Os últimos acontecimentos reafirmam que estamos na decadência da época imperialista. Lenin previu que esta seria uma época de catástrofes e conflitos, guerras e revoluções. Depois de uma pandemia que causou milhões de mortos, com conflitos sociais e militares em grande parte do globo, aumento da crise econômica, com o consequente crescimento da fome e da miséria da maioria da população do planeta.

Por: Américo Gomes

Como escreveu Trotsky “A vida do capitalismo monopolista em nossa época é uma cadeia de crises. Cada uma das crises é uma catástrofe (que a tentativa de sua superação…) prepara o terreno para outras crises mais profundas e mais extensas.”·.

Putin quer reconstruir o império russo destruído pelos bolcheviques

Para entender o real significado da guerra da Ucrânia temos que partir do conceito de nações opressoras e oprimidas desenvolvido do ponto de vista teórico e político por Lenin. Foi dele o mérito pelo desenvolvimento de uma estratégia revolucionaria para as nações oprimidas[1]. partindo das conclusões de Marx sobre a questão irlandesa.

Lenin escreveu que na época imperialista, a política da grande burguesia internacional é de anexações e guerras, para a opressão e exploração. Estabeleceu o conceito de “nações opressoras e oprimidas[2]. Com a diferenciação entre o nacionalismo da nação opressora, regressivo, e o nacionalismo da oprimida, progressivo, e o direito a autodeterminação. Com isso converteu a luta pela soberania nacional contra a opressão colonial em uma das reivindicações democráticas fundamentais do programa da revolução permanente dos revolucionários marxistas como parte da revolução socialista.

Depois da Revolução de 1917, e a tomada do poder pelos bolcheviques, a política concreta de Lenin foi a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas de maneira completamente antagônica ao que foi formado o Império Russo, chamado por eles de “cárcere dos povos”. Os bolcheviques defenderam a autodeterminação de todas as nacionalidades e a sua adesão livre a URSS.

Stalin fez o inverso, quando tentou russificar a Georgia, com Lenin ainda vivo, fato que levou inclusive a ruptura das relações pessoais entre os dois. Depois da morte de Lenin, Stalin avançou nesta política para toda a URSS, sufocando as nacionalidades, realizando genocídios e grandes transferências populacionais, como ocorreu na Crimeia[3].

Por isso Putin polemiza com Lenin sobre o tema[4] . No que em um sentido tem razão. Putin, como ele mesmo diz, quer estabelecer o Império Russo, que foi destroçado por Lenin e os bolcheviques. Com este objetivo o regime dentro da Rússia é também violento contra o povo russo, um regime bonapartista capitalista, que reprime violentamente a classe trabalhadora e as mais de 160 nacionalidades.

Os gran russos fomentam preconceitos contra os tártaros muçulmanos da Crimeia, chechenos, georgianos e cazaquistaneses, e todos os povos não brancos. Que representavam cerca da metade dos operários que da Rússia ocupando os piores postos de trabalho e recebem os piores salários.

Atualmente Putin sustenta as ditaduras da Bielorrússia, Cazaquistão e Chechênia. Para isso venceu a sangrenta guerra da Chechênia em 2009; depois de em 2008 invadir a Georgia, para controlar a Osetia do Sul; em 2020 ameaçou enviar tropas para a Bielorrússia para reprimir o levante popular conta Lukashenko; em janeiro de 2022 tropas russas foram enviadas ao Cazaquistão para reprimir os movimentos de protesto. Em uma política opressiva, chauvinista onde fica explicito que a invasão da Ucrânia não é uma guerra defensiva contra a OTAN, mas sim uma guerra ofensiva em sua parte do projeto de restabelecer o que seria o seu espaço vital.

O pacifismo e a neutralidade ajudam a Putin

Como em qualquer grande acontecimento da luta de classes as organizações que se reivindicam da classe trabalhadora e do movimento social se dividiram, assim como as burguesas. Os stalinistas e neostalinistas e a maioria dos Partido Comunistas em todo mundo voltaram a utilizar a teoria dos campos, tentando descobrir algo de progressivo no governo de Putin, lançando mentiras e falsificações sobre o povo ucraniano, tudo para se entrincheirar do lado do sanguinário e repressor[5]. No que são seguidos tristemente por algumas organizações trotskistas.

Esta posição apoia a qualquer regime capitalista, por mais repugnante que seja, como o de Putin, Diaz-Canel, Ortega, Maduro ou Bachar al Asad, por supostamente se opor ao imperialismo norte-americano. Fecham os olhos para estes governos que exploram a classe trabalhadora, cometem crimes e terrorismo de Estado, opressões nacionais, e até guerras e contrarrevoluções contra seu próprio povo.  Na Ucrânia, estão do lado da invasão e a ocupação.

Do outro lado, entre os que, corretamente, apoiam o direito a autodeterminação do povo ucraniano, a proteção dos direitos das minorias nacionais e estão a favor da resistência, infelizmente há os pacifistas. Baseando-se no sentimento de uma grande parcela da população mundial pela paz e de rechaço às ofensivas imperialistas, não defende apoio material a resistência como o envio de medicamentos e armas para a resistência ucraniana. Todos com o lema “Parar a guerra na Ucrânia“, “Não a expansão da OTAN“, mas se recusando a promover campanhas que enviem solidariedade material para a Ucrânia.[6]

Os marxistas revolucionários devem se diferenciar da política stalinista, que defendem a vitória de Putin; e também dos pacifistas, que apostam que as “pseudos-sanções” imperialistas poderiam barrar o exército russo, ou que os ucranianos devem aceitar um acordo que desmembre a Ucrânia ou que viole sua soberania nacional.

Somente a mobilização independente dos trabalhadores pode derrotar a invasão russa. A paz somente será conseguida com a derrota militar de Putin, não afirmar isso é semear ilusões. Defender que os trabalhadores não peguem em armas para sua autodefesa, em caso de guerra é uma política impotente e derrotista para a classe, nesta em que deveria se transformar em uma luta revolucionaria.

Nesta trincheira devem estar os verdadeiros revolucionários. O dever do proletariado mundial deve ser ditado por ajudar os povos oprimidos em sua luta nacional contra as nações opressoras e contra o seu próprio imperialismo.

Ucrânia: uma nação oprimida que luta pela soberania nacional

A luta de resistência da Ucrânia, como dos demais países da região, contra o cárcere dos povos, converte-se em uma luta pela soberania nacional contra um poder opressor, invasor e ocupante.

Na Ucrânia a revolução democrática chegou em 2014 e derrubou o ditador fantoche de Moscou, Yanucovich.  Estabeleceu uma democracia burguesa. Zelensky foi eleito, é um governo burguês, pro imperialista, a favor da entrada na União Europeia, da mesma maneira que as direções nacionalista da Catalunha e Escócia. Antes da ocupação russa aplicava um duro pacote do FMI – mudança na constituição permitindo a venda de terras a estrangeiros, rebaixamento de salários e um brutal corte nos gastos sociais e demissões, a favor dos oligarcas ucranianos e russos que tem empresas na Ucrânia[7].

Quando da invasão da Etiópia pela Itália de Mussolini, a Etiópia tinha como governo o imperador Etíope, Haile Selassie, e Trotsky respondeu que se equivocavam aqueles que opinavam que a guerra ítalo-etíope seria um conflito entre dois ditadores rivais, não viam que Etiópia era uma nação oprimida e que, portanto, a vitória de Mussolini, seria uma vitória imperialista contra os movimentos nacionalistas. Enquanto a vitória da Etiópia seria um golpe poderoso, não apenas no imperialismo italiano, mas no imperialismo como um todo e daria um poderoso impulso às forças rebeldes dos povos oprimidos.[8]

Portanto se Putin triunfar na Ucrânia, significa o reforço do uso da força de uma nação opressora contra uma nação oprimida e o ataque aos povos oprimidos em todo mundo. Sua vitória fortalecerá as nações imperialistas que tem maior poder militar e vai  legalizar o uso da força para realizar suas conquistas nas colônias e semicolônias. Por isso já esta justificando, para eles, a escalada armamentista.

Nenhuma confiança em Zelensky

Ao mesmo tempo em que apostamos na auto-organização da resistência Ucrânia, devemos alertar os combatentes que não podem ter confiança no governo Zelensky, pois como um burguês pro-imperialista deve capitular e negociar com Putin renunciando à integridade territorial ucraniana e aceitar a “finlandização da Ucrânia”, mantendo o país pro-imperialista sem entrar na OTAN, defendida por setores do imperialismo alemão e francês, expressa por Emanuel Macron[9].

Zelensky faz parte da burguesia ucraniana que, entregou todo seu arsenal, o terceiro maior arsenal nuclear do mundo, com mais de 3 mil ogivas nucleares e 100 mísseis balísticos, para a Rússia em troca de proteção, com o Memorando de Budapeste, em 1994. Que foi apoiado pelos Estados Unidos e pela França.

A mesma burguesia que submeteu o pais ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, com uma dívida que supera os 129 bilhões de dólares, obrigando a classe trabalhadora e o povo pobre a pagar esta dívida através de corte de programas sociais, privatizações da indústria, demissões de trabalhadores e trabalhadoras públicos e redução de salários.

Marx e Engels apoiaram a luta revolucionária dos irlandeses contra a Grã-Bretanha, dos poloneses contra o czar, embora nessas duas guerras nacionalistas os líderes fossem, em sua maioria, membros da burguesia e até mesmo da aristocracia feudal.  … em todos os eventos, reacionários católicos. (…) Mas nós, marxistas e bolcheviques, consideramos a luta dos rifenhos contra a dominação imperialista como uma guerra progressiva. (…) Falar de “derrotismo revolucionário” em geral, sem distinguir entre países exploradores e explorados, é fazer uma caricatura miserável do bolchevismo e colocar essa caricatura a serviço dos imperialistas. (…) Chiang Kai-shek é o carrasco dos trabalhadores e camponeses chineses. Mas hoje ele é forçado, apesar de si mesmo, a lutar contra o Japão pelo resto da independência da China. Amanhã ele pode trair novamente. É possível. É provável. É até inevitável. Mas hoje ele está lutando. Somente covardes, canalhas ou completos imbecis podem se recusar a participar dessa luta”.[10]

Como está colocado, de maneira “inevitável”, que Zelensky capitule à invasão russa é fundamental que a resistência e a classe trabalhadora vão construindo sua própria organização e comando militar, para não ficar subordinado à direção burguesa e pro-imperialista.

Sobre as sanções e a guerra da Ucrânia

Entre os que defendem a derrota russa na Ucrânia, há os que apoiam as sanções econômicas contra a Rússia, realizada pelos países imperialista, entre eles, encontraremos o “Birô político da IV Internacional”[11], o antigo Secretariado Unificado.

Devemos entender que: acima do conflito entre o imperialismo norte-americano e europeu contra governo de Putin, prevalece os seus interesses de classe. Os imperialismos colocam como prioridade a manutenção da ordem mundial imperialista na Europa e no mundo, que está em crise, e não o direito a autodeterminação do povo ucraniano.

Por isso o apoio dos governos imperialistas à Ucrânia é simbólico, parcial e insuficiente. Aceitando em última instancia que ela seja ocupada e dividida pela Rússia (finlandização). Similar ao que fizeram os imperialistas ingleses e franceses quando os nazistas ocuparam a Tchecoslováquia, nas vésperas da segunda guerra mundial. Macron, à cabeça dos governantes europeus, anunciou que não vão aceitar a Ucrânia na União Europeia[12].

Falam em congelamento dos bens dos oligarcas russos, e mesmo assim parcial, mas não em expropriação ou confisco destes bens, para enviá-los aos lutadores ucranianos. No Reino Unido o dinheiro dos Oligachs é necessário para equilibrar o déficit comercial e forma parte do fluxo anual de financiamento estrangeiro. O exemplo mais grotesco foi em Portugal onde os bancos confiscaram a fortuna de 242 euros de um destes oligarcas russos.

As sanções anunciadas pelo imperialismo são paliativas, demagogias e cínicas. Seu objetivo é tentar conquistar a consciência da classe trabalhadora no sentido de que a ONU e a OTAN podem garantir a “segurança coletiva”, com sanções governamentais, contra os que eles consideram “agressores”. Com a falsa aparência de legalidade de um corpo pseudo-internacional. Criando um clima de “unidade nacional” contra a guerra, como se fosse possível a aliança entre a classe operaria e o imperialismo.

Com isso buscam que os trabalhadores não acreditem em suas próprias forças e evitam a mobilização da classe trabalhadora para apoiar os ucranianos nesta guerra. Neste sentido estas sanções não são nem complementares às ações de nossa classe, na verdade são opostas.

Basta ver que ao mesmo tempo em que anunciam estas medidas parciais, continuam comprando e pagando o petróleo e o gás dos russos[13]. Os alemães e italianos dizem que não podem parar de recebê-lo, os britânicos, que somente recebem 4% de seu gás da Rússia, e os holandeses. anunciam planos para cortá-lo em dezembro, possivelmente quando acabou a guerra. Para se ter uma ideia a Rússia aumentou a produção e exportação de petróleo desde a invasão da Ucrânia[14].  Ingressaram na Rússia cerca de 15 bilhões de euros desde o início da invasão graças às exportações de gás, petróleo e carvão da União Europeia[15].

O que não é uma novidade, pois no caso da invasão Abissínia, hoje Etiópia, pela Itália fascista, a Liga das Nações, chamada por Lenin de “Cova de Ladrões”, votou sanções econômicas contra a Itália, e condenou a guerra como ilegal e de agressão, os stalinistas apoiaram estas sanções. Mas extraoficialmente, os governos britânico e francês não tomaram qualquer ação séria contra a Itália, os Estados Unidos continuaram exportando, inclusive materiais de guerra, e os stalinistas continuaram vendendo petróleo. Denunciados pelos trotskistas e pelos panafricanistas, como Padmore e James.[16]

Para Trotsky “Seu apoio às sanções é parte integrante de sua participação com os social-democratas na traiçoeira frente do “pacifismo oficial”. Para ele assumir a defesa da Abissínia contra a Itália não significaria encorajar o imperialismo britânico a tomar sanções contra a Itália[17].

Isso explica por que o governo dos Estados Unidos, chefe da OTAN, foi contra mandar os aviões poloneses para os lutadores ucranianos ou o equipamento necessário para que os próprios ucranianos possam defender seu território por terra, ar e mar, sem o envio de tropas da OTAN.

O chanceler alemão Olaf Scholz declarou com todas as letras: “Uma coisa precisa também estar clara: a Otan não vai intervir militarmente nesta guerra.”

O Estado Espanhol e a Itália estão enviando os piores lançadores de misseis e metralhadoras, verdadeiras sucatas para os combatentes ucranianos.

As exigências que os revolucionários devem fazer aos governos imperialistas, estão subordinadas à estratégia de lutar contra a nação opressora, no caso a Rússia e contra seu inimigo interno, em cada pais capitalista.

Nos países imperialistas, que estejam aliados com os países que estão levando guerras progressivas e revolucionarias, tudo se reduz a isto: que o proletariado lute com meios revolucionários pelo apoio militar direto, efetivo, controlado por este, até a causa progressiva (“¡Aviões para Espanha!” gritavam os operários franceses).[18]

Pelo desmantelamento da OTAN

Temos de exigir dos governos, especialmente dos países imperialistas, que entreguem para a resistência ucraniana, armas e todos os materiais necessários, sem nenhuma condição. Estando totalmente contra a entrada das tropas da OTAN no país, e mais ainda, nunca, submetendo o comando das milícias aos oficiais imperialistas.

Ninguém esquece a larga história sangrenta do imperialismo americano desde a guerra hispano-estadunidense passando pelas guerras mundiais, a guerra de Vietnã, as invasões do Iraque e Afeganistão e seu o apoio atual à ocupação da Palestina e da Arábia Saudita no Iêmen. Assim como todos os governos, membros da OTAN e União Europeia, têm uma sórdida história de ocupações imperialistas por todo o mundo. Por isso defendemos a liquidação da OTAN com o desmantelamento de todas suas bases militares.

Posição similar à adotada pelo Comitê Executivo da IV Internacional quando o Japão invadiu a China. Os revolucionários se declararam a favor da vitória do exército chinês, comandado por Chan Kai Chek, contra o imperialismo japonês. Denunciando as intenções do imperialismo norte-americano e a política reacionária de Chan Kai Chek, enquanto apoiavam o envio de material militar. Rechaçando o desembarque das tropas e, em nenhuma circunstância, a subordinação da estratégia do exército chinês ao comando do imperialismo.[19]

Seguindo a posição no conflito da Abissínia que era “a derrota da Itália e da vitória da Etiópia”, impedindo que o governo italiano recebesse o apoio da demais potencias imperialista e propiciando o envio de armas ao povo etíope.[20]

Solidariedade de classe

“Sanções imperialistas” nada têm a ver com o “boicote internacional dos trabalhadores”, que é uma forma de ação da classe trabalhadora, e um instrumento de luta.

Devemos apoiar as ações dos trabalhadores que a través de suas organizações boicotam os produtos russos. A começar pelo petróleo e o gás, por isso é exemplar o que fizeram os portuários da Inglaterra, Holanda e Estados Unidos que se recusaram a descarregar petróleo proveniente da Rússia. Em Liverpool e Kent detiveram a carga e descarga de petróleo, com moções de apoio de bombeiros (FBU) e trabalhadores gerais (Unite) que condenaram a invasão e a OTAN. Com seus dirigentes declarando que este petróleo vem “sujo de sangue do povo ucraniano”, porque está servindo para financiar o exército russo.

Esta deve ser a principal tarefa dos trabalhadores. “Uma verdadeira paralisação das exportações para a Itália por decisão dos sindicatos soviéticos teria evocado um movimento mundial de boicote incomparavelmente mais real do que as “sanções” traiçoeiras, medidas antecipadamente por diplomatas e juristas de acordo com Mussolini[21].

Armas para a resistência ucraniana

O primeiro passo é realizar mobilização e manifestações públicas pelo apoio a resistência ucraniana e a derrota militar da Rússia. Mas não podemos parar aí, temos que concretizar este apoio, em finanças, medicamentos, material militar e armas para os combatentes.

Diferente dos pacifistas que ficam somente no chamado de “Não à guerra” ou “Fora as tropas da Ucrânia”, nós defendemos que a resistência ucraniana tem que vencer a invasão russa. Para isso não podemos acreditar na demagogia imperialista, com suas sanções parciais, ou que Zelensky levará esta luta até o fim. Devemos construir a verdadeira solidariedade de classe para que vençam a guerra.

Já há voluntários de organizações de classe que estão construindo comboios de apoio a resistência e inclusive indo como voluntários combater os russos. A exemplo dos pilotos de avião, negros, norte americano que foram combater na Etiópia. Um deles Hubert Julian passou a ser conhecido como a “Águia Negra do Harlem”, outro, John C Robinson “Condor Negro”. Foram responsáveis pela fundação da Força Aérea etíope.[22]

O imperialismo morre de medo do armamento destas milícias de voluntários e civis,  dizem que abriria uma caixa de pandora de proporções inimagináveis na Europa.

Milícias formadas por homens e mulheres de uniformes militares, como em Kharkiv carregando granadas e AK-47 ou sacos de areia para a proteção de prédios. No quartel-general destas Forças de Defesa Territoriais, centenas de pessoas esperavam na fila para se juntar à força civil. Acredita-se que já são 130.000 voluntários, que realizam sessões de treinamento.

Isso ocorre também em outras cidades como Dnipro, Lviv, Kramatorsk e Kiev, onde dezenas de voluntários enchem garrafas de vidro e cortam pavios para preparar coquetéis molotov. Entre eles há engenheiros, motoristas, operários da construção civil, cozinheiros, enfermeiros e profissionais de saúde. Na região de Kiev, se calcula que cerca de 18.000 armas foram entregues a civis. Os prisioneiros com experiência militar foram libertos desde que fossem combater, e se juntaram aos 36.000 reservistas, 5.000 aposentados da Guarda Nacional e mais 5.000 aposentados da Polícia de Fronteira.

O fracasso da blitzkrieg (guerra relâmpago) do exército russo intensificou , por um lado, o bombardeio de centros urbanos de Kharkiv, Mariupol e Kiev, e, por outro, a atuação da resistência. Os combates se acirram nos subúrbios do noroeste de Kiev, em: Irpin, Borodyanka, Bucha, Gostomel deixando a população privadas de eletricidade, aquecimento e cobertura telefônica, passando vários dias em porões frios e úmidos, inadequados para se protegerem de mísseis do Grad ou Iskander usados pelo exército russo.

Se Kiev, Kharkov, Mariupol e outras cidades resistem, em uma desvantagem militar impressionante, é porque há uma grande mobilização popular não só dos combatentes, mas de pessoas desarmadas, que formam correntes humanas para impedir o avanço dos tanques russos e realizar manifestações de protestos contra o invasor, como em Energodar.

Derrotismo revolucionário russo

Lenin defendia que o derrotismo revolucionário da sua própria burguesia era uma política estratégica do proletariado, que foi materializada na formula de Karl Leibcknet em que o inimigo dos trabalhadores está dentro de seu próprio país. Trotsky alerta que esta política, como todas as outras, não pode ser encarada de forma dogmática, diferenciando as particularidades de cada conflito. Os bolcheviques aplicaram a política derrotista de maneira distinta no período do czar e depois de fevereiro de 1917[23].

O fundamental é estabelecer uma política de independência do proletariado para estabelecer sua luta e seu processo de mobilização, que abre a possibilidade da propaganda revolucionária para a luta pelo poder. “O derrotismo é a política da classe do proletariado, que inclusive durante a guerra vê a seu principal inimigo em casa, em seu próprio país imperialista. O patriotismo, ao contrário, é uma política que localiza seu principal inimigo fora de seu próprio país. A ideia do derrotismo significa na realidade o seguinte: levar adiante uma irreconciliável luta revolucionária contra a própria burguesia como o inimigo principal. Sem deter-se no fato que esta luta possa causar a derrota do próprio governo; dado um movimento revolucionário a derrota do próprio governo é um mal menor. Lenin não disse nem quis dizer outra coisa. Nem sequer se pode falar de alguma outra forma de “ajuda” para causar a derrota. Deveria renunciar-se ao derrotismo revolucionário em relação aos países não fascistas?”[24]

Trotsky defendia que nem mesmo para derrubar Hitler seria certo apoiar as democracias burguesas imperialistas, renunciando a uma política revolucionaria independente.[25] Mesmo a luta contra o fascismo deve ser embutida de uma luta a morte contra seu próprio imperialismo.[26] Este ensinamento é fundamental para o povo russo, mas também para os demais países imperialistas.

Dentro da Rússia as manifestações derrotistas contra a guerra são fundamentais, e de fato podem levar à derrota da invasão, como já ocorreu no Vietnã com o exército norte-americano. Putin sabe e teme estas mobilizações, por isso a repressão contra estes manifestantes é brutal. Foram detidas 15 mil pessoas em protestos contra a guerra na Rússia desde a invasão em 24 de fevereiro, segundo a organização de direitos humanos OVD-Info. A Rússia adotou uma nova lei que ameaça com penas de prisão de até 15 anos por divulgar “notícias falsas” sobre seus militares ou pedir sanções contra o país (sic).  Putin anunciou recentemente que vai realizar uma purificação para “limpar a Rússia de escória e traidores”, anunciando que as pessoas vão desaparecer “por si mesmas”. A ameaça de Putin veio dois dias depois que uma produtora do canal estatal russo Channel One, Marina Ovsyannikova, interrompeu as notícias com uma faixa atrás do âncora que dizia: “Eles estão mentindo para você“, em um protesto público contra a guerra na Ucrânia. O presidente da câmara baixa do parlamento da Rússia denunciou o protesto como “traição” e pediu que ela fosse punida “com todo o rigor”.

Ante esta intimidação milhares estão assinando petições contra a guerra, artistas se manifestam contra Putin, professores da Universidade de Moscou e até alguns deputados. O sentimento contrário a guerra poderá se inflamar mais, à medida que soldados e recrutas russos percam a vida nos combates com a resistência militar ucraniana.

Estes protestos têm que ser apoiados pelos trabalhadores de todo mundo. Incentivados a serem transformados em manifestações e greves, e até mesmo deserções, como na I Guerra ou como ocorreu com o Exército português nas lutas pela independência das colônias.

A estratégia de luta contra os governos capitalistas e imperialistas que dizem apoiar a luta do povo ucraniano deve ser feito através de outras táticas. Devemos exigir armas para Ucrânia, mas sem que seja confundido com apoio a eventuais medidas adotadas por estes governos, nem podem ser uma justifica para o aumento da corrida armamentista nestes países tão desejada por estes governos.

A Alemanha anunciou que irá triplicar seu orçamento de defesa para reequipar suas Forças Armadas. Com a fraude do argumento da defesa da “liberdade e da democracia” ou como uma resposta à agressão de Putin. A França tem uma das maiores indústria militar, só rivalizada na Europa pelo Reino Unido. Ambos os países têm armas nucleares próprias. Itália se comprometeu a aumentar o gasto em defesa em 2%, Macron anunciou que em seu segundo mandato os gastos militares vão ser os maiores de todos os tempos e Boris Johnson que estes serão os maiores desde a guerra fria. Vários outros países europeus estão realizando aumentos semelhantes em seus orçamentos militares.

Pela derrota militar da Rússia

Só a ação independente e solidaria dos trabalhadores de todo mundo, associada à resistência armada Ucrânia e o derrotismo revolucionário dos trabalhadores russos, pode parar a agressão de Putin e derrotá-lo.

O armamento do proletariado para sua autodefesa é a principal lição que a classe tem que aprender neste conflito. Como na China e Etiópia, hoje na Ucrânia, é essencial que os trabalhadores participem na luta contra agressões e invasão russa, como antes do império  japonês e dos fascistas italianos. Mesmo sob o comando de Zelensky, como antes sobre a direção do Kuomintang ou do imperador Haile Selassie.

Uma política pacifista vai contra a solidariedade com a resistência ucraniana. Mas nem todas as formas de violência e de guerra são reacionárias, quando nas mãos dos oprimidos são instrumentos de libertação frente a opressão. A luta de libertação no Vietnã, que derrotou o imperialismo francês e estadunidense, contou com o a utilização da força militar, assim como a luta de libertação das colônias portuguesas na África e a Guerra Civil norte-americana que acabou com a escravidão nos Estados Unidos.

A neutralidade na luta entre opressores e oprimidos, favorece o opressor. Por isso os revolucionários apoiam todas as guerras contra a dominação, opressão e exploração.

Os movimentos sociais e as organizações da classe trabalhadora têm que apoiar a resistência ucraniana por ser uma nação oprimida. Devemos nos solidarizar com o movimento antiguerra russo que pode se ampliar até questionar o governo de Putin. Estamos contra qualquer intervenção imperialista através da OTAN. Não apoiamos a fraude das falsas e hipócritas sanções imperialistas. Devemos exigir do governo imperialista o fim do comercio do gás e petróleo russo em todo o mundo assim como armas para os combatentes da resistência, em primeiro lugar para desmascarar estes governos.

Efetivamente temos de desenvolver uma solidariedade da classe trabalhadora, com o envio de medicamentos e materiais militares para nossos irmãos ucranianos. Pois sabemos que somente esta solidariedade poderá derrotar a invasão de Putin.

Esta ação ira educar as massas que para a derrubada seus próprios governos devem participar na luta militar, mesmo que um período sob as ordens, já que, infelizmente, são eles que têm o comando na guerra pela independência ou sua autodeterminação. Enquanto isso os revolucionários devem preparar politicamente a derrubada destes governos “essa é a única política revolucionária”.[27]

[1]              Trotsky 90 anos do Manifesto Comunista

[2]              “A revolução socialista e o direito das nações à autodeterminação (Teses)”, fev. 1916,

[3]              Texto de Referência Últimos escritos e Diários das secretarias, Editora Sundermann

[4]              https://br.rbth.com/politica/2016/01/26/putin-esclarece-declaracao-polemica-sobre-lenin_562435

[5]              https://www.brasildefato.com.br/2022/03/01/como-a-esquerda-mundial-ve-a-guerra-entre-russia-e-ucrania

[6]              Entre estas organizações encontraremos a “Coalizão Stop the War” (STWC), sob a liderança de corbynistas e do SWP; o “Manifesto: Resistência Feminista Contra a Guerra”; e a “Declaração da Fração Trotskista – Quarta Internacional” (FT-CI), https://www.laizquierdadiario.com/No-a-la-guerra-Fuera-las-tropas-rusas-de-Ucrania-Fuera-la-OTAN-de-Europa-del-este-No-al-rearme-imperialista-Por-la-unidad-internacional-de-la-clase-trabajadora-Por-una-politica-independiente-en-Ucrania-para-enfrentar-la-ocupacion-rusa-y-la-dominacion ;

[7]              Micahel Roberts. https://thenextrecession.wordpress.com/2022/03/20/ukraine-russia-like-an-earthquake

[8]              Trotskismo versus Centrismo na Grã-Bretanha – Parte III, O declínio do ILP, SOBRE OS DITADORES E AS ALTURAS DE OSLO

[9]              https://www.abc.es/internacional/abci-finlandizacion-ucrania-posible-salida-conflicto-rusia-o-brindis-202202081342_noticia.html

[10]            Leon Trotsky, Sobre a Guerra Sino-Japonesa, (setembro de 1937)

[11]            Declaração sobre a guerra. https://puntodevistainternacional.org/project/no-a-la-invasion-de-ucrania-por-parte-de-putin-apoyo-a-la-resistencia-ucraniana-solidaridad-con-la-oposicion-rusa-a-la-guerra/

[12]            https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/breves/lideres-da-ue-descartam-rapida-adesao-da-ucrania/

[13]            https://elpais.com/internacional/2022-03-19/bruselas-teme-que-las-sanciones-a-la-energia-rusa-quiebren-la-unidad-europea-frente-a-putin.html

[14]            https://www.elfinanciero.com.mx/mundo/2022/03/17/sanciones-economicas-le-hacen-cosquillas-a-rusia-su-produccion-y-exportaciones-de-petroleo-subieron-en-marzo/

[15]            Dados do Centro de Estudos CREA (Centre for Research on Energy and Clean Air).

[16]            Américo Gomes, Stalinismo e Panafricanismo, https://litci.org/pt/stalinismo-e-pan-africanismo/

[17]            Trotskismo versus Centrismo na Grã-Bretanha – Parte III, O declínio do ILP, SOBRE OS DITADORES E AS ALTURAS DE OSLO

[18]            Rudolfe Klemente, Principios y tácticas en la guerra, 1937

[19]            Resolución sobre la intervención norteamericana en China, 1941, Comité Ejecutivo de la IV Internacional

[20]            Trotsky, El conflicto ítalo etíope, 1935

[21]            Leon Trotsky, A Revolução Traída, Capítulo 8, Política Externa e o Exército

[22]            Americo Gomes, Stalinismo e Panafricanismo, https://litci.org/pt/stalinismo-e-pan-africanismo/

[23]            Trotsky, “O derrotismo é sempre valido”, 1936

[24]            Un paso hacia el social-patriotismo, 1939

[25]            La guerra y la IV Internacional, 1934

[26]            Leon Trotsky, Frases y realidad

[27]            Leon Trotsky, Sobre a Guerra Sino-Japonesa, (setembro de 1937)