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Documentário lançado pelo Netflix torce e retorce fatos a fim de embasar tese do “golpe” e falsa polarização entre “direita” e o PT.

Por Diego Cruz, do PSTU-Brasil

O documentário da jovem cineasta Petra Costa, “Democracia em Vertigem”, estreou com alarde na plataforma de streaming Netflix e, como não poderia deixar de ser, vem provocando vários debates. Trata-se de uma superprodução, tecnicamente impecável e que tenta estabelecer uma narrativa sobre a atual situação do país a partir de junho de 2013 e os seus desdobramentos.

De tudo o que se pode dizer desse documentário, uma coisa é fato: Petra é honesta ao apresentar, de início, sua perspectiva. Traçando um paralelo entra a história da sua própria família (o avô é fundador da Andrade Gutierrez e os pais fizeram parte da luta armada contra a ditadura) e a história recente da redemocratização no país, a cineasta firma os pés (ou seu “lugar de fala”, ou para ser mais exato, o “seu lugar de classe”) de forma bem explícita, como se dissesse: aqui é a visão de uma jovem de classe média alta (ou até mesmo burguesa), de esquerda, sobre a derrocada do governo do PT. Tanto que a narração, em off, é em primeira pessoa recheada por imagens de arquivo pessoal em meio à engenhosa montagem.

As quase duas horas de filme desvelam uma narrativa que tenta explicar a implosão do governo petista e a ascensão da extrema-direita sob a sua ótica, que é a ótica do próprio PT. E, como um documentário tem nos fatos sua principal matéria-prima (pelo menos esse tipo de documentário político), ou pelo menos a realidade como substrato, a cineasta é obrigada a torcê-los, omitir outros tantos, para que estes caibam em sua caixinha de argumentos.

Tecendo mitos
Sintomático que o documentário comece e termine com as imagens de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, momentos antes de ser preso. Pois, na visão de Petra, a prisão de Lula teria sido a consumação do “golpe” sofrido por Dilma pelas elites após a ex-presidente ter rompido a política de conciliação de classes estabelecido por Lula. O impeachment seria, assim, a ruptura da democracia que abriu o caminho para a ascensão da extrema-direita e cindiu o país em dois lados inconciliáveis: de um lado a direita (e a extrema-direita), de outro o povo e o PT.

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Para embasar tal construção, Petra primeiro é obrigada a idealizar os governos do PT. “Nasci num mundo em que meus pais queriam transformar e me tornei adulta num mundo mais próximo que sonhávamos“, diz, referindo-se ao governo Lula e aos anos de crescimento econômico e alta popularidade do então presidente. O “sonho efêmero” da democracia durou, nessa fábula, até o impeachment de Dilma. “Sinto o chão sumir sob os meus pés“, reflete sobre a queda da ex-presidente.

A relação com as empreiteiras ainda sob o governo Lula, a aliança com o PMDB, aprofundada para a eleição de Dilma, e os escândalos de corrupção, verdade seja dita, não são omitidos. Mas não como características inerentes a um governo que chamaríamos de burguês, mas como um efeito colateral de se tentar mudar o país por dentro da institucionalidade. Como afirma Gilberto Carvalho, o tom mais crítico do filme, o grande erro do PT teria sido não fazer a reforma política.

O aprofundamento da desigualdade social sob os anos do PT, o crescimento vertiginoso da população carcerária e o aumento do genocídio da juventude negra, por exemplo, nessa perspectiva, praticamente não existem. Se Petra mostra que a conciliação fez com que as empreiteiras, ou as elites, não tenham sido apeadas do poder nos anos do PT, faltou mostrar as consequências disso aqui embaixo. Nos anos mais recentes, as remoções forçadas e o avanço brutal do agronegócio sobre os indígenas. Para uma vasta parte da população, a democracia nunca entrou em “vertigem”, pois nunca existiu. Tampouco existiu o Brasil sonhado pelos que lutaram contra a ditadura, ou tantos outros que dedicaram anos de suas vidas na construção do PT.

Os anos Lula e Dilma não só não resolveram problemas estruturais, como os aprofundaram. Uma situação explosiva que, com a fagulha dos protestos contra o aumento da passagem em 2013, provocou a “ruptura do tecido social” que a documentarista relata. Revolta que, para ela, teria sido cooptado pela mídia e a extrema-direita para derrubar o governo Dilma, que supostamente se insurgia contra a conciliação de classes do governo Lula. “Dilma vai contra a conciliação lulista, tira cargos importantes do PMDB e força os bancos a baixarem os juros“, narra.

A explicação do impeachment de Dilma é o passo seguinte à idealização do governo Lula. E, mais uma vez, os fatos não se encaixam no quebra-cabeça montado por Petra. Apesar de mostrar que Dilma feriu sua promessa eleitoral aplicando uma política de ajuste fiscal, faltou dizer que ela nem sentou na cadeira de presidente pela segunda vez e atacou direitos como o seguro-desemprego e o PIS, atingindo justamente os mais pobres. Foi também responsável pela maior privatização da história ao entregar o Campo de Libra do Pré-Sal (colocando, inclusive, as Forças Armadas para reprimir os protestos), prometendo ainda ao sistema financeiro uma reforma da Previdência bem parecida com a que tramita neste momento no Congresso.

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Não foi só uma política de ajuste fiscal, mas o maior ajuste aplicado na história desde então. Não foi por menos que os banqueiros e o sistema financeiro resistiram até o último momento ao impeachment. Dilma não se voltou contra a conciliação de classes como tenta mostrar a cineasta, mas afundou de cabeça nela. A fração majoritária da elite não tramou sua queda, mas a segurou até onde pôde.

Qual polarização?
De forma que chegamos ao terceiro pilar dessa construção petista: a polarização social. Petra mostra os protestos na Esplanada durante a votação do impeachment como símbolo da divisão do país: de um lado os manifestantes de verde-e-amarelo, de outro os defensores de Dilma. Mas as imagens não conseguem esconder que as manifestações ali foram extremamente esvaziadas. Se havia polarização, não era ali que ela estava representada. Outro detalhe também chama a atenção: sempre que precisa recorrer a imagens que expressem essa polarização, contrapondo-se a Temer e aos “golpistas”, recorre à manifestação realizada em Brasília de maio de 2017, contra a reforma trabalhista e previdenciária. Mas que, no contexto montado pelo documentário, parecem manifestações contra o “golpe”.

Isso é explicável, pois não existiram manifestações de massas contra o impeachment de Dilma, simplesmente porque 70% da população apoiavam a sua saída. O que traz uma questão interessante: no documentário, o estelionato eleitoral aplicado por Dilma, assim como os sucessivos ataques aos direitos da população mais pobre, não coloca a democracia em “vertigem”, mas o que seria o desrespeito à instituição do voto, à eleição que o próprio filme coloca como manipulado pelas grandes empreiteiras, sim. Mesmo que a maioria da população, inclusive os mais pobres, estivessem a favor da saída da presidente.

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A polarização real que existe, assim, não é entre a direita e o PT. Mas entre o governo, a direita, banqueiros, grandes empresários, que empreendem uma verdadeira guerra social contra a classe trabalhadora que, embaixo, resiste e luta. Tanto o PT não é a outra ponta da polarização que, enquanto você lê esse texto, os governadores do partido articulam no Congresso Nacional a aprovação da reforma da Previdência de Bolsonaro. Não são projetos inconciliáveis, embora não sejam a mesma coisa.

Fábula
“Democracia em Vertigem” oferece uma visão sobre os últimos seis anos que abalaram o país, reduziram a pó a chamada “Nova República” e abriu uma crise que está longe de terminar. Há bons momentos por seu valor histórico, como as imagens inéditas de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos antes de se entregar à polícia, os bastidores do show de horrores do Congresso Nacional durante o impeachment, ou o inconformismo de Dilma e seu então advogado Eduardo Cardozo quando se viram traídos por deputados que, horas antes, haviam-lhe prometido o voto.

Os fatos, porém, são torcidos e retorcidos para que caibam nessa fábula petista. Parte da “guerra de narrativas” da “pós-verdade”, em que a realidade é suprimida pelas versões para atender a determinados interesses, mesmo modus operandi das fake news de MBL e grupos afins.

A melhor definição, porém, para a questão trazida pelo título do filme de Petra Costa não foi dada por Dilma, Lula ou qualquer quadro da “esquerda”. Mas uma faxineira do Planalto (cujo nome nem ficamos sabendo) que, logo após o impeachment, disse que “novas eleições seria o melhor“. “Mas na verdade, nem existe democracia, o direito da gente votar, acho que não existe não“, diz no momento que aparece como o mais lúcido do filme.