A deportação de mais de 1.000 colombianos pelo governo de Nicolás Maduro, o deslocamento forçado de outros 12.000 e o fechamento da fronteira geraram crise entre os governos da Venezuela e da Colômbia, polarizando com posições nacionalistas reacionárias em ambos os países. Em meio a campanhas eleitorais e disputas internas interburguesas, a burguesia desses países quer utilizar a crise em benefício próprio, à custa do aprofundamento da crise social da população venezuelana e dos imigrantes colombianos. A votação na OEA, na qual o governo colombiano foi derrotado, sinaliza o isolamento de um país cujos governos têm sido os principais lacaios do imperialismo norte-americano no continente, e que não está ausente nesta crise.

Por: PST – Colômbia

Contrabando e paramilitarismo

Não há dúvida nem discussão de que existem poderosas máfias que saqueiam a economia venezuelana majoritariamente subsidiada pelo Estado, tampouco há dúvidas quanto à presença do paramilitarismo colombiano que lidera parte dessas máfias e as do narcotráfico. Calcula-se que 40% dos produtos básicos subsidiados entram como contrabando na Colômbia e são vendidos a um preço 20 vezes maior. Também ingressa diariamente gasolina equivalente a 100 mil barris de petróleo, cujo litro custa 2 centavos de dólar na Venezuela e na Colômbia é vendido a 1 dólar. Algo parecido acontece com o dólar. Na Venezuela, um dólar custa 6,30 bolívares, enquanto em Cúcuta (Colômbia) é vendido a 190 bolívares.

O problema do contrabando e do paramilitarismo – ao que o presidente Maduro se refere como as principais causas para o fechamento da fronteira e a deportação de colombianos – é real. Mas o que ele não reconhece é que as poderosas facções de contrabandistas e narcotraficantes existem e funcionam porque nelas há a participação de altos funcionários da Guarda Nacional, militares e agentes de Inteligência e da polícia de ambos os países. É preciso diferenciar entre as pessoas que buscam sobreviver, algumas participando do contrabando a pé por trilhas, e os que transportam toneladas de alimentos e gasolina em grandes caminhões e carros-tanques que passam pelos postos de controle fronteiriços.

Não é possível encontrar os chefes das grandes máfias de contrabandistas e narcotraficantes sendo deportados e submetidos aos deslocamentos forçados de colombianos e alguns venezuelanos. Essas facções não estão sendo desmanteladas, entre outras coisas porque vários de seus integrantes são ricos e poderosos burgueses e seus agentes no Estado. O problema não tem a ver com nacionalidade, tem a ver com as classes sociais.  Os pobres são os perseguidos, não importa se são colombianos ou venezuelanos. As famílias pobres são divididas, decretando-se que os filhos de famílias colombianas nascidos na Venezuela são propriedade do Estado. Mas nos ricos e poderosos ninguém toca. Nessas condições, os problemas do contrabando e do narcotráfico não têm solução.

Crise econômica e social, eleições e negociações de paz

O presidente Maduro afirma que os motivos para fechar as fronteiras e deportar os colombianos são o contrabando e o paramilitarismo, que, como já foi dito, são fenômenos que existem e estão relacionados, mas há outras razões que são as fundamentais. O governo venezuelano enfrenta uma profunda crise econômica e social que gera descontentamento por causa do desabastecimento, da inflação e do aumento da insegurança. Ao mesmo tempo, o governo de Maduro está com os índices mais baixos de aceitação e pode perder nas próximas eleições para governos locais. Em meio a essa situação, ele pretende unir os venezuelanos em torno do seu governo e ganhar votos, com uma forte dose de nacionalismo reacionário.

O mesmo acontece com o governo de Juan Manuel Santos para as eleições locais de outubro na Colômbia. O outro elemento que entra em cena na disputa entre os dois governos está relacionado com as negociações de paz. O governo venezuelano é o fiador do processo de paz entre as Farc e o governo colombiano, razão pela qual Santos tem que se mover entre as pressões de ultradireita do setor do ex-presidente Álvaro Uribe e as pressões do governo de Maduro, que trata de chantageá-lo com as negociações de paz.

O drama do deslocamento e da migração forçada

Afirma-se que há 5.600.000 colombianos na Venezuela, o que equivale a mais de 10% de sua população. Mas nem todos chegaram como produto da migração forçada. Calcula-se que por essa motivo há 1.000.000 aproximadamente. A maioria migrou por causa da violência exercida pelo Estado colombiano, pelos latifundiários e empresários, todos agentes  que utilizam o paramilitarismo para expropriar as terras dos camponeses. Calcula-se que, somente entre 1995 e 2010, 3.624.426 pessoas foram expulsas violentamente e forçadas a abandonar os seus bens, deixando para trás 8 milhões de hectares de terra.1. O conflito armado também está ligado a este problema. A guerrilha também deslocou e expropriou terra dos camponeses pobres.

Só existe saída com um programa verdadeiramente socialista e um governo operário

A crise e a encruzilhada em que a Venezuela se encontra é o preço de que o processo revolucionário tenha ficado nas mãos de uma direção nacionalista que nunca se propôs a levar a revolução socialista a fundo, mas que a freou com sua invenção do Socialismo do Século XXI. O chavismo se acomodou no poder burguês, enriqueceu formando a chamada boliburguesia e agora enfrenta a direita reacionária que tenta recuperar o poder do Estado e a população trabalhadora que, descontente e desiludida, não vê saída para a crise. É o preço por não ter coletivizado os meios de produção e de troca, por não ter uma economia planificada e um plano de industrialização para não depender somente do petróleo. O chavismo nem sequer foi capaz de fazer uma reforma agrária, apesar das grandes mobilizações camponesas com ocupação de terras. Os camponeses se chocaram com uma Lei de Reforma Agrária que só permitia a expropriação de latifundiários que tivessem mais de 5 mil hectares de terra sem cultivar.

Esse, porém, não é um fenômeno somente da Venezuela, onde houve processos revolucionários que impuseram governos chamados alternativos, como no Brasil, Argentina, Bolívia e Equador. Nesses países aconteceu a mesma coisa. Esses governos alternativos frearam o processo revolucionário, fazendo assistencialismo à custa do boom das matérias primas da década passada e assim mantendo os votos de seus eleitores. Mas agora entraram em uma segunda fase em que precisam governar com crise econômica e aplicam planos neoliberais sem compaixão contra os trabalhadores e a população pobre.

A conclusão é que as revoluções devem ser levadas até a expropriação dos meios de produção, como ocorreu na Rússia em 1917, que estabeleçam um governo operário e que se estendam internacionalmente para que não sejam afogadas dentro das fronteiras nacionais. Caso contrário, as revoluções retrocedem e a contrarrevolução termina se impondo, como aconteceu em todos os Estados onde triunfou a revolução socialista no século passado. Diante da guerra entre os povos desatada na Primeira Guerra Mundial, os bolcheviques russos levantaram a palavra de ordem: “Nem guerra entre os povos, nem paz entre as classes!”. Essa consigna deve ser resgatada contra a agitação nacionalista que busca provocar o enfrentamento entre os irmãos de classe da Colômbia e da Venezuela. Unidade dos trabalhadores de ambos os países, contra os governos e seus setores burgueses de ultradireita.

Nota:

1. Fonte: Documento Unidades Agrícolas Familiares, posse e abandono forçado de terras na Colômbia, da agência presidencial Ação Social, dezembro de 2010.

Tradução: Pedro Nascimento