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Palestina

7 de outubro de 2023 – 2026

Francesco Ricci

outubro 7, 2026

A maior operação bélica em território ocupado

«Depois que a Comuna de Paris foi afogada em sangue e os canalhas reacionários de todo o mundo arrastaram sua bandeira pela lama da difamação e da calúnia, não foram poucos os filisteus democratas que, somando-se à reação, caluniaram os comunardos pela execução de sessenta e quatro reféns, encabeçados pelo arcebispo de Paris. Marx não hesitou nem por um instante em defender esse ato sangrento da Comuna».

(Lev Trotsky, Sua moral e a nossa, 1938)

Está dando muito o que falar o filme de dois «israelenses», Naza (que lota as salas de cinema), que documenta, por meio dos depoimentos de militares sionistas envolvidos no massacre, os horrores cometidos em Gaza: atrocidades que, por outro lado, já haviam sido testemunhadas, sem receber a mesma atenção, por dezenas de jornalistas (especialmente palestinos) assassinados pelos franco-atiradores da entidade racista.

A direita no governo da Itália responde convidando as pessoas a assistir à última temporada da série israelense da Netflix Fauda: pura propaganda sionista que, invertendo os fatos, mostra o 7 de outubro do ponto de vista dos militares e agentes dos serviços «israelenses», apresentados como «vítimas», enquanto os combatentes palestinos aparecem como feras sanguinárias, fanáticos degoladores de pobres civis inocentes.

No entanto, a «defesa» dos palestinos por parte dos intelectuais de centro-esquerda que se preparam para a alternância burguesa (Movimento Cinco Estrelas e PD) é dessas que se abriria mão de bom grado. Ela se concentra inteiramente em uma falsificação total da história e da atualidade. Personagens como os jornalistas Formigli, Michele Santoro ou os sionistas críticos Gad Lerner e Travaglio condenam a violência «de um lado e do outro», a dos «terroristas palestinos» (é assim que os chamam), assim como a de Netanyahu (acusam apenas o governo de turno, protegendo dessa forma a entidade sionista como tal).

Marco Travaglio, diretor do Il Fatto Quotidiano e referência intelectual dos integrantes do Movimento 5 Estrelas, já autor de um livro sobre a Palestina que se apresenta como uma reconstrução da história (1), mas no qual justamente falta a história (a verdadeira), depois de ter questionado durante muito tempo, em seus editoriais, o uso do termo «genocídio» (enquanto os cadáveres de palestinos enchiam as valas em Gaza), há tempos repete que a culpa original de tudo isso recai sobre os árabes, que não teriam aceitado de bom grado a partilha da Palestina realizada em 1948 pela ONU (por mandato do imperialismo, desejoso de ter sua própria base militar em uma zona crucial, acrescentamos nós).

Setores inteiros do PD (começando pela oximorônica «Esquerda por Israel», do PD) vão além e invocam, junto com a direita no governo, a lei e a ordem, intimidados pelo grandioso movimento que tomou as praças italianas no outono passado e convencidos de que podem evitar uma retomada das mobilizações com a ameaça repressiva. Por isso, valorizam o decreto sobre o «antissemitismo» apresentado pelo governo, que, redigido por racistas, netos de Mussolini, equipara o antissionismo (que, por definição, implica antirracismo) ao racismo antissemita, como se o chamado Estado judeu fosse responsabilidade de todos os judeus (quando, ao contrário, um número cada vez maior de judeus no mundo não apoia esse monstro).

Enquanto isso, o Movimento Cinco Estrelas, decidido a se apresentar nesta fase como mais à esquerda que o PD em diversos temas, rejeita o decreto, fingindo esquecer que se trata da enésima medida repressiva na linha das promulgadas pelo centro-esquerda (incluindo eles próprios) quando estava no governo.

No entanto, não vale a pena nos estendermos, pelo menos para nossos leitores, sobre essa «esquerda» — como é chamada pela imprensa —, que apenas se prepara para voltar ao governo com o objetivo de aplicar políticas antitrabalhadores, tal como já fez em todas as suas experiências anteriores de governo. Preferimos nos ocupar aqui da esquerda reformista e das organizações que se situam à sua esquerda.

A hipocrisia da «solução de dois Estados»

Um exemplo dessa corrente política é a Rifondazione Comunista, nas duas facções que se separaram do que resta desse partido. As duas direções estão divididas sobre qual é o melhor caminho para voltar a se alinhar com o centro-esquerda: capitular diretamente, como propõe Acerbo, ou tentar acumular força de negociação apresentando-se, por enquanto, como algo diferente do centro-esquerda, como propõe Paolo Ferrero (ex-ministro de um dos piores governos antitrabalhadores das últimas décadas, o de Prodi).

Embora divididos quanto à tática, os dois setores compartilham, no entanto, a mesma posição sobre a Palestina: «dois povos, dois Estados», isto é, a proposta que qualquer pessoa que conheça, ainda que superficialmente, a chamada «questão palestina» considera (se for honesta) enganosa, porque implica aceitar a ocupação sionista de grande parte da Palestina, com exceção dos territórios ocupados em 1967 (essencialmente a Faixa de Gaza e a Cisjordânia), que seriam generosamente deixados aos palestinos para criar um miniestado, sem continuidade territorial, sem direito ao retorno às suas terras para milhões de palestinos, ignorando os quase dois milhões de palestinos que vivem em condições de apartheid dentro de «Israel». Uma proposta que parte de um suposto «direito de existir» da colônia «Israel» (como sustenta a grande maioria do reformismo mundial, da Rifondazione Comunista ao Syriza, passando pelo Die Linke). Uma proposta apoiada por muitos governos imperialistas (como o do «progressista» Sánchez no Estado espanhol, hoje empenhado em enfrentar grandes mobilizações), precisamente porque há décadas não passa de uma miragem prometida aos palestinos, revendida pelas forças capitalistas como a atual Autoridade Nacional Palestina colaboracionista (e antes pela Al Fatah de Arafat), cuja única função é manter os palestinos sob controle e que, além de ser uma proposta baseada na injustiça, nem sequer é contemplada pelo sionismo em todas as suas correntes.

Pap e o substituto reformista do «Estado binacional»

Como, nestes tempos, diante do desastre do capitalismo (guerras, miséria, destruição do meio ambiente) e da impotência do reformismo, que semeia ilusões sobre a possibilidade de governar de outra maneira um sistema irreformável, apresentar-se como «reformistas» não conta com apoio, sobretudo entre aquela que foi corretamente definida como a «geração Gaza» (e que está ocupando as praças neste momento inclusive na França), há quem tente abrir espaço aparentando estar mais à esquerda. É o caso do Potere al Popolo (PaP) e de seu acionista majoritário, a neostalinista Rete dei Comunisti.

Por aqui não se fala da «solução de dois Estados», sabendo que ela tem pouca credibilidade entre aqueles que se mobilizam pela Palestina. E, com razão, também se rejeita realizar o ritual da «condenação do 7 de outubro». No entanto, a perspectiva apresentada é a «solução de um só Estado», ou Estado binacional. Uma perspectiva que parte de uma denúncia correta da fraude dos «dois Estados», mas que (em suas variantes) (2) reconhece de fato um suposto «direito de existir» nessa terra àqueles que a colonizaram, estendendo o direito à «autodeterminação» não apenas aos palestinos (povo oprimido), mas também aos judeus «israelenses» (que, ao contrário, não são um povo oprimido), confundindo a defesa leninista da «autodeterminação dos povos oprimidos» com a concepção liberal da autodeterminação (que não distingue entre povos oprimidos e povos opressores).

Uma perspectiva tão inviável quanto a dos «dois Estados», já que ignora a necessidade de acabar completamente com a colonização da Palestina, separa a questão nacional da socialista e de uma perspectiva internacionalista para o Oriente Médio que derrote o conjunto dos regimes reacionários da região.

Sem falar do contexto em que essa posição se insere: alinhar-se, em nome do «multipolarismo», com alguns imperialismos (China e Rússia) contra os imperialismos considerados piores (EUA, «Ocidente»). Chegando inclusive a ignorar, com certo constrangimento, o fato de que a China (considerada um imperialismo melhor e preferível, ou até mesmo um modelo de «socialismo de tipo chinês») é o principal fornecedor comercial de «Israel» e inclusive aumentou suas exportações durante o massacre de Gaza (3) e continuou fornecendo aos sionistas os drones da Autel Robotics, utilizados contra os palestinos (e contra a Flotilha).

Com pequenas nuances, o conjunto dessas posições parte do reconhecimento das resoluções da ONU, isto é, desse organismo que está longe de ser angelical e que não apenas batizou o nascimento da colônia «Israel», mas também encobriu durante décadas, sob um manto de legalidade, a existência da entidade sionista, qualificando como «territórios ocupados» apenas aqueles dos quais os sionistas se apoderaram após a «Guerra dos Seis Dias» de 1967, e não a totalidade do território que alguns denominam «Israel», isto é, quatro quintos da Palestina.

Obviamente, não há um pingo de realismo nessas posições. Todas elas são fruto da vontade deliberada das direções dessas organizações — para além das declarações — de não questionar a compatibilidade com o capitalismo nem as necessidades dos diferentes imperialismos aos quais decidem se somar. De fato, questionar a existência de «Israel», tanto na forma dos «dois Estados» quanto na do «Estado binacional», significa questionar o capitalismo e seus interesses vitais. E o horizonte dos reformistas não contempla nada disso: a palavra «revolução» não é poupada (afinal, agora também é usada pelos jovens do PD…), mas tem o mesmo valor que quando aparece em certos anúncios de detergentes.

Palestina livre, do rio ao mar

Não vamos voltar a expor aqui a posição de nosso partido e de nossa Internacional, que já apresentamos em dezenas de ocasiões anteriores. Apenas recordaremos, em resumo, que nós, retomando o legado do trotskismo (a única corrente que lutou contra o sionismo desde o nascimento de «Israel»), defendemos o objetivo de uma Palestina livre «do rio ao mar», o que implica a destruição da colônia «Israel», a expulsão dos sionistas e a recuperação pelos palestinos de toda a Palestina histórica: não apenas dos chamados «territórios ocupados», mas também da maior parte do que hoje é conhecido como «Israel», reconhecendo o direito de minoria nacional aos judeus antissionistas que aceitem viver em paz na Palestina. Somente com essa premissa — que só pode ser alcançada unindo a reivindicação nacional às sociais no marco de um programa de revolução permanente — será possível unir as massas árabes de toda a região para alcançar o objetivo de uma federação socialista do Oriente Médio. Objetivo que, para nós, exige — para se realizar plenamente — a construção, também na Palestina e nos demais países do Oriente Médio, de partidos trotskistas armados com esse programa, que façam parte de uma Quarta Internacional refundada.

Nesse sentido, consideramos errôneas não apenas as duas posições majoritárias da esquerda descritas anteriormente (a dos «dois Estados» e a do «Estado binacional»), mas também qualquer posição que isole e oponha a questão nacional — objetivo democrático — à socialista; assim como a posição oposta daqueles que negam a questão nacional em nome de uma «revolução pura» abstrata. Talvez, neste segundo caso, como fazem alguns (em particular, por exemplo, o PCR e a Internacional de Alan Woods, que não por acaso rejeita a palavra de ordem «Palestina livre do rio ao mar»), pensando que se pode «dividir “Israel” segundo linhas de classe» e «unir os trabalhadores “israelenses” aos palestinos». Essa posição, aparentemente «de esquerda», na realidade elimina toda a concepção leninista da questão nacional e parte de uma grave incompreensão da teoria-programa da revolução permanente (ainda mais grave para quem se define como trotskista). Para completar, é uma posição que ignora que os trabalhadores de «Israel», que obviamente existem, são uma casta privilegiada de colonos que não apenas vive acima do nível de vida dos trabalhadores de toda a região, mas baseia seus próprios privilégios precisamente no fato de fazer parte de uma colônia financiada e sustentada pelo imperialismo. O que explica, aliás, por que em oitenta anos contam-se nos dedos de uma mão os «israelenses» que, tendo chegado ou nascido em «Israel», romperam com a entidade colonial para ir lutar ao lado dos palestinos (e são, obviamente, dignos de elogio).

A banalidade dos intelectuais

Vários intelectuais da chamada esquerda comentam as terríveis imagens do documentário Naza e se indignam diante dos depoimentos de militares que explicam como, em inúmeras ocasiões, bombardearam casas, bairros, escolas e hospitais, provocando centenas de «mortes colaterais» para atingir «um terrorista» (é assim que esses intelectuais também chamam os combatentes palestinos). Daí se deduz que eles não foram informados de que o objetivo declarado dos sionistas, há mais de um século, é a eliminação dos palestinos da Palestina, por meio do genocídio e da expulsão provocada pelo terror.

Esses intelectuais lacaios, que continuam correndo de libré atrás da carruagem de seu amo, que cada vez que abrem a boca emitem sua implacável «condenação do 7 de outubro», para logo depois jurar pelo «direito de existir de Israel», perguntam-se filosoficamente, citando Hannah Arendt, sobre a «banalidade do mal». Por que «Israel» não utilizou melhor seus serviços de inteligência para evitar o 7 de outubro?, perguntam. A culpa, asseguram, é de Netanyahu, que havia sido informado sobre o 7 de outubro e «não fez nada para evitá-lo»: isto é, para massacrar antecipadamente os palestinos antes que rompessem a jaula de Gaza.

Não é de estranhar: não se morde a mão que nos alimenta. Mas o que fazemos com as direções de 99% dos partidos reformistas — e também daqueles que, por alguma estranha razão, se autodenominam «revolucionários» — que, após um século de demonstrações práticas (se quisermos chamar assim as dezenas de massacres perpetrados pelos sionistas), depois de Gaza ter sido arrasada ao vivo pela televisão, enquanto toda a Cisjordânia está ocupada pelos sionistas e as bombas caem sobre o Líbano e o Irã, continuam com a ladainha dos «civis massacrados em 7 de outubro»?

A ladainha sobre as «vítimas civis» do 7 de outubro

O lamento pelos «civis» mortos em 7 de outubro é transversal: isto é, não vem apenas daqueles que desejariam uma convivência pacífica entre colonizados e colonos. No entanto, até mesmo aqueles que se posicionam ao lado dos palestinos lamentam o «massacre de civis» de 7 de outubro e a tomada de reféns pela Resistência.

De onde vem essa insistência nos «civis»? Em toda a Palestina ocupada (e não apenas na Cisjordânia), mesmo onde seus mapas indicam «Israel», não há «civis», mas colonos que há um século tentam por todos os meios eliminar os habitantes palestinos: esse tipo de colonialismo é chamado precisamente de «assentamento» porque não tem como objetivo prioritário a exploração da população autóctone, mas sua eliminação (por isso é inadequada a comparação com a África do Sul do apartheid, onde os africânderes tinham como objetivo a exploração salarial dos negros; algo que, por outro lado, continua hoje sob outra forma). Os «israelenses», isto é, os cidadãos do «Estado judeu», não são, portanto, comparáveis aos civis de nenhum outro país; tanto quando usam uniforme (e o serviço militar é periódico ali) quanto quando estão vestidos à paisana, são e continuam sendo colonos.

Além dessa constatação objetiva, cabe acrescentar que essa distinção — que muitos consideram «natural» — entre combatentes e civis não é própria do marxismo. Ela pertence mais ao chamado «direito internacional» que, embora se apresente como «universal», assim como todo direito é redigido pela classe dominante e, portanto, é um direito de classe. Esse mesmo direito define em que circunstâncias é legítimo recorrer à força (jus ad bellum) e como a guerra deve ser conduzida (jus in bello). Nesse sentido, por exemplo, diversas resoluções da ONU reconhecem a legitimidade da luta (inclusive armada) dos povos submetidos à dominação, mas, ao mesmo tempo, prescrevem o respeito aos «civis».

Esses são os referenciais (explícitos ou implícitos) de muitos comentaristas de esquerda, incluindo alguns (repitamos) que se autodenominam «revolucionários». Ou seja, reconhecem o «direito» dos palestinos de lutar, inclusive com armas, não porque isso seja simplesmente justo e necessário, mas porque a ONU o diz… E, em consonância com o cumprimento das leis redigidas pelo inimigo de classe, advertem os palestinos de que atacar civis ou tomá-los como reféns não é aceitável.

Lenin definia a Liga das Nações (que precedeu a ONU) como «um covil de bandidos imperialistas». Se tivesse podido ver a ONU, que há décadas encobre as guerras imperialistas ou até mesmo as trava diretamente (com soldados que usam um capacete de outra cor, o capacete azul), que envia essas tropas de «paz» para impor a ordem imperialista por todos os meios, incluindo massacres, torturas e estupros (veja-se o que os capacetes azuis fizeram na Bósnia, no Congo, no Haiti, na Somália, em Serra Leoa, na Guiné, em Moçambique e em uma longa lista etc.), Lenin poderia ter confirmado essa denominação também para a ONU, que, ao contrário, grande parte da esquerda considera uma espécie de entidade angelical, situada acima da luta de classes internacional.

Mesmo aqueles que se mostram críticos da ONU (e, no caso da Palestina, isso deveria ser óbvio, tendo em vista que a colônia sionista foi batizada e protegida durante décadas precisamente pela ONU), no entanto, frequentemente internalizaram a ideia da existência de um «direito internacional», neutro do ponto de vista de classe, que estabelece que as vidas de homens e mulheres só têm valor se não estiverem usando uniforme. Uma ideia que, pensando bem, é muito útil para as guerras imperialistas que, desde sempre, precisam de «carne para canhão».

As lamentações sobre os «civis» surgem dessas distorções, no melhor dos casos; ou da hipocrisia, no pior.

O paradoxo é que depois esses mesmos dirigentes e intelectuais talvez exaltem filmes como A Batalha de Argel, de Pontecorvo, no qual se vê como os combatentes argelinos foram obrigados a recorrer inclusive ao uso de bombas em mercados, cinemas, bares etc. para se libertarem e, finalmente, expulsarem os colonos franceses. Larbi Ben M’Hidi, dirigente da FLN, diante da acusação de atacar civis com bolsas que escondiam bombas, respondeu que estava disposto a trocar as bolsas dos combatentes pelos canhões e bombardeiros de que dispunham os colonos.

Um historiador (judeu antissionista) como Enzo Traverso (5) lembrou que também a Resistência partigiana na Europa durante a Segunda Guerra Mundial teve de atacar frequentemente alvos civis.

Surge então a dúvida se aquilo que é aceito como heroísmo no caso da Argélia ou dos partisans não é reconhecido aos palestinos porque os fatos históricos do passado não exigem que se tome posição hoje de um lado da barricada (embora não faltem nem mesmo aqueles que se distanciam do atentado dos GAP na via Rasella, em Roma, em 1944, ou continuam lamentando o assassinato do filósofo da República de Mussolini, Giovanni Gentile, pelas mãos dos partisans).

Os civis, os reféns e… a Comuna

Só podemos imaginar as palavras (sem dúvida pouco politicamente corretas) com as quais Marx e Engels teriam comentado as posições de certos intelectuais que, em maior ou menor medida, se referem ao «marxismo», como Judith Butler, que, junto com Michael Lowy e outros, assinou neste verão um manifesto sobre o Irã que, já no título («Aos presos políticos iranianos, presos entre as duas lâminas de uma tesoura») (6), equipara a agressão imperialista e sionista contra o Irã ao Irã agredido, para depois desenvolver de forma ambígua esse mesmo conceito, com frases como «de um lado… de outro lado», «duas fontes de opressão», e dedicar apenas uma quarta parte do texto a atacar o imperialismo e o sionismo agressores.

Obviamente, nós também somos a favor da libertação dos presos políticos iranianos e não sentimos nenhuma simpatia pelo regime dos aiatolás, que usurpou a revolução operária de 1978-1979 e massacrou milhares de revolucionários, mas, como marxistas, em uma guerra entre o imperialismo e uma semicolônia, nos alinhamos no front desta última, sem deixar de ser opositores irreconciliáveis de seu regime reacionário. Porque somente a partir da posição no front do país dependente agredido é possível construir a derrubada do regime reacionário.

É, portanto, paradoxal que até mesmo certos intelectuais que se definem como «trotskistas» esqueçam as posições inequívocas de Trotsky em casos semelhantes, como no da agressão do Japão à China (então uma semicolônia), em 1937, quando Trotsky afirma: «Ao participar da luta militar sob as ordens de Chiang Kai-shek — dado que, infelizmente, é ele quem comanda a guerra pela independência —, preparamo-nos politicamente para derrubar Chiang Kai-shek: esta é a única política revolucionária». (7) Convém lembrar que Chiang foi responsável pelo massacre da Comuna de Cantão.

Vários dos signatários do apelo de Butler, como era de esperar, estiveram entre os críticos mais severos do ocorrido em 7 de outubro. A própria Butler chegou a falar de «um massacre aterrador e repugnante» (8): referindo-se não ao que os sionistas vêm fazendo há um século, mas… à ação bélica dos palestinos. Em outras ocasiões ela tentou «contextualizar», mas, em todo caso, tanto ela quanto outros intelectuais como Slavoj Žižek não deixaram de lamentar a morte de «civis» de «ambos os lados».

A tradição do marxismo não tem nada a ver com a tradição pacifista nem com aquela que se submete às concepções liberais do direito. Os revolucionários nunca equipararam a violência de Roma à de Espártaco, nem a violência de quem oprime à de quem é oprimido e tenta se libertar.

Essa hipocrisia era estranha a Marx e, sem dúvida, ao ver certos «marxistas» que se amparam nela, teria repetido que não era… «marxista».

Queremos lembrar a defesa incondicional que Marx fez da tomada de reféns civis pela Comuna de Paris? E também do fuzilamento de 64 reféns (entre eles o bispo Darboy) por ordem do heroico Raoul Rigault, de vinte e cinco anos, delegado de Segurança Pública da Comuna? Lemos em A Guerra Civil na França: «Quando Thiers (…) restabeleceu, desde o início do conflito, o costume humanitário de matar os prisioneiros comunardos, a Comuna, para proteger suas vidas, viu-se obrigada a recorrer à prática prussiana de tomar reféns. A vida dos reféns já havia sido condenada mais de uma vez pelas contínuas execuções de prisioneiros perpetradas pelos versalheses. Como poderiam ser salvos por mais tempo depois do massacre com que os pretorianos de Mac Mahon celebraram sua entrada em Paris? Acaso também se deveria transformar em uma simples farsa a tomada de reféns, última garantia contra a ferocidade sem escrúpulos dos governos burgueses? (…) A Comuna havia oferecido repetidas vezes trocar o arcebispo — e muitos sacerdotes, além dele — pelo próprio Blanqui, que então estava nas mãos de Thiers. Thiers recusou obstinadamente. Sabia que, com Blanqui, daria uma cabeça à Comuna, enquanto o arcebispo lhe seria mais útil como cadáver». (9)

Quanto a Engels, disse que, se algo se podia censurar aos comunardos, era terem sido benevolentes demais com o inimigo de classe. (10).

Os bolcheviques, por sua vez, durante a guerra civil, tomaram como reféns inclusive os familiares dos generais que obrigavam a lutar no Exército Vermelho. Foi precisamente Trotsky quem assinou a ordem sobre os reféns, em 1918. (11)

Que diferença em relação às queixas e às ressalvas sobre os «civis» sionistas de certos supostos discípulos de hoje!

A hipocrisia mais sutil: «é legítimo, mas…»

Outros, como, por exemplo, Gilbert Achcar (dirigente da chamada «Quarta Internacional» mandelista, mais conhecida como Secretariado Unificado), utilizam argumentos não menos hipócritas, mas de uma hipocrisia mais sutil, menos visível.

Em particular, esses «defensores» da causa palestina apresentam quatro teses.

– Primeira tese: «Os palestinos deveriam voltar a utilizar (apenas segundo alguns, majoritariamente segundo outros) meios de luta política de massas, como greves etc.»

Esquecendo que, pelas razões expostas, na Palestina não existe uma exploração capitalista «normal»: a luta consiste em defender a sobrevivência diante dos sionistas que aspiram ao massacre, ao genocídio.

– Segunda tese: «Os palestinos deveriam recorrer à força se necessário, mas tal como fizeram durante a Primeira Intifada (1987)». Ou, dito de outro modo, os palestinos deveriam utilizar, no máximo, fundas e pedras, não metralhadoras nem foguetes. A imagem da criança palestina com a funda parece heroica a esses senhores, enquanto a do palestino com a metralhadora é considerada inadequada. No entanto, esquecem que as fundas em vez dos fuzis não foram uma escolha feita para não incomodar o acadêmico pequeno-burguês, mas porque se lutava com o que havia, isto é, com fundas porque (infelizmente) não havia nada melhor.

– Terceira tese: «Para além de qualquer consideração sobre a legitimidade, o resultado de 7 de outubro foi a Faixa de Gaza arrasada».

Aqui estamos diante do cúmulo da hipocrisia. Por trás dessa tese esconde-se o velho leitmotiv que diz: «se a vítima não reage, evita o pior». Um refrão não apenas ignominioso, mas, no caso da Palestina, duplamente falso, dado que há um século os sionistas massacram os palestinos mesmo sem um pretexto imediato, porque esse é o projeto constitutivo do sionismo.

– Quarta tese: «A superioridade militar de “Israel” não pode ser posta em dúvida».

Também nesse caso trata-se de um argumento falso; basta olhar para a história e também para a atualidade. «Israel» e o imperialismo foram colocados em xeque ou derrotados inúmeras vezes. Não é necessário lembrar Vietnã, Iraque ou Afeganistão: basta ver como os exércitos mais poderosos do mundo ainda não conseguiram subjugar um país semicolonial como o Irã. E não apenas isso: há mais de um século a Resistência palestina luta e, mesmo depois do massacre destes últimos anos, os sionistas e os imperialistas não conseguiram desarmá-la.

A ideia da invencibilidade do inimigo faz parte da mentalidade típica dos intelectuais pequeno-burgueses que procuram um canto tranquilo da história onde possam escrever seus livros ou cultivar suas carreiras universitárias. Mas são precisamente os acontecimentos de 7 de outubro que nos fornecem mais uma prova de que o inimigo, por mais poderoso que seja, não é invencível.

A realidade de 7 de outubro

Os fatos de 7 de outubro foram falsificados desde o dia seguinte. Há livros, como o de Roberto Iannuzzi (12), que enumeraram e desmontaram o monte de mentiras difundidas pela imprensa burguesa, que ecoou a propaganda do governo sionista: crianças esquartejadas, estupros etc. Tudo isso falso e desmentido por dezenas de investigações independentes e, em alguns casos (ainda que tenha sido na última página), pelos próprios jornais que haviam inventado essas «notícias».

Em dezenas de outros artigos e em um livro (13), já escrevemos também sobre o que é mais importante e que, em geral, é omitido: isto é, os cem anos de história que precedem 7 de outubro. Cem anos de massacres, bombardeios, prisões, torturas e estupros cometidos pelos sionistas. Melhor do que poderíamos fazer nós mesmos, tudo isso foi documentado por um grande historiador (judeu antissionista) como Ilan Pappé e por muitos outros historiadores honestos que, graças também ao 7 de outubro e ao movimento de massas que ele suscitou, hoje são publicados não apenas por pequenas editoras.

Voltando aos fatos daquele dia, Iannuzzi ofereceu uma das melhores reconstruções. Ao amanhecer de 7 de outubro de 2023, uma frente militar formada por todas as organizações envolvidas na Resistência lançou um ataque, liderado por cerca de 1.200 combatentes do Hamas, FPLP, FPLP-CG, FDLP, JIP e outros grupos menores (cerca de uma dezena ao todo), seguidos por milhares de palestinos que, utilizando o que encontravam à sua disposição, irromperam em vários pontos através da barreira ultratecnológica (ao custo de mais de um bilhão de dólares) que cercava Gaza e seus habitantes, separando-os do restante de seu território ocupado.

Os objetivos eram diversos postos militares avançados (entre eles a base militar de Urim, que abriga o infame departamento 8200, um corpo de «elite» dos serviços sionistas dedicado à interceptação e identificação de palestinos) e a busca de reféns para posteriormente trocá-los pelos milhares (cerca de 10 mil) de reféns palestinos que diariamente são maltratados, torturados e estuprados metodicamente nas prisões da chamada «única democracia do Oriente Médio».

O restante é amplamente conhecido: a maior parte desses reféns foi morta pelos disparos indiscriminados das IDF; outros sobreviveram inclusive aos bombardeios sionistas e foram trocados por prisioneiros palestinos.

Nas últimas semanas, alguns insistem em afirmar que Netanyahu havia sido avisado previamente da operação «Inundação de Al-Aqsa» e que não a teria impedido para poder atacar Gaza depois. Isso, com diferentes nuances, já era dito desde o dia seguinte a 7 de outubro. Trata-se de uma distorção dos fatos que tem dois objetivos: em primeiro lugar, separar as responsabilidades de «Israel» das de Netanyahu, fazendo recair a culpa pelo sionismo exclusivamente sobre este último (como se o sionismo não tivesse iniciado suas políticas genocidas muito antes do surgimento desse personagem obscuro, inclusive sob a direção de presidentes chamados «trabalhistas»); em segundo lugar, em alguns casos de forma inconsciente, trata-se de uma narrativa que serve aos que querem sustentar que «Israel» teria sido atacado em 7 de outubro pela Resistência palestina apenas graças a uma conspiração, dando novo crédito à tese da «invencibilidade» dos sionistas e à suposta impotência dos palestinos. É muito provável que tenham sido precisamente esse sentimento de superioridade e essa convicção de invencibilidade que os fizeram ignorar os sinais — sem dúvida captados pelos carcereiros de Gaza — da preparação da ação militar.

O significado imperecível de 7 de outubro

No entanto, 7 de outubro foi também muito mais.

Foi um golpe muito duro desferido contra «Israel». Demonstrou, em primeiro lugar, que o inimigo, por mais bem armado que esteja, não é invencível, ao contrário do que afirmam os defensores do ceticismo.

Se durante décadas a historiografia definiu a ação dos GAP na via Rasella, em Roma, em 23 de março de 1944, como a maior ação partigiana em território ocupado, hoje podemos afirmar que a ação da Resistência palestina de 7 de outubro foi ainda mais importante.

7 de outubro e os anos seguintes colocaram diante dos olhos das massas o que «Israel» realmente é. E todas as mentiras da propaganda sionista e do imperialismo que a defende já não poderão curar essa ferida. «Israel» encontra-se hoje mais isolado do que nunca, enquanto o apoio à causa palestina mobilizou milhões de jovens e trabalhadores em todo o mundo (incluindo muitos jovens judeus que não querem ter nada a ver com o sionismo).

Por isso, é tarefa de todos nós apoiar a corajosa luta da Resistência palestina, defendê-la de toda calúnia e não nos deixarmos deter pelas tentativas de censura e repressão. E a melhor maneira que temos de participar dessa luta é vincular o apoio à Resistência palestina à luta política e social contra o governo Meloni e contra todos os governos imperialistas.

O Pdac e a Lit-Quarta Internacional estamos comprometidos com essa luta e convidamos aqueles que desejam desenvolvê-la a se juntar a nós, a nos conhecer e a construir o partido revolucionário internacional de que precisamos para vencer.

Se hoje podemos falar de uma «geração Gaza», que enche as praças do mundo com sua energia incontível, é porque a Palestina se tornou o símbolo da luta contra todas as injustiças e contra a barbárie do sistema capitalista, um sistema social ao qual devemos pôr fim por via revolucionária.

Por essas razões, não nos limitamos a simpatizar com a Resistência palestina, mas afirmamos que a luta de nossos companheiros palestinos é nossa própria luta. Por isso, mais uma vez, devemos agradecer àqueles jovens palestinos que, em 7 de outubro, romperam a jaula de Gaza, na qual foram obrigados a viver desde o nascimento, e ousaram, para usar as palavras de Marx, «assaltar o céu».

Notas

(1) Ver M. Travaglio, Israel e os palestinos em poucas palavras (PaperFirst, 2023).

(2) Para mais informações sobre a chamada «solução de um só Estado», remetemos ao nosso livro: Do rio ao mar. Do lado da Resistência palestina (ed. Rjazanov, 2025).

(3) Após 7 de outubro, as exportações da China para «Israel» continuaram crescendo.

(4) Sobre a teoria-programa da revolução permanente em relação à Palestina, permitimo-nos remeter novamente ao nosso livro citado na nota n.º 2 ou ao nosso artigo de polêmica com o PCR: «Palestina: por que o PCR não gosta de “do rio ao mar”?»

https://www.alternativacomunista.it/politica/nazionale/palestina-perche-al-pcr-non-piace-dal-fiume-al-mare

(5) Enzo Traverso é autor de muitos livros excelentes. Aqui remetemos à sua obra: Gaza diante da história (Laterza, 2024), que sem dúvida vale a pena ler, embora Traverso também seja partidário da ideia (ilusória) do Estado binacional e, depois de demonstrar a falta de fundamento de tantos argumentos moralistas, não deixe de cair, por sua vez, de forma contraditória, em algumas dissertações estéreis sobre o «direito internacional».

(6) O apelo de Judith Butler, Michael Lowy e outros intelectuais intitula-se «Aos presos políticos iranianos, presos “entre as duas lâminas de uma tesoura”»

https://www.theguardian.com/commentisfree/ng-interactive/2026/aug/20/iran-political-prisoners

(7) Lev Trotsky, «Sobre a guerra sino-japonesa» [carta a Diego Rivera], 23 de setembro de 1937. Nós o traduzimos e publicamos com nossas notas em Trotskismo oggi, n.º 20, 2022.

(8) Esta reflexão de Judith Butler sobre 7 de outubro pode ser lida em «The Compass of Mourning», na London Review of Books, 19 de outubro de 2023.

(9) V. K. Marx, A Guerra Civil na França, 1871 https://www.marxists.org/italiano/marx-engels/1871/gcf/index.htm

O trecho citado encontra-se no capítulo 4 da terceira Declaração sobre a Comuna, redigida por Marx e aprovada pela Associação Internacional dos Trabalhadores.

A ordem de fuzilar os reféns foi dada, para ser exato, por Raoul Rigault e, no caso do bispo e dos demais reféns, por Théophile Ferré, um jovem da mesma idade que substituiu Rigault quando este foi nomeado promotor da Comuna. Ambos, dirigentes da ala blanquista da Comuna, morreram fuzilados, vítimas da sangrenta repressão com a qual a burguesia não apenas se vingou da Comuna, mas também quis dar um aviso aos trabalhadores para que não ousassem novamente romper seu domínio. Foi precisamente isso que os sionistas também fizeram ao arrasar a Faixa de Gaza após a ação de 7 de outubro; neste caso, não apenas como advertência, mas também como parte do projeto genocida próprio do sionismo.

(10) Ver F. Engels, Introdução (1891) a K. Marx, A Guerra Civil na França (1871).

(11) A ordem foi promulgada por Trotsky em 30 de setembro de 1918, na qualidade de presidente do Conselho Revolucionário de Guerra. Estabelecia que, em caso de deserção de um oficial, seus familiares deveriam ser detidos. O texto da ordem está publicado em Lev Trotsky, A revolução armada. Escritos militares, 1 (Feltrinelli, 1971, p. 147). Trotsky defende e argumenta a necessidade dessa medida em Sua moral e a nossa (ed. Rjazanov, 2023, ver p. 38 e seguintes).

(12) Roberto Iannuzzi, 7 de outubro entre a verdade e a propaganda (Fazi, 2024).

(13) Ver o livro citado na nota n.º 2.

(14) Entre os livros de Ilan Pappé (todos eles muito úteis e recomendáveis), destacamos aqui: A limpeza étnica da Palestina, publicado em 2008 e reimpresso várias vezes pela Fazi; ou, também pela Fazi, A maior prisão do mundo. História dos territórios ocupados (2022). Seu livro mais recente é O fim de Israel. O colapso do sionismo e a paz possível na Palestina (Fazi, 2025). A «paz possível» mencionada no título é precisamente essa «solução de um só Estado» sobre a qual demos nossa opinião neste artigo e, com mais detalhes, em nosso livro (ver a nota n.º 2), que também contém uma bibliografia comentada sobre a luta palestina.

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