e Estatísticas de Saúde (IHME), em Seattle, estima que o Reino Unido será o mais atingido entre todos os países europeus. O Reino Unido, com um número estimado de mortes de 66.000, acabará por ter mais mortes do que as mortes combinadas da Itália, Espanha e França, que têm medidas mais rígidas de isolamento.

Apesar de a Organização Mundial da Saúde ter exigido uma política de “teste, teste, teste”, o governo do Reino Unido não seguiu esse conselho. A OMS, um órgão da ONU, viu seus conselhos serem ignorados pelos EUA e pelo Reino Unido, cujos líderes só se preocupam com seus cálculos políticos egoístas e de curto prazo.

Um relatório de uma figura importante do governo confirmou em primeira mão que: “Eles foram muito lentos e não entendiam a escala disso”. Ele continuou, dizendo que aqueles que estavam no topo do governo eram “blasé” e que as reuniões de emergência do gabinete do governo não eram nada eficientes em comparação com as que ocorreram após ataques terroristas. Na verdade, eram caóticas.

Será que existe alguma explicação para a incompetência da classe dominante? A perspectiva de mortes para o Reino Unido lembra algo que Trotsky escreveu no monumental História da Revolução Russa. Trotsky estava descrevendo o estado do exército russo e como este havia sofrido mais baixas que qualquer um de seus aliados na Primeira Guerra Mundial. Ele lembrou ao leitor que o soldado russo precisava usar um humor macabro para lidar com a perspectiva de seu destino. Um ditado comum era: “a guerra continuará até a última gota de sangue russo”.

Em 1917, um cadáver fétido de sistema, desesperado para se apegar ao poder e impedir a revolução dos trabalhadores, governou a Rússia. Assim, seguiu uma política de enviar soldados para morrerem contra um inimigo superior. Criou inclusive uma ofensiva em julho de 1917 apenas para apaziguar o ânimo de seus aliados, Inglaterra e França, que, de 18 de junho a 6 de julho, custou a vida de 56.000 homens.

Da mesma forma, o número de 60.000 mortes projetado para o Reino Unido é visto como um sacrifício para os gestores de fundos de investimentos que apoiam o partido de Tory. A atual classe capitalista permitiu essa crise ao diminuir os serviços públicos e ao ser incompetente quando confrontada com a própria crise.

Avisos do coronavírus ignorados

A pandemia foi explicada nos círculos financeiros como um evento “Cisne Negro” – algo que é imprevisto, pega todos de surpresa. No entanto, este não foi o caso. Muitos avisos foram emitidos para os governos de todo o mundo, mas sem sucesso, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos.

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No Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, a ameaça de uma pandemia não estava entre as cinco principais ameaças à economia global.

Desde 2008, quando o sistema bancário quase entrou em colapso, o capitalismo salvou os bancos e a ele próprio bombeando dinheiro por meio de flexibilização quantitativa. Esse é um método bastante simples de comprar títulos de governos e ações de empresas. Ao fazer isso, o dinheiro do sistema é utilizado em ações para manter a economia em movimento.

Eventualmente, segundo a teoria deles, os governos poderiam recuperar seu dinheiro apenas vendendo os títulos que compraram. A flexibilização quantitativa continuou. Os EUA repetiram-na na tentativa de diminuir os efeitos da crise. Este é o “bombeamento de dinheiro para a economia” pelos governos: o governo compra suas próprias dívidas e dívidas emitidas pelas empresas para mantê-las à tona e forçar os investidores a usar seu dinheiro na economia.

Mas, devido ao coronavírus, a brincadeira entrou em colapso. A ruptura na economia global será maior que o crash de Wall Street e a grande depressão. Para os EUA, estima-se uma taxa de desemprego de 30%.

No entanto, como sempre, os fundos de investimento estão conseguindo lucrar com o caos nos mercados monetários e nas bolsas de valores.

Agora tudo mudou. A estabilidade da União Europeia está ameaçada, já que países mais ricos, como Alemanha e Holanda, se recusam a dividir os encargos financeiros com Espanha e Itália e continuam a impor medidas estritas à Grécia. O governo francês parou uma empresa que estava produzindo um pedido de máscaras para o sistema de saúde britânico e a Alemanha acusou os EUA de atacar um carregamento de máscaras destinadas a ela da China.

O jornal The Guardian, em 10 de novembro, citou Marx de 1868, dizendo que, se uma nação para de trabalhar, perece. É por isso que agora existe um esforço para acabar com a quarentena e reabrir a economia. O governo precisa continuar gastando, o que levará a uma espiral inflacionária, já que autorizou o Banco da Inglaterra a imprimir dinheiro sem qualquer lastro. É bem possível que surja uma hiperinflação com a recessão.

No diminuir da pandemia, uma coisa é certa: as contradições econômicas não irão embora. Os bancos ficarão insolventes e só continuarão por causa do resgate dos governos. O desemprego será maior e haverá um aumento do trabalho precário. Os serviços sociais e de saúde serão cada vez mais pressionados. Além disso, haverá uma redução contínua dos padrões de vida, pois a inflação prejudicará o que as pessoas poderão comprar com o dinheiro que têm.

A única forma com que o capitalismo se preparou para a pandemia foi fechando o maior número possível de serviços públicos. Por enquanto, o Ocidente rico garantiu a sobrevivência do capitalismo. No entanto, os países menos desenvolvidos do mundo agora são largados olhando para o precipício. Crises mais profundas estão garantidas para o futuro, e surtos revolucionários se intensificarão nos países oprimidos e também nos países imperialistas.

Nenhuma crise pode ser superada sem uma luta contra sua verdadeira causa – a pandemia que é o capitalismo. Viver sob o capitalismo significa uma crise após a outra ou mesmo ao mesmo tempo. Hoje, os trabalhadores estão morrendo porque o capitalismo não os protegerá da COVID-19. E é por isso que precisa ser derrubado na luta pelo socialismo. Mas essa luta só pode se desenvolver plenamente com um partido revolucionário que lute por mobilizações de massa, pelo controle operário, não por um governo parlamentar.

EPIs para todos os empregados e testes massivos com rastreio!

Organize-se no seu local de trabalho – Sem segurança, sem trabalho, pagamento integral!

Apoio a todas as ações dos trabalhadores para salvar suas vidas!

Defender nossas vidas, lutar pelo poder operário, lutar pelo socialismo!