Realizamos uma breve entrevista com as companheiras Geannina Araya e Dinia Granados. Geannina é professora e está apoiando as mobilizações na zona de Barranca, Puntarenas. Dinia é funcionária do CEN CINAI na zona de Limón. Ambas contam sua experiência como mulheres lutadoras que em suas regiões fazem parte de um dos processos de mobilização mais importantes dos últimos anos, sendo parte da luta contra o Plano Fiscal.

SOCIALISMO HOY:  Gostaríamos que vocês nos contassem sobre a situação onde vocês estão participando, porque é justamente nessas regiões que a luta está mostrando maiores níveis de combatividade.

Geannina A.: Desde o início tem sido um movimento que está se desenvolvendo de forma bastante combativa. Há 15 dias houve uma greve do setor de pescadores em Puntarenas. Então tínhamos esse exemplo bem vivo e tentamos resgatar o mesmo sentido de luta e determinação.

A ideia era levar a luta pra frente da Refinadora Costarriquense de Petróleo (RECOPE) não tanto para tomar suas instalações – porque os trabalhadores técnicos da RECOPE já tinham bloqueado o sistema, o que tornaria muito mais difícil liberar o combustível de lá – mas para ficar lá pelo fato da planta (centros de distribuição e vendas da RECOPE ndt.) ser um lugar icônico para um dos setores que se somou à greve, e mais importante ainda, porque se encontra em uma via nacional muito importante, então a ideia era não permitir que passassem os caminhões que abastecem a Guanaste, Limón, Miramar etc.

A greve se desenvolveu dessa maneira durante a primeira semana. A primeira tentativa de repressão foi no sábado; os policiais chegaram depois do meio-dia, mas não houve uso significativo da força porque a mobilização estava muito forte e porque havia um desgaste dos oficiais que vinham de outros lugares e estavam cansados, mal alimentados e desidratados. Então acho que a combinação desses múltiplos fatores fez com que não reprimissem. Sabíamos que a repressão era iminente, pela disposição do governo, que teve que se enfrentar a uma greve geral fortalecida, com grande divulgação nas redes sociais e que lhe gerava um forte baque econômico.

Esperamos a repressão no sábado à noite e madrugada, mas ela não chegou; no domingo o apoio ao bloqueio se fortaleceu: chegaram companheiros e companheiras de Alajuela, San José e outras zonas para apoiar: esse dia foi multitudinário. Inclusive na segunda-feira durante o dia estivemos muito fortes, bloqueando durante todo o dia, mas ainda assim esperando a repressão. Durante a noite o movimento se debilitou porque muitos companheiros voltaram para suas casas depois de terem ficado o dia todo no bloqueio e ficaram umas 60 pessoas em frente à planta da RECOPE. Foi então que chegou a polícia e nos reprimiu, sem cumprir o protocolo e sem deixar qualquer margem de resposta para os/as manifestantes.

Eu acho que nesse fato existe uma grande responsabilidade das direções sindicais, que tomam as decisões sobre o movimento sem uma verdadeira estratégia traçada que permita afrontar a esse tipo de situações.  Por parte dos dirigentes dos Professores e RECOPE, a perspectiva depois desse dia era debilitar o movimento.

Depois de terem sido reprimidos os professores, por exemplo, convocam uma manifestação em Caldera, posição contrária à que tínhamos os companheiros de base da RECOPE, do Instituto Costarriquenho de Energia (ICE) e da prefeitura de nos manter no mesmo lugar como tática para sustentar a medida de pressão. Por isso tentamos organizar de alguma maneira uma contraposição à burocracia sindical regional, com companheiros/as que estão pela defesa da greve e acreditamos que as pessoas que estão todos os dias e noites participando têm todo o direito de participar das decisões, que nesse momento estão sendo monopolizadas pelas direções.

Dinia: Em Limón é difícil de contabilizar a quantidade de manifestantes, mas foi um número grande. Tivemos participação de trabalhadores/as da Caixa Costarriquense do Seguro Social (CCSS), ICE, RECOPE, Junta de Administração Portuária e de Desenvolvimento Econômico (JAPDEVA), da Associação de Professores do Ensino Secundário (APSE) e Associação Nacional de Educadores (ANDE) e sinceramente em Limón são as maiores manifestações que já aconteceram. No meu caso, sou a única trabalhadora dos Centros de Educação e Nutrição e de Centros Infantis de Atenção Integral (CEN CINAI) da região na greve, então me juntei aos grupos que estão mais organizados. Fizemos caminhadas da Casa dos Professores até a RECOPE.

Lá alguns aproveitaram para fazer caminhadas até a entrada da APM Terminals. Tem sido muito agitado, obviamente todas as manifestações que fizemos foram pacíficas, tudo o que foi falado nos meios de comunicação sobre os grevistas é mentira. Lamentavelmente houve alguns atos de vandalismos na região, mas nos grupos nos quais participei não houve nenhum tipo de agressão a ninguém.

SH: ¿Como tem sido a presença das mulheres na greve e nos locais que estão bloqueando?

Geannina: as companheiras têm assumido desde tarefas nas questões mais logísticas, alimentação, armação das barracas; até tarefas mais arriscadas, como a presença de madrugada arriscando sua integridade física. Tivemos um caso, por exemplo, no amanhecer do domingo, durante os bloqueios da madrugada, que um homem jogou o carro em cima de uma professora quando abrimos uma das pistas. Mas é claro que existe um grande esforço, por todas as tarefas domésticas que devem ser garantidas para no dia seguinte poderem estar na mobilização.

No entanto, acho muito importante destacar que elas estão participando de um processo muito desgastante de mobilização fora, e continuam sustentando o trabalho em casa: muitas têm filhos, maridos que trabalham no setor privado e coisas da casa que não podem deixar de fazer porque continuam sendo relegadas a elas. Então existe uma dupla carga, desde a organização, a greve e a luta e as responsabilidades às quais elas seguem vinculadas.

SH: Dinia, você nos dizia que é a única trabalhadora da CEN CINAI na região que está participando da greve. Gostaríamos de saber como está sendo sua experiência diante da pressão que existe para que as pessoas retornem para seus postos de trabalho.

Dinia: Eu me declarei em greve desde o primeiro momento, então nem estive no trabalho para receber maiores pressões. Da chefatura o único que recebi antes de iniciar a greve foi uma mensagem que enviou a Diretora Nacional da CEN CINAI onde dizia que as pessoas que estavam pensando em fazer greve deveriam ter em conta que os serviços prestados pela CEN CINAI são essenciais.

Eu respondi que desde quando esses serviços são essenciais, porque o conceito que tenho de serviços essenciais é outro, são serviços que têm um impacto direto essencial e que isso também está ligado aos recursos que lhes dão para comprar materiais e de atendimento do serviço, coisa que na CEN CINAI é muito escasso. Então somos essenciais quando lhes convêm.

Alguns companheiros me perguntam se não tenho medo de ser a única em greve e fico com esse amargor de saber que as pessoas têm esse temor. Eu me dei a tarefa de ler e tomei a decisão muito pessoal de que esse não é um movimento único, estamos unidos, todo o povo por um só objetivo. Mas há uma nebulosa muito grande para que as pessoas não se sintam respaldadas e isso faz com que elas fiquem temerosas.

Existe também uma cultura do medo, para escandalizar, para amedrontar e assustar os outros funcionários. Algumas instituições do governo reproduzem o que mandam seus chefes, reproduzindo mensagens errôneas ou que não são corretas para vender essa imagem à pessoa que não está em greve. Vendem isso através dos meios de comunicação com uma campanha muito forte contra aqueles que estão se manifestando.

SH: Agora que as direções sindicais se sentaram para negociar com o governo, o que vocês acham que deve ser feito no processo que está por vir? Qual deveria ser o papel do movimento para derrotar o plano fiscal?

Geannina: eu acho que essa greve tem muitíssimas particularidades históricas, não é só uma greve geral que foi definida e partiu apenas de um bloco sindical do setor público, mas também teve respaldo total das bases à direção sindical. No entanto, temos clareza que existe uma tradição antidemocrática das direções dos sindicatos em geral e isso nos mantém em alerta. Nesse caso nos permite fazer balanços sobre o processo de greve e sua direção. E nesse momento o balanço é que, pelo menos em Puntarenas, existe uma política de debilitamento e devemos, como base, impulsionar o aumento das medidas de pressão.

Eu acho que ninguém esperava a força que tomou essa greve. É uma greve que está sendo muito impulsionada a partir das bases, então [é difícil] para a burocracia sustentá-la, pois acaba escapando de suas mãos; isso é muito perceptível, por exemplo, na necessidade que mostram os dirigentes para sentar-se para negociar com o governo apesar da prepotência e pouca abertura ao diálogo e das múltiplas mostras de repressão em Alajuela, Limón e Puntarenas. Então o que importa aqui é que as companheiras e companheiros unidos tratemos de ganhar a política da greve sustentada nas ruas e a partir disso tentemos fazer com que se discuta da forma mais democrática as próximas medidas de ação para sustentar a greve e que o movimento não se enfraqueça.

Tradução: David Espinosa