Em outubro de 2019, muito antes da epidemia global do COVID 19, o Banco Mundial disse sem pudor que: “Se as circunstâncias permanecerem as mesmas, a taxa de pobreza [global] deverá diminuir para apenas 23% em 2030”. Ao mesmo tempo, apresenta um futuro sombrio para os países africanos. Ainda de acordo com o Banco Mundial: “a pobreza global se tornará cada vez mais africana, passando de 55% em 2015 para 90% em 2030”. Em outras palavras, em 2015, 55% dos pobres do mundo estavam na África e em 2030, 90% dos pobres do mundo estarão na África.

Mais uma vez, dizemos: isso foi antes da crise do COVID 19.

Por: Yves Mwana Mayas e Cesar Neto

Essa declaração se assemelha ao anúncio de um filme de terror. Cabe à classe trabalhadora e ao povo pobre entender os mecanismos da dívida, organizarem-se e lutar.

Então, vamos começar com dois exemplos concretos, tentar entender, explicar os mecanismos de formação da dívida externa africana e discutir como sair dessa “catástrofe que nos ameaça e como combatê-la”, como diria Lenin. De fato, vale a pena retomar este importante texto de Lenin.[1]

A formação da atual dívida externa africana

Após a Segunda Guerra Mundial, os países imperialistas europeus estavam destruídos e endividados. Na guerra, e especialmente os países ocupados, as estradas, pontes, instalações portuárias, sistemas elétricos, campos e sua produção agrícola e agrária etc. foram destruídas. Tudo precisava ser reconstruído. Tudo o que foi construído com a exploração dos trabalhadores e a superexploração das colônias deveria ser reconstruído. As necessidades eram imediatas, os tempos eram curtos e, portanto, a exploração dos trabalhadores se intensificou para “construir a pátria de todos“. Consequentemente nas colônias que viveram por décadas a imposição de trabalho escravo, ocupação de terras de populações inteiras, roubo de matéria prima, então tudo deveria ser intensificado.

Nesse momento, os principais países imperialistas não tinham dinheiro. O Banco Mundial, sempre atento aos interesses dos capitalistas, estendeu a mão e emprestou dinheiro à Bélgica, França e Inglaterra. Esses três países ficaram muito gratos pela ajuda e lembraram ao BM, que além de dinheiro, eles também precisavam passar a crise para as colônias, intensificando sua exploração. Portanto, os empréstimos não seriam concedidos em nome dos países imperialistas. Seriam concedidos em nome das colônias que deveriam honrar as dívidas de suas metrópoles. Assim, os empréstimos da Bélgica seriam pagos pela República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi. Empréstimos franceses pela: Argélia, Gabão, Mauritânia, Senegal, Mali, Guiné-Conacri, Costa do Marfim, Níger, Burkina Faso e Benin. E empréstimos a Inglaterra seriam pagos por: Quênia, Uganda, Tanzânia, Zimbábue, Zâmbia, Nigéria, Guiana Inglesa (América do Sul).

A intensificação da superexploração das colônias levou a uma onda de insatisfação expressa em greves, greves gerais, insurreições e até confrontos armados. Na defensiva devido à crise que os afetou e às lutas anticoloniais, parte do imperialismo cedeu e buscou a independência negociada.

Congo Belga: insurreições, independência e dívida externa

O Congo Belga, depois Zaire e agora a República Democrática do Congo, foi um dos países que avançaram na luta contra a intensificação da superexploração e, como consequência, avançaram rumo a luta anticolonial.

A formação da dívida externa da República Democrática do Congo ganhou um salto com os empréstimos do Banco Mundial à Bélgica, no período pós-guerra. Obviamente, haviam outros empréstimos, por exemplo, como um para a reativação da mina de urânio Shinkolobwe.

Para a construção da primeira bomba atômica, os EUA compraram o urânio da empresa belga Union Minière de Haut Katanga, produzida na mina de Shinkolobwe, no Congo. Foram 1.200 toneladas. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA continuaram a fortalecer sua indústria atômica. O melhor urânio estava no Congo. Para remover o urânio restante, “uma enorme quantia de dinheiro foi despejada na construção de uma planta de processamento perto de Shinkolobwe. O Banco Mundial concedeu US $ 70 milhões em empréstimos à Bélgica para melhorar o transporte e a infraestrutura congolesa e facilitar a exportação de urânio.”[2]

E quem ficou com a dívida? Os EUA que precisavam tanto de urânio para seu controle imperial-militar? A União Minière de Haut Katanga que vendeu o urânio? A Bélgica, uma nação metropolitana que precisava tanto de apoio político dos Estados Unidos para sua reconstrução? Ou o Banco Mundial concedeu alívio da dívida? Ou talvez as corporações químicas e de engenharia: Bechtel[3], DuPont, Raytheon, Eastman Kodak, Union Carbide[4], quem tinha grandes contratos para construir a bomba atômica?[5] Ah! talvez a Pan American Airways, que transportou o urânio ilegalmente, Caltex (California Texas Oil Company)[6], que forneceu sua infraestrutura para encobrir os agentes secretos americanos do OSS (Office of Strategic Service)?

Nenhum deles assumiu a responsabilidade por essa dívida. Então, ela foi repassada injustamente para o povo congolês. Esta é uma “dívida injusta” no sentido amplo do termo. É injusto porque era uma dívida que serviu aos interesses do imperialismo americano e belga, como também a uma gigantesca empresa de mineração de urânio, e para outras empresas que, direta ou indiretamente, obtiveram lucros astronômicos com a produção da bomba atômica.

Dizemos que esta dívida também é ilegal, injusta e imoral, porque a exploração e o transporte de urânio radioativo foram realizados sem nenhuma medida de segurança. Os trabalhadores congoleses “não foram informados sobre os terríveis riscos à saúde e segurança a que estavam expostos; eram simplesmente utilizados como trabalhadores, como se não tivessem direitos como seres humanos iguais. Esse foi um processo para o qual os EUA, o Reino Unido e A Bélgica tem uma grande responsabilidade“.[7] O transporte de urânio pelo interior do país, sem proteção, levou a “O que estamos testemunhando agora é uma mutação genética. A poluição foi tão profunda que atingiu o nível em que estamos dando à luz crianças sem membros, sem cabeças, sem pernas ou sem boca. Isso está acontecendo não apenas em um caso, mas em muitos casos em Lumbumbashi “[8]

Este caso não é o único, e agora vamos ver outro exemplo da formação de dívida externa na África.

África do Sul: a odiosa dívida herdada do apartheid

Para sua construção e manutenção, o regime do apartheid usou violência extrema e repressão interna e externa. A repressão interna baseou-se em: prisão política, detenção sem julgamento, tortura e remoção forçada de populações inteiras. Sobre a questão externa, em face da luta anticolonial na África Austral, em particular Angola, Namíbia e Moçambique, a África do Sul financiou, treinou, deu proteção territorial e forneceu armas a grupos militares pró-imperialistas.

Em um período em que as lutas internas contra o apartheid estavam crescendo dia após dia e colocando em risco a existência do regime sul africano, além do própria África do Sul capitalista. Ao mesmo tempo, o repúdio internacional ao regime de segregação racista estava crescendo. Em 1976, a Assembleia Geral das Nações Unidas votou a Resolução 31/33, na qual instou os bancos a não prestar assistência financeira ao governo da minoria branca e estendeu a recomendação a todos os estados para interromper novos investimentos e empréstimos financeiros para a África do Sul.

O apartheid só terminou em 1994 e nesse lapso entre a Resolução da ONU (1976) e o fim do regime, a África do Sul continuou a reprimir internamente e a interferir na luta anticolonial de seus vizinhos. Ambas as tarefas exigiram armas, munições, tecnologia etc., que continuaram a ter acesso através de aquisições de fabricantes internacionais e, inclusive, com o apoio financeiro de grandes bancos.

Durante o bloqueio das Nações Unidas, as compras de armas foram feitas pela empresa estatal ARMSCOR, que oferecia um prêmio em todas as transações entre 25% e 30% pagos a mais, se comparados ao custo normal desta mercadoria.[9]

Assim, a questão era que as grandes empresas de petróleo e aço na Inglaterra e nos EUA, as empresas de comunicações e automóveis na Alemanha, as empresas de energia nuclear com capital franco-alemão continuaram a investir e remeter lucros através dos bancos de seus respectivos países sem grandes problemas. E ainda foram esses mesmos bancos que ajudaram a financiar a compra de armas para a África do Sul, apesar da recomendação da ONU.

Entre esses bancos, podemos citar do Reino Unido: Barclays e Hill Samuel; EUA: Citibank e Chase Manhattan; Alemanha: Deustsch Bank, Dresdner Bank e Commerzbank; França: SocietéGenérale e Paribas; e Suíça: UBS e Credit Suisse. Naquela época, os traficantes de armas e os bancos estavam eufóricos. Eles diziam na época: “Os sul-africanos nunca foram tão bem-vindos nos mercados europeus como são hoje”.[10]

Um sistema complexo de operações camufladas: A ARMSCOR recebeu pedidos da SADF[11] e o Banco Central da África do Sul autorizou compras com base em um item de orçamento votado pelo Congresso Nacional, conhecido como “Contas de Defesa Secreta” (SDA – Special Defense Account). Próximo passo, a ARMSCOR procurou aliados no exterior para compras ilegais. Por sua vez, haviam bancos para financiamento e bancos para remessas. Então, 70% das remessas foram efetuadas por um banco na Bélgica, o Kredietbank e sua agência no Luxemburgo, Kredietbank Luxembourg (KBL).

Os executivos da KBL assessoraram a Armscor na abertura de empresas de fachada e contas secretas. “76 empresas de fachada foram criadas na Libéria, que por sua vez operavam 198 contas do Kredietbank. Outras 39 empresas de fachada foram criadas no Panamá.[12] O esquema foi estabelecido, mas era necessário muito cuidado. Portanto, “mais de 800 contas bancárias numeradas significaram que bilhões de rand movidos para fora da África do Sul não foram diretamente para empresas de armas. Em vez disso, o dinheiro foi transferido entre inúmeras contas bancárias anônimas para camuflar de onde veio e para onde você estava indo”. [13]

No diagrama abaixo, vemos o modus operandi da ARMSCOR:

Estima-se que, no auge da política repressiva interna e externa, na década de 1980, 25% do orçamento nacional fosse utilizado nas chamadas Contas Secretas de Defesa.

Uma dívida odiosa: No caso do Congo, falamos de “dívida injusta” e, neste caso, é uma “dívida odiosa”. Dívidas odiosas são aquelas que: a) foram assumidas contra os interesses da população e não para seu benefício; b) não foram consentidos pela população; e, c) Os credores conheciam os dois fatos acima e prosseguiram com esses empréstimos independentemente.

“No caso do apartheid, é claro que a grande maioria dos sul-africanos não consentiu ou se beneficiou desses empréstimos. De fato, essa dívida serviu para financiar a opressão e prolongar um sistema considerado crime contra a humanidade. É também verdade que os credores estavam cientes das condições na África do Sul sob o apartheid e das ações do regime e suas consequências para os negros da África do Sul. Também foi repetidamente levantado pela comunidade internacional que o financiamento estatal provavelmente contribuirá para a perpetuação do regime e suas políticas “.[14]

Poderíamos continuar desenvolvendo o tema da dívida pública na África do Sul, mas este exemplo é suficiente para entendermos o papel desempenhado pelo CNA-Cosatu-PC da África do Sul em seus 26 anos de governo. O que se expressa em suas duas faces: Uma bênção para banqueiros e transnacionais; e um desastre para os trabalhadores e o povo pobre.

Após a independência, o império contra-ataca

A independência dos países africanos foi uma grande vitória política. Porém, não podemos dizer a mesma coisa do ponto de vista econômico, porque, ao não avançar na expropriação do capital estrangeiro e dos grandes grupos capitalistas, deixou a possibilidade para o império atacar novamente. E esse contra-ataque ocorreu de várias maneiras, mas queremos resumir em três grandes políticas desenvolvidas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional.

1-A exploração de recursos minerais como única alternativa para os países endividados: No início dos anos 80, houve uma grave crise no capitalismo mundial que ficou conhecida como “Crise da Dívida Externa”. Neste processo, muitos países declararam que era impossível continuar pagando suas dívidas. Alguns países se declararam inadimplentes e outros suspenderam temporariamente o pagamento. Na África, onde muitos países haviam acabado de sair do período colonial e com enormes dívidas herdadas do antigo império, como explicamos no exemplo do Congo, a crise da dívida foi ainda mais violenta. O Banco Mundial apresentou uma alternativa através da Strategy for Minners in Africa.

O Banco Mundial impôs uma estratégia em que os países deveriam fechar suas indústrias, não se preocupar com o desemprego e procurar maximizar a exploração mineral. De acordo com o Banco Mundial, “a principal conclusão do relatório é que a recuperação do setor de mineração na África exigirá uma mudança nos objetivos do governo em direção a um objetivo principal de maximizar as receitas tributárias de longo prazo em vez de buscar outros objetivos econômicos ou políticos, como controle de recursos ou melhoria do emprego”[15]

Além de deixar de lado a industrialização dos países e a geração de empregos, o Banco Mundial, impôs que a exploração mineral estivesse a serviço do pagamento da dívida, sendo explorada por empresas privadas e fechando as empresas estatais de mineração. Em resumo, essas medidas atacaram a pouca soberania alcançada na luta pela independência.

2-Países pobres altamente endividados: O Fundo Monetário Internacional anunciou, em 1996, um programa de “ajuda” destinado a países que eles consideravam altamente endividados, que receberam o nome pomposo da Iniciativa para os Países Pobres Muito Endividados (PPME), também conhecida como “HIPC Initiative” por suas siglas em inglês. Entre os 52 países do continente africano, 33 foram considerados pobres pelo FMI.[16] A Iniciativa PPME baseia-se na ideia correta de que existem países que não conseguem pagar suas dívidas. Mas, o problema é que eles não explicam como essa dívida começou ou como se desenvolveu. E ainda a proposta da Iniciativa do PPME é emprestar mais dinheiro aos países para pagar juros sobre essas dívidas que são ilegais, ilegítimas ou odiosas. No entanto, eles emprestam, mas exigem como contrapartida o “controle dos gastos públicos”, isto é, a redução dos gastos com saúde, educação, moradia, financiamento para pequenos agricultores, e etc. Então, consequentemente os países que já são considerados pobres se tornarão ainda mais pobres porque o Orçamento da União estará a serviço do pagamento de juros, e na realidade apenas o pagamento de juros da dívida externa, pois as dívidas mesmo são impagáveis.

3-Maus Governos e Corrupção: Desde 2011, organizações internacionais inventaram uma nova panaceia para explicar o problema do crescimento da dívida. Agora, o problema são os “maus governos”, a falta de órgãos do Estado burguês no controle da corrupção.[17] Desses três elementos, o que ganhou mais seguidores foi o tema da corrupção. Em qualquer debate na Universidade, na mídia ou nos bares onde você toma uma cerveja, ou encontra os amigos, a conversa é sempre a mesma: o problema da corrupção.

Para encobrir a real origem dos problemas a burguesia tem um exército de intelectuais reformistas, ONGs, sindicalistas burocratizados e até igrejas que promovem orações “em defesa do país e contra maus governos”. Apesar de reconhecermos que a corrupção obviamente existe, mas que o problema maior  é a própria dívida, com juros nas nuvens, e com a produção mineral totalmente controlada pelo capital financeiro, como podemos ler no artigo “O capital financeiro imperialista na África: superexploração da classe trabalhadora e o roubo das riquezas naturais”[18].

Dívida externa: uma sangria permanente no continente africano

O processo de formação da dívida no continente africano teve sua origem no processo de colonização, segundo o exemplo do Congo aqui relatado e que podemos identificar em outros países. Há outro exemplo emblemático que ocorreu na África do Sul durante o apartheid que não foi questionado pelos governos de Mandela e seus sucessores.

De fato, ao longo dos anos pós-independência, tivemos outras formas de sangramento da economia africana. Vamos descrever outras três maneiras:

1-Fuga de Capitais: Um estudo iniciado em 2007[19] e constantemente revisado apresenta dados surpreendentes sobre a fuga de capitais. De acordo com a edição de 2018[20] “o relatório fornece estimativas atualizadas da fuga de capitais de uma amostra representativa de 30 países africanos, de 1970 a 2015, usando um algoritmo atualizado. Os resultados indicam que este grupo de países perdeu US $ 1,4 trilhão em fuga de capitais durante o período de 46 anos. Incluindo nesse valor os juros, o valor acumulado chega a US $ 1,8 trilhão. O montante excede em muito o estoque de dívidas desses países a em 2015 (US $ 496,9), transformando esse grupo de devedor para “credor líquido” frente aos países do mundo”. Este relatório estuda 30 países que juntos representam 92% do PIB do continente.

E quem são os que sangram nossas economias com fuga de capitais? Vamos ver esta informação: “De fato, os países ricos em petróleo figuram com destaque no topo da lista em termos de volume de fuga de capitais. A Nigéria lidera o grupo com US $ 340 bilhões, seguida pela Argélia (US $ 141 bilhões), Angola (US $ 61 bilhões), Camarões (US $ 43 bilhões) e os outros cinco exportadores de petróleo com quantidades menores. Os países ricos em petróleo juntos representam 55% da fuga cumulativa de capital do continente no período”[21]. Isso significa que, por trás da fuga de capitais, existem grandes empresas, incluindo empresas de petróleo. Todo mundo sabe disso, mas os Estados e seus governos são agentes diretos das empresas e, portanto, não agem contra este processo.

Esse sangramento representa um ataque a contas públicas que não tem um fundo para investir em saúde, educação e moradia para a  população. Vejamos outras informações: “As evidências também mostram que a fuga de capitais representa um fardo pesado em relação ao tamanho da economia para a maioria dos países. Analisando os 30 países conjuntamente, a fuga  de capital representa 65,6% do PIB  de 2015. Os índices da fuga de capital para 2015 varia de 9,9% para o Egito a 705,9% para a República do Congo.”[22]

Uma maneira de fuga de capitais é através de exportações com subfaturamento ou importações com superfaturamento. No subfaturamento, uma mercadoria que deveria ser faturada por US $ 100 é faturada por US $ 10. Dessa forma, o pagamento de impostos e taxas sobre os US $ 90 é evitado e o lucro repatriado é muito menor. No superfaturamento, o mecanismo é o mesmo só que em sentido inverso. Um produto que custa 10 é faturado por 100 e, dessa forma, grandes quantidades de dólares são enviadas “legalmente” ao exterior.

2-Fluxos Financeiros Ilícitos – FFIs: Os fluxos financeiros ilícitos aumentam à medida que a crise capitalista em todo o mundo cresce. A tabela abaixo mostra como, de 2004 a 2013, saltou de 465 bilhões de dólares para mais de 1 trilhão de dólares. Mas a crise continuou a crescer, os dados disponíveis são de sete anos atrás. A questão é qual será o valor hoje?

Os fluxos financeiros ilícitos são o resultado do contrabando e do tráfico ilícito de drogas, entre outras atividades fora da lei. O contrabando pode variar de “pequenas empresas” transfronteiriços entre o Sudão e seus vizinhos, ou contrabando de animais silvestres ou produtos florestais ilegais nos portos do Quênia. O contrabando também pode ser de grandes quantidades de minerais que deixam ilegalmente países sem litoral para portos do Atlântico ou da Índia.

3-A porta giratória: A melhor maneira de explicar a entrada e saída de dólares é através do mecanismo conhecido como “porta giratória”. Entre 1970 e 2002, a África Subsaariana recebeu 294 bilhões em empréstimos. Destes, 268 bilhões foram utilizados para efetuar o pagamento das dívidas e ao final disso, o resultado foi que ainda deviam outros 210 bilhões. Em outras palavras, os novos empréstimos foram destinados para quitar dívidas antigas que são impagáveis. Atualmente, a dívida africana segue crescendo e é estimada num total de 500 bilhões.

É preciso parar de pagar a dívida para poder viver

Uma organização importante para a luta e a defesa dos trabalhadores e do povo pobre, a Liga Internacional dos Trabalhadores-LIT, alerta para o fato de que: “Os reflexos sociais da pandemia associados ao desemprego e baixa dos salários determinados pela crise econômica serão brutais. Nos Estados Unidos, 30 milhões pediram seguro desemprego em seis semanas, o que só foi visto na depressão de 1929. Fala-se na possibilidade de perda de 20 a 25 milhões de empregos no Brasil. As consequências podem ser semelhantes às de uma guerra. Não em termos do bombardeio físico das fábricas. Mas deve ocorrer destruição das forças produtivas em escala gigantesca, a começar pela maior delas: a força de trabalho humana. Podem morrer milhões de trabalhadores e outras centenas de milhões serem condenadas a uma miséria ainda maior que a atual”

 Assim concluímos que essa dívida, mesmo que fosse justa (o que não é), já poderia ter sido paga com os valores que escaparam do continente através da “fuga de capitais” e dos “fluxos financeiros ilícitos – FFIs”. E como se fosse pouco, ainda temos o mecanismo de porta giratória, reforça o argumento de que essa dívida é ilegal, injusta e ilegítima.

E por isso, a nossa defesa é para suspender imediatamente o pagamento da dívida externa, tanto dos juros como do principal. A vida é mais importante que o lucro. E essa dívida não foi feita pelos trabalhadores e pelo povo pobre dos países e continente africano.

[1]  LENIN.  A catástrofe que nos ameaça e como combatê-la https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/27-2.htm

[2] Borstelmann, Thomas. Apartheid’s reluctant uncle: The United States and Southern Africa in the Early Cold War (Oxford: Oxford University Press, 1993), pag. 182

[3] A Bechtel ficou famosa nos anos 2000, quando comprou a companhia estatal de água de Cochabamba, na Bolívia, dobrou o preço da água, para reduzir o consumo e exportar o excedente para o Chile. A Guerra da Água em Cochabamba, derrotou a Bechtel e reverteu a privatização.

[4] O general Golbery do Couto e Silva, foi um dos principais articuladores do Golpe de Estado em 1964, no Brasil, e também foi presidente da Union Carbide naquele país por muitos anos.

[5] Zoellner, Tom, Uraniun: War, energy and Rock that Shaped the World. (London: Penguin, 2010 pag. 47)

[6] A CALTEX  mudou de nome para TEXACO e, finalmente, Chevron Texaco. Texaco na década de 1990 era famosa por derramar petróleo nas terras das reservas indígenas equatorianas, causando várias mortes por câncer.

[7] Williams, Susan. Spies in the Congo. The Race for the Ore that Built the Atomic Bomb.( London: Hurst & Company, 2018), pag. 265

[8] idem, pag. 266

[9] Hennie van Vuuren, Apartheid Guns and Money.A Tale of Profit. Jacana: Cape Town, 2017

[10] A warn welcome from the lenders (Uma recepção calorosa dos credores). – Euromoney Magazin – June 1984

[11] SADF – South African Defense Force – era o nome oficial das forças armadas até 1994, quando mudou para South African National Defense Force.

[12] OPEN SECRETS. The Bankers: corporations and economic crime report”  Johanesburgo, 2018 pag 12

[13] Hennie van Vuuren, pag. 204-205

[14] OPEN SECRETS. The Bankers: corporations and economic crime report”  Johanesburgo, 2018 pag 18

[15] The International Bank for Reconstruction and Development/ The World Bank . Strategy for African Mining – Washington/DC – 1993

[16] Angola, Benim, Burkina Faso, Burundi, Camarões, Chade, República Democrática do Congo, Congo, Costa do Marfim, Etiópia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Quênia, Libéria, Madagascar, Malaui, Mali, Mauritânia, Moçambique, Níger, República Centro-Africana, Ruanda, Santo Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão, Tanzânia, Togo, Uganda e Zâmbia.

[17] https://litci.org/pt/mundo/africa/africa-nacionalizar-e-estatizar-a-producao-mineral-para-poder-viver/

[18] https://litci.org/pt/mundo/africa/o-capital-financeiro-imperialista-na-africa-superexploracao-da-classe-trabalhadora-e-o-roubo-das-riquezas-naturais/

[19] Foi apresentado no Seminário de Política Sênior sobre “Fuga de Capitais da África Subsaariana: implicações para o gerenciamento e crescimento macroeconômico”, organizado em conjunto pela Associação de Governadores do Banco Central Africano, pelo Banco Central da África do Sul e pelo Banco Mundial, em colaboração com o Banco Africano de Desenvolvimento, o Fundo Monetário Internacional e o Banco da Inglaterra, 30 de outubro a 2 de novembro de 2007 Pretória, África do Sul.

[20] Ndikumana, L.  and Boyce, James K. CAPITAL FLIGHT FROM AFRICA: Updated Methodology and New Estimates. 2018

[21] Idem

[22] Idem