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“Em política sou uma vaca fardada”, já dizia o velho general Olympio Mourão, um dos líderes do golpe de 1964. Foi ele quem escreveu, na época em que era um simples coronel e um fanático integralista, o famoso Plano Cohen, sobre uma suposta conspiração comunista que serviu de pretexto para Getúlio Vargas dar o golpe do Estado Novo, em 1937.

Por: Jeferson Choma

Infelizmente, Olympio não foi a única “vaca fardada” da nossa história. Pode-se dizer que houve rebanhos delas, especialmente na ditadura militar. O governo Bolsonaro está cheio. Manadas inteiras, a começar pelo vice-presidente, o general Hamilton Mourão que preside o Conselho Nacional da Amazônia, formado por mais 19 militares. Claro, sem Ibama e sem Funai, diga-se. Só entra quem for ruminar.

Mourão assumiu a função para supostamente combater a devastação da Amazônia. Mas só vem atrapalhando aqueles que realmente combatem os destruidores da floresta. Funcionários do Ibama disserem, em uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo de 20 de maio, que o Exército só sabota suas ações. Mobilizou agentes, helicópteros e dezenas de viaturas em Mato Grosso para uma operação que terminou sem multas, prisões ou apreensões. Os agentes do Ibama haviam sugerido outro alvo na região. Eles têm acesso a evidências de ilegalidade, são treinados para isso. Mas foram ignorados. Mourão vai à Amazônia para fazer circo, chamar a imprensa para tirar foto, mas, na prática, deixa as queimadas correrem soltas enquanto os desmatadores continuam impunes.

Isso não é tudo. Em seis meses, duas São Paulo foram desmatadas na Amazônia. É isso que diz o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo o Instituto, foram desmatados em junho mais de 1,3 mil quilômetros quadrados. Somado o desmatamento de todo o semestre, chegamos a 3.069,57 quilômetros quadrados devastados na Amazônia, um aumento de 25% em comparação ao primeiro semestre de 2019. Essa área é o dobro do tamanho da cidade de São Paulo.

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Esses dados servem de indicação para as equipes de fiscalização sobre onde pode haver crime ambiental. Mas são justamente esses dados que são ignorados pelo exército. Mas o pior pode acontecer, pois no governo Bolsonaro, quem faz o seu trabalho direito é demitido. Fiscais que combatiam o desmatamento em terras indígenas foram exonerados após exibição de uma reportagem no Fantástico há meses atrás. Uma semana após a divulgação dos dados pela imprensa, também foi exonerada a coordenadora-geral de Observação da Terra do Inpe, Lubia Vinhas. Foi exonerada pelo ministro-astronauta, outra vaca fardada que vendia travesseiros antes de ocupar um Ministério no planalto.

Foi a equipe de Lubia que divulgou os dados acima e sobre o crescimento de 64% dos alertas de desmatamento dos últimos onze meses. Foram mais de 7,5 mil quilômetros quadrados de floresta com sinais de desmatamento. No período anterior, eram 4,5 mil quilômetros quadrados. Tudo indica que este ano o desmatamento vai ser muito maior, escancarando que a jagunçada não faz quarentena e está atiçada, senão dando gargalhadas do exército. Afinal, eles vão para um lado, os generais mandam a tropa ir para o outro!

Recentemente, executivos de 38 grandes empresas brasileiras e estrangeiras enviaram uma carta ao governo cobrando ações concretas de combate ao desmatamento, conforme noticiou o jornal Valor Econômico. Sobre a política ambiental brasileira, os empresários dizem que a “percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o país”.

Nos bastidores, diz-se que há uma pressão pela demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente. Ele que já foi condenado pela justiça por fraudar mapas da várzea do Rio Tietê, quando era secretário do Meio Ambiente, agora está na mira do Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Seu sigilo bancário foi quebrado. Transferências milionárias em suas contas foram descobertas. Salles teria acumulado R$ 7,4 milhões em cinco anos, quando ocupou cargos públicos no governo paulista.

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Mourão foi obrigado a fazer uma videoconferência com os capitalistas. O temor é que o aumento do desmatamento provoque retaliações econômicas, principalmente ao agronegócio brasileiro. Bolsonaro até admitiu que a imagem do Brasil no exterior está negativa por causa da questão ambiental, mas disse que isso é uma “visão distorcida” do governo e que vai investir em publicidade.

O governo não pretende reativar os órgãos para o monitoramento e fiscalização ambiental. O que ele realmente quer é “passar a boiada” na legislação, como confessou o criminoso Ricardo Salles na famosa reunião ministerial de 22 de abril. Querem mesmo é intervir no Inpe, desmontar a estrutura histórica criada para ao monitoramento da Amazônia e impedir a divulgação de dados que possam causar prejuízos ao agronegócio.

O Ibama arrisca perder até 20% de seu orçamento no ano que vem, segundo aviso da direção da autarquia a servidores do órgão. É assim, desmontando, exonerando servidores e censurando dados, que o governo pretende mostrar aos grandes capitalistas que essa história de desmatamento na Amazônia simplesmente não existe.

Exército despeja cloroquina em indígenas

No dia 1º de julho, uma comissão interministerial de emergência de combate à pandemia foi a Roraima para ver o que ocorre com as populações indígenas do estado. A comissão teve a presença do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e de representantes do Ministério da Saúde. Umas das barbaridades da dita missão foi levar 66 mil comprimidos de cloroquina para o tratamento de indígenas de nove etnias das terras indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol. A droga, que foi produzida aos milhares pelos Exército, não tem eficiência comprovada no combate a COVID-19 e, ao contrário, pode resultar em graves problemas cardiovasculares.

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Azevedo ainda soltou uma pérola durante a visita: “Não é um caso de uma pandemia que está atingindo os índios.” A negação farsante do ministro fez com que as entidades dos povos indígenas de Roraima repudiassem publicamente a fala do militar (leia a nota aqui)

O pior é que uma nova viagem está sendo planejada pelos ministérios da Defesa e da Saúde para uma terra indígena em plena pandemia e preocupa os habitantes do Parque do Tumucumaque, no Pará. Os indígenas temem a distribuição indiscriminada da hidroxicloroquina.

No passado, a ditadura militar exterminou civilizações inteiras na Amazônia para construir estradas e abrir a região para mineração e pecuária ao capital estrangeiro e nacional. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, mais de 8 mil indígenas foram liquidados na época. Agora os militares desencalham seu estoque de cloroquina em cima dos indígenas. No futuro, o papel dos militares sobre esse novo genocídio indígena será cobrado com juros e correção. A vaca vai pro brejo. Já passou da hora de limpar os currais da nossa história.